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FRONTEIRAS ETNO-CULTURAIS lusos - alemães - italianos - poloneses |
Hilda Agnes Hübner Flores |
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No sul do Brasil, em especial no Rio Grande do Sul viveram paralelos o latifúndio luso e a pequena propriedade dos imigrantes europeus, assentados em espaço geográfico distinto e separados por diversidade de língua e por deficiência de meios de comunicação. O luso impôs-se como administrador, estruturando, ao longo dos séculos, juntamente com o índio e o negro, as bases da nacionalidade brasileira, enquanto o imigrante desenvolveu uma comunidade não escravocrata e de características peculiares, por conta do isolamento forçado.
A ligação entre as duas comunidades era tênue inicialmente, feita através de transações comerciais, implicando em vendeiros, barqueiros e caixeiros viajantes e não se detinha no aspecto sócio-cultural. O professor era membro da comunidade e transmitia os valores da mesma. A cisão religiosa trazida pelo imigrante alemão de confissão evangélica, permaneceu estanque nas comunidades teutas e não afetou o catolicismo oficial do luso. E assim se preservaram diferenças étnicas de habitação, da maneira de constituir família e transmitir valores, de recreação, do modo de comemorar datas religiosas, de usos e costumes em geral.
A co-existência dessas comunidades perdurou até fins do séc. XIX, quando regular freqüência de casamentos entre lusos e moças alemãs tentam transpor as fronteiras culturais. Mas, a grosso modo, as peculiaridades culturais dos vários grupos étnicos perduraram até a II Guerra Mundial, quando a proibição drástica do uso de língua, bandeira e símbolos estrangeiros forçou barreiras e apressou o processo de intercâmbio cultural que hoje enriquece a cultura brasileira. No entanto, apesar da profusão dos atuais meios de comunicação social, ainda sobrevivem comunidades interioranas onde a parcela mais idosa da população se comunica em sua língua de origem e preserva os valores dos ancestrais, conforme demonstram pesquisas de campo.
Para fins meramente de estudo, detalhamos aqui alguns elementos etno-culturais dos vários grupos étnicos, que hoje sobrevivem de alguma maneira, graças ao longo isolamento geo-sócio-cultural a que os vários grupos de imigrantes foram submetidos. Assim temos:
1. Localização geográfica x propriedade. O luso, o primeiro a chegar, apoderou-se de latifúndios. O português ocupou sesmarias de 1 x 3 léguas e o açoriano, chegado desde 1752, recebeu "datas", com área equivalente à quarta parte da sesmaria. Ambos eram latifúndios.
O imigrante alemão, chegado desde 1824, recebeu lotes rurais de 77 ha. de área inicialmente, logo reduzidos para 48 e depois para 25 ha., tamanho que tocou também para o italiano, o polonês e outros grupos minoritários imigrados desde 1875.
O alemão imigrante, primeiro a chegar, ocupou o vale dos rios Sinos (S. Leopoldo, Novo Hamburgo, Dois Irmãos, Ivoti, Montenegro...) e Caí (S. Sebastião do Caí), depois o do Taquari (S. Cruz do Sul, Lajeado, Estrela, Venâncio Aires), no Rio Grande do Sul, e também colônias no estado de S. Catarina, como Itajaí, Blumenau, S. Bento, Brusque e outras. O italiano povoou a Serra: Bento Gonçalves, Garibaldi, Silveira Martins, Veranópolis, Nova Prata e outros municípios enquanto para o polonês sobraram as encostas da serra, ou, no dizer de João Ladislau Wonsowski, os peraus do rio das Antas, de difícil exploração, motivando bastante migração interna em busca de melhor reassentamento. As primeiras 60 famílias polonesas para o Rio Grande do Sul vieram em 1854, procedentes da província de Espírito Santo, mas a imigração regular começou em 1875 e a mais numérica foi entre 1890-94, motivada por forte dominação prussiana, russa e austríaca, na pátria de origem, onde há mais de um século se processava a campanha de "despolonização", de sorte que, às promessas mirabolantes dos agentes de colonização, os poloneses responderam com a pronta emigração. A maior concentração polonesa, algo em torno de 42 mil imigrantes, ocorreu no estado do Paraná: Eufrosina, Rio Claro, S. Mateus, Santa Bárbara, Prudentópolis, Ivaí, Apucarana (atual Cândido de Abreu), Castro, Piraí do Sul, Palmeira, Cruz Machado. Paraná, além de imigrantes, recebeu migrantes de S. Catarina, onde permaneceram cerca de 6.700 poloneses, em Lucena (atual Itaióplis), Rio Vermelho, Massarunduba, Grã-Pará, Nova Galícia. O Rio Grande do Sul recebeu 32 mil poloneses, assentados nos municípios de Mariana Pimentel, Dom Feliciano, São Marcos, Ijuí, Alfredo Chaves (atual Veranóplis), Antônio Prado, Bento Gonçalves, Guarani das Missões, Jaguari, Erechim. Houve também poloneses assentados no Espírito Santo (Águia Branca, S. Leopoldina) e S. Paulo (S. Bernardo, Pariquera-açu, S. Paulo capital). No período de 1935-70 imigraram mais 25 mil, totalizando cerca de 130 mil imigrantes poloneses.
