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FALARES DIALETAIS: EXPRESSÃO DA VIDA PESSOAL E FAMILIAR |
Silvino Santin |
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Este não é um estudo, mas um olhar sobre os fatos pessoais vividos pelo autor. É uma experiência de vida, da forma como se desenrolou, espontânea, sem planejamentos e previsões, em que uma só língua foi a única forma de comunicação familiar e extra-familiar. Descreve o desenrolar de um período de vida, que transcorreu como a neve caindo livre na montanha, ou a árvore crescendo na floresta, ou a água correndo no riacho. Nada é transformado em idéias abstratas ou em teorias científicas. Tudo é concreto como a vida. A palavra não é separada da coisa dita, nem o falante é separado do objeto falado.
Como este estudo não segue os procedimentos científicos, o autor não se preocupa com a neutralidade, mas confessa-se comprometido com toda a sua subjetividade. Mais que analisar o dialeto vêneto falado no Rio Grande do Sul, busca comunicar a vivência da própria fala dialetal, por ter vivido em um ambiente onde não havia necessidade de outra língua além deste dialeto. Isto lhe dá o privilégio de ator, e não de estranho espectador.
Um pesquisador, que falasse sobre o dileto vêneto falado no RS, produziria um discurso do lado de fora. Mas, se falar alguem que sempre falou e fala este dialeto, este revive o universo cultural de sua única língua falada, e fará um discurso-testemunho.
Neste particular há um dado importante a ser considerado, para alguns estranho ou inusitado. Refiro-me à pessoa do descendente italiano, que, a rigor, não é nem brasileiro, nem italiano. Diria, um italiano de cultura e de língua (ainda que dialetal), mas sem a Itália como sua pátria, e, ao mesmo tempo, um brasileiro sem cultura e sem língua, mas tendo o Brasil como sua pátria. Dito em duas palavras, um italiano cultural e um brasileiro geográfico. Estar no Brasil e ser italiano. Mas esse estar no Brasil e esse ser italiano não pode ser entendido no sentido atual dos que migram de um país para outro. Os imigrantes viveram uma situação muito diferente.
Minha língua materna é o dialeto vêneto. Sou descendente, do lado paterno, em segunda geração, de friulanos oriundos de Mezzo Monte (Polcenigo); do lado materno, em terceira geração, de veroneses oriundos de Ronco a L'Ádige. O dialeto materno prevaleceu. Falei dialeto até os sete anos, quando entrei na escola, dirigida por freiras franciscanas, e então comecei ouvir, estudar e falar português. São vagas as lembranças dos primeiros dias. No primeiro mês, fui premiado por bom comportamento, acredito que se deveu ao fato de não saber falar português, o que me impedia de conversar com os outros. No recreio, a língua era o dialeto. Lembro que, já na terceira série, uma professora leiga, brasileira, reclamava das nossas conversas em dialeto, porque não as entendia.
Vou falar de duas teses que defendo em relação às línguas e aos dialetos. Não as classifico como teses lingüísticas, pois se referem apenas a questões da linguagem. Através dessas duas teses, apresento meu modo de entender a formação de uma língua, em particular o surgimento das formas dialetais.
1. Formação de uma língua
Uma língua nasce com o povo, constitui-se como teia simbólica de uma cultura, que encontra na língua sua própria arquitetura. A unidade de uma cultura se dá em torno da língua. A coesão de uma sociedade encontra no falar comum sua principal força. Sem me delongar neste raciocínio, lembro um exemplo da mitologia bíblica, a Torre de Babel.
Um exemplo vivo deu-se com os imigrantes italianos no Rio Grande do Sul. Aqui se formou uma língua italiana neolatina. Poderia ter sido a língua oficial de um novo país, como exporei adiante.
2. A invenção dos dialetos
Os dialetos nascem como línguas de uma determinada comunidade humana. Neste caso, os dialetos italianos são línguas neolatinas, umas mais próximas do latim, especialmente na região central e norte; outras, mais ao norte, com influências maiores das línguas germânicas e eslavas; por fim, no sul, com fortes contribuições de falares árabes.
Podem parecer afirmações precipitadas, mas as formei olhando para a Itália com olhar ultramarino. Não as comprovei cientificamente. Poderão, pois, não resistir a objeções de quem vive a Itália desde quando era ocupada por grandes colônias gregas. Não renuncio, porém, à tese de que os dialetos, aos quais me referi, nasceram como qualquer outra língua.
