Qual o futuro do passado
diante da globalização?

Rovílio Costa

 

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O termo global equivale a total e integral. McLuhan considera o mundo uma aldeia global.

"Globalização é o conjunto de transformações na ordem política e econômica mundial, que vêm acontecendo nas últimas décadas. O ponto central da mudança é a integração dos mercados numa aldeia global, explorada pelas grandes corporações transnacionais. Os estados abandonam gradativamente as barreiras tarifárias que
existiam para proteger sua produção da concorrência dos produtos estrangeiros e abrem-se ao comércio e ao capital internacional. Este processo tem sido acompanhado de uma intensa revolução nas tecnologias de informação – telefones, computadores e televisão" (Almanaque Abril, São Paulo, 1997, p. 396).

Basta, como exemplo, citar o fato de que, em 1960, um cabo de telefone intercontinental conseguia transmitir 138 conversas ao mesmo tempo. Hoje, com os cabos de fibra óptica, esse número sobe para 1,5 milhão. A ligação telefônica internacional de três minutos que custava cerca de 200 dólares, hoje custa apenas dois.

Não cabe discutir a globalização em sentido político e econômico, e sim em sentido antropológico e histórico, diante da pergunta assim elaborada:

Qual o futuro do passado diante da globalização?

A palavra passado indica o que passou, o tempo pretérito, o anterior, o findo... O mês, o ano, o século, o milênio passados. Em nenhum momento o passado significa inexistência. Pode o passado parecer sem vida, sem peso, sem significado ou sem influência.

Os antepassados são passados, porque morreram, mas suas presenças continuam vivas em nossas existências. Mortui adhuc loquuntur, segundo o dito latino. Os mortos continuam falando.

Passaram os antepassados, ou passaram apenas sua presença física e/ou suas ações materiais? A notícia de falecimento de um ente querido eles a levavam a pé, a cavalo, de charrete... e nós utilizamos o automóvel, o telefone... A morte, contudo, não passou; ela continua viva. O cavalo não passou, a necessidade de comunicar não passou. O caminhar não passou. A charrete esteja talvez repousando num museu, ou posando em vetusta fotografia.

Quanto mais perto do homem como ser, mais percebemos que nada se perde. Quanto mais perto do homem como fazer, mais percebemos que as coisas gradualmente se modificam, assumem novas formas, incorporando ou não as anteriores. Não tivesse existido a máquina datilográfica, existiria o computador?

Bem poderia ter sido inventado o computador antes da máquina datilográfica, ambos com o fim prático de registrar pensamentos e sentimentos mediante palavras. Se posterior, a máquina datilográfica provavelmente teria maiores semelhanças ao computador, seria uma tentativa de ultrapassá-lo e substituí-lo; do contrário nasceria sem mercado, porque o espaço que ela ainda ocupa hoje estaria ocupado pelo computador.

A globalização política e econômica é uma simplificação e generalização das relações humanas, que contemplam principalmente o fazer atual do homem. A maioria não participa desta globalização, senão como consumidor ou como objeto de manipulação e exploração.

Mas a manipulação dos semelhantes não está em relação à globalização ou ao poder econômico e político, e sim em relação à natureza do próprio ser do homem.

Deus, ao criar o ser humano, deu-lhe um destino de comunhão, de partilha, de globalização de tudo o que o universo possuía como obra recém-saída de suas mãos. "Façamos o homem à nossa imagem e semelhança. Que ele reine sobre os peixes do mar, sobre os pássaros do céu, sobre os animais domésticos, e sobre toda a terra, sobre todos os répteis que se arrastam sobre a terra" (Gn 1, 26).

Deus tornou o homem participante de seu próprio ser, dando-lhe uma existência, baseada na inteligência e na liberdade. Deu-lhe como destino a participação na construção da própria felicidade, através de sua ação concreta no mundo criado.

É global a criação e é global o destino do homem na criação. O fazer do homem é que vai definir os caminhos percorridos na busca da própria felicidade.