2. Economia x mão de obra. A extensão da propriedade determinou a diferença da economia. Nos latifúndios lusos praticava-se economia pastoril, movida por mão de obra escrava, pois a população branca era rarefeita e alheia aos trabalhos artesanais. No latifúndio, as ordens emanavam do senhor proprietário da terra, delegadas ao capataz, que as fazia cumprir. Família, parentes, agregados e escravos dependiam da decisão centralizada do senhor.
No minifúndio agrário, seja do alemão, italiano ou polonês, praticava-se economia de subsistência, sem emprego de mão de obra escrava, proibida por lei. O poder de mando era mais difuso, emanando dos pais, que exigiam obediência efetiva dos filhos. Mas, como a economia familiar diluía responsabilidades para todos os membros da família, o relacionamento era mais horizontal, democrático. O minifúndio ensejou também a ativação ou intensificação, no Brasil, das muitas profissões artesanais que os imigrantes praticaram na Europa, como forma de sobrevivência. Assim, um leque variado de profissões desenvolveu-se nas zonas coloniais, como: marceneiro, funileiro, oleiro, alfaiate, sapateiro, tecelão, moleiro, ferreiro, seleiro, serralheiro, torneador, fabricante de cachaça ou de refrigerantes... Essas atividades auxiliaram para viabilizar a funcionalidade do lote rural e para reforçarem o orçamento doméstico, notadamente nas Linhas ou Picadas localizadas próximas a algum centro consumidor ou nas margens de algum rio que favorecia a exportação dos excedentes agrícolas e dos produtos artesanais.
3. Língua. Além de assentados em propriedades justapostas e sem comunicação entre si - os lusos na Campanha e os imigrantes nas zonas de mata -, havia a diferença de língua entre os vários grupos étnicos, dificultando a integração. O português e o italiano pertencem ao mesmo grupo lingüístico latino, mas a língua germânica do alemão, e o polonês do grupo eslavo, apresentaram maior distanciamento. Apesar da dificuldade lingüística, os primeiros imigrantes alemães, assentados no vale do Sinos, foram incitados pelo intercâmbio econômico que estabeleceram com a Capital, ávida consumidora, desde a década de 1820, dos produtos colocados. Porém, uma efetiva aproximação, em termos lingüísticos, só ocorreu a partir da II Guerra Mundial, com a proibição drástica do uso de línguas estrangeiras, notadamente a alemã e a italiana, países aos quais o Brasil havia declarado guerra. O português, tornado a língua obrigatória nas escolas, foi se vulgarizando no uso cotidiano - apesar do que hoje em dia ainda podem ser encontradas, em zonas interioranas teutas, três gerações com diferenças lingüísticas: a terceira idade, já pouco numerosa, que só fala o alemão; a geração intermediária, bi-língüe, e a geração mais nova, que só fala a língua nacional. Nas últimas décadas tem havido louváveis esforços regionais para incluir no currículo de I Grau, ao lado do português, o aprendizado da língua dos ancestrais, alemão, italiano ou polonês.
