A IMIGRAÇÃO E A HISTÓRIA DO RIO GRANDE DO SUL

José H. Dacanal [1]

 

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Quem tiver condições, e se der o trabalho de parar para pensar um pouco mais seriamente a cada 20 de setembro, talvez fique estarrecido ao perceber a série de grossas incoerências históricas cometidas anualmente ao ser celebrada a denominada "Semana Farroupilha". Em anos mais recentes, como nunca, criaram-se situações verdadeiramente cômicas ao serem as comemorações presididas por governadores que carregavam sonoros nomes peninsulares! Não resta dúvida que no transcurso da "Semana" a História é morta a pauladas pelo menos três vezes.

Em primeiro lugar, a era da hegemonia dos oligarcas rurais da fronteira sudoeste, que, ao deflagrarem o conflito de 1835-45, demonstraram pela primeira vez sua existência como núcleo de poder coerentemente estruturado, encerrou-se há meio século, aproximadamente. Em segundo, um dos elementos que colaboraram ativamente para a diluição desta hegemonia foi o surgimento, no interior de uma estrutura econômica estadual praticamente indiferenciada, de surtos de industrialização que tinham à frente, quase sempre, imigrantes ou descendentes deles. Não que seja possível aceitar a tese – ideologicamente comprometida e com certos laivos de racismo – segundo a qual a industrialização no Rio Grande do Sul é produto da "visão schumpeteriana" que o imigrante teria trazido consigo. Mas é evidente que este era, no extremo sul, por uma série de razões, que vão desde o domínio de algumas técnicas rudimentares até a posse de pequenos cabedais, quem em melhores condições estava para se aproveitar das oportunidades surgidas neste sentido desde fins do século passado, fosse pelas necessidades geradas por uma economia que marchava pouco a pouco para a diversificação e para a urbanização, fosse – ponto fundamental – pelas repetidas crises que a partir de então afetariam os países centrais, impedindo-os, muitas vezes, de abastecer os mercados periféricos com seus manufaturados.

Finalmente, em terceiro lugar, mas, na ordem de importância, certamente o primeiro no momento histórico atual, a revolta comandada por Bento Gonçalves e seus pares foi, pelo menos a partir de determinado momento, inequivocamente um movimento separatista. Assim, parece ser – se muito mais não for – incoerente comemorá-la em um tempo em que a centralização político-administrativa, decorrência óbvia do processo de industrialização acelerada das últimas décadas, atinge graus sem precedentes no país. Se alguém, contudo, revidar o argumento e disser que estes festejos procuram dar vazão ao descontentamento diante deste processo de centralização progressiva, não há como negar-lhe uma certa lógica. Mas completa e absolutamente inconseqüente, pois opor-se à centralização não é do interesse das elites, em absoluto.

Nem há como, a não ser verbalmente, o que tem ocorrido, aliás, profusamente, em mesas redondas onde pontificam ideólogos de um "gauchismo" cômico. Que as elites, no jogo pelo poder e pela riqueza, manejem o passado a seu bel prazer, é natural. Que economistas, historiadores e sociólogos coonestem tais interpretações, deve creditar-se a um oportunismo de desempregados – o que não parece ser o caso – ou ao ainda vigente desconhecimento de nossa história, resultante do prolongado domínio econômico e, portanto, ideológico, da antiga classe dominante que, apesar de desintegrar-se rapidamente a partir de 1930, sempre fez tudo para continuar dando credibilidade a seu papel de defensora dos interesses do Rio Grande do Sul. Interesses muito genéricos, naturalmente, se fizermos exceção dos dela...

Esta permanência das construções ideológicas autojustificadoras, criadas pela desaparecida oligarquia rural sul-rio-grandense, deve levar o historiador da imigração no Estado a precaver-se contra possíveis visões deformantes contrabandeadas do passado para o presente. Contrabando, diga-se de passagem, que servia aos interesses da antiga classe dominante e aos dos novos grupos sociais imigrantes emergentes. Aquela nunca esqueceu a clara e compreensível intenção de cooptar e estes viam na cooptação o momento mais alto de sua inserção na sociedade [2].

