DEUS É O ETERNO SIM DO AMOR E DO PERDÃO

Rovílio Costa

 

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O Dia 11 de setembro marcou o início de uma nova humanidade. Se "a voz do povo é a voz de Deus," e o mundo está se conscientizando da inutilidade da violência e contra-violência. Como professor há mais de 40 anos, posso dizer que os jovens rejeitam "o olho por olho e dente por dente", de maneira geral, incisiva e consciente.

O conceito de justiça comutativa, que comanda decisões humanas, como dever de "dar a cada um o que lhe pertence" é uma visão pré-religiosa, porque não se fundamenta no amor e na caridade, bases da religião.

O conceito de justiça baseado na fé no Deus da vida, no amor e na caridade, expressa-se no "dar a cada um aquilo a que ele tem direito." Se, por exemplo, me encontro com um atropelado, posso passar ao largo, porque "não lhe devo nada segundo a justiça dos homens", mas, segundo a caridade, lhe devo todo o necessário para sobreviver. Só pelo amor, caridade, acolhimento, compreensão... nos reconhecemos em igualdade de direitos e deveres.

Os desmandos dos grandes conflitos são facilmente contestáveis. Mas são originários também da cultura que todos construímos. Numa partida de futebol, por exemplo, ao se machucar um jogador, a vibração interior de torcedores contrários é de satisfação, de desejo que se tenha machucado para sempre... É uma forma de violência interior instituída pela cultura exclusivamente competitiva, que pode conduzir também à violência material. Freud adverte que o amor e o ódio andam juntos. O subjacente do amor é o ódio. A corrupção total do amor é o ódio total, que abre caminhos à vingança, à briga, ao processo, à divisão de bens, à desqualificação da pessoa e de sua história e cultura... A dimensão cristã, porém, na identificação do amor a Deus e ao próximo, vai se libertando do ódio, próprio ao ser humano em conflito, através da compreensão da própria idêntica filiação divina, dos desafios constantes de Deus para a compreensão, a tolerância, o amor... "A caridade e o amor são mansos, benignos, prudentes, não fazem más ausências, não têm rancores, ressentimentos, vinganças..." (Cor, 13,4).

Em conflitos entre pessoas, casais, empresários, correligionários... a justiça leva ao tribunal, enquanto a caridade e o amor levam à compreensão, entendimento e perdão. E o provérbio com sabedoria diz que "quando um não quer, dois não brigam," quer dizer que tudo termina quando alguém sai do páreo. Mas, se em vez de sair do páreo, ambos vão ao tribunal, à guerra, à vingança... cada um querendo provar inocência, ou superar o inimigo no revide, o resultado será a absolvição de um e a condenação do outro, a derrota de um e a vitória do outro, porque o a filosofia da competição e da violência assim o exige.

Mas a culpa sempre está nos dois lados, embora o julgamento ou a dominação armada a coloque de um só lado. Portanto se faz justiça fazendo injustiça. Se, por exemplo, eu irritei alguém com palavras, deboches e maldades, e ele, por ter talvez um temperamento mais forte e mais rígido que o meu, me agride, me fere, até me executa..., ele vai ser condenado, e eu inocentado. Como assim? Se fui eu o responsável de seus atos de agressão e violência, que nunca sonhou praticar não fosse a minha provocação?

O dia 11 de setembro como crença de uma parcela exaltada da humanidade, inconsciente das próprias culpas, crendo que a vingança dará lugar à paz, passará à história como a ingenuidade do ridículo. Uma nova consciência de humanidade fará surgir de escombros humanos e materiais um novo mundo, com a utopia da paz através do amor e do perdão.

Dinheiro, armas, arrogância e arbítrio respaldam-se no princípio de auto-defesa para vingar seis milhares de mortes inocentes com milhares de outras mortes. Com o princípio da vingança pode-se ganhar batalhas e guerras, mas não se ganha a coerência e a paz. Com vingança sempre se ganha perdendo, seja no plano pessoal, social e religioso.

Radicalismo? E quem não tem sua posição radical? Não temos todos nossa opinião, nosso pensar, nosso procedimento... que julgamos os mais certos e intocáveis? Mercados comuns, moedas comuns, comunidades globais são palcos artificiais de progresso, paz e desenvolvimento, onde cada um busca ser o único privilegiado, usando, a seu interesse, os demais parceiros.

Há um subconsciente, um id , uma força indômita, construída sistematicamente, e festejada como grande conquista do ser e do fazer humanos, que nos dá uma posição tanto mais alta e festejada na sociedade, quanto mais baixa e frustrada for a posição do competidor. Quanto pior o desempenho de meu competidor, melhor para mim, este é o ingrediente quotidiano dos procedimentos humanos competitivos.

A supor que a fé islâmica de um grupo radical seja o móvel das agressões do dia 11, e parece que os aliados assim o entendem, maior ainda é o disparate da contra-agressão, porque põe em confronto uma visão política e outra religiosa. Nesta última, a pessoa se atribui direitos e deveres religiosos que justificam a assim chamada guerra santa. O crente radical põe a própria vida terrena em segundo plano. A vingança e a tomada de contas é uma forma de passar a limpo os pressupostos próprios direitos religiosos, independente de exércitos e quartéis, porque passa a fazer parte dos ideais religiosos de vida.

Islamismo, judaísmo, Cristianismo, e qualquer outro movimento religioso se definem por sua relação com o Absoluto. A fé tem como objetivo a obediência a Deus. As leis, as verdades, os ritos são meios para um correto relacionamento com Deus, da criatura com seu criador, mas não são o objetivo último da fé. Abraão em relação a Javé, e Jesus em relação ao plano do Pai são exemplos de obediência total pela fé. A fé dá a palavra a Deus e a decisão é deixada em suas mãos.

"Senhor, até quando clamarei sem me atenderes? Até quando devo gritar a ti: violência, sem me socorreres?" Clama o profeta Habacuc (1,2-3). E a conclusão dá a certeza do caminho a percorrer: "Quem não é correto vai morrer, mas o justo viverá por sua fé (Hab, 2,2-4).

Fé é, pois, obediência a Deus, que nos encaminha a seu convívio definitivo, depois do que só permanece o amor entre os homens e dos homens com Deus. A fé que tem Deus como objetivo, jamais pode eliminar o alvo do amor de Deus que somos cada um de nós. Portanto a fé em Deus elimina a violência, para dar lugar ao amor, à paz e à fraternidade. O fanatismo e a falsa fé, ou a fé presunçosa impõe critérios e ordens a Deus ou se atribui seus poderes para agir.

Será que Deus está arrependido de ter feito o homem, ou alguns homens? Se assim fosse não o teria feito. Jesus mesmo diz que "não veio chamar os justos, e sim os pecadores" (Mt 9,13). Não quer a morte e, sim, a conversão do pecador. Então, a violência pode ser obediência a um projeto humano, jamais a um projeto divino.

O "Se queres a paz, prepara a guerra," dos latinos; o Não matar do decálogo (Ex 20, 13); o Se alguém te ferir numa face, apresenta-lhe a outra, de Cristo (Mt 5, 39)... nos leva a concluir que fé e religião são obediência do homem a Deus e não apropriação dos direitos de Deus para agir segundo a estreita visão humana. Não há guerra santa, nem vingança santa que sejam conformes à vontade de Deus.

Não coloquemos Deus como justificativa de nossas frustrações.

A paz não é obra da justiça e, sim, do amor!

Porto Alegre, 2 de novembro de 2001

(Dia da vida definitiva, portanto dia do homem e dia de Deus)

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