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O Significado do Humor

Urbano Zilles

 
 

              

 

              O Com a palavra humor, entendido como estado de espírito, em uso há poucos séculos, associamos diferentes concepções, geralmente ambíguas. Aqui não se trata de buscar uma definição unívoca, mas de perseguir os vestígios desse fenômeno até às raízes. Como é a atitude humana que chamamos humor? Como se comporta, em geral, aquele que assume essa atitude? O que produz a atitude de humor? Tem ela raízes nas camadas mais profundas da existência?

Conceito genérico

 

              A palavra humor deriva do latim humor, que significa líquido. Na fisiologia, equivale a substância orgânica líquida ou semilíquida. Na anatomia, fala-se do humor aquoso, por exemplo, produzido no olho. Na linguagem corrente, usamos o termo para indicar uma disposição do espírito: “dependendo de seu humor, irá ou não conosco”. Com a expressão humor negro, designa-se o humor que choca pelo emprego de elementos mórbidos e/ou macabros em situações cômicas.
              O humor já foi estudado e discutido por estetas, filósofos e críticos literários. No mundo de língua inglesa, a palavra humor, no sentido de disposição de espírito, é encontrada a partir de 1565. A seu respeito foram formuladas muitas teorias, por vezes até contraditórias. Isso se compreende, pois torna-se difícil definir o que é e o que não é humor. O que, por exemplo, o distingue do cômico, como a ironia, a sátira ou o grotesco?
              Para muitos, constitui uma categoria específica dentro do cômico, determinada essencialmente pela personalidade de quem ri. A imaginação cômica, entretanto, seja na vida, seja na obra de arte, pode cingir-se aos elementos superficiais de jogo ou aos limites imediatos da sanção moral ou social. Pode, outrossim, elevar-se aos domínios da compreensão filosófica da existência e do mundo que nos cerca. Nesse caso, a superioridade mental pode dar-lhe a consciência do relativo do humano, da distância que separa o real do ideal, uma sensibilidade apurada, suavizando a crítica e excluindo a censura. Surge o espaço do verdadeiro humor, que dissimula o sério sob aparências lúdicas. Portanto, o que, nesse caso, distingue o cômico do humor é a sua independência, em relação à dialética, e a ausência de qualquer função social. Trata-se de uma função vital, enraizada na personalidade.
              Para Hipócrates e Praxágoras, o equilíbrio vital deve-se ao equilíbrio dos humores. A perturbação é causa de doenças. Esse conceito médico, no século XVII, inspira a comédia de Ben Jonson intitulada Everyman in his humor. Nesse sentido, o humor expressa algo muito pessoal, mesmo no plano orgânico, algo intransmissível, uma forma mais elevada dentro de uma gradação, mas uma forma irredutível e emocionalmente superior.
              A Inglaterra é considerada a pátria do humor, porque os ingleses cultivam o jogo do permanente equilíbrio entre excentricidade e bom senso, compromisso e revolta, sorriso e amargura. A partir do século XVI, o termo é usado como “a singular and unavoidable manner of doing or saying any thing, Peculiar and Natural to one man only, by which his speech and actions are distinguished from those of other men” (CONGREVE, W. Brief an Dennis, in: SPINGARN, J. E.: Critical essays of the 17th Century 3 [Oxford, 1908/09] 248). O humor integra o estilo de vida dos ingleses. Segundo a tradição inglesa, o humor relaciona-se com o cômico, o grotesco, o burlesco, o irônico, o sarcástico, sem, todavia, confundir-se com esses gêneros. Valoriza sobretudo a excentricidade, a brincadeira lúcida, a perspicácia do indivíduo na visão do mundo e das peculiaridades de si próprio, explorando o absurdo e o nonsense.
              Uma concepção diferente do humor, elevado à categoria de concepção filosófica transcendental, surgiu no século XIX com o romantismo alemão, que defende a libertação total do eu como entidade independente e infinita. O humor é, então, a expressão mais afim dessa afirmação de subjetividade. Sua função é procurar atingir a harmonia universal. Para o romântico, inexistem incongruências particulares, mas um mundo totalmente incongruente. Por essa totalidade, o humor exprime a sua brandura e tolerância, expressão simultânea de aniquilamento e grandeza, tornando-se uma verdadeira e autêntica Weltanschauung, uma concepção do mundo e da vida.

