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A RELAÇÃO EM FRANCISCO DE ASSIS |
Rovílio Costa |
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Todo homem é herdeiro da cultura de seu tempo. A história do comportamento humano atesta as congruências e as incongruências de valores, conseqüentes das opções culturais, das formas de domesticação social, dos interesses de classes e do exercício de poder.
Nas diferentes culturas deparam-se diferentes maneiras de traduzir os três grandes relacionamentos, que o ser humano estabelece no processo de sua realização, em busca da identidade e segurança pessoal e social: relacionamento do homem com o cosmo, do homem com o homem, e do homem com Deus, em concomitância e simultaneidade, com expressões de preferências, conforme, como diz Francisco Francisco de Assis, os diferentes tempos e lugares (Regra Bulada, cap. IV, 2).
Francisco de Assis propõe uma cosmovisão, uma antropovisão e uma teovisão próprias, como tentativa de superação da experiência cultural cristã que herdou, e lhe pareceu insatisfatória.
Diferente de sua tradição familiar e da tradição do homem de seu tempo, imaginou nova forma de viver para si, para seus frades e para aqueles que pretendessem tornar própria a filosofia de vida do Evangelho.
A fraternidade, como partilha de vida entre irmãos, conseqüente da consciência existencial de dependência e incompletude, ao par da necessidade de ascender ao Absoluto como capacidade inata, torna-os proposta a todos os homens.
Sem desconhecer as formas de relacionamento do homem de seu tempo com a natureza, com os semelhantes e com o Absoluto, apresenta uma forma própria de vida evangélica, com pressupostos teológicos e espirituais diferentes dos de seu tempo. "A vida e Regra dos frades Menores é esta: Observar o Santo Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo, vivendo em obediência, sem propriedade e em castidade" (Regra Bulada, cap. I, 1).
Projeto simples, aparentemente ingênuo, que lhe valeu o apelativo de louco. Mas, sem abdicar de suas idéias e sem perder esperanças, torna e retorna ao Santo Padre, que passa a entendê-lo como um especial dom do Espírito Santo a seu tempo e, talvez, a todos os tempos. Francisco torna-se reformador da sociedade, com sua forma de viver e encarnar o Evangelho.
Questiona, não por palavras, nem por críticas, mas por sua forma de vida evangélica, os valores da própria família, da sociedade e da Igreja. A fé, testemunhada no acolhimento fraterno do irmão leproso. "Foi assim que o Senhor concedeu a mim, Frei Francisco, iniciar uma vida de penitência. Parecia-me deveras insuportável olhar para os leprosos. Mas o Senhor me conduziu no meio deles e eu tive misericórdia deles" (Testamento, 1). O Francisco, que inicialmente fora tido como louco, passa a ser entendido como o homem inspirado e conduzido por Deus.
A liberdade e autonomia pessoais, vive-as como contemplação da natureza, fraternidade com os pobres, dependência e radical entrega ao Absoluto. "O Senhor me revelou o que eu devia fazer (Testamento, 4)." Sua pergunta de intencionalidade da própria vida, passa a ser o Senhor, que queres que eu faça. Não abdica de seus ideais pessoais, mas os aperfeiçoa à luz do Senhor.
As ciências físicas, matemáticas, biológicas, espaciais proporcionam ao homem o domínio sempre mais completo do cosmo.
Francisco, mais que explicação da origem das coisas criadas, busca a integração com o cosmo que culmina na contemplação da Causa última. "Louvado sejas, meu Senhor, com todas as tuas criaturas, especialmente o senhor irmão Sol, que clareia o dia e com sua luz nos ilumina (Cântico do Irmão Sol, 3)."
Olhando as criaturas, sob o prisma da sua origem, as sublima, nivela-se a elas e proclama a grandeza do Altíssimo, Onipotente e Bom Senhor (Cântico ao Irmão Sol, 1). Contempla, louva e agradece ao Senhor das criaturas. "Louvado sejas meu Senhor, com todas as tuas criaturas (Cântico ao Irmão Sol, 3)." Quer dizer Tu e tuas criaturas.
Descobre a minoridade. O ser frade menor significa ser menor não somente em relação aos outros homens, mas também em relação às próprias criaturas. É uma minoridade cósmica e humana. Menores, porque os últimos dos irmãos, tendo como única riqueza a consciência da própria indigência, originária da condição de pecador.