4. Família. A tipologia familiar tinha relação direta com a extensão da propriedade. O latifúndio gerou um tipo de família mais "patriarcal", as decisões emanando do chefe, provedor das necessidades materiais e morais dos moradores. Era o "senhor" que escolhia cônjuge para os filhos e estabelecia o grau de dependência da esposa que, analfabeta e sem profissão lucrativa, ficava inteiramente à mercê do "sr. marido".
O minifúndio, sem mão de obra escrava, diluía responsabilidades entre os membros da família, que usufruíam dos direitos por igual. É voz corrente que a mulher alemã reunia maior poder de mando, ao lado do marido, com quem tomava decisões. Mas a "nona" italiana, sentada à cabeceira da mesa, emite, ainda hoje, ordens precisas e acatadas por todos os membros da família. Quando morre, seu lugar é prontamente ocupado pela filha mais velha. A escolha do cônjuge, entre os imigrantes, era da iniciativa dos jovens. Entre os alemães, não raro, o namoro iniciava nos bailes e entre os italianos - de bailes proibidos pelos padres -, as rezas da igreja, aos domingos, propiciavam oportunidade de aproximação e namoro.
Entre os poloneses, a escolha dos nubentes era livre por parte dos jovens, mas dentro do mesmo grupo étnico. Não raro o namoro iniciava em baile. Segundo costume eslavo, grande valor se dava à fertilidade da noiva, cuja missão era garantir prole numerosa para a família. Neste sentido, o lençol manchado da noite de núpcias, era de bom augúrio.
5. Casamento. Namoro e noivado têm características peculiares nas diferentes etnias, sendo o casamento seu corolário natural. Entre os lusos, o casamento decretava a segregação da família paterna, passando a jovem esposa a integrar a família do marido. Este devia de ser alguns anos mais velho, para que com mais facilidade pudesse treinar a jovem esposa nos valores que ele impunha ao novo lar, entre eles a submissão e obediência ao marido-provedor-do-lar.
A festa do casamento, depois de um namoro de livre escolha, era para o alemão símbolo de status das famílias dos nubentes: uma centena ou duas de convidados e grande comilança, englobando o almoço, café da tarde, jantar e, pela madrugada, uma fatia do bolo dos noivos. A festa era toda preparada no sistema de mutirão dos vizinhos, favor oportunamente retribuído. Em meio a alegres conversas, iniciava-se a dança, que podia perdurar até o amanhecer, quando todos retornavam para seus lares e ao trabalho.
O casamento também entre os italianos apresentava comida farta, constando o sagu, importado, como referencial especial do status dos noivos. O casamento se realizava na igreja, sem a presença da mãe da noiva, que, segundo pesquisa de Clêodes Júlio Pereira, ficava de "guardiã da casa" enquanto a futura sogra aguardava a nora em sua casa, para as boas vindas. Havia comes e bebes, mas ausência de baile. Após alguns anos de permanência em casa dos sogros, onde dividiam tarefas e colhiam parte do lucro, o jovem casal passava a morar em propriedade adquirida para si.
Entre os poloneses, o wesele, casamento, coroava um noivado não muito longo. Convidados levavam o noivo até a casa da noiva para a benção dos pais e depois seguiam para a igreja, onde o casamento se realizava pela manhã, seguido de festanças de congraçamento entre as famílias dos noivos e seus parentes e amigos. À noite havia danças, sendo "sorteada" a vez dos jovens dançar com a noiva, que acabava dançando com todos os rapazes e ao final recebia a soma em dinheiro dos sucessivos lances feitos pelos pares, na disputa pela dança.
6. Religião. É outro aspecto de manifestação diferenciada nas diversas etnias. O luso teve como religião oficial a católica apostólica romana e a ela submeteu índios e negros, sufocando suas expressões de fé. Não era assíduo freqüentador da igreja, nem atendia com fervor às ordens emanadas do padre, principalmente no Rio Grande do Sul, que se formou tardiamente em relação ao restante do país, no período pombalino, marcado pela conotação anticlerical.