Os dialetos resultam da elevação de uma língua ao padrão de língua oficial, por múltiplas razões, de ordem social, cultural, literária, jurídica, política..., mas, em realidade, o que vale de fato é o decreto do poder central. A língua passa a ser a articulação do poder do Estado. Os demais falares passam à categoria de línguas marginais, denominados dialetos.
O falar dialetal está próximo à música. O seguinte fato expressa essa proximidade. Conta-se que uma senhora perguntou a Beethoven, depois de haver executado uma de suas composições ao piano: "Que queria o senhor dizer com esta peça?" "O que eu queria dizer, retruca Beethoven, é muito simples. Sentou-se ao piano e executou a peça novamente. Ela não significa nada. Ela não se encontra no lugar do apenas símbolo. Ela é a coisa. Eis a melhor forma de definir o dialeto.
Outra Itália e outros Italianos. – Enquanto os emigrantes dirigiam seu último olhar ao solo milenar que deixavam para sempre, e iam lavando de lágrimas as estradas rumo ao porto Gênova, guiados por sonhos de uma vida melhor, desiludidos pelas promessas não cumpridas dos unificadores, e buscavam um lugar onde construir sua nova Itália, a Itália geográfica ia lentamente a caminho de sua unificação.
E meus avós colaboraram com esta construção, emigrando para o Brasil. Uma massa de camponeses deserdados, expropriados, analfabetos, doentes (da pelagra) e subnutridos preocupava os arquitetos da Itália unida. Eis que, de repente, desaparecia um grave problema político e social para os governantes. Era o milagre das emigrações. Era preferível sacrificar e entregar ao seu destino milhares de compatriotas, do que comprometer a arquitetura semifeudal de um novo Estado.
Ao mesmo tempo que, na Itália, os políticos construíam um novo Estado para si e para os privilegiados, a multidão dos excluídos, sobreviventes de uma quase suicida travessia marítima, foram, com coragem e esperança, construindo um país no meio da floresta e das montanhas, onde todos pudessem viver com dignidade.
Quanto ao Estado Italiano, lembro as palavras de Cavour no seu primeiro discurso no Parlamento: "Si é fatta l'Italia. Ora bisogna fare gli italiani". Esta proclamação de Cavour é assim comentada por Carlo Castagna, em sua obra La Punta della Stória: "Era vero, ma si partiva con il piede sbagliato di certo". O autor continua dizendo que os problemas que nasciam na Itália, levaram milhares de pessoas a deixar as próprias casas para enfrentar a aventura da emigração em terras e continentes distantes, sobretudo a América do Sul.
Quanto à aventura em terras distantes, tenho a convicção de que nem tudo era de lamentar. Sinto-me orgulhoso ao falar de alguns fatos acontecidos nessa aventura.
Nas quatro colônias imperiais do Rio Grande do Sul, nasceu um outro tipo de italiano, talvez não o sonhado por Cavour! Também não sei se o italiano daqui correspondia ao projeto de Cavour? Neste sentido, volto a citar Castagna, quando diz: "E Cavour, forse l'único in grado de 'fare gli italiani', moriva lo stesso anno". A conclusão é clara: o italiano não preexistia à unificação. Daqui a importância daquelas dimensões que o italiano do Rio Grande Sul preservou, e que a unificação foi lentamente apagando. Os dialetos são uma parte eminente dessas preservações.
No Rio Grande do Sul construímos a nossa Itália, traçamos o perfil do nosso italiano, diríamos do ítalo-gaúcho e formamos nossa língua, El Talian. No Rio Grande do Sul desenhamos nosssas Nova Roma, Nova Vicenza, Nova Treviso, Nova Trento, Nova Bréscia, Nova Pádua, Nova Fastro, Nova Milano, Nova Údine, Nova Gorizia, Val Veronês, Vale Vêneto...; entoamos nossas canções antigas e novas. Talvez o campanário, a igreja, a capela ou o capitel; os santos padroeiros ou la Madona eram suficientes para este tipo de italianidade. Parece fora de dúvida que mais do que italianos de uma Itália unificada, os imigrantes eram católicos de uma Igreja unida e fiel ao Papa.
Sobre o nome de suas localidades de origem, sob o patrocínio do santo da terra natal, abraçados aos laços de família, confiantes em seu trabalho e nos sonhos de prosperidade, nascia uma outra cidadania italiana, a dos imigrantes trivêneto-lombardos do Rio Grande do Sul.
