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Fundamentalismo |
Urbano Zilles |
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FUNDAMENTALISMO ISLÂMICO
Desde algum tempo a palavra “fundamentalismo” tornou-se de uso comum em todos os campos da vida social, política, cultural e religiosa. As mudanças dramáticas no Irã, através da revolução islâmica na década de 1988, chamaram a atenção da opinião pública mundial para o fenômeno chamado “fundamentalismo”. Este fenômeno, todavia, transcende os limites da religião islâmica. Hoje também se manifesta certo fundamentalismo religioso em grupos judaicos através da influência massiva de ultraortodoxos sobre a vida do Estado em Israel. No Cristianismo constituem-se forças que reivindicam a verdade exclusiva para uma interpretação literal da Bíblia, rejeitando como heresia qualquer tolerância no campo da fé em relação ao pluralismo religioso de nosso mundo. O fundamentalismo islâmico chocou o mundo em 1988 em torno do livro Os versos satânicos do escritor britânico Salman Rushdie, de origem islâmica. O aiatolá Khomeini ordenou a morte do escritor inculpando-o de blasfêmia contra Deus por que em seu romance supostamente teria desonrado o nome do profeta. Naquele momento o governo do Irã tentava recuperar sua posição de liderança no mundo árabe para superar a derrota militar sofrida contra o Iraque. A Grã-Bretanha não aceitou a condenação de um de seus cidadãos, nem poderia aceitar a interferência de um aiatolá em assuntos internos de seu país. Mas movimentos islâmicos assumiram a causa. Khomeini, antes de sua morte, tentou instigar grupos islâmicos nos países europeus, convocando-os à violência. Por isso o terrorismo passou a ser associado ao fundamentalismo. O caso Rushdie representa um caso típico do fundamentalismo islâmico. Como os ocidentais rejeitaram a condenação de Rushdie à morte, são acusados de ignorarem o Islã e ofendê-lo por tomarem a defesa de alguém que blasfemou contra Deus. No fundo manifesta-se uma rejeição do Ocidente pelo Islamismo, além de interesses políticos em jogo. Entretanto, no caso Rushdie, também se trata de uma discussão da religião islâmica sobre seus fundamentos. O Islamismo sente-se atacado em seus próprios fundamentos. E isso sobretudo quando o escritor, em seus Versos satânicos, ataca a origem do Corão, sua Sagrada Escritura e a pessoa do profeta Maomé. Ora, no Islamismo identifica-se Religião e Estado. Quando Maomé se transferiu de Meca para Medina recorreu a meios militares. Nesta época, Maomé diz que quem realiza o Islã, realiza a vontade de Deus. A vitória sobre Meca transformou o Islã numa religião da lei, fixada no Corão. Desde o século X, tendências fundamentalistas querem retomar o ideal da origem para superar crises. Nesse contexto, grupos radicais chegam a apelar à guerra santa para implantar o Islamismo neste mundo com a promessa de garantir o céu.
FUNDAMENTALISMO RELIGIOSO
O conceito de fundamentalismo para movimentos radicais é recente. Surgiu, historicamente, como uma variante norteamericana na teologia protestante dos séculos XIX e XX, interpretando a secularização e a modernidade como fenômeno de decadência, pela qual responsabilizou o darwinismo e o pensamento científico. Como movimento religioso, admite apenas o sentido literal da Sagrada Escritura. Os fundamentalistas fecham-se contra a abertura geral do pensamento, da ação e das formas de vida, numa atitude defensiva, buscando certeza absoluta em alguns fundamentos da tradição. Depois o conceito de fundamentalismo foi estendido a outras religiões e a outros fenômenos na sociedade, na ciência e na política, dos quais não trataremos aqui. A religião, por natureza, presta-se ao fundamentalismo, pois propõe sentido para a vida humana. Quem encontrou resposta para a pergunta sobre o sentido da vida está convencido de que tal vale definitivamente. Os membros de uma comunidade religiosa estão convencidos de que sua religião é a mais válida. Por isso muitas vezes tornam-se incapazes de dialogar com pessoas que têm outras convicções, tentando impor-lhes suas próprias. Podem, então surgir movimentos radicais dentro das grandes religiões, que chamamos fundamentalistas. Designa-se, por exemplo, fundamentalismo um movimento para a re-islamização dentro do Islamismo, que começou no Irã sob o aiatolá Khomeini, alastrando-se para outros países árabes. Quando, no Ocidente, já se acreditava em certa liberalização (modernização) do Islamismo, houve uma reação política radical entre os shiitas do Irã e alguns sunitas no Sudão e no Paquistão. O que caracteriza esse fundamentalismo é a politização da religião, associada ao fanatismo, com o objetivo de construir a cidade de Deus islâmica aqui na terra. Para isso, restabelece a ordem jurídica tradicional da sharia através de uma interpretação literal do Corão, que na maioria dos países árabes leva a uma rejeição radical de toda a influência ocidental, sobretudo dos Estados Unidos. O liberalismo ocidental passa, então, a ser visto como sinônimo de satanás. Depois do dia 11 de setembro de 2001, quando aviões foram jogados intencionalmente contra as duas torres do centro financeiro em Nova York e contra o Pentágono em Washington, esses atos terroristas logo foram atribuídos a fundamentalistas islâmicos liderados por Osama Bin Laden. Coisa semelhante ocorreu nos atos terroristas de 11 de março de 2004 em Madri. Seria equivocado generalizar tal fundamentalismo para o Islã como um todo. Os teólogos islâmicos ocupam-se com as fontes ou os fundamentos de sua religião, ou seja, com o corão e a sunna. Isso, entretanto, não os impede de ter abertura para outras religiões, outras culturas e a evolução da tecnociência. Por isso não cabe identificar, simplesmente, todos os muçulmanos como pertencentes a grupos e partidos políticos radicais como o liderado por Osama Bin Laden, dispostos a todo o tipo de terrorismo. Até certo ponto, embora preocupante, trata-se de um fenômeno de periferia do Islamismo como religião. Mas fenômenos fundamentalistas semelhantes também encontramos no Judaísmo e no próprio Cristianismo. Os fundamentalistas cristãos esquecem a advertência de S. Pedro de que devem “saber dar as razões de sua fé” a quem solicita (1Pd 3,15). |
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