E lá se vai o homem, ensaiando sua liberdade. Eva partilha a maçã com Adão. Caim mata Abel. Moisés recebe de Deus um instrumento que garante ao homem o caminho global da comunhão, os mandamentos.

O mesmo homem do passado, o mesmo Adão, a mesma Eva, o mesmo Caim continuam presentes na ação humana, porque o homem continua o mesmo ser inteligente e livre.

Afirmar que o homem é perfeito porque feito à imagem e semelhança de Deus é o mesmo que dizer que o homem é perfeito, porque é originariamente imperfeito. Portanto faz parte da perfeição humana sua imperfeição e incompletude originárias. O desconhecer e o conhecer, o desconhecer-se e o conhecer-se a si mesmo fazem parte natural da história humana.

Imaginar um homem perfeito, na sua condição de criatura, seria imaginar o inimaginável, ou o já preenchido e completo, o parado e estático, o amorfo ou mumificado de um equivocado museu do futuro, que seria o museu dos vestígios históricos da globalização político-econômica: aquela, expressa em teorias que o tempo desautorizou, e esta, expressa em materiais que foram engodo para a alienação temporária da própria liberdade.

O homem perfeito na imperfeição é o homem da dúvida, da indagação, da autocrítica, do respeito a si mesmo, ao mundo e aos seus semelhantes de ontem, de hoje e de amanhã.

O homem perfeito na imperfeição é o homem agitado, inquieto, dinâmico... que tem a certeza de poder encontrar resposta a si mesmo, à medida em que se entende como coadjuvante na construção da própria felicidade, à medida em que a constrói para os semelhantes de forma global e universal.

É esta a previsão daquele que teve as dúvidas do homem, as angústias do homem, os temores do homem, as limitações do homem e, ao mesmo tempo, acolheu, em nome dos homens, o destino feliz de toda a humanidade. É o Cristo, Homem e Messias, que proclama: "Que todos sejam um, como Eu e Tu, Pai, somos um" (Jo 17, 11). É este o verdadeiro global. A luta pela unidade humana está acima e além da globalização socioeconômica e política e faz parte natural do destino da natureza humana como criada. As tentativas de acertos e erros na busca da globalização também fazem parte do mesmo destino.

Mas a felicidade global pela unidade há que ser construída. Cristo, como vida e palavra de Deus que se faz presente em todos os homens, dá uma ordem definitiva de felicidade pela globalização do ser e pela mudança do fazer. Depois de censurar a incredulidade e dureza do coração de seus contemporâneos, a necessidade de a humanidade mudar seu proceder, diz aos seus seguidores: "Ide por todo o mundo e pregai o Evangelho a toda a criatura. Quem crer e for batizado será salvo", será feliz (Mc 16, 14-15).

Na sua perfeição pela imperfeição, o homem sempre foi em busca do global, da unidade, tentando os mais diversos caminhos. Tribos, povos, etnias, impérios, países, nações em contínuas guerras para ampliar sua proposta de vida, seu modo de fazer, sua presença global, e nada resolveu. Aliás, o contrário é o que acontece. À medida que avança o global socioeconômico e político, a maior parte das experiências humanas conquista sua emancipação, às vezes na forma dura da repressão e da guerra.

Portanto o global meramente econômico e político é vazio e fátuo, porque contempla aspectos fracionários do fazer humano que não correspondem à totalidade de ser.

Quanto mais o mundo avança no sentido da globalização político-econômica mais se firmam os valores da história, a preocupação com a identidade pessoal e social de pessoas, grupos, comunidades e etnias. Sempre mais o pessoal, o familiar e o local tomam espaços na cultura dos povos.

A primeira grande reação começa a surgir em favor dos elementos mais fracos e vulneráveis de um todo cultural. O sonho, por exemplo, de uma globalização lingüística, há décadas tentada com o Esperanto, mais criou anticorpos que afirmação. Desde 1954, a União Latina no Mundo, englobando 34 países de falas latinas, está a campo para não perder uma só palavra da latinidade. A Itália acaba de reconhecer constitucionais 18 idiomas minoritários. A Alemanha, 51% no Oeste e 48% no Leste, reconhece as línguas regionais. A União Européia, em sua Carta de 1992, reconhece todos os dialetos e deseja que se tornem línguas oficiais. Na França são falados e reconhecidos em suas regiões 72 idiomas, não obstante a repressão do Governo Central de Jacques Chirac.