Seja como for, fazer a história da imigração no Rio Grande do Sul é a melhor oportunidade para rever de forma ampla e profunda a própria história da sociedade sul-rio-grandense desde seus primórdios, pois só descendo às origens da sociedade em que, a partir de determinado momento, se inseriu o imigrante, será possível organizar a história deste, com sua própria história anterior, para, em seguida, traçar as peripécias de ambos os grupos – com seus subgrupos e classes – até o presente.

Enfim, se pouco conhecemos de nosso passado, ninguém em melhores condições de nô-lo revelar que os descendentes dos imigrantes, não por serem melhores mas por terem sido marginais no passado – em relação à sociedade pré-existente – e por estarem no presente integrados na sociedade estadual e nacional. Em períodos de transição – como os da idade pós-européia – o grande historiador, como o grande pensador, é quase sempre um "marginal", exatamente em virtude da lucidez adquirida através da experiência brutal da ausência – mais ou menos transitória – de um etos.

Nos parágrafos que seguem, serão expostas algumas idéias que poderiam fazer parte de uma possível e futura revisão da história do Rio Grande do Sul a partir do fenômeno da imigração. Estas idéias estão divididas em dois grupos. No primeiro, são levantados alguns traços que caracterizam o imigrante em geral no Rio Grande do Sul quando relacionado com os vários grupos da sociedade pré-existente. No segundo, são sugeridos, com breves comentários, alguns temas que poderiam e deveriam ser abordados por uma nova geração de historiadores que, suma pretensão, talvez venham descobrir sua vocação a partir destas breves notas...

1 – Não passa de uma edificante anedota a afirmação segundo a qual os imigrantes se fixaram nas zonas das serranias por se sentirem atraídos pela região em vista da semelhança da mesma com a das terras de origem. A verdade é que eles, em sua maioria sem qualquer fortuna, não tinham outra escolha. A Fronteira, os Campos de Cima da Serra, o Distrito das Missões e o Litoral – em resumo, todas as terras próprias para pecuária e, posteriormente, para o arroz – estavam ocupadas. Só restavam as matarias, e, nestas, as melhores eram – num tempo em que os meios de comunicação eram incipientes – as mais próximas do porto ou as servidas por rios navegáveis. Estes são os fatos. Tudo o mais é invenção sem fundamento.

Por outra parte, é inegável que com a distribuição de lotes coloniais os imigrantes adquiriram vários privilégios.

a) O primeiro deles, o fundamental e o único que em última instância importa, foi o privilégio da sobrevivência biológica. Ao contrário dos marginais do sistema pré-existente – os índios expoliados, os caboclos e os negros –, o elemento imigrante obteve, com os lotes, as condições mínimas de alimentação. Mesmo que não seja possível esquecer que as enormes dificuldades iniciais puderam ser vencidas somente graças à capacidade de sacrifício, de renúncia e de sobrevivência, característica de todo deslocado, não é possível aceitar a versão chauvinista e racista segundo a qual o imigrante sobreviveu e venceu porque era "melhor" que o caboclo. Diversamente deste, o que ele tinha era uma motivação diferente, uma outra visão de mundo (um deslocado, como se viu) e, principalmente, um pedaço de terra. Terra, é preciso acentuar, que jamais fora distribuída aos marginais nativos, os quais, à medida que cresciam em número (está neste caso, quase que exclusivamente, o caboclo) iam se fixando nas margens – em todos os sentidos – das unidades produtivas do antigo sistema.

E não poderia ser diferente, pois, sem qualquer mercado para seus produtos, que motivação poderiam ter estes marginais para embrenharem-se nos matos quando era muito mais fácil sobreviver com as fressuras e a farinha de mandioca (cujo custo, ao contrário de hoje, era praticamente nulo) fornecidas pelo estancieiro, que deles necessitava em determinados períodos do ciclo produtivo?