A língua desta outra cidadania italiana. – Os artífices da unificação italiana tinham um projeto político que os guiava, critério último de julgamento de tudo o que se deliberava. O estabelecimento de uma língua oficial única fez parte deste projeto original. A unidade lingüística como garantia da unidade de poder político é bem acentuada por Carlo Castagna, em La Punta della storia (p. 94).: "Per non dimenticare la lingua: di fato, l'italiano non lo parlava nissuno. Lo stesso Cavour col re parlava o in francese o in dialetto piemontese." Bastou um decreto para garantir a unidade lingüística. A sua aceitação era uma questão de tempo.
Com a proclamação de uma língua oficial para a Itália unida, o restante das línguas passou à categoria de dialetos. O Vêneto, então, de língua que era, como outras tantas línguas da penísula, por decreto político, não por questão linguística, passou à categoria marginal de dialeto.
A unificação lingüística, entre os emigrantes e descendentes italianos no Rio Grande do Sul, seguiu um caminho diferente, o verdadeiro caminho para formar uma língua, como falar expressivo da vida do homem.
A formação desta língua, no dizer do Prof. Frei Rovílio Costa, começou no Porto de Gênova. Durante os transtornos da espera até o embarque, aconteceu o primeiro impacto de pessoas com costumes e falares diferentes embora não contrários. Cada um, ou cada grupo, falava suas línguas de origem, agora rebaixadas à condição de dialetos frente à língua italiana, e um projeto de vida e de aventura os colocara juntos. Alguns observaram pela primeira vez a diferença dos falares dialetais. Dava-se o primeiro passo, sem projeto e sem previsão a não ser a preocupação com a sobrevivência, rumo à formação de uma língua comum, uma koiné, para garantir o mínimo de condições para o entendimento coletivo. Acredito que não foi uma tarefa fácil, pois na minha memória que lembra sessenta anos depois, percebia claramente certas animosidades, até desprezo, para algum modo de falar.
A viagem, no interior do navio, durante quarenta longos dias, deve ter sido uma escola lingüística tanto fantástica, quanto sofrida. Não era a força da lei, mas a exigência do viver coletivo que ia traçando os rumos de uma possível nova língua. Um destino comum de sobrevivência e, com mais ousadia, de prosperidade econômica, certamente foi o maior reforço para a gestação de um falar comum.
Uma vez em terra firme, já de posse de seu território, ainda que abandonados à própria sorte, esse processo continuou, em certos casos lentamente, em outros, mais rapidamente, dependendo da diversidade de origem das famílias com que iam se formando as comunidades.
Quero insistir mais uma vez que a formação de uma língua falada, em oposição às línguas oficiais, acontece juntamente com a formação e o desenvolvimento de uma comunidade de vida. A língua falada tem como fonte de inspiração o enfrentamento dos desafios da vida cotidiana.
Uma experiência pessoal.
Descrevo, aqui, minha experiência de falante do dialeto vêneto até os 7 anos. Na escola começo a aprender o Português, mas na família e com os colegas, o dialeto continua sendo a língua praticada. Aos poucos o português é mais falado por exigência de uma política governamental e como necessidade de ingresso no mercado de trabalho.
O dialeto é eminentemente expressão da vida pessoal. No universo de minha existência, não havia necessidade de outra língua, porque as questões a serem resolvidas eram de ordem pessoal e familiar, que o dialeto resolvia com toda a eficiência. O falar e o viver confundem-se, é difícil diferenciá-los.
Na minha casa prevaleceu o dialeto vêneto. Na verdade, quando criança, nunca ouvi dizer que se falava vêneto ou dialeto, mas sim, Talian. O pai, embora friulano, já falava o vêneto em razão de que a maior parte das famílias eram da região vêneta. Com os seus parentes, sempre que se encontrava, falava o friulano. Atualmente o número de pessoas que fala o friulano é pequeno. Conheci várias famílias, parentes do lado paterno, que, embora o casal fosse de origem friulana, a língua falada era o vêneto. Creio que em poucos anos desaparecerá, caso algumas associações de friulanos não consigam reverter a situação. Eu nunca falei friulano, salvo algumas palavras, mas entendia perfeitamente. Entretanto, há um fato muito interessante, do qual me dei conta recentemente. Na minha família nomeavam-se os tios e tias paternos por barba e agna. Assim, barba Toni, barba Bepi ou agna Lisa, agna Maria; do lado materno, dizíamos zio Felice, zio Vitório ou zia Gema, zia Oliva. Depois de certo tempo, ainda na infância, as designações friulanas de parentesco foram substituídas pelo modo de falar vêneto.