A presença do imigrante alemão protestante, agenciado entre 1824-30 sob as promessas (inconstitucionais) de pronta cidadania brasileira e liberdade religiosa, trouxe uma nova realidade ao país, que teve de ser equacionada dentro da perspectiva de trabalhador livre que era. Assim, durante o Império tolerou-se a prática da religião evangélica, desde que não em construções com configuração exterior de templo (torre). Pastores registraram casamentos, batizados e óbitos, que no entanto não tiveram validade oficial no decorrer do Império. A República separou igreja e Estado, introduziu o casamento civil e eliminou o problema.
O italiano e o polonês professavam o catolicismo, estando em consonância com a religião oficial do Império brasileiro. Sua dificuldade maior residiu na falta inicial de padres que os atendessem em suas necessidades espirituais. O italiano instituiu a figura do prete, o "padre leigo" que fazia as rezas dominicais e encomendava os defuntos. A carência persistiu até a chegada, no final do século XIX, de freis capuchinhos, que passaram a atender o complexo migratório localizado na Serra sul-rio-grandense e logo expandido para as encostas do rio Uruguai, ao lado das outras etnias imigratórias e migratórias.
O polonês veio desassistido de padres e sentiu-se perdido, pois é por tradição católico fervoroso. Atendidos por capuchinhos italianos, que não falavam sua língua, não raro cabia ao professor, elemento da comunidade, dirigir as rezas dominicais. A chegada do primeiro padre polonês, Martinho Modrzejewski, é de 1892. A partir de então surgiram igrejas pelas picadas e vilas, construídas em madeira ou pedra, com o auxílio da comunidade, que trabalhava no sistema de mutirão.
Se nos atermos ao aspecto folclórico da religião, pode-se observar que o luso veio temente a Deus, mas não ao padre e comemorava com religiosidade popular as festas de Divino, de S. Antônio casamenteiro, S. João e S. Pedro. O alemão era assíduo freqüentador da igreja enquanto mantinha cerradas diferenças entre católicos e protestantes, alimentadas pela intolerância de padres e pastores. O italiano não se constrangia em blasfemar a Deus e aos santos, embora também fosse assíduo freqüentador da igreja. E o polonês, de pouca cultura e bastante fervor religioso, trouxe consigo a devoção de N. Sra. de Monte Claro, patrona da Polônia desde 1300. Quer nas capelas-escola, como nas igrejinhas de madeira erguidas após a chegada dos padres, quer no reduto dos lares, a imagem de N. Sra. de Monte Claro estava presente, reverenciada com rezas e com a lamparina acena.
7. Escola x preparo profissional. Latifúndio é sinônimo de população rarefeita, o que dificulta ou inviabiliza a instituição escolar. O latifundiário por vezes contratava professor particular para o ensino de seus filhos que, sem problemas econômicos, podiam ser encaminhados ao estudo no centro urbano. O restante de população rural lusa permanecia analfabeta.
O alemão trouxe da Europa o consenso de obrigatoriedade escolar para seus filhos. Assim que uma Picada se desenvolvia de alguma maneira, construíam em mutirão o prédio escolar, escolhiam e pagavam o mais preparado dentre eles para as funções de mestre. Vale lembrar a destreza desses professores que logravam, em uma escola unidocente, ensinar ao mesmo tempo a crianças de três a cinco adiantamentos escolares. A essa escolaridade seguia-se o aprendizado de uma profissão, para o que o adolescente era colocado na oficina do pai, do tio, do padrinho ou de algum vizinho. A partir do último quartel do séc. XIX desenvolveram-se as escolas comunitárias, com apoio da igreja e formação do professorado.
O italiano delegou a questão de escolaridade às ordens religiosas, que vieram suprir a lacuna. Contava o falecido Ir. José Otão, Reitor de PUC/RS, que em Garibaldi, sua terra, certo pai foi fazer uma proposta bem elaborada à professora engajada na campanha por necessidade de estudo. Dizia ele:
- Professora, tenho dois filhos. Todo o dia lhe mando um, assim eu tenho sempre um para me ajudar a trabalhar e a senhora tem um para ensinar!