              O humor parte de uma abertura da pessoa em relação às coisas sensíveis, de uma entrega ao claro-escuro dos sentimentos, de uma percepção perspicaz da ambigüidade da existência. Exige distanciamento e reações imediatas. Preenche esse espaço com sentido. O espaço ocupado por aquilo que vem do exterior é o do coração. Aí a realidade informe é envolvida pela esfera da vida. Dessa maneira, perde consistência e univocidade e passa a ser vivificada e transformada. O humor dá as razões ao ambíguo e questionável da existência. Transforma o mundo a partir das coisas pequenas, cotidianas e rotineiras.
              Muitos autores classificados como humoristas não passam de gozadores e irônicos. Boa quantidade de narrativas chamadas humorísticas são apenas gozação, extraída de uma situação cômica. A ironia não transforma o mundo. Antes o distorce.
A Antiguidade experimentava o trágico e a ironia da existência. Caía em risadas na comédia. O humor de Sócrates é ironia. Os bobos de Shakespeare pertencem ao gênero da ironia. Talvez o humor como transformação e abertura do homem e das coisas pela força do coração e no seu interior tenha ocorrido pela primeira vez nos Fioretti de S. Francisco ou já em algumas passagens dos diálogos de S. Gregório Magno. Toda atitude de S. Francisco de Assis testemunha a origem sublime do humor. Daí o “irmão asno”, a “irmã lua”. Nos diálogos de Gregório Magno encontramos a narrativa hílare do abade Equitius (Livro I, cap. 4).
              O abade tinha tamanho zelo missionário de conquistar almas para Deus que, além da direção de mosteiros, visitava as igrejas, as cidades, os povoados e as casas dos fiéis da região. Estava vestido tão maltrapilho e tão despretensioso em sua apresentação que, quem não o conhecesse, sequer lhe retribuía a saudação. Naturalmente a notícia de sua pregação também chegou a Roma, pois os clérigos se queixaram junto ao papa, dizendo: “Quem é esse colono que avoca a si o direito de pregar, assumindo o ministério apostólico de Nosso Senhor sem antes ter estudado? Primeiro deveria aprender algumas noções de disciplina eclesiástica”. Ouvindo os conselhos insistentes dos clérigos, o papa chamou-o a Roma para que se lhe ensinasse o que lhe convinha. Encarregou o defensor Juliano para que o trouxesse de maneira honrada a Roma.
              Juliano apressou-se para chegar ao mosteiro. Não encontrou em casa a quem procurava. Mas encontrou os copistas e escritores de livros em seu trabalho e perguntou-lhes onde estaria o abade. Esses responderam-lhe: “Está cortando pasto lá em baixo no vale”. Juliano estava acompanhado de um servo mui fiel. Mandou-o para chamar depressa Equitius.
              O servo foi apressadamente e, chegando ao vale, perguntou quem era Equitius. Logo que soube quem era, foi tomado de temor. Tremendo, aproximou-se do homem de Deus, abraçou-o e beijou-o. Anunciou que seu senhor chegara de visita a ele.
              O servo de Deus retribuiu-lhe a saudação e ordenou-lhe: “Leva deste pasto fresco e alimenta os animais que montastes. Eu terminarei o trabalho, pois falta pouco, e seguirei”.
              O defensor Juliano admirou-se que seu servo demorasse tanto. Finalmente o vê retornar, carregando pasto. Com isso irritou-se dizendo: “Que é isto? Mandei-te trazer o homem e não o pasto”. O servo retrucou-lhe: “Aquele que procuras vem após mim”. Pouco depois apareceu o servo de Deus, usando sapatos remendados, carregando a gadanha sobre os ombros. Num primeiro instante pensou mal do servo de Deus por causa de suas aparências externas e preparava as palavras com as quais queria dirigir-se a ele. Quando o homem de Deus chegou mais perto, Juliano assustou-se de tal maneira que mal conseguiu dizer-lhe para que viera. Humildemente prostrou-se, pediu-lhe suas orações e contou que seu pai apostólico, o papa, tinha desejo de encontrar-se com ele.
              O final dessa história é reconciliador e hílare. A expedição punitiva transforma-se numa permanência do executor no mosteiro de Equitius. Aos poucos, nessa narrativa, começa a atitude de humor. Desde o começo, deve-se ficar atento para perceber a mudança da alegria estóica para um sentimento de humor.
              A atitude de humor certamente depende de uma determinada estrutura humana. Mas tudo parece indicar que o Cristianismo favorece seu desenvolvimento.
Sem dúvida, existem cristãos sem humor. Dostoievski confirma isso, pois parece que nem ele, nem os personagens criados por ele têm humor. Dostoievski descreve o espírito do povo russo sem perceber em sua história traços de humor, os quais certamente existem. Mas é preciso ter olhos para vê-los.

