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IMIGRAÇÃO ITALIANA E SOCIEDADE CIVIL |
Rovílio Costa |
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Celebramos 125 anos da Imigração Italiana. Imigração essencialmente agrícola, cujo êxodo em massa da Itália começou em 1875, particularmente do Trivêneto e Lombardia. Imigração formada de pequenos agricultores, uns proprietários, outros arrendatários e jornaleiros. Em meio a eles estavam artesãos e outros profissionais não diretamente ligados à imigração agrícola, bem como sacerdotes, destinados ao atendimento pastoral.
Celebramos a Imigração Italiana como um processo de 125 anos, em que os imigrantes agendados como colonizadores das quatro colônias Imperiais (Caxias do Sul, Garibáldi e Bento Gonçalves em 1875, e Silveira Martins, em 1877) e das posteriores colônias, além do Rio das Antas, a partir de Alfredo Chaves (1884) e Antônio Prado (1885) e, a partir da década de 1890, Encantado e Guaporé e seus desdobramentos em novos municípios que se estendem aos dias de hoje.
Não se excluem desta celebração as anteriores presenças pontuais de Italianos desde navegadores (1525), as missões jesuíticas (São Nicolau, 1626 e outras), as missões capuchinhas em a navegação de Silva Paes, no Forte de Rio Grande (1737), os italianos da Revolução Farroupilha (1835), os padres diocesanos trazidos por Dom Sebastião dias Laranjeiras (1860), viajantes, cartógrafos, profissionais liberais, voluntários e aventureiros italianos foram presenças italianas continuadas no Estado.
Concomitantemente à imigração agendada (1875 em diante), há uma imigração espontânea, de própria iniciativa e competência. Aquela vinha para ficar, enquanto esta tinha autonomia econômica possibilitando o ir e vir.
A presença italiana sob a forma espontânea prossegue até hoje no Brasil e em todos os países do mundo, inclusive na China.
A distinção se faz necessária, pois tratamos de Sociedade Civil e Imigração Italiana. Tratamos de imigrantes agendados, politicamente dependentes, sem condições de usufruir da cidadania italiana e, também, por longo tempo, sem necessidade de assumir juridicamente a cidadania brasileira.
São italianos do Rio Grande do Sul tanto os descendentes da grande imigração, como os demais, uns e outros participando da Sociedade Civil Brasileira de forma própria, como antes o eram da sociedade civil italiana. Possíveis participantes, hoje, de uma Sociedade Civil Brasileira e Italiana, pois, com o direito à dupla cidadania, objetiva ou subjetivamente, todo o descendente de italianos faz parte de duas pátrias.
Cidadania a entendemos como oportunidade de cada grupo humano cultivar uma forma específica de vida, com a qual contribui na sociedade humana, com história, conquistas e valores. Trata-se, pois, de diferenças no processo nuclear de identidades humanas, que, nas expressões de auto-imagem e auto-estima, se inter-relacionam no jogo de italianos brasileiros (nascidos na Itália e vivendo no Brasil) e de brasileiros italianos (nascidos no Brasil e com direito a viver na Itália), resultantes do processo imigratório amplo, e do processo agrícola em especial –, este agendado e definido segundo objetivos políticos do Governo Brasileiro.
Os brasileiros italianos, resultantes da imigração agendada, têm conotações próprias, pois estabeleceram sua participação civil através da agricultura em pequena propriedade, em comunidades etnicamente homogêneas, ou em comunidades mistas, ao lado de outros grupos étnicos. Trabalho agrícola familiar, em pequena propriedade, com a definida filosofia de trabalho, fé e solidariedade. Por esta forma própria de presença, os italianos participaram na sociedade civil que também os reconheceu como eficientes e participativos.
No momento presente, o brasileiro, extensivamente considerado, como a "grande expressão interétnica mundial," considera globalmente o italiano, por seu modo de ser, pensar e fazer, um imigrante que deu certo por tenacidade, fé e trabalho. É esta uma característica que começa dominar a consciência brasileira com a grande imigração agrícola, que foi fazendo esquecer a caricata figura do italiano presente na literatura brasileira do início de século passado.