E o privilégio da sobrevivência biológica foi de uma importância tão grande que dificilmente poderia ser exagerado. Principalmente, se observamos, por exemplo, que ainda hoje nas regiões de minifúndio – isto é, onde ele tem condições de sobreviver sem ser varrido pela mecanização acelerada da agroindústria – o regime alimentar pré-natal e pós-natal é muito superior ao da maior parte da população proletária e semiproletária das grandes concentrações urbanas do Estado, população que alcança mais da metade do total destas concentrações. Isto pode parecer espantoso mas também é um fato, se bem que não possa ser analisado aqui em seus vários ângulos.

Na verdade, os filhos dos imigrantes jamais foram condenados, em termos gerais e até recentemente, a ter seus neurônios atrofiados pela subnutrição e muitos sobreviveram para contar a história. Ao contrário dos demais marginais do antigo sistema, os quais, se e quando sobreviveram, jamais alcançaram condições intelectuais para tanto. E ao contrário, também, das grandes massas dos despossuídos dos grandes centros urbanos de hoje e dos bóias-frias, que marcham evidentemente para se tornarem uma sub-raça, brutalizados como são pela fome e pela miséria física e espiritual. E – suprema ironia para os defensores das teorias dos "melhores" – quantos dentre eles não possuem nomes peninsulares e saxônicos, até com registro nas Delegacias de Policia!...

b) Como se não bastasse o brutal privilégio à vida e a uma razoável alimentação, o imigrante em geral – mas em particular o italiano – teve a velar por ele uma instituição com a razoável experiência de dois mil anos: a Igreja Católica. Não há dúvida alguma, e algum dia isto terá que ser narrado com amplos detalhes, que, no caso específico dos imigrantes italianos, foi a Igreja Católica, como catalisador cultural, através de capelas, paróquias e missões, quem não só lhes deu uma identidade, que deles afastou o perigo da involução, como ainda os acompanhou lado a lado em sua marcha evolutiva.

Mas ainda: homens e mulheres, estas quase que somente entre os católicos, tomaram-se ainda mais privilegiados ao poderem estudar em seminários, juvenatos e colégios secundários de congregações religiosas, fato cuja importância não foi até aqui suficientemente analisada e cujas conseqüências ainda se façam talvez sentir no futuro.

Se é verdade que os colégios religiosos secundários atenderam fundamentalmente às necessidades de educação de uma classe média rural e urbana, esta última em lenta ascensão a partir da segunda década deste século e as duas permeadas, no sul, de descendentes de imigrantes, não se pode esquecer que os seminários (católicos em sua grande maioria) e os juvenatos (exclusivamente católicos, sendo os femininos em maior número) deram educação a milhares de jovens, procedentes quase todos de famílias de zonas rurais imigrantes, famílias que não tinham condições financeiras para custear seus estudos.

No caso dos seminários católicos, por exemplo, milhares de adolescentes receberam nas décadas de 30, 40, 50 e 60 uma educação de tal nível que, à época, estava ao alcance apenas dos filhos da oligarquia agrário-mercantil do Estado ou de algumas das altas classes médias de Porto Alegre (o velho Anchieta, por exemplo). Muitos – para não dizer a maioria – dos melhores valores intelectuais do Estado hoje saíram dos seminários e, neste sentido, tanto a FIDENE quanto a Universidade de Caxias são exemplos. Até que ponto, em que sentido e em que profundidade estes elementos poderão marcar a história da sociedade sul-rio-grandense é prematuro dizê-lo, em particular num momento em que o país se integra aceleradamente no sistema capitalista internacional. Mas sua simples existência é a prova mais cabal do papel insubstituível da Igreja no passado como mãe e mestra das comunidades imigrantes.

É, certamente, um exagero, que será desmentido pelos fatos, mas indiscutivelmente há um importante núcleo que talvez no futuro fosse capaz de formar uma contra-elite alternativa no Estado e que foi marcado profundamente pela Igreja. Se por mais não for e se mais não sobrou, ao menos pela capacidade de organização, de disciplina e de renúncia. O que não é pouco e pode ser tudo.

e) Um terceiro fator que faz do imigrante ou, pelo menos, de alguns deles, um elemento extremamente privilegiado entre os grupos não dominantes da sociedade sul-rio-grandense e pelo qual ele teria condições de integrar-se totalmente, alcançando até posições reservadas antes exclusivamente à oligarquia agrário-mercantil, já foi mencionado rapidamente acima: o processo de industrialização.