Dois fatos podem ter contribuído para esta mudança. O primeiro é a predominância generalizada do vêneto. O segundo, talvez o motivo mais forte, era uma certa reserva frente aos friulanos. Lembro-me do tempo que passei, na primeira infância, na casa da avó materna, os tios, com ironia, me chamavam de furlaneto, lembravam certas expressões friulanas em tom de gozação, em particular essas de barba e agna.
Ainda quando criança, eu percebera diferenças entre palavras. Por exemplo, eu dizia ovi (ovos), mas havia os que falavam uvi. Eu dizia bel (bonito), gal (galo) galina (galinha) outros diziam beo, gao e gaina. Não havia controles. Não me lembro que alguém tenha sido corrigido. Provavelmente cada um pensava que o seu falar era o melhor. Eu, pelo menos, pensava assim. Na prática, cada um falava livremente do seu jeito. Evidente que com o correr do tempo a pronúncia mais freqüente tornava-se predominante, eliminando as outras. O fenômeno, inicialmente se dá no falar, na escrita a questão é recente. Por exemplo, falar "i uvi dee gaine ou "i ovi dele galine", ou então, "Dès cosa fonti" ou "adesso cosa femo". Nos limites das minhas lembraças da infância, a segunda fórmula foi predominando. Lembro muito bem que os tios maternos falavam la ua, i uvi e i uveti; de vez em quando minha mãe dizia: e lora cosa fonti mi? Mas a fala que predominou lá em casa foi uva, ovi, oveti, e lora cosa fao mi?.
Com o ingresso na escola, o dialeto foi perdendo espaço, inclusive em casa diante da decisão de minha mãe de que se deveria falar em português, pelo menos o filho que acabava de nascer, que foi o último, deveria aprender português. Esse foi o procedimento adotado pela maioria das famílias.
Através das comemorações festivas do centenário da imigração, o vêneto recebeu um poderoso alento. Foi a partir desta nova atmosfera que eu, sempre que visitava meus pais, voltei a falar com eles em dialeto. Percebi, especialmente por parte do pai, um prazer maior de dialogar sobre os seus trabalhos e os fatos da vida do seu tempo.
Passos decisivos rumo à nova língua.
Os imigrantes foram se instalando, aos poucos iam se distanciando afetivamente de sua pátria-mãe e construindo um outro território sócio-cultural. A sua organização reproduzia o mais fielmente possível o ambiente deixado na Itália. O regime de trabalho, as culturas de milho, trigo e feijão...; a horta, os parreirais, a criação de suínos, vacas e galinhas; a arquitetura, a culinária, as diversões, as festas, os valores morais, a religiosidade conseguiram reproduzir uma atmosfera tipicamente italiana.
Esses valores eram, mais ou menos, os mesmos entre todos. A maior diferença consistia na multiplicidade de falares dialetais. Entre todos os dialetos, o vêneto predominava. Foi em torno dele que a nova língua foi se constituindo, por vários fatores.
Os capuchinhos franceses italianizados
A presença dos Frades Capuchinhos Franceses teve papel decisivo para a integração dos imigrantes italianos. Eles franceses de Savóia. Duas coisas é bom observar a respeito desses frades. Primeiramente eles já eram familiares a muitos imigrantes. Em segundo lugar, a Savóia não era uma região desconhecida da colcha de retalhos formada pelas diversos reinos ou repúblicas italianos. Volto a citar Carlo Castagna (p.88): "Em janeiro de 1860 Cavour faz com que Napoleão reconheça a anexação da Toscana e da Emília por meio de um plebiscito. O rei francês leva para casa de brinde Nice e a Savóia". Tudo levava a crer que o entendimento entre frades e imigrantes se daria com muita normalidade. E foi o que aconteceu, salvo alguns incidentes localizados.
