Religião/Igreja/ Teologia/Filosofia |
Fé cristã e razão filosófica |
Urbano Zilles |
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O cristianismo postula a racionalidade como condição de vida. Por isso, nos primeiros séculos, os Padres viam a pré-história da Igreja, não nas religiões, mas na filosofia. Quando se reduz a racionalidade à razão instrumental, ela se torna perigosa, por tentar restringir a realidade à objetividade e à universalidade científicas, banindo outras dimensões do ser humano para a subjetividade. Portanto, como cristãos cabe-nos defender a racionalidade contra os reducionismos. A fé necessita da razão e da filosofia, mas não se confunde com elas. A fé vem da escuta (Rm 10,1). A filosofia origina-se da reflexão. Na fé, a palavra precede o pensamento e, na filosofia, o pensamento precede a palavra. Segundo S. Paulo, a fé vem da palavra e da escuta, enquanto a filosofia procede do pensamento e da reflexão. A interação entre fé e filosofia é possível e necessária. No passado recente, o Ocidente exagerou, muitas vezes, a contraposição entre fé e filosofia, entre o esprit de la géometrie (Descartes) e o esprit de la finesse (Pascal), criando-se um abismo entre ambas. Esse abismo é conseqüência da demolição da metafísica por Kant e da entronização da deusa Razão pelos iluministas franceses. Separou-se, no Ocidente, o mundo da ciência e o mundo da vida, que é bem mais amplo e mais rico que o primeiro. Considerando que a realidade coincide com as clareiras que o mundo da ciência projeta no mundo da vida, tudo que não se enquadra na objetividade e racionalidade científicas foi banido para a subjetividade, separando-se vivência subjetiva e teoria. Nessa perspectiva, passou a considerar-se a filosofia como teoria e a fé como vivência. Conseqüentemente, valores, religião e fé passam a ser consideradas apenas como questões privadas. Na tradição cristã evidenciam-se diferenças entre fé e filosofia, mas essas não impedem a harmonia entre ambas, uma vez que o sujeito da fé é o mesmo homem racional. Os Padres da Igreja, já nos primeiros séculos, optaram pelo Deus dos filósofos e não pelos deuses das religiões para o diálogo com os homens de seu tempo. Por isso os primeiros cristãos até foram chamados ateus. Desde logo, razão e filosofia foram os melhores aliados dos teólogos cristãos. É verdade, os cristãos reinterpretaram o Deus dos filósofos, identificando-o com o Deus-homem Jesus Cristo, um Deus pessoal a quem se pode rezar e que fala aos homens. Assim, desde Platão, a filosofia vive em diálogo crítico com a grande tradição religiosa, pois, para sobreviver, ousa a pergunta pelo sentido das coisas e da existência humana para além da racionalidade instrumental, para além da morte. Cabe-lhe examinar a plausibilidade racional da própria fé do homem crente que, segundo S. Pedro, deve saber dar as razões de sua esperança ou fé (1Pd 3,15). Dessa maneira, constrói-se, não um abismo, mas uma ponte entre o lógos divino e o lógos humano. O conceito de Deus dos filósofos é transformado e enriquecido pelo Deus da revelação judaico-cristã. Nessa perspectiva, não só a fé necessita da filosofia, mas esta também necessita da fé para sobreviver. |
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