 

Humor dos filósofos

 

              A disposição estrutural do humor manifesta-se antes e fora do Cristianismo. Associa-se à alegre indiferença (apátheia). Uma narrativa de Plutarco, na vida de Péricles, no-lo exemplifica.
              Quando, no mercado, durante o dia inteiro, alguém o incomodou, Péricles suportou-o silenciosamente realizando seus afazeres mais importantes. Ao anoitecer voltava tacitamente para casa, quando foi seguido pelo importunador, que o chamava com os nomes mais grosseiros. Antes de entrar em casa, quando já era escuro, Péricles ordenou a um servo que pegasse uma lanterna e acompanhasse o importunador até em casa.
              Essa atitude, a rigor, corresponde à stoá. Sêneca formula tal atitude numa frase: “Quem é prudente, também é temperado; quem é temperado, também é constante; quem é constante, também é imperturbado; quem é imperturbado, é sem tristeza; quem vive sem tristeza é feliz: portanto, o prudente é feliz, e a prudência é suficiente para a vida feliz”.
              A velha sabedoria de Platão reflete o conceito ideal do filósofo platônico e influencia os posteriores, tornando-se o símbolo da velha e humana sabedoria. Essa é a atitude de fechar-se para as coisas. A indiferença estóica deixa as coisas do lado de fora, no pátio, tirando-lhe o espaço para desenvolver-se. Mas com isso o mundo não muda. Apenas fica do lado de fora. “Alegrai-vos com os que riem e chorai com os que choram” é a atitude cristã. A atitude cristã opõe-se ao estoicismo. O humor também pode brotar de um coração oprimido e sofredor. Para isso deve deixar que as coisas entrem e penetrem em seu coração. A imperturbabilidade da stoá não é criativa na maneira silenciosa do humor. A imperturbabilidade do estóico só ocorre sob a proteção do espaço invulnerável. O verdadeiro humor consegue viver forte sem a indiferença; dispensa os muros protetores, pois cria proteção alhures.
              Ao contrário da stoá, o estado de espírito do cristão é o de peregrino, sempre em movimento. Movimenta-se para unir-se com Aquele que é a perfeição e, ao mesmo tempo, sente a profundidade da auto-insuficiência, a tensão entre a santidade de Deus e da própria carência.
              O contrário da imperturbabilidade é a paz cristã. Nunca é só conquista do homem, mas é dom de Deus. O cristão nunca é fechado como o estóico. Dessa maneira Cristianismo e Estoicismo se tangem apenas na periferia. A tangência entre ambos relaciona-se com o exterior, em idéias gerais, formadas no tesouro comum da Antiguidade. Reflete a influência da cultura no seio da qual o Cristianismo nasce e se desenvolve. Mas a atitude e o sentimento de vida são fundamentalmente diferentes.
              O significado existencial do humor chamou a atenção a Martin Heidegger: “Que os humores podem mudar ou dissipar-se, significa somente que o existir dá-se sempre num estado emotivo”. Para ele, o humor fundamental é o tédio, “o peso do ser”. É aquilo que manifesta “como alguém é e se torna” (Sein und Zeit, § 29).
Ao cristão é dado ouvir a palavra de Deus. Profundas inquietações acompanharão sua vida, mas descansará quando repousar em Deus. Nos desertos da vida e nas celas dos monges não se procura a apátheia, mas a conversão. Só se tenta evitar o mundo enquanto desviar da meta de conduzi-lo a Deus.
              No Cristianismo há um “apesar de” que se expressa no humor. S. Paulo diz de si mesmo: “Como desconhecidos e, não obstante, conhecidos; como moribundos e, não obstante, eis que vivemos; como punidos e, não obstante, livres da morte; como tristes e, não obstante, sempre alegres; como indigentes e, não obstante, enriquecendo a muitos; como nada tendo, embora tudo possuamos” (2Cor 6, 9-10).
              Essa alegria ainda não é o humor. É apenas o pano de fundo que possibilita a atitude complicada do humor. A alegria é uma de suas raízes e se manifesta antes do próprio humor.
              A alegria pré-cristã caracteriza a essência do filósofo que se basta a si mesmo. A apátheia imperturbável perante o mundo lhe traz paz e felicidade. A alegria cristã é amorosa e sabe de um Tu, ao qual o eu nunca será suficiente. Por isso é, ao mesmo tempo, humildade.
              Na medida em que a modernidade se distancia do Cristianismo, aproxima-se sempre mais da atitude dos filósofos antigos. Não raro, na literatura moderna, encontramos páginas sobre a imperturbabilidade que poderiam constar no estoicismo. É a visão clara do imperturbável por afetos inferiores, a coragem, e um sorriso suave.