Menor em relação às próprias criaturas, porque o homem, pela liberdade, pode firmar-se no pecado, como aceitar a libertação da graça, enquanto a natureza lhe aparece liberta desta dolorosa duplicidade. "Toda a natureza, como a irmã água, é útil, humilde, preciosa e casta (Cântico ao Irmão Sol, 7)." Mas, só do homem se diz, diante da Irmã morte: "Ai de quem morrer em pecado mortal (Cântico ao Irmão Sol, 13)." Como pode alguém vangloriar-se, se "só Ele (o totalmente Outro) é bom" (Lc 18,19)?!
O estado de aliteração cósmica (dependência do aliter, daquilo que está ali, fora do âmbito da própria consciência), o cientista o supera pelo conhecimento das leis que regem a natureza.
Francisco não desconhece as conquistas da ciência. Mas serve-se delas para o encantamento, louvor e ação de graças do totalmente Outro (Alter), presente no mundo criado, com seus mistérios, enigmas e leis.
Enquanto o cientista familiariza o mundo pelo conhecimento, Francisco o vive e sublima pela contemplação d’Aquele que é sua origem, princípio e fim.
Enquanto o cientista proporciona saberes sobre as coisas, Francisco faz aliança com o mundo criado, empresta-lhe palavras humanas, para realizar o diálogo existencial da criatura com o Criador.
A ciência, em princípio, é neutra. A contemplação, como a entende Francisco, ultrapassa a ciência, reveste-se do calor e da emoção de intencionalidades, que justificam a consciência e convivência do homem com a natureza.
A contemplação, em Francisco, é o novo princípio do cientista e do cristão, chamados a conduzir e ordenar a terra com tudo o que nela existe (Cântico ao Irmão Sol, 9).
Dar intencionalidades ao cosmo, eis o que diferencia a ciência da sabedoria. O bem-aventurado Jacopone assim precisa o conceito de Francisco: "Ciência adquirida, produz mortal ferida, se não for vestida de um coração humilhado" (Constituições Capuchinhas, 1920, cap. IX). Porque a ciência sem as intencionalidades é vazia. Deus mesmo reparte sua providência sobre o universo com as intencionalidades do próprio homem. "Façamos o homem à nossa imagem e semelhança. Que ele reine sobre os peixes do mar, sobre os pássaros do céu, sobre os animais domésticos, e sobre toda a terra, e sobre todos os répteis que se arrastam sobre a terra" (Gn 1, 26).
Coração humilde diante do "Louvado sejas meu Senhor, com todas as tuas criaturas" (Cântico ao Irmão Sol, 1). O Senhor e suas criaturas, dentre as quais o frade é o menor! Simplicidade, humildade, pobreza são, para Francisco, expressões de prudência e de objetividade. Quem tudo recebeu, e perdeu o controle da própria harmonia pelo pecado, não pode vangloriar-se como se nada recebera.
Sempre mais o mundo se torna também obra do homem que, não obstante reconheça suas leis inexoráveis, não as tem como inacessíveis, mas busca manejá-las, colocando-as a seu serviço.
Enquanto, para o homem da ciência, o conhecimento da natureza o liberta da aliteração, do desconhecido, para Francisco o conhecimento da natureza se constitui caminho à maior integração cósmica, culminando no aperfeiçoamento contemplativo do "Louvado sejas, meu Senhor, com todas as tuas criaturas" (Cântico ao Irmão Sol, 3).
A ciência, sem a fé, esvazia a natureza de sua dimensão sagrada. Mas a ciência, iluminada pela fé, faz do cientista um humilde cantor da natureza e do seu Criador. "Louvado sejas, meu Senhor, com todas as tuas criaturas" (Cântico ao Irmão Sol, 3). A ciência descortina as leis do cosmo; a fé contempla a grandeza do universo e do seu Criador. Não separa criatura do Criador. A ciência se une às criaturas para louvar o Criador.
O estado de aliteração cósmica fazia com que o homem vivesse em função da natureza, protegendo-se dela em momentos em que lhe podia ser adversa, e, em outros, tentando dominá-la e colocá-la a seu serviço, pela conquista do conhecimento de suas leis.
No estado de aliteração cósmica, o homem realiza sua vocação de aperfeiçoar a natureza, afirmando sua capacidade inata de descobrir seus segredos, sem, porém, encontrar a resposta direta a seu eu pessoal.
Na alteridade ou alternação (relação com o alter), começa a resposta à pergunta pessoal. Na relação humana do eu para o tu, é possível condividir, partilhar, estabelecer reciprocidades e mutualidades.
A minoridade é, também no relacionamento, na alteridade, a forma evangélica de relacionamento humano, que Francisco propõe através da fraternidade.
Minoridade não significa dependência, nem sujeição passiva, mas obediência ao eu pessoal, onde se explicitam as condições de indigência e pecado, em concomitância aos desafios da graça. "Deus deu a mim, Frei Francisco, a graça de assim começar a fazer penitência..."