Em poucos anos os seminários ficaram cheios de seminaristas, na sua maioria de origem italiana. Os próprios frades franceses, se não aprenderam o dialeto, pelo menos acabaram por entendê-lo perfeitamente. A predominância do elemento italiano proporcionou uma total integração de frades e colonos, porque até a língua era comum. Os seminaristas, depois futuros frades, na sua maioria não falavam fluentemente o italiano, mas tinham como língua materna um dialeto. É verdade que, com o passar do tempo, especialmente a partir da segunda guerra mundial, o português foi oficializado e os falares dialetais de imigrantes italianos e alemães foram proibidos. Nos seminários, o dialeto foi visto como um empecilho para falar corretamente o português, razão porque teve restrições, proibições e castigos. Uma palavra dialetal podia acarretar a privação da merenda, pena que podia ser aplicada pelo colega. Assim mesmo, foi possível garantir a sobrevivência do dialeto. Prova disto é o aprendizado do mesmo por alguns seminaristas que chegavam ao seminário sem conhecê-lo.
O Correio Riograndense.
O jornal Correio Riograndense foi fundado como porta-voz da Colônia Italiana. Inicialmente impresso em italiano, depois, por imposição das leis brasileiras, foi obrigado a adotar a língua portuguesa. A sua importância tornou-se decisiva a partir do momento em que foi assumido pelos Capuchinhos.
Desta importância, destaco a crônica semanal de Frei Aquiles Bernardi (ou Frei Paulino de Caxias), com o personagem Nanetto Pipetta, cujo significado maior se deve ao fato de ser escrita em dialeto. Infelizmente, por ordem do diretor do jornal, Frei Paulino foi obrigado a interromper a série. O fim de Nanetto, tudo indica, teria sido outro. Meu avô e meu pai assinavam o jornal e eu continuo a tradição. Quando a crônica foi suspensa, eu não havia nascido, mas em casa tínhamos o livro que reunia todas as crônicas. O pai, às noites de inverno, lia um capítulo.
O jornal continua como um órgão representativo da ultura do imigrante e perfeitamente atualizado aos tempos de hoje. Seus temas maiores são os valores religiosos, a educação moral, as atividades agrícolas..., dirigidos, particularmente, às comunidades rurais, sem distinção de etnias.
O trabalho que destaco, porque diz respeito ao dialeto, é o desenvolvido pelos Freis Rovílio Costa e Arlindo Itacir Batistel. O título é de uma preciosidade ímpar: Vita, Stòria e Fròtole. Vejo nestas três palavras a síntese de 125 anos de história dos imigrantes. Elas resumem com simplicidade e eloqüência a saga de heróis sonhadores que souberam construir com coragem, trabalho, competência e alegria uma paisagem humana original, cujo centro político é, sem dúvida, Caxias do Sul, sede atual do jornal. Mais recentemente, Nanetto voltou às páginas do jornal. É cedo para avaliar seu significado mais profundo. De qualquer maneira reforça o falar dialetal, justamente por aquele que ousou aparecer no jornal falando dialeto.
Seguindo o roteiro da linguagem, percebi, há algum tempo, reportagens sobre a Itália atual. Pode-se ler, com muita clareza, as questões fundamentais políticas, econômicas, educacionais e familiares que preocupam os italianos. E isto é muito bom, pois interpreta esse duplo trabalho jornalístico, - o que vem de lá e o que é feito - como a reaproximação da Itália européia com a Itália Rio-grandense, dos descendentes dos que emigraram com os descendentes dos que lá ficaram, e, por fim, da língua oficial italiana com a língua taliana que se construiu aqui.
A criação literária
O dialeto é uma língua vivida, para ser falada sem regras gramaticais, mas por palavras que são o que dizem. Não é, tão pouco, uma língua escrita. Não significa que não possa ser escrita. A palavra escrita, elimina tudo aquilo que não é linguageiro. O que está além do texto desaparece. O falar dialetal não se separa daquilo que diz, de onde diz, por quem é dito, do modo que é dito.
Isto não significa que a língua dialetal não possa produzir literatura, seja em prosa ou em verso. O importante é que o personagem e seu discurso fundem-se numa coisa só. É o que acontece com Nanetto Pipetta. Como separar Nanetto de suas palavras. Seria a mesma coisa que separar a melodia da sinfonia, ou o significado e o movimento num gesto. Outro ponto a ser observado é que essa obra literária encontra inspiração no desenrolar da vida familiar. Sem conhecer, por exemplo, o universo do imigrante italiano fica difícil captar toda a força simbólica que Nanetto representa.