Quando, por volta do início do século e, mais aceleradamente, a partir da terceira década, o processo de industrialização começa a provocar a diferenciação no interior das economias extrativas ou monocultoras das nações periféricas, o assentamento do imigrante terminara. E de tal maneira, em alguns casos, que no interior dos próprios grupos imigrantes já eram perfeitamente visíveis as diferenças sócio-econômicas .

Os que melhor puderam se aproveitar das vantagens dos novos tempos, pelo menos no sul, foram exatamente os imigrantes, por sua disponibilidade e versatilidade em relação aos grupos dirigentes da sociedade pré-existente ao fenômeno imigratório. E dentre os imigrantes aqueles que, por herança, tradição familiar ou esforços bem sucedidos estavam em condições de dispor de conhecimentos técnicos – não importa se rudimentares – e de pequenas posses. É interessante notar que nas duas últimas décadas ocorreu uma certa repetição do fenômeno nas regiões do Planalto e do Alto Uruguai, onde grandes indústrias de implementos agrícolas e afins surgiram de pequenas oficinas familiares, como funilarias e ferrarias, de descendentes de imigrantes, que passaram a ser exigidos pelas necessidades de um mercado comprador resultante da expansão do cultivo da soja e do trigo.

Seu futuro, diante da tendência à monopolização do setor pelas multinacionais, em particular norte-americanas, é incerto, mas seu passado, e é o que nos interessa aqui, é um fato exemplar.

É no bojo do processo de industrialização e da diferenciação por ele provocada no contexto econômico do Rio Grande do Sul que alguns descendentes de imigrantes ascenderam social e economicamente a tal ponto que substituíram, nos cargos mais importantes da administração pública, os representantes da oligarquia agrário-mercantil decadente ou, a partir dos anos 50, completamente desaparecida. Contudo, é curioso notar que estes descendentes de imigrantes não formaram grupos à parte, certamente em virtude do papel homogeneizador exercido pela industrialização – que faria de outros descendentes de imigrantes proletários de Porto Alegre ou de Novo Hamburgo – nem adquiriram consciência de uma possível especificidade étnico-cultural. Pelo contrário, com exceção de algumas coisas folclóricas como festas comerciais de uva e vinho, acreditam pia e plenamente nos mitos, ideologias e valores da elite anterior [3].

Numa palavra muito em moda hoje, e aqui já usada, eles foram cooptados. O que não é bom nem ruim, é apenas um fato que de um lado mostra a extrema coerência ideológica e cultural do grupo oligárquico-mercantil do Estado e, de outro, cria situações muito engraçadas. Como nas comemorações da "Semana Farroupilha", por exemplo, desde que se conheça um pouco da história real, naturalmente. Mas é claro que sua cooptação pressupõe que eles tenham esquecido sua história e tenham passado a integrar-se na história da oligarquia decadente, cujas origens remontam aos primórdios do séc. XVIII.

 

2 – Abaixo, passo a referir sumariamente alguns temas que poderiam integrar uma "história do Rio Grande do Sul a partir da ótica do fenômeno imigratório". É claro que muitos deles já foram abordados em trabalhos monográficos. Neste caso, ocorrerá uma repetição que, pelo menos, não resultará em qualquer prejuízo.

a) O nascimento da oligarquia rural sul-rio-grandense, em particular depois da eliminação das reduções jesuíticas do território das Missões. A economia e a sociedade sul-rio-grandenses por volta de 1820, início do processo imigratório.

b) As causas internas da imigração. A ocupação das matarias (fronteira contra as invasões do Prata?). A produção de alimentos para os núcleos urbanos. A necessidade de branquear a população. Mais tarde, a necessidade de substituir o braço escravo (parece não ser este o caso, pelo menos em larga escala, no Rio Grande do Sul).

