POVOADORES ALEMÃES DO RIO GRANDE DO SUL 1847-1849

O recenseamento dos moradores das Colônias São Leopoldo e Mundo Novo, Província de São Pedro do
Rio Grande do Sul

Otavio Augusto Boni Licht

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  SUMÁRIO

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Apresentação (Prof. Dr. Martin Norberto Dreher)

Prefácio (Frei Rovílio Costa, Editor)

Introdução

Descrição do material

Critérios adotados na transcrição

Agradecimentos

O recenseamento dos moradores das Colônias de São Leopoldo e do Mundo Novo, 1847-1849

Ambientação histórica

A área de abrangência do recenseamento

O período de realização do recenseamento

A população

Escravos

Composição etária

Nacionalidade

Profissão

Religião

Alforria

Moradores brasileiros e imigrantes

Distribuição populacional

Composição etária

Nacionalidade

Religião

Profissão

Os grupos familiares

Viúvas

Quantidade de residências

Atividade econômica

Pecuária

Atividade industrial

Considerações finais

Quem foi Johann Daniel Hillebrand?

Referências bibliográficas e cartográficas

TRANSCRIÇÃO DO CÓDICE C-332

Villa de São Leopoldo – Moradores Alemães

Villa de São Leopoldo – Moradores Brasileiros

Villa de São Leopoldo – quadro-resumo

Feitoria

Feitoria – quadro-resumo

Sendente e Guary

Padre Eterno

Padre Eterno – quadro-resumo

Mundo Novo

Mundo Novo – quadro-resumo

Picada de Blaudt – Sommern Schneiss

Picada de Blaudt – Sommern Schneiss – quadro-resumo

Campo Bom

Quatro Colônias (Campo Bom)

Campo Occidental – Moradores Brasileiros

Campo Occidental – Moradores Alemães

Picada Dois Irmãos

Travessão (Dois Irmãos)

Picada Feliz

Picada Feliz – Recapitulação

Índice Onomástico

 

 

 

 

 APRESENTAÇÃO

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Com sua colonização iniciada em 1824, a Colônia Alemã de São Leopoldo viu-se envolvida nos acontecimentos da Revolução Farroupilha, que devastou, em dez anos de luta, o Rio Grande do Sul. Finda a revolução, deu-se início à reconstrução da Província e necessário se fazia um inventário do todo. Fazendo já parte desse todo, a Colônia Alemã de São Leopoldo foi submetida a recenseamento dirigido pelo médico e diretor da Colônia, João Daniel Hillebrand. Iniciado em 1847, o recenseamento foi concluído em 1849.

Natural de Porto Alegre, Mestre em Geociências pela UFRGS, Doutor em Geologia Ambiental pela Universidade Federal do Paraná, desde 1982 residente em Curitiba e dedicando-se há 15 anos a estudos genealógicos, Otavio Augusto Boni Licht, brinda-nos neste livro com os resultados do censo realizado sob a direção de Hillebrand, em meticulosa análise. Para a alegria dos pesquisadores da História da Colonização e da Imigração, não fica, contudo, na análise, mas permite que  velhas e nova gerações de estudiosos tenham acesso ao códice C 332, constante do acervo do Arquivo Histórico do Rio Grande do Sul e, agora, neste livro. Com isso, contribui também para sua preservação, exposto que está o original, constantemente, ao manuseio de pesquisadores, majoritariamente genealogistas, à procura de seus ancestrais.

A publicação de Licht traz importante contribuição para a história de uma série de municípios que foram sendo desmembrados da Colônia Alemã de São Leopoldo. Nomeie-se aqui, além da própria São Leopoldo, as localidades de Novo Hamburgo, Dois Irmãos, Taquara, Campo Bom, Estância Velha, Portão, Feliz e Alta Feliz. A publicação de mapas permite ao pesquisador mais fácil acesso aos locais de origem das famílias recenseadas. Depois, começam a emergir temáticas que dizem respeito à densidade demográfica. É bom que Licht principie com a população escrava, observando sua composição etária, proveniência regional africana, suas profissões e religião. Num contexto no qual a religião do Estado seguia sendo a católica e protestantes eram meramente tolerados, o africano é compulsoriamente considerado católico. Seguem-se os dados sobre a população livre brasileira e imigrante e respectivas temáticas: composição etária, proveniência regional, religião, profissões, composição dos grupos familiares. Especial consideração merecem as viúvas. Os dados obtidos corroboram pesquisas anteriores, mas também trazem novidades.

