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JUAN DIEGO: O ÍNDIO VIDENTE DE GUADALUPE |
Frei Rovílio Costa |
Em fins de julho de 2002, após a visita ao Canadá, João Paulo II irá ao Santuário de Nossa Senhora de Guadalupe, na periferia da cidade do México, para a canonização do Beato Juan Diego Cuauhtlatoatzin, o índio mexicano que aí teve as aparições de Nossa Senhora, em dezembro de 1531.
É a terceira viagem de João Paulo II ao santuário de Guadalupe. Embora seu estado de saúde e as recomendações médicas de repouso, parece que o papa tem compromissos que ele quer realizar de qualquer maneira. Entre estes, está a canonização de Juan Diego no Santuário de Nossa Senhora de Guadalupe, um dos mais freqüentados do mundo... João Paulo II esteve em Guadalupe pela primeira vez em janeiro de 1979, três meses depois de eleito papa. Retornou em maio de 1990, quando beatificou Juan Diego e, agora, volta para canonizá-lo.
Juan Diego é um santo especial, viveu na passagem de 1400 a 1500, mas pela bondade, simplicidade e normalidade é um indivíduo comum a qualquer tempo. Agricultor, dono de pequeno terreno donde tirava o necessário sustento, esposo feliz, pai de família, aberto à verdade, durante 57 anos levou existência anônima e monótona, sem qualquer fato extraordinário, mas depois, improvisamente, se tornou protagonista de uma história maravilhosa, de um acontecimento estupendo, um dos mais importantes da história do México.
Juan Diego nasceu em 1474 em Cuauhtitlán, na periferia da cidade do México. Seu nome asteca Cuauhtlatóhuac significa "Aquele que fala como uma águia". Casou moço com a jovem Malintzin, e teve filhos. Em 1521, aquelas terras foram conquistadas por soldados espanhóis, em seguida aos quais chegaram nove freis franciscanos que anunciaram o Evangelho e a religião cristã ao povo asteca.
Até então, Cuauhtlatóhuac e sua esposa Malintzin observavam a religião asteca. Mas logo que ouviram falar do Evangelho de Jesus, sentiram-se atraídos à nova doutrina e foram os primeiros a abraçá-la. Foram batizados em 1524 com os nomes de João Diego e de Maria Lúcia, esta faleceu em 1529. Viúvo, Juan dedicou-se totalmente ao trabalho na lavoura, à oração e à assistência a um tio doente, Juan Bernardino, também convertido cristão.
A manhã de 9 de dezembro de 1531 era sábado e, como em todo o sábado, Juan Diego levantou cedo, para ir a Tlatiololco, o centro habitado mais importante daquela zona, onde estava a sede dos missionários para participar da Missa e da catequese. Chegou próximo à colina Tepeyac ao clarear o dia. Ouviu, no alto da colina, um canto maravilhoso de pássaros estranhos. Parou maravilhado para escutar, procurando adivinhar de onde vinha. De repente, o canto se interrompeu e se fez profundo silêncio. Então ouviu uma voz de mulher que o chamava, com doçura, pelo nome:"Juanito, Juan Dieguito". Juan, sem receio, se dirigiu ao lugar donde vinha aquela voz. No coração experimentava sensação de alegria. Chegando no alto da montanha, viu uma jovem senhora, em pé, que o convidava a aproximar-se. Juan foi tocado pelo aspecto encantador da senhora, e sentiu-se na presença de um ser sobrenatural e se prostrou. A jovem senhora assim lhe falou:
– Juanito, meu pobre filho querido, para onde vais?
– Estou indo à igreja para assistir a missa e, em seguida, à catequese.
– Saiba que eu sou a perfeita e santa sempre Virgem Maria, mãe do verdadeiro e único Deus, o Autor da vida, o Criador dos homens, aquele que tudo sustenta, o Senhor do céu e da terra. Desejo ardentemente que neste lugar venha construída a minha pequena casa sagrada, que me seja erguido um templo...Aqui escutarei vosso choro e vossos lamentos. Compadecer-me-ei e curarei todas os vossos numerosos sofrimentos, as vossas misérias e sanarei as vossas dores. E, para que se realize tudo o que deseja meu misericordioso amor, vai ao palácio do bispo, na cidade do México, e dize-lhe que eu te envio a revelar-lhe o que desejo, isto é, que construa aqui uma casa... Contar-lhe-ás tudo o que tens visto, admirado e escutado.