c) Causas externas. As guerras napoleônicas. As revoltas nacionalistas e camponesas no séc. XIX na Europa. O crescimento populacional no continente europeu. As revoltas proletárias. O crescimento das cidades. A necessidade de controlar seu crescimento e expelir a mão-de-obra. A progressiva mecanização da agricultura. O empobrecimento geral das terras. Os mercados reduzidos para produtos manufaturados, em particular no caso da Itália, Alemanha e Espanha. Neste sentido, por exemplo, não podem deixar de ser analisadas a fundo as palestras do "Apóstolo dos Imigrantes" e fundador dos Carlistas, João Batista Scalabrini, o qual é de uma clareza meridiana ao acentuar as vantagens econômicas e sociais da Itália com a imigração: redução da população nas cidades, eliminação do perigo de revoltas sociais e expansão da influência italiana no exterior.

d) Os vários núcleos culturais imigrantes. Suas origens: camponesa e urbana. Seus grupos sociais: classes média e baixa urbanas e classe baixa e deserdada do campo. Diferenciação no assentamento e nas relações com a sociedade pré-existente.

e) O papel da(s) Igreja(s). A Igreja Católica como elemento ordenador do imigrante italiano, em particular. Seu papel entre os imigrantes alemães. O papel das capelas, paróquias e missões e, principalmente, dos seminários e juvenatos. A educação da elite pré-existente e também imigrante: os colégios secundários jesuítas, lassalistas e maristas.

f) A colonização judaica fracassada em Erebango. O núcleo judaico em Porto Alegre. A pequena empresa familiar mercantil.

Seu desaparecimento ou adaptação diante da evolução da estrutura econômica brasileira dos anos 70. O "gheto" do Bonfim em Porto Alegre.

g) A pequena propriedade imigrante como unidade produtiva bem sucedida. O crescimento populacional dos imigrantes como resultado da alimentação suficiente gerada no interior desta unidade produtiva, a qual, por sua vez, exigia braços para ser mantida, por ser fundamentalmente trabalho-intensiva. O futuro da pequena propriedade imigrante no Sul diante da expansão do capitalismo agrário capital-intensivo. Os problemas sociais daí decorrentes.

h) As causas dos conflitos de 1835 e 1893. A participação do imigrante. Causas e orientação ideológica. A revolução de 1893: uma possível causa seria o crescimento populacional que teria levado a uma queda da produtividade média das estâncias, exigindo o reagrupamento. A origem do imigrante fazendeiro nos Campos de Cima da Serra e também no Planalto.

i) A ilustração republicana e o elemento imigrante. As revoluções de 1923 e 1930. A participação do elemento imigrante.

j) A centralização político-administrativa do Brasil a partir de 1930 e a posição do imigrante em geral a favor de Getúlio Vargas (compreende-se: nas lutas das facções rivais da oligarquia gaúcha os imigrantes entravam como Pilatos no Credo, com a diferença de que este apenas lavava as mãos e aqueles tinham que entregar suas vaquinhas e cavalos).

l) O imigrante alemão e sua cultura específica. As dificuldades de integração. O fenômeno do integralismo [4].

m) As perseguições sofridas pelos imigrantes e seus descendentes entre 1937 e 1945. Orientação superior ou vingança dos baixos escalões administrativos por ódio contra os estrangeiros bem sucedidos?

n) As rebeliões marginais e messiânicas no Rio Grande do Sul. Os Muckers, grupo de descendentes de imigrantes alemães que, segundo tudo indica, involuíram a estágios pré-racionalistas em virtude do isolamento total em que se encontravam. Os Monges do Pinheirinho (Encantado), massacrados pela Brigada Militar com o apoio dos imigrantes italianos, temerosos, ao que parece, de que suas terras fossem roubadas por aqueles estranhos seres que proclamavam a comunidade dos bens terrenos. O papel do governo da capital nos dois episódios. As causas dos massacres e do comportamento das autoridades.

o) O imigrante quer contar sua história. O tema explode no início da década de 1970. As várias tendências: o ufanismo dos cooptados, dos ingênuos e dos aproveitadores, com estes dois grupos a serviço do primeiro, naturalmente. A visão crítica ou, pelo menos, mais realista dos mais intelectualizados (principalmente dos ligados à Igreja Católica e a uma formação de seminário).

p) As causas da controvérsia: ao que parece a destruição de todo o passado a partir da invasão arrasadora do capital monopolista, em particular norte-americano, desde a década dos 60, invasão levada a extremos ao iniciar-se a década dos 70.

q) O futuro dos grupos imigrantes. Sua integração total na sociedade brasileira. O futuro desta.