Estudiosos do fenômeno lingüístico, reunidos em Haia em maio de 1999, concluem que 90% dos idiomas orais da Ásia, África e América desaparecerão dentro de cem anos, se não se firmarem as culturas locais na base lingüísticas que as traduzem. Entre as vítimas estariam o Creole, o Crioulo (Caribe), o Curdo (falado por 25 milhões na Turquia, no Iraque, no Irã e na Síria) e o Berbere, do norte da África.

Olhando apenas para o fato lingüístico, vemos como a humanidade, quanto mais se globaliza, mais se personaliza em termos de culturas minoritárias.

O global econômico diretamente quebra fronteiras materiais entre países, globaliza aspectos do fazer humano, mas indiretamente põe em contato pessoas, culturas, utopias diferentes. Para a globalização econômica, um rombo nacional, uma guerra, uma crise são prejudiciais. E isso vem em favor da globalização das experiências de ser. Ou será que os 18 mil restaurantes McDonald’s, presentes em 91 países, terão o poder de eliminar o fascínio das diferentes culturas e filosofias culinárias?

A História do passado ou o passado da história proporcionam um encontro com a vida humana no que ela tem de mais consistente. Os fatos e acontecimentos de que somos participantes no presente não os percebemos senão por partes, sem a tessitura lógica do seu desenrolar. A análise do passado proporciona condições de penetrar na lógica da história, como se o tempo percorrido fosse uma construção equilibrada e harmônica. Ver a lógica do tempo da humanidade, em seus acertos e erros é base de escolhas a fazer.

Nestes dez anos em que nos debruçamos sobre a história do município-mãe, Santo Antônio da Patrulha, e dos 73 municípios originários, não fomos à cata de coisas mortas, mas à busca das maneiras como viveu o homem no contexto da natureza. Vivos remanescem tanto os avanços quanto os recuos, mas enriquecidos pela comprovação do tempo. Hoje nos é possível, por exemplo, imaginar como seria o originário Veranópolis, se a ponte sobre o Rio das Antas tivesse sido construída duas décadas antes. Também pode-se avaliar a importância de Antônio Prado não ter sido pressionado por um desenvolvimento compulsivo. Devido ao isolamento em que ficou por precariedade de rodovia, não se tornou rapidamente pólo urbano de grande atração comercial, e seus hábitos e costumes fluíram ao natural. O casario urbano típico do momento de afirmação da imigração italiana na localidade é, hoje, a expressão de uma forma de pensar a convivência humana no espaço urbano e domiciliar.

O originário Veranópolis está promovendo atividades de promoção da qualidade de vida baseada em costumes alimentares, de trabalho, de cultivo pessoal, de relacionamento, de fé na história viva do passado.

Uma hipótese do presente para o futuro será uma hipótese a ser comprovada, enquanto uma hipótese lançada sobre o passado possibilita novos rumos da vida e da história de pessoas e grupos.

Ter identidade frente ao fascínio ilusório do global político e econômico não é isolar-se, negar-se a participar de mudanças de toda a ordem, mas participar em tudo com o vigor da própria herança cultural.

A globalização não quer pessoas e instituições com nome, com identidade, com propostas, porque, para seus ideais, são ideais as pessoas sem consistência, sem história, sem cultura, sem crença e sem princípios.

O princípio da globalização econômica é fazer do homem não um ser racional e livre, mas um ser consumidor e dependente.

É inimaginável a identidade social baseada em limites físicos, em dependências colonialistas, pois a cultura é cada vez mais planetária.

A globalização se baseia na perfeição pela exclusão do diferente e promoção do semelhante. O diferente incomoda e atesta logo os vazios da igualdade, pois o homem é essencialmente criativo. A bota artesanal do gaúcho, por exemplo, não interessa a uma empresa que fabrica ou comercializa calçados iguais para todos.