Tanto os italianos atuando no Brasil, como os brasileiros italianos, sempre foram percebidos como cidadãos de duas pátrias, direito hoje politicamente afirmado pela dupla nacionalidade. Independente dela, o brasileiro italiano da imigração ou de outras expressões de presença, sempre foi visto como italiano, pelo apego e orgulho à sua própria história e cultura.
As diferenças e semelhanças na participação civil devem ser buscadas na pátria de origem e na pátria de adoção, ambas em formação e em evolução histórica no curso do processo imigratório.
Multidões pobres, à margem da participação política da Itália recém unificada, que passava de uma definição religiosa sobre a política, a uma definição política sobre a religiosa, não haviam assimilado esta nova realidade, pois suas cabeças continuaram até o fluir da I Guerra Mundial, iluminadas prevalentemente por definições e valores religiosos.
Populações marcadas ainda em suas mentalidades pelo poder espiritual, chegam ao Brasil, onde o poder civil, pela lei do padroado, comandava sobre o poder espiritual.
Esta diferente experiência sócio-política e religiosa historicamente fundamenta a dificuldade de diálogo e compreensão histórica entre a Itália dos que partiram, e a Itália dos que ficaram. Em ambos os casos, a participação no processo sócio-político dos dois países, não se equilibrou de um momento a outro, e pode-se dizer que ainda não é pacífico.
A participação numa cidadania civil italiana foi abandonada pelo imigrante antes de se ter dela apropriado, e a incipiente participação na cidadania civil brasileira se lhe tornara confusa, porque comandada, no Brasil, pelo poder temporal sobre o espiritual, ao contrário do que acontecia na pátria de origem, cuja mudança de rumos lhe causara transtornos e revoltas. E no Brasil, sacerdotes italianos, no ocaso do padroado e no alvorecer da laicização republicana, continuaram a estigmatizar o poder civil, como se pode constatar nas duas obras lapidares anti-laicistas de Pe. Fortunato Odorizzi, Sacras e profanas (1998) e Profanas e Sacras (2001).
Tanto a participação civil do Emigrante na Itália e do Imigrante no Rio Grande do Sul tinha uma definida conotação comunitário-religiosa e um preciso ponto de referência étnico, no caso o italiano, a italianidade nas suas expressões históricas, folclóricas, artísticas e culturais.
No Rio Grande do Sul, para italianos estabelecidos em suas glebas, tendo que construir e ordenar seu próprio espaço habitacional, social e cultural, a referência étnica foi primeiramente italiana, ou ítalo-polaca, ítalo alemã..., conforme a relação entre grupos, e remotamente ítalo-portuguesa, sem esquecer a fragilidade desta, presente nos centros populacionais, mas de que forma? De portugueses do Território, de Açorianos portugueses, de espanhóis...? Obviamente era uma forma de cidadania política que pouco tinha a ver com o grupo de italianos participando, por exemplo, de um filó, de uma ciranda da Bella Stella na Epifania, de uma festa de Igreja, de uma dança de casamento, de um velório, de uma pescada, ou de uma cantata, coroada por uma sbòrnia (bebedeira).
Carlos Drumond de Andrade traduziria o instante crucial da decisão de deixar a pátria natural por outra compulsoriamente escolhida, para começar tudo de novo, com esta candente afirmativa:
"Eterno é tudo aquilo que dura uma fração de segundo, mas com tamanha intensidade que se petrifica, e nenhuma força o destrói."
A imigração agrícola, da qual aqui tratamos, começa seu êxodo de uma Itália pós-unificação política, ou envolvida com a unificação política que aconteceu juridicamente, mas ainda não acontecera de fato.
O imigrante agricultor partiu de uma pátria que talvez nunca lhe pertenceu como pátria, mas concretamente de um solo que o viu nascer, de uma família visceralmente solidária pela sobrevivência, e arraigada à sua própria fé, como força propulsora, podendo-se dizer que "emigraram com mais pátria celeste do que com pátria terrestre." Da pátria celeste, no caso a Igreja, tinha apoio e missão confiada (viver e testemunhar a fé como apóstolos do novo mundo); da pátria terrestre, no caso a civil, apenas o desprazer dos patrões que perdiam a mão de obra facilmente explorável.
Economicamente e nas possibilidades de participação política e social, podemos dizer que o imigrante, no sentido civil, é um cidadão sem pátria. Seu ponto de referência divergia entre o patrão do qual era dependente e, às vezes, assalariado, do comune ou província dos quais dependia principalmente para prestar serviço militar, lutar em guerras e pagar taxas. Seu único seguro suporte era a religião.