 

 

1. Professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

2.Todo o cuidado é pouco, se levarmos em conta, por exemplo, que um dos mais celebrados e mais típicos representantes da historiografia oficial do Rio Grande do Sul, Moysés Vellinho, em Capitania d’El-Rei, emprega a primeira pessoa do plural (“nós”, “nosso”, etc.) ao referir-se aos atos da administração e dos colonizadores portugueses dos séc. XVII e XVIII! Parece inacreditável mas o livro anda por aí, (Editora Globo, 2ª edição, 1970). Eis o que se poderia chamar de “contrabando histórico”, que engloba também uma posição evidentemente racista em relação aos indígenas brasileiros. O chauvinismo de Moysés Vellinho, o melhor ideólogo da antiga classe dominante em decadência, certamente nada teria a opor à tese de que o imigrante venceu porque era “melhor”!

3. Isto pode ser exemplificado muito bem pela visão racista de que se impregnaram os grupos imigrantes e que cresce em intensidade na proporção direta da integração destes nas camadas mais privilegiadas da sociedade pré-existente. De um lado, o imigrante simplesmente foi assimilando a visão racista em relação ao negro. De outro, num jogo sutil entre cooptado e cooptador, adotou a teoria do “melhor” tanto em relação ao negro quanto em relação ao caboclo. Quer dizer, para a classe dominante tradicional não era tão desastroso assim que o imigrante se considerasse superior em relação aos marginais do sistema pré-existente. Afinal, o imigrante era branco e podia tomar-se seu sócio desde que introjetasse o arcabouço ideológico até então vigente.

    De qualquer forma, é fundamental notar que, para o descendente imigrante esclarecido, é bastante fácil desembaraçar-se de teorias racistas de qualquer tipo. Afinal, o imigrante apenas copiou um comportamento, quer dizer, para ele o racismo nunca foi um elemento e um instrumento de uma experiência histórico-social, enfim, nunca fez parte do exercício do poder. Ao contrário do ocorrido com a classe dominante brasileira, toda ela escravista, em maior ou menor proporção, até o final do séc. XIX.

4. O sucesso do integralismo no Rio Grande do Sul parece ligar-se ao isolamento em que se encontravam muitas comunidades alemãs e às dificuldades de integração encontradas por seus componentes. É uma hipótese a pesquisar mas não seria de admirar se se concluísse que o sucesso desta ideologia entre os imigrantes alemães tenha-se devido à premente necessidade de um elos que, para os italianos, fora preenchido pela Igreja Católica. Esta, numa proeza espantosa, só possível a uma instituição que em seus dois mil anos de história quase nunca esteve afastada do poder, adaptou-se às necessidades específicas das comunidades agrárias do imigrante, preservando sua língua, sua cultura e moldando-o, é claro, de acordo com uma concepção religiosa que falava da Cidade de Deus mas que jamais esquecia, porém, as realidades da Cidade Terrena, como o sentido do trabalho, os ciclos das estações, as festas comunitárias, as diversões, a veneração aos mortos, etc.

5. Uma das coisas mais impressionantes é como a Igreja soube tirar do Evangelho aquilo que era fundamental para a         comunidade na qual se inserira. A exigência, por exemplo, de uma família monogâmica real (valendo para homem também)  era validada pelos textos bíblicos do novo Testamento, mas parece evidente que atrás disto estava a intuição de que a monogamia real era a base para impedir a desagregação de uma comunidade com características tão específicas como a fundada sobre a atribuição de lotes coloniais. Este também é um tema que está a exigit um estudo aprofundado.

 

 

Texto Publicado originalmente em:

DACANAL, José Hildebrando (org.). RS: imigração e colonização. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1980, p. 271-280. (Série Documenta, 4)

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