O polonês, passando grandes privações em sua pátria assolada por dominação político-cultural, veio analfabeto, raramente com curso primário, e assim permaneceu nos primeiros tempos no Rio Grande do Sul, já que nem ele tinha condições de gerir o atendimento cultural das crianças, nem o governo brasileiro se encarregava dessa tarefa. Desde a década de 1890 surgem escolas erguidas pela comunidade e tendo como professor, o mais culto dentre eles, mesmo que possuísse apenas curso primário. A seguir, em Guarani das Missões surgiu o Ginásio Wladyslau Reymont, para preparo de professores rurais. O mesmo aconteceu no município de Mal. Mallet, no Paraná. As ordens religiosas trouxeram maior impulso à educação.
A II Guerra Mundial, com sua proibição de uso de língua estrangeira, apressou o aprendizado do português, a língua nacional, efetivando a integração nacional. Nas últimas décadas surgem iniciativas no sentido de oficializar no ensino primário, ao lado da língua nacional, o aprendizado da língua pátria dos imigrantes.
8. Festas. Podiam ser religiosas ou profanas. Entre os lusos, predominavam as primeiras, mas com comemorações populares: festa do Divino Espírito Santo com tríduo, de S. Antônio com promessas ao santo casamenteiro, de S. João e S. Pedro com fogueira, pipoca, amendoim e batata doce. O Natal era com lapinha e os presentes entregues em 6 de janeiro, dia em que era comemorado o "Terno de Reis". Bailes ou saraus familiares eram raros e precisavam do beneplácito do chefe da família. Os rapazes convidados eram candidatos a futuros genros. O viajante Saint-Hilaire assistiu a um baile em Porto Alegre, em 1820, com a presença de 30-40 pessoas, todas familiares ou amigos entre si. Na ocasião
As mulheres vestiam com simplicidade e decência. Dançavam valsas, contradanças e bailados espanhóis; algumas senhoras tocavam piano, outras cantavam (...) acompanhadas ao violão e o sarau terminou em jogos de salão (Saint-Hilaire, 40).
O imigrante alemão trouxe uma série de festas religioso-mundanas: Natal com presépio e o verde pinheiro transplantado em lata com areia e água, para maior durabilidade, sendo enfeitado à tarde de 24 de dezembro (enquanto as crianças eram distraídas), com cintilantes bolas de vidro e alvos flocos de algodão lembrando a neve da Europa que deixaram. Em 31 de dezembro, em Montenegro, Três Coqueiros (Carazinho), Venâncio Aires e outras localidades, um grupo de membros da comunidade percorria os lares para as "Felicitações de Ano Novo", declamando poesias alegóricas, cantando e confraternizando com os moradores. Na Páscoa havia o ninho com ovos recheados de amendoim doce, além da pascoela, feriado escolar. Também a 2a feira de Pentecostes dava feriado no esticado ano letivo de apenas 15 dias de férias anuais, por ocasião do Natal. O kerb, em homenagem ao padroeiro da igreja, ou da inauguração da mesma, rendia três dias de festa, começando na igreja, comilança na casa, onde se reuniam os parentes vindos de longe, durante o dia. À noite o baile na sociedade contava com a afluência de toda a população local. O dono do salão dispunha de um quarto com cama, onde eram reclinadas as crianças pequenas que adormeciam no decorrer do baile, que iniciava com a marselhesa e não economizava em valsas. Mais recentemente importou-se da Bavária o Oktoberfest, festa de outubro, que envolve crescente turismo em suas comemorações ao longo dos fins de semana de outubro. Blumenau no estado de S. Catarina e S. Cruz do Sul no Rio Grande do Sul, notabilizaram-se por primeiro nessas comemorações, sendo seguidas ano a ano por número crescente de outras comunidades ou clubes sociais que se engajam nas comemorações.