O imigrante foi um cidadão italiano que aportou à nova pátria, sem uma cidadania efetiva e definida. Ou de uma cidadania diferente. O próprio apóstolo dos imigrantes, Dom João Batista Scalabrini e, mais candentemente, o bispo de Cremona, Dom Geremia Bonomelli, o caracterizam o imigrante como cidadão de uma pátria inexistente, a ser construída, quando afirmam: "É nossa pátria o solo que nos dá o pão." E, no seu pensamento, o emigrar se impõe ao roubar, quando afirmam: "Ou roubar ou emigrar."E o imigrante italiano da grande emigração, aqui e em qualquer parte do mundo, é um peregrino à busca da pátria do trabalho e do pão quotidiano.
Uma Itália, como acontecia com o resto da Europa à época, sem condições de proporcionar o pão a seus filhos, era como uma extremosa mãe, mas sem leite nos seios para os próprios filhos.
Então, o imigrante não deixou pátria, não deixou participação social, não deixou participação política, mas deixou a dor da separação da família, do lugarejo, da tênue possibilidade de sobrevivência, abundante em afeto e escassa em pão, em troca do sonho de uma pátria que deveria construir com seus braços iluminados pela fé.
Nanetto Pipetta, o símbolo desta aventura no escuro, mostra que a América não existe, pois cada um deve fazê-la com seu trabalho.
Este perceber difuso de uma pátria, da própria posição no cenário de uma sociedade civil, diferente e independente da sociedade religiosa, que se esboçava na Itália pós-unificação, continuou no Brasil. Inicialmente (até 1889), através de uma pátria étnica e culturalmente diversificada, o Brasil do padroado, semelhante e diferente da Itália antes da unificação. Semelhante, porque, na Itália, a Igreja comandava as ações políticas e religiosas; diferente, porque, no Brasil, o Estado comandava as ações políticas e religiosas.
Dentro desta realidade civil, o imigrante italiano no Rio Grande do Sul, nas colônias, estava relegado ao seu destino, a fazer a América da maneira como entendesse e pudesse: não como cidadão italiano, porque seus direitos de cidadão italiano estava fora de suas possibilidades efetivas; não como cidadão brasileiro, porque nascido em outro país, marcado pela pecha de gringo, estrangeiro e, no eclodir da última guerra, de quinta-coluna.
Hoje a realidade modificou, mas aquele momento crítico, com marcas de perenidade de que fala Drumond de Andrade, continua à procura do equilíbrio.
Embora todos integrados como cidadãos brasileiros, somos ítalo-brasileiros étnica e historicamente. E, no historicamente, somos ítalos, proibidos de sê-lo no momento da Campanha de Nacionalização, antes de termos os pré-requisitos para sermos brasileiros.
Em nossos pais e avós, fomos silenciados como italianos, e não fomos reconhecidos como brasileiros, porque nos faltava esta cidadania, que nunca nos fora proporcionada, e então compulsoriamente nos era imposta.
Tornamo-nos brasileiros à força: a Campanha de Nacionalização nos fez tais e nos tolheu as condições de sermos italianos, por isto, hoje, as decisões políticas brasileiras e italianas incidem diferentemente sobre italianos no Brasil e ítalo-brasileiros ou brasileiros ítalos, pois a cidadania brasileira vem do nascer em solo brasileiro, e a italiana, do portar nas veias sangue italiano.
Com esta conturbada história, encontramos o caminho para fazer a América a nosso modo, com trabalho, economia, solidariedade e fé. Mas ainda não fizemos a Itália, que deixamos, sem ainda a entender como pátria política, e a levamos conosco como pátria originária, materna e afetiva.
Por nossos pais, deixamos uma Itália em construção política, com uma forma indefinida de cidadania, na qual nosso papel não era outro senão sermos mão de obra barata, ou braços estendidos ao vento, sem nada a fazer, sem onde trabalhar, com a toalha na mesa, sem outra iguaria senão a água, também nem sempre abundante.
A Itália política nunca nos acolheu como cidadãos efetivos e participantes, mas como sentia como peso provisório, do qual a libertamos saindo.