              Entretanto, o filósofo não sorri muitas vezes. A alegria dos antigos baseava-se na consciência da indestrutibilidade dos valores, do ser eterno, que tentava reduzir o empenho do aqui e agora. Mas perdemos tal consciência.
              A alegre indiferença do filósofo é o privilégio de poucos. Exige muita disciplina, visão profunda e espírito forte. O humor é próprio do povo. É uma atividade que deixa o próprio eu em segundo plano e age diretamente para o outro. Poucas vezes deixa espaço para supervalorizar o próprio eu, o campo do individual, pois tal atitude é inconciliável com o verdadeiro humor. Por isso encontramos relativamente pouco humor entre artistas, cientistas e escritores.               Encontramos mais humor entre sacerdotes, médicos e junto ao povo. Raras vezes o humor é compatível com dotes que salientam os valores individuais para sobressair em relação aos outros. Não se deve confundir com o humor a espontaneidade das brincadeiras, o ser espirituoso, com respostas sempre na ponta da língua. A semelhança é apenas aparente. Tão logo se examinar, não só a palavra, mas toda atitude, descobre-se uma diferença essencial.
              Pessoas simples e mais idosas do povo constituem as camadas que, em geral, demonstram mais humor. São pessoas menos egoístas, menos vulneráveis pela vaidade e não atribuem demasiada importância a si mesmas. Nesse ponto, os meios de comunicação criam, hoje, um ambiente pouco favorável ao humor, pois giram muito em torno da idolatria de astros e estrelas individuais, fomentando vaidades individuais. A geração dos plásticos e descartáveis da civilização tecnológica perde a capacidade do humor. A nova geração visa o sucesso individual a todo custo. Com isso perde-se uma fonte de verdadeira alegria, de humildade e criatividade. Faltam os limites, sem os quais não existe verdadeira educação. Vive-se numa vida irreal, sem espaço para o sacrifício e a doação. Busca-se apenas o prazer. Tudo é visto sob determinados fins individualistas.
              O humor não é um privilégio da juventude. É uma força da maturidade. O humor é um processo de amadurecimento. É justo que a juventude alimente suas aspirações e seus ideais e os leve a sério. Entretanto, é necessário aprender a respeitar limites. Só onde há luta, pode haver derrotas e vitórias. Neste caminho tortuoso é decisivo para o jovem encontrar Deus como sentido da vida e do mundo.
              A provação faz parte da vida. No processo de amadurecimento na vida, a pessoa deve levar-se a sério a si mesma mas não considerar-se por demais importante. O amadurecimento acontece através de riscos e decisões nem sempre fáceis. Se faltar o encontro decisivo com Deus, para o jovem, ele facilmente se entrega às paixões e ao prazer do próprio eu, criando as condições para a mais profunda frustração. Nesse caso, entrega-se a uma vaidade sem medida, não levando mais a sério a si mesmo, perdendo-se nos homens ou nas coisas mundanas. As seduções do mundo são muitas e variadas: poder, saber, beleza, prazer fácil.
              O humor é fruto do amadurecimento no encontro com o Deus vivo. O humor desenvolve-se na serenidade, na doação, na libertação do mundo, do homem e do próprio eu. Deus colocou-nos no mundo, para transformá-lo; entre os homens, para amá-los e suportá-los; colocou-nos frente às profundezas do próprio eu, para que as encontremos com a força de nossa consciência. Mas isso não é tudo. Deus não só é a justiça, mas, acima de tudo, a graça, a cháris. No homem há algo que não se pode fundar a partir dele mesmo. Nos sacramentos, na oração, na meditação, Deus dá-nos a graça de, temporariamente, nos elevarmos da seriedade, da decisão, da dificuldade da existência humana para a “liberdade dos filhos de Deus”.
              Se o homem ignora Deus, pode perder a seriedade de sua juventude e com ela a capacidade de, com todo o seu ser, doar-se ao mundo e ao homem. Perde a seriedade para com as verdadeiras exigências do próprio eu. Torna-se cético.               Evita as coisas que poderiam lembrar-lhe a seriedade; evita as exigências incondicionais, a decisão. Assim também se liberta, mas de modo diferente. Aposta no momento e no acaso.
Espirituosidade e piadas podem aprender-se ou até herdar. O humor não se aprende. Não é propriedade de uma família ou de um povo. Conquista-se com muito esforço após muitas feridas, renúncias e silêncio.