O italiano comemora de maneira especial o santo padroeiro da igreja, com missa festiva pela manhã, seguida ao meio dia de churrasco, demais comes e vinho; a esse almoço seguiam jogos de bocha e de cartas para os homens, enquanto as mulheres se entretinham nos afazeres da cozinha em meio a alegres conversas com amigas e vizinhas. Nas festas de igreja havia "arcos triunfais" feitos com duas folhas de coqueiro amarradas pelo vértice e bandeirolas de papel crepom dependuradas próximo à igreja, sob as quais passava a procissão com o ostensório. No Natal afluíam à missa de galo, com presépio, e foguetes ao encerramento do ofício divino. Também o aniversário das pessoas reunia parentes e amigos, que levavam de presente galinha viva, abatida e transformada em apetitoso brodo.
O polonês comemora o Natal repartindo a hóstia benta em família, e também na igreja ou na sociedade, onde se reuniam. Colocava-se a hóstia sob os pratos, se colasse, era sinal de fartura. Na mesa havia sempre um prato a mais, significando as boas vindas ao conviva ou necessitado que por acaso aparecesse. O pinheiro natalino recebia ornamentos de confecção caseira: estrelinhas, enfeites de papel colorido, ovo feito Papai Noel, correntes de papel dourado. Na Páscoa havia confraternização de alimentos bentos, entre eles o ovo, sinal de nova vida. O rico artesanato de ovos de Páscoa enfeitados, em Curitiba, é atração turística em nossos dias. Os poloneses no Brasil comemoram também o 3 de maio, dia em que, em 1791, a Polônia recebeu sua primeira Constituição, e o 11 de novembro, dia em que, após a II Guerra Mundial, a Polônia recuperou a liberdade da tríplice dominação em que se encontrava há 146 anos.
9. Morada. O status do luso era a extensão da terra, sendo sua morada geralmente exígua e desprovida de conforto. José da Silva Tristeza, que legou seu apelido ao bairro homônimo que já foi alegre balneário, proprietário de terras que hoje compreendem três bairros em Porto Alegre, residia na Vila Assunção em uma casa de 2,5 x 10 m, com cozinha em um puxado anexo e ausência de banheiro. A característica arquitetônica da casa lusa é o estilo barroco, paredes largas feitas de adobe, jardim e poço em pátio interno, gelosias na janela (proibidas em 1821) para não ser devassada da rua e para proteger o elemento feminino de olhares indiscretos.
A casa alemã é construção enxaimel, com vigamentos de madeira de lei a delinear o assoalho, o teto e as aberturas; os espaços vazios entre os vigamentos eram preenchidos com tijolo logo que brotaram as olarias pelas colônias. "Cozinha" (comedouro, despensa e lavatório) e "sala" (rodeada de quartos, sem banheiro) ficaram contíguas; quando o fogão à lenha substituiu a chapa de ferro, distanciando o perigo de incêndio, cozinha e sala foram unidas pelo Zwischenbau, o corredor de ligação; aberto de dois lados, era local arejado, próprio para a sesta no verão. Casa alemã que se prezava devia de ter cortina na janela, jardim à frente, além de horta e pomar próximos.
O italiano construía sua casa num aclive, de modo a obter porão, de temperatura mais amena para guardar comestíveis como salame, lingüiças, leite, vinho, pois prezava a boa mesa. Como no caso do alemão, inicialmente casa e cozinha ficavam separadas.
Depois da choupana provisória, quatro paus fincados no chão, cobertos e fechada com madeira falquejada, a casa do polonês, Dom, continha, justapostas, a cozinha, onde se fazia as refeições, e a casa com os quartos. Era extremamente simples e com ausência quase total de conforto, inicialmente.
10. Ornamentos. Para o luso, o lar é um sacrário, só acessível aos moradores e pessoas chegadas. Poucas peças, pouco conforto, poucos enfeites: algum crucifixo e o oratório com os santos da preferência dos moradores; eventualmente algum pano de parede bordado.