Nosso espaço geográfico, familiar, comunal, provincial, regional e nacional lá ficou como lugar a mais na mesa dos que continuaram fazendo a Itália geográfica.
Por isto, a Itália que nós buscamos, é ainda, em grande parte, a Itália que há 125 anos nossos pais trouxeram consigo: a Itália dos antepassados, dos avós, da família, do paeselo, do capitelo, da chieseta.
Hoje, a Itália silenciosa, envergonhada, talvez, em nos constranger a sair, depois de décadas de silêncio, nos procura, nos fala, nos convida para o quê?
– Para sermos cidadãos italianos, para votarmos à nossa pátria, a Itália de hoje, sem nos perguntar o que nós queremos, como nós vivemos estes 125 anos, como nós dialogamos, que valores conservamos e conquistamos.
A Itália vem ao nosso encontro como pátria política, como potência econômica mundial, e nós estamos à procura de uma pátria-seio, uma pátria-mãe, uma pátria-família, estamos à procura do afeto e do reconhecimento como filhos, em primeiro lugar.
Aqui está a diferença entre filhos da emigração pobre agrícola e emigrantes por própria iniciativa, que a Itália política, em geral, considera seus embaixadores, seus representantes. A Itália de hoje nos olha no viés econômico, comercial e político. No aspecto político, até, nos está tentando catequizar com suas ideologias políticas, cujo desfecho ninguém poderá dimensionar caso se efetive o já aprovado voto no exterior.
De qualquer forma, a Itália política atual está trazendo à nossa realidade o regionalismo, que desconhecíamos, e que, em seus aspectos divisionistas, bairristas está degradando o afetivo, idílico e sagrado conceito de Itália que tínhamos dentro de nós, como nossa família extensiva, toda igualmente significativa e bela.
Ninguém emigra senão por interesse, e nosso interesse, através de nossos avós, era o de sobreviver. A Itália de hoje emigra para enriquecer mais, se impor mais, sem preocupação em nos auxiliar a encontrar nossa casa paterna. Não nos pergunta quem somos e o que fizemos, o que temos a proporcionar-lhe em história e qualidade de vida. Se os italianos autônomos, que perambulam o mundo, com a alta ciência, tecnologia, política são considerados, pela Itália, seus embaixadores, nós, até hoje, nos sentimos seus esquecidos e ridicularizados filhos.
E a Itália nos admira em dois momentos, ambos pitorescos à nossa ítalo-brasilidade, ou brasílico-italianidade:
1º Para a Itália que nos vê simplesmente como seus filhos de ontem, daquele ontem que nem em seus livros didáticos figura, do qual tem vergonha, não passamos para ela de exóticos animais de circo.
2º De outro ângulo, sempre considera seus filhos de ontem e de hoje, como sua jazida comercial, industrial e política. Mas esqueceu, ou não entendeu ainda que nós somos, primeiramente, uma jazida cultural, um patrimônio humano único, a faceta que lhe falta para completar o seu e o nosso patrimônio humano e cultural.
Nós também temos história, cultura, indústria, comércio e humanismo para propiciar e intercambiar com nossa pátria de origem, a Itália.
Dizer amém à pátria de origem foi a palavra que nossos pais julgaram mais conveniente naquele crucial momento de êxodo. Comunicar e condividir sua aventura, completar a o amem de sua italianidade com a nossa brasílico-italianidade é nossa palavra de fé, trabalho, e cultura.
Não procuramos, não queremos, nem aceitamos uma Itália que nos trate como ridículos, nem apenas como só italianos, porque somos ítalo-brasileiros ou brasileiros ítalos.
Fazendo a América, nós fizemos também a Itália, por isto esperamos que a Itália se cotize conosco para continuar fazendo a América, e continuar construindo a Itália no Mundo, que nem nossos pais, nem nós conseguimos fazer de todo ainda.
Somos um povo em missão de trabalho, fé e solidariedade, propostas com as quais marcamos o mundo de ontem, e esperamos marcar e globalizar o amanhã de uma sociedade sonhamos feliz pela utopia do Amor e da Fraternidade.
Porto Alegre, 26 de março de 2001.
Rovílio Costa – Universidade Federal do Rio Grande do Sul (40º aniversário de Ordenação Sacerdotal).