 

Um conceito cristão

 

              Há uma forma especificamente cristã de humor, que nasce da visão de considerar tudo que é terreno e finito sub specie aeternitatis, baseado numa relativização das coisas terrenas à luz da fé em atitude serena, humilde e confiante esperança na vontade salvífica de Deus, em virtude da qual o homem não considera por demais importante o mundo e a si mesmo. Dessa maneira, o humor torna-se um valor ético. A disposição natural transforma-se em virtude conquistada e formada pela graça. Na sua forma mais elevada, só é possível ao santo e ao homem na graça, para o qual a única coisa triste é o pecado.
              Quando não acontece verdadeiro encontro com Deus, esvai-se a força da fé e surgem ídolos. Mas os ídolos eliminam o espaço do humor, pois o ídolo, porque criado pelo próprio homem, está por demais próximo dele. Envolve-o e tira-lhe o distanciamento fecundo. Onde domina o ídolo, reina o ódio, pois o ídolo por natureza tem inimigos. É demasiado limitado, pois encontra-se no espaço das coisas criadas e se conflita com elas. Por isso o adorador de ídolos deve odiar. Mas onde reina o ódio, o humor desaparece, pois é de sua essência ser alimentado pela força do coração e do amor.
              No mundo do consumismo materialista, ainda não sumiu a fé em Deus. Sua intensidade até pode ser maior que em certas comunidades cristãs. Entretanto desviou-se para os ídolos. Desta maneira desapareceram o humor e o que chamamos graça. A mudança manifesta-se na face do povo.
              A abertura penetra na cela do santo monge, por mais estreita que seja, mas pode faltar no meio de uma grande massa, pois nela os homens podem sentir-se como desesperançados atrás das grades de uma prisão. Na adoração dos ídolos, os homens vivem vazios, escravos de sua própria obra. Sempre que os homens criam ídolos para servir-lhes, cedo ou tarde, experimentam a frustração e o fracasso. O significado do ídolo é tornar-se norma e sentido da existência e do agir, sem a capacidade de sê-lo.
              A realização da transformação e a libertação só são possíveis onde houver um vínculo íntimo com um Tu que é amor; onde houver um saber daquele que é mais forte que eu mesmo, cuja força supera a minha. Até na solidão humana abre-se espaço na alma para aquele que é força, luz, amor e serenidade. O amor de Deus conhece um ser que nos fortalece com sua graça. Com ela o homem torna-se capaz de amar o mundo, mas em liberdade, independentemente de residir numa cela monacal, no deserto ou num palácio. Ao ouvirmos atentamente S. Ambrósio, S. Bento ou S. Francisco de Assis, percebemos, para além do pensamento e do conceitual, uma maravilhosa liberdade dos filhos de Deus que realiza plenamente. Isso permite-lhes, mesmo nas circunstâncias de tribulação, uma alegria que é a raiz do humor cristão.
              A essência do humor manifesta-se em diferentes camadas. Apesar da impenetrabilidade do mistério, Deus é a palavra que nomeia, o caminho que conduz e a porta que deixa entrar. O homem que funda sua existência nele pode chegar à atitude do humor, pois não está condenado à tragédia.               Como a antiga tragédia não trouxe redenção, acrescentava-lhe a sátira. Seu objetivo era provocar risadas, mas não conduzia ao sorriso do humor. Deus não quer o homem triste mas alegre no fundo de sua alma. O sorriso pode revelar coisas difíceis de expressar em conceitos. Trata-se do sorriso que vê a realidade sem refugiar-se nos deuses do Olimpo. Esse sorriso deve libertar-nos, pois é o sorriso livre e amoroso; não odeia o mundo, nem foge dele, mas abre-se para um amor maior e mais íntimo.
              A experiência numinosa do mundo antigo, que repousa sobre si mesmo, é o trágico. A revelação judaico-cristã eliminou esse trágico? Aqui não se trata de uma categoria estética, mas da tragédia grega. Para muitos, hoje, que tentam sair da esfera cristã, a tragédia grega, em seu poder e beleza, parece ser a única interpretação válida do mundo e a única experiência possível do universo. O humor é uma maneira cômica que surge na unidade de contrastes, mas distingue-se pela capacidade de incluir fraquezas e imperfeições não-cômicas. O trágico, que se situa fora do cômico, e o desespero inerente ao cômico são superados pela capacidade associativa que salva. O humor é uma capacidade humana pessoal, porque o riso e o cômico se relacionam como o natural e o pessoal. Quando domina o puro riso, o humor torna-se ironia. Parece-me que, muitas vezes, falta verdadeiro humor à sociedade de hoje para tornar a vida mais suportável e mais humana.

 

 

 

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