O escrito literário dialetal é tão vivo e vivente que não só expressa o pensamento, mas no pensamento também gera o personagem. Tentarei descrever o comportamento meu e de meus irmãos quando meu pai lia para nós o Nanetto. Nós falávamos Nanetto. Nós vivíamos Nanetto. Nanetto era um interlocutor vivo, presente, fraterno. Falava conosco, porque, no fundo, quem mais quem menos, todos éramos Nanettos. Se não éramos, rigorosamente falando, uma duplicação do mesmo personagem, mas a fala era comum, os sentimentos, o ambiente, os problemas eram comuns e comungados. Ele, certamente, era uma caricatura, mas a caricatura é caricatura, porque é capaz de traçar o perfil do personagem original. Nanetto era a caricatura de todos, mas uma caricatura simpática. Por isso se tornou figura familiar, fraterna. Suas expressões tornaram-se emblemáticas. De alguma maneira todo imigrante e seu descendente, quem mais quem menos, considerava-se e considera-se um pouco Nanetto.
Nanetto não é um personagem do passado, ele parece estar sempre presente, mais vivo. Seu afogamento foi circunstancial. Ele saiu do jornal, ficou livro, transformou-se em teatro e ressuscitou, pela força milagrosa de Pedro Parenti, para voltar ao jornal, de onde nunca deveria ter saído. Tudo isso foi possível porque Nanetto é um personagem eterno da cultura e da vida dos imigrantes e de todos os descendentes. E Nanetto jamais poderá falar português, nem italiano. Quando isso acontecer, ele morrerá definitivamente. Nenhuma força milagrosa poderá salvá-lo. Porque é feito de carne dialetal. Enquanto Nanetto viver, o dialeto vêneto viverá.
Vou falar, ainda que rapidamente, de outras obras literárias. Togno Brusafrati, escrito por Monsenhor Ricardo Domingos Liberali. Não teve o mesmo sucesso do Nanetto, mas, também, transpira outras facetas da vida dos imigrantes. Gira em torno dos conflitos entre a Igreja e a maçonaria e anticlericais. O que eu quero salientar da obra é a força expressiva das palavras que traduzidas perdem todo seu brilho. A força da palavra se deve ao fato de que o autor nada mais faz do que descrever o conflito familiar que ele presenciou e viveu entre sua mãe, profundamente religiosa, e seu pai, um anticlerical assumido.
Não posso esquecer uma série de crônicas, escrita por Frei Nicolau Lucion (Frei Gabriel de Garibaldi), no jornal, A Voz de Marau, órgão da paróquia de Marau-RS, com o título Stòria de Peder. Não é preciso dizer que era escrito em dialeto. O autor transcreve caricaturalmente os fatos pitorescos que aconteciam no território da paróquia. Foi um sucesso. Aliás o vigário havia encomendado esse tipo de reportagem para divulgar o jornal e conseguir assinaturas. As mudanças, impostas pela vida religiosa, interferiram na vida do jornal e, naturalmente, do nosso herói. Ele morreu com o jornal. É bom não esquecer que isto se deu na década de cinqüenta, o que mostra a presença viva do dialeto e do ambiente italiano.
Atualmente há uma profusão de publicações sobre os mais variados temas, inclusive poesia e piadas, graças ao empenho editorial da EST, comandada pelo incansável Frei Rovílio Costa. Não faltam, também, dezenas de programas radiofônicos em dialeto vêneto.
Seria imperdoável, em nível lingüístico, não mencionar a gramática e o dicionário elaborados por Frei Alberto Victor Stawinski. O que me chamou a atenção é fato de ter sido um descendente de imigrantes poloneses a realizar essas preciosas obras. Por outro lado, isso mostra como a educação dos seminários capuchinhos, apesar de certo controle do falar dialetal, acabaram ensinando o dialeto. Eu diria que, quem quisesse mergulhar no interior da vida pessoal e familiar dos imigrantes, só conseguiria se falasse e vivesse o dialeto. É assim que vejo e interpreto o trabalho de Frei Alberto e sua imersão na vida e cultura do imigrante italiano.
