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Editorial
do jornal do Brasil, edição de 31 de março de
1964 (Parte) Ricardo Bergamini |
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O
Presidente da República sente-se bem na ilegalidade. Está nela e
ontem nos disse que vai continuar nela, em atitude de desafio à ordem
constitucional, aos regulamentos militares e ao Código Penal Militar.
Ele se considera acima da lei. Mas não está. Quanto mais se afunda
na ilegalidade, menos forte fica a sua autoridade. Não há autoridade
fora da lei. E, os apelos feitos ontem à coesão e à unidade dos
sargentos e subordinados em favor daquele que, no dizer do próprio,
sempre esteve ao lado dos sargentos, demonstra que a autoridade
presidencial busca o amparo físico para suprir a carência de amparo
legal. Pois
não pode mais ter amparo legal quem no exercício da Presidência da
República, violando o Código Penal Militar, comparece a uma reunião
de sargentos para pronunciar discurso altamente demagógico e de
incitamento à divisão das Forças Armadas. (...). Editorial
do Jornal do Brasil, edição de 1°
de abril de 1964
Quem
chegasse às 8h30m da noite de ontem ao Edifício do Jornal e da Rádio
Jornal do Brasil não poderia entrar, pois encontraria na porta,
metralhadora em punho, um fuzileiro naval. E se olhasse pela parede de
vidro dos estúdios da Rádio teria a impressão de assistir a um
filme de gangsters: quatro outros fuzileiros, comandados pelo Tenente
Arinos, moviam-se como gorilas pelo estúdio, seus movimentos tolhidos
pelas metralhadoras que ameaçavam microfones, painéis de
instrumentos e os funcionários, estupefatos com aquela irrupção de
selvajaria tecnológica em plena Avenida Rio Branco. Era
o Brasil regredindo ao estado de republiqueta latino-americana. Os
fuzileiros navais, ao chegarem, dispararam dois tiros para o ar diante
do prédio e entraram de metralhadoras em punho, pistolas na cinta, até
o 5o andar. Tinham ordem de quem? Indagamos. Do Ministro da Marinha,
disseram. Onde está a ordem? Era verbal. Da Rádio, o Tenente
telefonou a um Almirante, sem lhe dizer o nome. O prédio era muito
grande, disse. Precisavam reforços. Deixaram dois de guarda na Rádio,
outro na porta da rua e foram em busca dos tais reforços, sem dúvida
para ocuparem todas as dependências do Jornal do Brasil. Mas
deve estar em desespero o Governo do Sr. João Goulart. Dentro de meia
hora, em lugar dos reforços, veio a ordem de retirar. Amontoados no
elevador, capacetes na cabeça, metralhadoras se entrechocando e se
apoiando nas costelas deles próprios, desceram. E passaram diante de
populares boquiabertos, na calçada da rua. Quem
humilha assim os bravos Fuzileiros Navais da Marinha do Brasil? Quem
os transforma primeiro em gangsters violentos e os faz evacuar em
seguida, confusos, um pugilo de homens envergonhados sob o peso de
tanto material bélico? Quem estimula a indisciplina de marujos e
fuzileiros e depois os transforma em bandidos e em seguida em pobres
diabos pilhados em flagrante? A
partir de 13 de março o Sr. João Goulart tem injuriado muitos, em
muito pouco tempo. Agora, ao que tudo indica, já lhe resta muito
pouco tempo para injuriar quem quer que seja. Ao
primeiro minuto de hoje teve início a greve geral em todo o país,
por determinação do Comando Geral dos Trabalhadores e em apoio ao
Presidente João Goulart, paralisando de imediato os trens da Central
do Brasil e da Leopoldina, o Porto de Santos e os bondes da Guanabara,
com a adesão de universitários. A
decisão da greve foi precipitada pela prisão ontem, no Sindicato dos
Estivadores, de vários lideres sindical pela Polícia Política da
Guanabara. A Federação Nacional dos Marítimos, que decretou a greve
ontem à noite, denunciou o desaparecimento de quatro estivadores, um
líder sindical de Vitória e do Dr. Antônio Pereira Filho, líder
dos bancários. O
Partido Comunista Brasileiro responsabilizou ontem os grupos radicais
pela precipitação da crise política, tachando de imprudente a tática
utilizada por líderes extremados. Acha o PCB que tal atitude conduzirá
à união do centro contra a direita, neutralizando assim a ação dos
setores mais moderados da esquerda, e que, no seu entender, levará à
deposição do Presidente da República, com lastro na opinião pública. O
Governador Carlos Lacerda, embora tenha dito ao seu Secretariado que não
acredita na crise nacional, montou um esquema de segurança para o Palácio
Guanabara e para as ruas a ele adjacentes, com a qual pretende
resistir contra qualquer intervenção federal no Estado da Guanabara. Às
três horas de hoje o Palácio Guanabara deu nota oficial informando
que os fuzileiros para lá se dirigiram e chamava o povo para defender
o Governador. Cerca
de 500 homens da Polícia Militar, sob a ordem direta do Secretário
de Segurança, General Salvador Mandim, são empregados na defesa do
Palácio do Governo. Barricadas foram construídas com sacos de areia
e os militares permanecem em regime de prontidão.
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