A mulher alemã procurava trazer a casa em ordem e limpa, pois era sinal de cordialidade mostrá-la às visitas. Além dos retratos de família nas paredes, havia a galeria de estampas sacras, com temática moralista e educativa, como o quadro simbolizando o purgatório, do qual N. Sra. procurava elevar o cristão ao céu enquanto o diabo preferia arrastá-lo para as profundezas do inferno. Atrás do fogão e pelas paredes, espalhavam-se os panos de parede, bordados para o enxoval, com máximas da axiologia alemã: Saúda a Deus, entra e traz felicidade para dentro. / Comer e beber mas a Deus não esquecer. / Onde dois corações batem em fidelidade eterna, rosas de amor desabrocham renovadas.
A casa do italiano primava por ter um bom estoque de alimentos, mais apreciados que os ornamentos. Estes constituíam de algum crucifixo e estampas sacras. No quarto de dormir figuravam quadros de S. Antônio, do Sagrado Coração de Jesus e de Maria. Como ornamentos havia também enfeites feitos de "esfregão", um vegetal poroso de multiuso, além de uma gama de trançados elaborados com palha de trigo.
A casa do polonês era despojada de enfeites; quando muito alguma cortina simples na janela. Mas não faltava o símbolo de religiosidade: as imagens de N. Sra. de Monte Claro, do Sagrado Coração de Jesus e do Sagrado Coração de Maria.
11. Alimentação. O luso se alimentava basicamente de carne, feijão preto, farinha de mandioca e alguma verdura. A doceria portuguesa tornou-se famosa e como tal continua em Pelotas, RS, onde se estendeu à mão de obra da imigrante pomerana da colônia de S. Lourenço do Sul.
O alemão adotou o feijão preto, comia carne de porco, arroz, chucrute, batata inglesa preparada no vapor, tudo pouco condimentado e por isso não do agrado geral. Em compensação, tornou-se famoso o "café colonial", com pães, bolos, pão de ló, rocambole, variedade de geléias e schmiers, queijos, nata, käesschmier, biscoitos, café, leite e sucos. Este "café alemão", não trazido pelo imigrante, que veio pobre, mas enriquecido no Brasil, hoje constitui atração turística de gastronomia.
O italiano tem como pratos típicos o galeto (introduzido em Porto Alegre), polenta, massas variadas, queijos, radici, agnolini, tortéi, gróstuli, pizza (sem recheio, envolta em palha e cozida sob a cinza), omelete, feijão vage.
O polonês é adepto de vários tipos de sopas (de beterraba, azedinha, de soro com leite e raiz forte); de bigos, um prato de repolho preparado com diversas carnes; pastel cozido com requeijão, ou repolho ou carne. No Brasil aderiu para o chimarrão, a polenta, o leite. O café não integra a culinária típica e só recentemente tem sido importado no país de origem, a Polônia.
12. Sociedades. O luso cultivou vida em família, restrita ao espaço doméstico. Festas religiosas, além de algum esporádico sarau familiar, eram das poucas oportunidades de cultivo de vida social.
O alemão veio imbuído de espírito associativo. Compensava o trabalho individual ao longo da semana com recreação em grupo aos domingos. Entre a recreação cabe menção aos "bailes da sociedade", seja por ocasião do kerb, seja para coroação de rei e rainha escolhidos em competições esportivas. Na colônia alemã surgiram um leque de sociedades: de canto, leitura, música, teatro, ginástica, tiro-ao-alvo, lanceiros, cavalaria, damas, bolão, futebol, loto. As mais numéricas eram as de canto, sendo o cancioneiro alemão muito usado pelos imigrantes alemães e também pelos imigrantes de origem polonesa que tiveram sobrenome ou cultura desnacionalizados, imigrando como alemães. Para eles a canção ajudou a quebrar arestas, aproximando fronteiras culturais. Como exemplo citamos a canção popular Das Polenkind - A jovem da Polônia:
1. Es war ein Polenstädtchen, / Da war ein schönes Mädchen, / Das war das allerschönste Kind / Das man in Polen find. / "Aber nein, aber nein", sprach sie, / "ich küsse nie!" Em uma cidadezinha da Polônia / Havia uma jovem bonita, / Era a jovem mais bela / Que havia na Polônia. / "Mas não, mas não", dizia ela, / "Eu nunca beijo!"