No Evangelho, base de sua Regra, Francisco busca as razões de sua identidade menor. "Assim como o Senhor me concedeu dizer e escrever de modo simples e claro a Regra e estas palavras, assim as entendais, com simplicidade e sem comentário, e observai-as com santo fervor até o fim. E todo aquele que as observar seja no céu cumulado com a bênção do Altíssimo Pai, e seja cumulado na terra com a bênção de seu Filho dileto, em unidade com o Espírito Santo Paráclito, com todas as virtudes do céu e todos os seus santos. E eu, Frei Francisco, o menor de vossos servos, vos confirmo, quanto posso, interior e exteriormente, esta santíssima bênção" (Testamento, 13).
A inter-personalidade, em Francisco, tem sua razão na minoridade. Quem se considera mais que os outros, presume ter algo a dar, mas carece da capacidade de receber. Quebra, por isso, o fundamento da fraternidade que, segundo o apóstolo, se traduz no amor recíproco. "A ninguém fiqueis devendo coisa alguma, a não ser o amor recíproco..." (Rm 13,8).
No "conhece-te a ti mesmo," Sócrates colocou o princípio do saber pessoal, do ser pessoa. Se difícil é conhecer a si mesmo, mais difícil ainda será conhecer o outro com sua história pessoal. Mas o âmbito cognitivo não é o lugar onde reside a maior problemática humana, mas sim o âmbito inter-relacional.
A auto-imagem tem embutida a étero-imagem. O eu diz respeito ao tu, no processo do auto-conhecimento. O eu, sem o tu, é inexpressivo e imerso em nebulosa solidão.
Quando o tu era apenas o cosmo, o eu do homem revestia-se de temor, de indagações frente ao desconhecido, sem mutualidade de resposta, era apenas desafio à inteligência. O eu pessoal, sem o tu, também pessoal, remanesce na solidão, embora em meio à multidão humana.
Como diante do tu cósmico, também diante do tu pessoal, Francisco aponta para a pobreza radical, para a minoridade, disponibilidade e caridade fraterna. "Tudo o que desejardes que os homens façam a vós, fazei-o também vós a eles" (Mt 7,12) e ainda: "Guarda-te de jamais fazer aos outros o que não quererias que te fosse feito" (Tb 4,16).
A consciência da pobreza originária do eu é o princípio do amor, compreensão, dedicação e perdão. "E amem-se uns aos outros conforme diz o Senhor: "Eis o meu mandamento: amai-vos uns aos outros, como eu vos amei (Jo 15,12). E a caridade que se devem mutuamente, mostrem-na por obras, segundo diz o apóstolo (1Jo 3,18): "Não amemos de palavras nem de língua, porém de obra e verdade" (Regra não-bulada, cap. 11, 5).
Para afirmar o eu pessoal é necessário afirmar o eu dos outros, que complementa e dá sentido ao eu pessoal. A identidade é um processo que se constitui das relações que vamos formando no curso da vida. Somos da maneira como nos sentimos e da maneira como os demais nos percebem. Auto-imagem e auto-estima dizem formas de relacionamento.
Francisco tem consciência de que o processo de identidade de cada um tem as marcas da pobreza radical e da contingência histórica do pecado, e pode iludir-nos no relacionamento com os irmãos. Acena, então, a uma forma evangélica de relacionamento que garanta segurança e realização pessoal.
Deter poder, basear-se no ser mais que os outros, impediria o fluir do amor fraterno, empobrecendo o eu pessoal da capacidade receptiva da graça que procede de Deus por meio dos irmãos. "E igualmente, nenhum irmão exerça uma posição ou um cargo de mando, e muito menos entre os próprios irmãos. Pois, como diz o Senhor no Evangelho: "Os príncipes das nações as subjugam e os grandes imperam sobre elas" (Mt 20,25), assim não deve ser entre os irmãos, mas antes: "Aquele que quiser ser o maior entre eles, faça-se o menor" (Lc 22,26). E nenhum irmão trate mal a outro irmão, nem fale mal dele. Antes sirvam e obedeçam de bom grado uns aos outros na caridade do Espírito (Regra não-bulada, cap. 5).
A aliteração cósmica, como relação material com a natureza, não atende às necessidades do eu pessoal. A alternação, também, como relação material do eu ao tu, responde em parte às expectativas do eu. Só será resposta satisfatória se envolver a oblatividade da reciprocidade do amor. É que a visão e relação com o outro só do ponto de vista da necessidade pessoal, pode ser tão temporário quanto a própria necessidade. Já o outro, por sua mesma natureza limitada, será resposta em parte satisfatória e em parte não. A resposta só será completa se o outro, como resposta e complemento do eu, conduzir à plenitude da alteridade, no totalmente outro, como plenitude do Tu e satisfação completa do eu criado.