O homem dependente da globalização econômica é um consumidor que perdeu o sentido de sua história, por isso se sujeita ingenuamente a quaisquer propostas externas. Tudo tem valor, menos o que é seu.

Globaliza-se para o absurdo quando se abdica da história, da vida, da cultura e da educação familiar e se confia os próprios filhos à escola que, com suas propostas igualitárias em educação e ensino em todo o território nacional, desconhece a diferença cultural de cada um e tenta fazer do aluno, via processo ensino-aprendizagem, um robô cujo produto seja igual de um a outro canto do país.

O aluno torna-se ator num teatro desconhecido, que nunca vivenciou. Precisa
aprender qualquer história, desde que não seja sua própria história familiar, social, religiosa e municipal. Ensina-se-lhe a história de povos primitivos, cujos vestígios imaginários só existem nos livros. Mas não se lhe ensina a história do povo, da etnia, da família a que pertence. A família brasileira, talvez a mais rica do mundo em diversidade cultural, é desconhecida e levada a ridículo pela escola, como se o aluno fosse tabula rasa, que nada sabe e poderá, se se adaptar aos arbítrios da escola, produzir alguma coisa, senão seu destino será a reprovação. Se este não for o destino, entrará em novo processo de despersonalização num vestibular onde sua experiência cultural familiar ficará de todo desconhecida e invalidada.

Em dez anos de Raízes, aprendemos a valorizar nossa história como caminho próprio à integração com outras expressões culturais. Sem nos encastelarmos como donos da verdade, buscamos a verdadeira globalização com nossa forma própria de vida, amizade, fé e trabalho.

Sem os dez anos de Raízes, nossos municípios seguramente apresentariam outra forma de realidade sociocultural, econômica, religiosa e política. Seria outra a consciência de pertença a uma história peculiar.

Trabalhar a identidade municipal é trabalhar o pessoal dentro do global, sem desconhecê-lo, não o assumindo cegamente, mas com a consciência de que o que é nosso, como forma de ser e fazer, é único e exclusivo; portanto, é patrimônio de toda a humanidade e, como tal, deve ser preservado e comunicado.

O econômico, para a identidade municipal, é apenas uma das embalagens do sentimento, do afeto e da sua viva cultura.

O sociólogo Michel Maffesoli, diretor do centro de pesquisa, na Sorbonne, que estuda o fenômeno da Internet e a formação de tribos urbanas (legião da música, legião religiosa, legião esportiva, legião sexual), reconhece a força mundial da rede de computadores e a expansão global da economia, mas prefere duvidar do fenômeno da globalização. "Posso dizer que a globalização é uma grande mentira. Não existe como fenômeno homogêneo econômico nem cultural. Ao mesmo tempo em que as práticas econômicas se disseminam num plano mundial, numa generalização, há uma reafirmação do que é particular. É um paradoxo. Existe evidentemente a tendência à formação de blocos de modelo imperial na Europa, na América do Norte, na América do Sul, na Ásia. Funciona como circulação de bens e de pessoas. Por outro lado, existe a reação da reafirmação nacional e local. E isto requer uma redefinição nacional, localista. Uma redefinição de nação. Não sei no Brasil, mas na Europa há uma fragmentação. A nação não é francesa. É corsa, por exemplo. Não se trata, portanto, de um projeto convencional de nação. Refere-se a uma comunidade que partilha o mesmo idioma, os mesmos costumes, a mesma cultura, a mesma origem étnica."

Diante da existência, no Brasil, de bolsões culturais bem delimitados, até com diversidades idiomáticas, não se registrando nenhum movimento separatista com a força de um separatismo corso, por exemplo, enfatiza Maffesoli: "Talvez se deva ao fato de existir no Brasil a facilidade de cada um ser o que é. De o baiano ser baiano, de o gaúcho ser gaúcho. Não se defrontam aqui com o jacobinismo francês, que defende a homogeneização da comunidade. Não existe a pressão em favor da uniformização, como na Europa... Por isso, onde existe uma imposição, a reação é forte" (Michel Maffesoli, em "Fragmentado mundo global", Zero Hora, Caderno Cultura, 9-10-1999, p. 3).