Juan Diego correu à Cidade do México para cumprir a ordem recebida. O bispo era Dom Juan de Zumarraga, franciscano, de 63 anos, nascido em 1468 em Durango, na Espanha. Fora nomeado bispo em 1527 por Carlos V e foi o primeiro bispo católico da história do México. Homem forte e corajoso, cumpria sua missão com dedicação e entusiasmo.
Recebido pelo bispo, Juan Diego lhe contou tudo o que sucedera naquela manhã. O bispo ouviu, mas não lhe deu crédito. Despedindo-o, lhe disse: "Meu filho, volta outra vez, enquanto refletirei melhor sobre o que relataste."
Juan sentiu-se mal, porque não conseguiu cumprir o encargo que lhe confiara a belíssima senhora. Voltou para casa triste e desiludido. Aos pés da colina Tepeyac, viu novamente aquela maravilhosa criatura, que o esperava. Desabafou com ela sua amargura por não ter conseguido convencer o bispo, e pediu para ser dispensado do encargo, declarando-se indigno e incapaz de executá-lo. Mas a Virgem lhe disse que confiava plenamente nele e lhe pediu de retornar ao bispo e renovar o pedido.
A manhã seguinte era domingo. Depois de ter participado da missa, Juan retornou ao bispo e lhe repetiu os pedidos de Nossa Senhora. Desta vez, o bispo lhe fez muitas perguntas, mas no final ficou céptico e o despediu, dizendo que somente poderia avaliar o que lhe dizia, se tivesse trazido provas concretas e não somente palavras.
Juan saiu triste e amargurado. O bispo ordenou a alguns de seus servos de observá-lo. Seguiram-no às escondidas, mas o perderam de vista exatamente quando ele se avizinhava da colina das aparições. E enquanto voltavam, Juan encontrou de novo a Virgem. Relatou as palavras do Bispo e seu pedido de um sinal. Pediu novamente de ser dispensado dessa tarefa, mas a Virgem lhe respondeu que no dia seguinte lhe daria o sinal solicitado.
Juan estava perturbado. Não queria mais retornar ao bispo, ao qual prestava grande submissão. No dia seguinte, seu velho tio, Juan Bernardino, que estava doente, piorou. Diego teve que ir à procura de um médico que, depois de tê-lo visitado, disse que em pouco tempo morreria. Durante toda a segunda feira, Juan assistiu ao tio que, de durante a noite pediu para se confessar e receber o viático.
De manhã cedo, Juan foi a Tlatilolco chamar um sacerdote. Receoso de encontrar a misteriosa Senhora aos pés da colina de Tepeyac, foi por outro caminho. Mas, a certa altura, a Senhora apareceu à sua frente, e lhe perguntou:
– Juan, por que estás com tanta pressa?
– Meu tio está morrendo, precisa de um confessor.
A Senhora o tranqüilizou, dizendo-lhe que o tio já melhorara e o convidou a subir ao alto da colina para colher flores para levar ao bispo.
O pobre Juan se dirigiu ao cimo da montanha, a mais de 2000 metros, de má vontade, pois sabia que naquele lugar árido, coberto de pedras e espinhos, em dezembro a temperatura não favorecia o desabrochar de flores.
Obedeceu para agradar à Senhora, e quando lá chegou, maravilhado, viu lindas flores recém desabrochados. Recolheu-as em sua capa e desceu correndo para mostrá-las à Senhora, que as recebeu em suas mãos, fez um belo ramalhete, e o entregou ao Juan, pedindo que o levasse ao Bispo, só abrindo a capa em sua presença.
Juan se dirigiu ao palácio episcopal, e pediu para ser recebido pelo bispo, mas os funcionários, além de não o atenderem, o mandaram embora com grosseria e, vendo que ele tinha alguma coisa guardada na capa, começaram a observá-lo com suspeita. Vendo as flores, queriam tirar-lhas e tentaram fazê-lo por três vezes, mas as flores, como se estivessem coladas, não desgrudavam da capa. Maravilhados com tal fenômeno, informaram o bispo, que recebeu o Juan, que lhe referiu a nova mensagem da Senhora e lhe contou das flores que havia colhido na colina. Abriu a capa para oferecer as flores ao bispo, mas estas caíram por terra e, na parte interna da capa, o bispo e todos os que estavam com ele viram impressa a imagem de Nossa Senhora, com as mãos juntas, assim como é, hoje, a imagem de Nossa Senhora de Guadalupe. Estupefatos, se perguntaram quem a teria pintado. Juan também ficou maravilhado e disse que até pouco antes essa imagem não existia em seu manto. As flores também eram objeto de grande maravilha. O bispo se deu conta que naquela estação e àquela altitude era impossível encontrar flores novas. Além disso, Dom Zumarraga reconheceu logo nessas flores as estupendas rosas de Castiglia, e sabia que não poderiam florescer numa montanha do México.