Francisco, em colocando o poder, a autoridade, a precedência na linha do serviço e da obediência ao Espírito presente no irmão, torna o tu da interpersonalidade humana, como mediação, como encarnação do Tu pleno, do totalmente Outro. É da mediação e na mediação do tu contingente, que se revela a transcendentalidade, em direção ao Absoluto. "E nenhum irmão trate mal a um outro, nem fale mal dele. Antes sirvam e obedeçam de bom grado uns aos outros na caridade do Espírito. E esta é a verdadeira e santa obediência de Nosso Senhor Jesus Cristo" (Regra não-bulada, cap. 5, 16).
Portando encontrar Deus no irmão, obedecer a Deus presente no irmão, com sua história pessoal, é obedecer ao Deus que também se fez história humana, e fez sua a nossa própria história. São os dois pólos da obediência franciscana, na mediação do tu humano, em direção ao Tu absoluto. É a transcendentalidade que flui a partir da transpersonalidade.
Seja pela aliteração cósmica, seja pela alternação humana, Francisco faz do mundo criado degrau de ascender ao Criador.
A proposta de Cristo é relacionar o homem com o próprio homem, na perspectiva do amor, independente do provisório concreto. Amar a todos como irmãos significa globalidade do tu humano. Não é amar de forma pagã, "aqueles que nos amam e estimam," mas a todos. "Atendamos todos, irmãos, ao que diz o Senhor: "Amai os vossos inimigos e fazei bem a todos os que vos odeiam" (Mt 5,44), pois Nosso Senhor Jesus Cristo, cujas pegadas devemos seguir (1Pd 2,21), chamou de amigo o seu traidor e se entregou de livre vontade aos que o crucificaram. São pois nossos amigos todos os que injustamente nos infligem tribulações e angústias, opróbrios e injustiças, dores e tormentos, martírio e morte. A esses devemos amar muito, porquanto pelo mal que nos fazem, teremos a vida eterna" (Regra não-bulada, cap. 21).
Francisco coloca, pois, o tu humano como mediador de nosso destino supremo, de nossa vocação ao totalmente Outro.
A vida franciscana é uma conseqüência radical do convite de Cristo para viver, em toda extensão, o preceito do amor. O amor desinteressado do próximo, por causa do Filho de Deus feito natureza humana, torna-se o momento de manifestação de Deus, o sumo bem, o perfeito amor, o verdadeiro Pai nosso que está nos céus.
O ser fraterno, na visão franciscana, parte do conceito de minoridade, não de sujeição, nem de dependência. É a busca do irmão, porque ele tem uma manifestação particular de Deus. Comunicar-se, fazer comunhão com o irmão é encontrar o Senhor, sob as diferentes formas como se faz presente na vida humana. O Cântico das Criaturas é um louvor ao Deus da criação, portanto presente no cosmo, e na pessoa de modo especial, porque é na pessoa que passa a ser entendido como o Deus enamorado do ser humano. Por isto, a pregação franciscana será sempre, para ser tal, uma pregação e uma filosofia de amor, paz e fraternidade. Deus encontrado, visto, conhecido e sentido no irmão, com suas circunstâncias próprias, é o Deus da encarnação proclamado por Francisco.
A grande relação, aquela que responde a toda a ânsia, a toda a expetativa humana, que pode dar o necessário e suficiente amor ao ser humano, pela certeza e segurança do acolhimento e da quietude, é a relação transcendente, ou seja o diálogo começado com o cosmo, plenificado na pessoa humana, culminando no Encontro com o Absoluto, ante o qual tudo o mais passa a ser mero degrau. "Deus é amor, e quem permanece no amor, permanece em Deus e Deus nele" (I Jo 4,16).
O encontro com o Deus-amor, para Francisco, percorre o caminho do irmão. Depois de entender a forma como Deus se manifesta, derrama seu amor em cada ser humano, e em toda a criação, conclui-se que só Ele é o amor pleno e perfeito.
Enfim o Senhor!
Por passos, depois de dizer, olhando para o mundo: "Todas estas coisas vêm do Senhor, por isto louvam o Senhor; todas as pessoas são a imagem do Senhor, por isto vivem para o Senhor: Francisco exlama: "Meu Senhor e meu Deus, meu Deus e meu Tudo!"