Nestes dez anos de Raízes, promovemos a beleza de sermos raízes-patrulhenses, cada um com sua fala, com sua vestimenta, com sua bandeira, com sua mesa, com sua escola, com sua igreja..., enfim com seus costumes e tradições.

Se pensarmos sob o aspecto global e econômico, a rapadura, o sonho, a cana-de-açúcar, o vinho, o charque, o queijo, a aguardente, o doce, o salgado e outros produtos próprios dos 74 municípios só teriam força competitiva e exclusiva à medida que viessem a ser uma grande produção que chegasse a todos os recantos do mundo, convencendo a maioria a consumir esses produtos como os melhores e, depois de eliminados os demais, como os únicos.

O mesmo sucesso dos produtos econômicos seria nossos sucessos como cultura, ou seja, seríamos apenas um produto material provisório e logo mais descartável, quando superado por outro com as mesmas ou melhores características.

Diferente será se pensarmos a pessoa com sua história, e fizermos da história da pessoa a história do município. Nada é mais perene que o ser humano. Portanto, nosso maior produto é sermos raízes-patrulhenses, não coisas, nem objetos, nem receitas...

A rapadura, por exemplo, passando da produção direta da pessoa em família ou em grupo para a produção global da fábrica perderia suas características originais de interpersonalidade, de interculturalidade patrulhense, e em pouco tempo transformar-se-ia em fria receita que iria perdendo suas raízes e até seu mercado em curto espaço de tempo.

Antes da rapadura está a natureza, o homem que a imaginou e gerou, com seu modo de ser, de pensar, de crer e de fazer. Condições para este modo de ser e fazer humano serem indicadores de uma forma humana de viver é o que vai fazer o caminho inverso ao da globalização. Em vez de um produto sair daqui para o mundo, eliminando os demais, é o mundo que, de todos os quadrantes, virá enriquecer-se em contato com a forma de vida do homem do quadrante patrulhense.

A identidade municipal será sempre, no contexto de globalidade, uma expressão minoritária em extensão, mas não em força de atração, sem a pretensão de se sobrepor aos demais, mas de atraí-los para um contexto próprio de vida e experiência de felicidade.

Importante é o fazer porque expressão do ser. Importante é o ser como forma específica de viver. Palavras, danças, canções, histórias, estórias, poemas, símbolos, instrumentos, estradas, rios, pontes, mares, terras, tudo enfim no quadrante patrulhense contribui como manutenção de identidade polarizadora e não invasora ou dominadora. Polarizadora porque o mundo espontaneamente irá fazendo as descobertas de formas e utopias de vida, próprias de nossos municípios. Temos vocação é de hospedar e não de dominar. Hospedamos em nosso território representantes de todos os continentes, por isso temos a obrigação de propiciar que todos os continentes venham para cá à busca do traço de identidade que lhes falta.

Dificilmente alguém de Munique, de Lisboa, de Londres, de Paris, de Roma... viria a Santo Antônio da Patrulha unicamente para comer rapaduras ou sonhos... Mas desses e de outros lugares serão atraídas pessoas interessadas em nossas formas e qualidades de viver singulares e únicas. Até, ficando neste exemplo, de Lisboa seria mais fácil alguém entender que, à sombra de rapaduras e sonhos viceja uma típica forma de vida, porque se trata de experiências culturais afins.