Da vida rural à vida urbana sem traumas
Há estreita vinculação entre a vida, o ambiente rural e o falar dialetal dos imigrantes, pois o dialeto é a expressão da vida pessoal e familiar, que tem como ambiente natural o espaço rural. O dialeto era a única forma de comunicação do camponês. Enquanto as manifestações pessoais e as relações interpessoais se davam na esfera da família e dos trabalhos agrícolas, havia um casamento perfeito entre o falar e a vida. Observando com atenção pode-se perceber como as palavras brotam dos trabalhos, das preocupações, das questões da vida. Vou dar só um exemplo. A blasfêmia era um recurso marcante na linguagem do imigrante. Para os padres, era encarada como uma epidemia. Hoje, pode-se observar que quase desapareceu. Dois motivos podem ser apontados. O primeiro, porque se fala menos dialeto. O segundo, porque o húmus da blasfêmia desapareceu, pois se ligava à lavra da terra com bois ou mulas, ou à atividade dos carreteiros. Hoje, tratores, caminhões e estradas asfaltadas acabaram com os genes das blasfêmias.
Do que acabei de expor, conclui-se que eliminada a atmosfera da vida rural, o dialeto tende a desaparecer. A vida urbana tem força destrutiva, porque surgem outras atividades, especialmente da vida profissional. No Caso do Brasil, há ainda a imposição da língua portuguesa.
Entretanto, na região de Caxias, a passagem para a vida urbana deu-se de forma lenta. Um aglomerado de casas, uma vila e uma cidade formaram-se de maneira vegetativa. Era o próprio imigrante que construía a cidade. Uma empresa industrial ou comercial começa pelos laços familiares. Seu crescimento dava-se de maneira natural, sem causar traumas nas pessoas. Assim o dialeto poderia continuar sendo falado no interior da loja, da fábrica, da indústria e no clube, no bar ou no restaurante. Desta maneira foi possível manter a fala dialetal até hoje, podendo-se ouvir em toda parte pessoas falando vêneto, especialmente agora que recebeu um incentivo maior, graças a valorização do sucesso econômico das colônias italianas.
Neste momento, preciso registrar um fato que, segundo meu entendimento, confirma meu raciocínio. Trata-se de Silveira Martins, a Quarta Colônia de Imigração Italiana no Rio Grande do Sul. Situada na região central do Estado. Seu território fica afastado das outras três colônias. Seu referencial geográfico e político é Santa Maria, na época da fundação da Colônia, já era município. Seu desenvolvimento inicial em nada se diferenciou das suas coirmãs. Passado pouco mais de meio século, Silveira Martins começou mostrar um certo esgotamento de suas energias desenvolvimentistas. Não tardou muito para passar a um estado de declínio, até chegar à decadência.
Quais seriam as causas desta inusitada situação. A diferença com as demais regiões de colonização italiana é notória. Num pequeno estudo, publicado em 1986 (Imigração esquecida, EST), tentei traçar algumas hipóteses sobre o fato. Não cheguei a nenhuma conclusão satisfatória, também não acredito que haja causas precisas em história, mas um conjunto de circunstâncias que levam a tais fenômenos.
Neste contexto quero apontar apenas o fator da linguagem. Meus primeiros contatos com a região aconteceram em 1977, um dos aspectos que me chamou a atenção foi a ausência do falar dialetal. Motivado pela valorização do dialeto devido às comemorações centenárias da imigração no Estado, tentei dialogar em vêneto especialmente com pessoas mais idosas, mas a conversa não prosseguia. Aos poucos fui me convencendo que já pouco se falava o dialeto. Pessoas com quarenta anos já não sabiam falar, apenas entendiam.
Procurei buscar uma explicação. Para isso parti da tese que eu adoto, a de que o dialeto é a expressão da vida pessoal e familiar. Esta ordem pessoal e familiar, para o imigrante, desenvolvia-se no ambiente rural, como já fiz referências. A passagem da ordem rural para a ordem urbana opera uma transformação profunda na vida pessoal e familiar, como conseqüência o dialeto perde sua condição de única língua da comunicação, poderá manter-se como retalhos de palavras e de expressões da nova língua que vai ser aquela da ordem urbana. Nas outras colônias esta passagem do rural para o urbano deu-se sem traumas, na Quarta Colônia a situação foi diferente porque já havia uma sociedade urbana, a cidade de Santa Maria. Para fazer parte desta sociedade era preciso eliminar ou esconder tudo aquilo que era rural, pois a condição de colono era vista como ignorante, rude e pobre. A língua era um fator importante para, de um lado, esconder a origem rural, de outro lado, garantir sua aceitação no novo meio social.