Todos estes fatos convenceram o bispo de que tudo o que Juan Diego dizia era verdade. Caiu de joelhos e rezou, pedindo perdão a Nossa Senhora da sua incredulidade em relação a Juan Diego. Levantando-se, retirou a capa do pescoço do índio, colocou-a em sua capela, e quis que Juan Diego fosse seu hóspede.
Na manhã seguinte, Juan Diego acompanhou Dom Zumarraga a Tepeyac para indicar o lugar onde Nossa Senhora tinha pedido que fosse construída uma igreja, e depois pediu permissão de voltar para casa para ver como estava seu Tio Bernardino, que, no dia anterior, estava moribundo.
O bispo lhe deu permissão e pediu a alguns seus colaboradores de o acompanharem, para ver se o doente realmente melhorara, como a Senhora havia prometido. Chegados à casa do Juan, encontraram o velho Bernardino completamente curado, e maravilhado de ver seu sobrinho acompanhado de tantas pessoas.
Quando Juan Diego lhe contou da aparição da Nossa Senhora, que lhe ordenara de cumprir sua missão junto ao bispo e lhe havia anunciado a cura do tio, este referiu que nessa mesma hora, no dia anterior, a Senhora aparecera também a ele, o havia curado e lhe tinha dito de que queria ser invocada com o título de Perfeita Virgem Santa Maria de Guadalupe.
Face a este depoimento, os colaboradores do bispo quiseram levar Bernardino à cidade do México para contar tudo a Dom Zumarraga, que deteve consigo o tio e o neto para ouvir de ambos, mais uma vez, a história detalhada de tudo o que acontecera naqueles dias, e depois ordenou a imediata construção de uma capela no lugar das aparições. Neste entretempo, expôs na catedral a imagem da Virgem que aparecera na capa de Juan Diego, onde se tornou objeto de grandíssima devoção popular.
A construção da igrejinha aos pés de Tepeyac foi concluída com incrível rapidez. A 26 de dezembro de 1531, o bispo procedeu à solene transladação da imagem, da catedral à nova capela. E também então se realizou um novo extraordinário milagre.
A sagrada imagem foi transportada da catedral para a nova igrejinha sobre um rico andor, enfeitado de penas, e coberto por um baldaquino, seguido pelo bispo, clero, nobreza espanhola e asteca e uma incrível multidão de fiéis. O povo cantava, grupos de indígenas dançavam vestidos de guerreiros e externavam sua alegria, representando cenas de batalhas com arcos e flechas. A certa altura, escapou a flecha de um atirador e transpassou a garganta de um companheiro que morreu na hora. O corpo do atingido foi logo levado diante da imagem de Nossa Senhora, enquanto os presentes rezavam. Logo que foi retirada a flecha, a ferida sarou, deixando apenas profunda cicatriz, e o morto levantou ressuscitado.
Juan Diego decidiu dedicar o resto de sua vida ao serviço da Virgem Maria. Deixou a casa em poder do tio Juan Bernardino e se transferiu a uma cabana próxima da igrejinha da Nossa Senhora. Lá passava o tempo rezando e fazendo os trabalhos mais humildes, necessários para manter em ordem o lugar. Juan morreu em 1548, e foi sepultado nessa igrejinha, que, com a canonização de Juan Diego, em fins de julho de 2002, será ainda maior atração dos devotos marianos de todo o mundo (Síntese dos textos de Renzo Allegri, "Juan Diego, l’indio che vide la Madonna," Torino, Rivista Medjugorge, n. 105, maggio/giugno 2002, p. 4-6, traduzido por Marilene Dorneles; Nilza Botelho Megale. 107 invocações da Virgem Maria no Brasil. Petrópolis, Vozes, 1980, p. 175-8).