Para evitar delongas, considero o questionamento da globalização um questionamento de educação, que precisa ser politicamente tratado. Construir escolas e pagar professores achando que se fez educação é um engano. É delegar uma responsabilidade a alguns, encarregando-os de formar o cidadão que desejamos. Quem educa não é uma escola, onde alguém de cada família vai estudar, mas todas as pessoas, todas as famílias e todo o município. Porque temos escolas e professores como encarregados de ensinar o que vem imposto de fora, vamos perdendo os valores básicos de nossa identidade. E concluiria assim:

Nenhum município proteja seu produto como o melhor, mas como singular e
único.
O melhor de hoje poderá não sê-lo amanhã. O melhor é apenas uma peculiaridade do igual, cujo valor está à mercê de confrontos e comparações. Mas o singular e único não depende de confrontos e comparações, não precisa dominar, não precisa invadir o mundo para se afirmar, porque o ser único e exclusivo corresponde a uma contribuição única e exclusiva da própria identidade de ser raiz-patrulhense para o mundo planetário.

A globalização que sonhamos resulta da capacidade de interação humana, de comunicação de experiências únicas de vida, que são as do quadrante patrulhense, que impedem a pessoa de ser tão descartável como o objeto hoje proclamado melhor e, amanhã, superado por outro um pouco melhor.

Mas a grande e única pergunta, sem resposta à qual seremos produtos humanos tão descartáveis como nossos produtos materiais, é esta: O que é, mesmo, ser brasileiro? E dentro do brasileiro, ser gaúcho, e dentro do gaúcho, ser raiz-patrulhense?

Essa pergunta demanda a uma outra: Como a educação, a política, a religião, a economia, o comércio, o esporte, a cada dia, contribuem para identificar e promover, de fato, a identidade da pessoa do quadrante patrulhense?

Se a nossa política, educação e religião visarem apenas ao produto econômico, já estamos superados e vencidos pela globalização econômica.

A pessoa é nosso fulcro, nossa base, nossa proposta e nosso grande e único produto de que o mundo necessita que globalizemos para ficar mais rico e firmar sua identidade como universo humano e cristão.

Em dez anos de Raízes Patrulhenses, com seus três pólos típicos que marcaram a região e suas sub-regiões (Santo Antônio da Patrulha, Vacaria e Lagoa Vermelha), com seus desmembramentos, como historiadores, professores e educadores colocamos em evidência origens históricas, experiências culturais, religiosas, econômicas, políticas e sociais. Despertamos para a consciência real e crítica do processo ensino-aprendizagem na abordagem do ontem e do hoje de nossas origens comuns, diagnosticando melhor qualidade de vida pela afirmação da própria identidade.

Mas este é um passo. Pode ser um passo final e último de um homem cansado, prestes a abdicar da luta da vida. Tentando sentir a qualidade de vida que se esconde nestes 190 anos de municipalismo gaúcho, visitando um pequeno município do quadrante patrulhense, na periferia de sua sede deparei-me com alguém "amansando" um palheiro. Parecia um negro, um mulato, um índio, um polaco, um italiano, um português, um alemão... tudo ao mesmo tempo... Tudo ao mesmo tempo, porque é um produto humano típico que se formou exclusivamente no quadrante patrulhense. Um semblante feliz, expressão de tranqüilidade, contemplando seu mundo de globalização, sua multinacional, seus suportes de liberdade e felicidade – em 26 pés de milho e sete pés de couve. Aproximei-me, cumprimentei-o e indaguei:

– Lindos os milhos, patrão.

– É, sabe, chega a época da safra e a gente fica com gana de assá umas espigas na brasa, e í comprá tá caro demais, Então mió é prantá.

– Pois, patrão, e os filhos?

– Os dois filhos que nóis conseguimo criá tão lá na cidade... trabaiando, esses num vêm mais pra casa.

Aqui está o fulcro da questão. Aqui está o caminho por onde atacar o problema, o caminho por onde começar a decisão política. O dia em que os dois velhinhos morrerem, os filhos vão vender o barraco, levar o dinheiro consigo para a dita cidade e encerra-se uma forma típica de vida. Por quê? – Porque a pessoa não foi colocada como centro de todo o processo de formação municipal, cuja base é a pessoa com sua história concreta. Imaginem que sempre mais pessoas vão saindo, porque não têm onde trabalhar, embora tenham terra, casa e implementos de trabalho e tenham vivido décadas nesta realidade. Se isso acontecer, o município vai esvaziar do que é seu, seciona-se em duas categorias, uma de pobres sem capacidade de buscar outro destino, e outra de vencedores que permanecem no município por conveniências econômicas. De sorte que vai existir território municipal, sem munícipes conscientes deste território.