Proclama, assim, o grande processo da encarnação de Deus no mundo, na passoa humana com vocação ao definitvo encontro com o Deus-Amor, cujo Espírito está derramado em todos os corações. "Eis o meio de reconhecer se o servo de Deus tem o Espírito do Senhor. Se Deus, por meio dele, operar alguma boa obra, e ele não o atribuir a si, pois o seu próprio eu é sempre inimigo de todo o bem, mas antes considerar como ele próprio é insignificante e se julgar menor que todos os homens" (Admoestações, 12).
O progressivo domínio do cosmo pelo conhecimento das leis que o regem; a descoberta do outro como resposta interpessoal provisória e mediadora, leva o homem ao grande salto da transcendência, face ao Absoluto, junto ao qual somente o homem pode se entender a si mesmo, entender seus irmãos e fraternizar sua própria vida e história com o Deus da vida. "Eu vim para que todos tenham a vida, e a tenham em abundância" (Jo 10,10). Quer dizer, segundo Francisco, para que todos tenham o amor e cheguem ao Amor, plenitude da fraternidade cósmica e humana.
Deus e só Deus é a resposta adequada e, para Francisco, só a partir de Deus se entendem as reciprocidades da contingência humana, e a vocação à plenitude de todo o homem.
O Cântico das criaturas, que Francisco compôs quando sentiu-se na iminência a entrar no Seu reino, revela sua história de enamorado do cosmo pela sua harmonia-paradigma, no homem rompida pelo pecado e, que, por isso, só poderia ser conseguida, transformando a própria vida em louvor ao amor de Deus derramado na criação.
Como humanos, temos nossas preferências. Francisco também as tinha. Não uma preferência funcional como é a tentação comum do pragmatismo humano. Mas a preferência por aquele elemento da natureza e por aquele irmão humano, que mais me aproxima Deus. Eis o que diz em Opúsculos ditados (1-2), expressando sua última vontade a Santa Clara:
"Escreve assim como te digo: o primeiro irmão que o Senhor me deu foi Frei Bernardo. Foi o que primeiro começou e realizou, com suma excelência, a perfeição do Santo Evangelho, distribuindo todos os bens aos pobres; por esta razão e por muitas outras prerrogativas, sou obrigado a lhe devotar uma afeição maior do que a qualquer outro irmão em toda a religião. Por isto, desejo e ordeno, enquanto posso, que quem for ministro geral a ele ame e honre como a mim mesmo."
Todos nós temos também aquele irmão preferido, que foi cirineu, que abriu caminhos, que infundiu esperanças, que nos mostrou suas contingências, que nos testemunhou sua coragem de caminhar ao Altíssimo, Onipotente e Bom Senhor! (Cântico ao Irmão Sol, 1).
(É facultativo o uso ou não do Cântico do Irmão Sol).
Altíssimo, Onipotente e bom Senhor,
Teus são o louvor, a glória, a honra
E toda a bênção!
Só a Ti, Altíssimo, são devidos;
E homem algum é digno
De te mencionar.
Louvado sejas, meu Senhor,
Com todas as tuas criaturas,
Especialmente o senhor irmão Sol,
Que clareia o dia
E com sua luz nos alumia.
E ele é belo e radiante
Com grande esplendor:
De ti, Altíssimo, é a imagem.
Louvado sejas, meu Senhor,
Pela irmã Lua e as estrelas,
Que no céu formaste claras
E preciosas e belas.
Louvado sejas, meu Senhor,
Pelo irmão Vento,
Pelo ar, ou nublado
Ou sereno, e todo o tempo,
Pelo qual às tuas criaturas dás sustento.
Louvado sejas, meu Senhor,
Pela irmã água,
Que é mui útil e humilde
E preciosa e casta.
Louvado sejas, meu Senhor,
Pelo irmão fogo
Pelo qual iluminas a noite.
E ele é belo e jucundo
E vigoroso e forte!
Louvado sejas, meu Senhor,
Por nossa irmã, a mãe Terra,
Que nos sustenta e governa,
E produz frutos diversos
E coloridas flores e ervas.
Louvado sejas, meu Senhor,
Pelos que perdoam por teu amor,
E suportam enfermidades e tribulações.
Bem-aventurados os que as sustentam em paz,
Que por ti, Altíssimo, serão coroados.
Louvado sejas, meu Senhor,
Por nossa irmã a Morte corporal,
Da qual homem algum pode escapar.
Ai dos que morrerem em pecado mortal!
Felizes os que ela achar
Conformes à tua santíssima vontade,
Porque a morte segunda não lhes fará mal!
Louvai e bendizei a meu Senhor,
E dai-lhe graças,
E servi-o com grande humildade.
Porto Alegre, Páscoa de 15 de abril de 2001