Resumindo, os descendentes dos imigrantes, marcados pela vida rural, acabaram não construindo seu ambiente urbano, como aconteceu na região das outras colônias, mas entraram numa vida urbana já traçada e dominada pela cultura brasileira. O abandono do falar dialetal fez parte do processo de integração à nova ordem sócio-cultural.
Festas e comemorações centenárias
As festas que comemoram as atividades rurais típicas, introduzidas pelos imigrantes italianos asseguraram muitas características da cultura italiana. A Festa da Uva, promovida em Caxias do Sul, é o carro chefe destas festividades. A Festa do Vinho, em Bento Gonçalves, a Festa da Vindima em Flores da Cunha seguiram o mesmo ritmo da Festa da Uva. Junto com estas, penso não errar, ao acrescentar a Festa do Champanhe, em Garibaldi, embora de inspiração dos imigrantes franceses, ela acabou por italianizar-se completamente, haja vista que os franceses quiseram processar os fabricantes pela utilização ilegal do nome champanhe.
As festividades mais decisivas foram as comemorações centenárias da Imigração. Os programas oficiais deram um caráter de aprovação geral ao trabalho do imigrante italiano, sua contribuição no desenvolvimento do Estado e, por conseqüência, a plena legitimação da presença de uma cultura e de uma etnia. Agora não precisava mais esconder-se ou disfarçar. Os desfiles de carros alegóricos, colocando na rua toda a trajetória do imigrante, desde seus sofrimentos, privações e pobreza dos primeiros tempos, até as faustosas conquistas econômicas, industriais e culturais da atualidade, despertaram o imaginário dos descendentes. Nada escapava ao aplauso e ao reconhecimento de todos, povo e governantes.
Neste ambiente a língua dialetal retoma um fôlego impressionante. Reativa-se a memória dos mais velhos e estimula-se o interesse dos mais jovens em torno do resgate da tradição e do dialeto, embora, talvez, não mais sabido, mas ainda ouvido quando os pais ou os avós falavam entre si.
Ao lado dos museus, monumentos e homenagens várias, devo destacar um novo cultivo do falar dialetal. O mundo passado, reapresentado, não traz à tona apenas objetos, atividades, costumes ou fatos mas, também, as palavras. Dizem os defensores da pureza de uma língua, que se torna difícil protegê-la da invasão de estrangeirismos, porque com o objeto novo importado, não vem só a mercadoria ou a técnica, mas o nome também. Se, para os puritanos das línguas, isto é um mal, no caso da ressurreição do dialeto está sendo uma mola propulsora inestimável.
Para completar, acentuo o papel forte que desempenhou o filme O Quatrilho. Além de dar charme ao sotaque italiano na boca de artistas famosos, característica que todos queria perder, o filme garantiu a legitimidade da contribuição da cultura do imigrante italiano. Ao lado do filme, talvez, com maior repercussão junto às camadas menos cultas, o grupo teatral Miseri Coloni, sempre apresentando suas peças em dialeto, está formando o ouvido dos espectadores para entender a força expressiva de um falar vivido. Por fim, não posso deixar de lembrar o personagem Radicci do cartunista Iotti. Seu caráter é um tanto controvertido ora ingênuo ora esperto, muitas vezes grotesco, em momentos rude mas ao mesmo tempo afetuoso, nunca dispensa um copo ou garrafão e sempre orgulhoso de sua italianidade, seja nos gestos seja na fala.
Concluindo, posso dizer que desde que me surpreendi com a situação da Quarta Colônia Imperial, perguntei-me sobre a importância da língua para preservar uma cultura. Influenciado pelas teses filosóficas de Heiddeger e Maurice Merleau-Ponty, penso que uma língua não se restaura sem a valorização e a legitimação da ordem cultural da qual foi a força expressiva. Inicialmente julguei que isso seria quase impossível, hoje acredito que o dialeto, ou o talian como defende Darcy Loss Luzzato, está voltando, dentro de outro contexto histórico.
Para sustentar minha confiança neste ressurgimento invoco os movimentos alternativos apresentados como alternativos pelos defensores da pós-modernidade. A globalização e a tese do pensamento único encontrariam resistência para sua implantação definitiva na valorização da diversidade cultural, conseqüentemente na manutenção dos falares regionais.
Silvino Santin
Universidade Federal de Santa Maria e Universidade Federal do Rio Grande do Sul
Santa Maria, 17 de junho de 2000