Então, quero dizer aos prefeitos dos 74 municípios que nestes dez anos fizemos o que nos foi possível fazer, mas nós precisamos, agora, de uma urgente decisão política, sob pena de condenarmos à morte nossas tipificações culturais. Tudo pode ser alienado, menos o ser humano. O município é a grande família da qual todos participamos. Se um tiver que sair, abandonar o município para sobreviver, começa aí a morte cultural do município.

Nestes dez anos nós atestamos a riqueza única, no Estado, no Brasil e no mundo de integração étnico-cultural das populações do quadrante patrulhense e de sua harmonia de vida e pensar, com traços comuns e com definições próprias em cada município. Sobejam arte (pintura, teatro, dança, literatura, corais, bandas, medicina, com curandeiros, benzedores, práticos e profissionais voltados para nossa forma cultural de viver; educação, com escolas de todos os níveis; igrejas com todas as denominações; política com todas as ideologias; indústrias nas áreas essenciais; artesanato em todas as direções da criatividade humana; culinária que traduz os 500 anos de nossa história brasileira, sem nada a acrescentar e nada a tirar; culturas agrícolas de todas as expressões; línguas faladas na diferentes formas de português e de linguajares de etnias componentes da realidade... tudo isso é nossa identidade, que usamos quando precisamos dizer quem nós somos.

Celebramos festas de uva, de queijos, de vinhos, de melancias, de bananas, de sonhos, de comidas italianas e outras, de abacaxi, de vinhos e cachaças uma vez aqui, outra ali como algo eventual que apreciamos porque temos saudade, porque nos foi bom e passamos o resto do ano em mesa de McDonald’s!

Desculpem-nos, mas nós não queremos mais, como educadores, historiadores, pesquisadores, artistas... sem qualquer poder decisório, ser médicos de uti, acompanhando o estado final de nossas expressões culturais. Um asfalto para os já globalizados que passam por nossos municípios, rumo a seus destinos de férias e lazer, ou para nos ver como animais de circo, é menos importante do que garantir o proprietário dos 26 pés de milho em seu lote, morando numa casa simples, mas atestando uma qualidade de vida única e exclusiva.

Imagine-se, no campo econômico, por exemplo, que é o mais fácil de trabalhar, que cada município definisse no contexto dos demais um único produto típico que todos os municípios se comprometessem a comercializar, nós teríamos 70 produtos, se forem dois, teríamos 140 produtos e assim por diante. E se passarmos ao artesanato? E se passarmos às expressões artísticas, nossos salões ficarão pequenos, se fizermos circular nossos artistas e grupos artísticos de todas as áreas?

Isso é difícil e impossível sem a decisão política. Então nós estamos pedindo aos poderes municipais executivos, legislativos, judiciários e religiosos a promoção do intercâmbio de tudo aquilo que sai diretamente da mente, do coração e das mãos de nossos munícipes. Que a mão do homem seja a nossa grande fábrica e sua alegria de viver nossa grande utopia.

Não queremos mais trabalhar vestígios vivos de uma história que está morrendo, nem fazer uma prece por história que já morreu, nem sonhar uma história que não seja nossa, mas apostamos na força viva de nossa história comum, a ser promovida e vivida em comum.

Nós nos definimos pela história e identidade de cada um e de todos os municípios, agora porém, esperamos que os municípios façam algo em comum para cada um e para todos os municípios.

Este é o presente do novo milênio que pedimos a nossos municípios – sermos reconhecidos, amados e promovidos como filhos, que temos cabeça para pensar e mãos para trabalhar.

A consciência é uma força indomável. Esta força já a temos.

Permitam-nos, senhores sonhar, trabalhar e viver em nossa própria casa e em nosso município para construir a identidade própria do quadrante patrulhense e para dar à humanidade aquilo que jamais teria, se nos omitíssemos.