2. Ich führte sie zum Tanze, / Da fiel aus ihrem Kranze / Ein Röslein rot. / Ich hob es auf von ihrem Fuss, Bat sie um einen Kuss. / "Aber nein, aber nein", sprach sie, / "Ich küsse nie!"/ Eu a conduzi à dança / Quando caiu de seu diadema / Uma rosinha vermelha. / Ergui-a de junto a seus pés / E pedi-lhe um beijo: / "Mas não, mas não", dizia ela, / "Eu nunca beijo!"
3. Und als der Tanz endete, / Reichte sie mir ihre Hände: / "Leb wohl, du stolzer Kavalier, / Kriegst doch kein Kuss von mir, / Vergiss, vergiss mein nicht, / Das Polenkind." E quando a dança findou / Ela estendeu-me ambas as mãos: / "Viva bem, oh garboso cavaleiro, / Não te darei um beijo. / Oh não esqueças / a jovem da Polônia." (Flores, 1983, 216-17).
O italiano divertia-se nas festas religiosas e nos "filós" familiares, encontro de várias famílias, à noite, para conversar, contar piadas, beber vinho, enquanto os homens praticavam jogo de carta ou mora, jogado com três dedos da mão, e as mulheres se dedicavam a trabalhos manuais.
O polonês sempre agrupou-se em torno da capela. Desde a década de 1890 surgiram sociedades como a Wladyslau Jagiello, em Porto Alegre, que visou agregar e dar assistência a seus membros. A Sociedade Polônia, nascida em 1896, também em Porto Alegre (rua S. Pedro, esquina Pernambuco), nasceu da afluência de operários, numerosos nos bairros S. João e Navegantes, onde se insere. Hoje funciona com cursos de polonês, coro, danças folclóricas e recreação em geral. Havia também a Sociedade Águia Branca, Orzel Bialy, que manteve escola e cultivou coro, orquestra e ballet. Na década de 1960 fundiu-se com a anterior.
13. Conclusão. Da breve exposição acima, vê-se que no Brasil os vários grupos étnicos desenvolveram modos e peculiaridades próprias na maneira de expressar seus valores existenciais, sua maneira de pensar e agir, de morar, de se posicionar perante Deus, de equacionar problemas vitais como estudo dos filhos e convivência em sociedade. Essa polaridade de manifestações deve-se ao fato dos diferentes grupos étnicos terem vivido por décadas em comunidades fechadas, praticando valores próprios, de maneira a estruturar uma biotipologia etno-cultural que se impõe em suas peculiaridades.
O governo, embasado na grande extensão territorial do país, não providenciou ou não pôde providenciar meios de comunicação (estradas e escolas) que garantissem a integração étnica dos diferentes grupos étnicos. Hoje - por conta da nacionalização forçada durante a II Guerra Mundial e por conta dos posteriores e múltiplos meios de comunicação social - a comunidade brasileira apresenta, a par da unidade nacional, um rico e variado painel antropológico com suas expressões características, que constituem elemento de valorização cultural e significam fator de efetiva atração turística.
Da soma dessas fronteiras etno-culturais legada pelos ancestrais, resultou uma gama de valores culturais que hoje representam grande riqueza, que deve ser encarada como real potencialidade de desenvolvimento sócio-econômico-cultural do país, e do qual o turismo tem procurado se valer em sua missão de integração e congraçamento dos povos.
Bibliografia
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SAINT-HILAIRE, Auguste. Viagens ao Sul do Brasil. Trad. de Adroaldo Mesquita da Costa. Porto Alegre: Martins, 1987.
STAWINSKI, Alberto Victor. Primórdios da imigração polonesa no Rio Grande do Sul: 1875-1975. Porto Alegre: EST/Caxias do Sul: UCS, 1976
WONSOWSKI, João Ladislau. Nos peraus do rio das Antas. Porto Alegre: EST/Caxias do Sul: UCS, 1976
Entrevista com Janina FIGURSKI, 83 anos, bibliotecária e assessora cultural da Sociedade Polônia, Porto Alegre, Rio Grande do Sul.
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http://www.aol.com.br/trans/saga Saga dos poloneses (Causas da emigração, Imigração no Brasil, Tradição) |