Dentre as novidades, destaco o acento dado por Licht à atividade econômica, sublinhando nela a importância da pecuária e da atividade industrial. Além disso, a breve observação que faz, dizendo respeito à composição do perfil médio dos habitantes da Colônia Alemã de São Leopoldo em 1849: casais com três filhos; ele com 22 anos, ela com 21 anos. Quanto à religião majoritariamente evangélicos. No tocante à profissão majoritariamente agricultores. Os imigrantes de 1824, em sua maioria artesãos, passam a ser na segunda geração, primordialmente, agricultores. Aqui começam novos estudos...

Cabem agradecimentos de historiadores e genealogistas a Otavio Augusto Boni Licht. Estes dois ramos da pesquisa têm neste livro material para muitos anos de estudo. Ele deverá constar, obrigatoriamente, das bibliotecas, de professores e estudantes da História da Colonização e da Imigração, de estudiosos das histórias das famílias de origem rio-grandense e de todos aqueles que perguntam pela importância da contribuição da imigração alemã, decorridos 180 anos de seu início no Rio Grande do Sul.

Professor Dr. Martin Norberto Dreher

Coordenador do Núcleo de Estudos Teuto-Brasileiros

Programa de Pós-Graduação em História da UNISINOS

 

 

 

 

  PREFÁCIO

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Conhecer o Autor, antes de ler a obra, é um passo importante para sua compreensão. Otavio Augusto Boni Licht, ao apresentar sua obra para edição, a nosso pedido, constrangido, depois de algum tempo, forneceu estes dados pessoais:

“Nasci em Porto Alegre em 13 de agosto de 1948; graduei-me em Geologia pela UFRGS em 1973; fiz mestrado em Geociências em 1982 na UFRGS; concluí doutorado em Geologia Ambiental em 2001 pela Universidade Federal do Paraná.”

“Sou casado com Rosane Weber (descendente dos Flesch e Weber de Solitária) e tenho duas filhas, Daniela e Carolina. Moramos em Curitiba desde 1982. Como hobby, há 15 anos venho pesquisando a genealogia de minha família e da de minha esposa. Mais recentemente, ampliei a pesquisa aos imigrantes alemães e italianos do Rio Grande do Sul, o que evidentemente derivou para a história da região colonial.”

Belo 13 de agosto de 1948, uma sexta-feira 13, e ainda de ano bissexto, em que sorriu para o mundo um Otávio Augusto, atraído por uma luz que brilhava com intensidade, há cem anos, desde o denominado Recenseamento de 1848 da população das Colônias de São Leopoldo e do Mundo Novo.

Recenseamento evidencia números, que não falam por si mesmos, mas por meio da realidade donde foram auferidos. Otavio Augusto enriqueceu sua obra, Povoadores das Colônias de São Leopoldo e do Mundo Novo, com uma oportuna análise introdutória que situa os dados no tempo e no espaço e motiva a reflexão histórica para diferentes caminhos e abordagens.

O recenseamento espelha um momento do processo demográfico, que deve ser lido à luz do passado. O resultado pode ser uma remanescência, depois de um fato estranho ao processo normal, como pode ser releitura de um processo demográfico em andamento.

O recenseamento dos moradores das Colônias de São Leopoldo e do Mundo Novo, de 1847-1849, ao natural põe em confronto duas situações – a do processo histórico andando por vias normais e a do processo histórico, violentado pelos acontecimentos da Revolução Farroupilha.

A tudo Otávio Augusto esteve atento. A partir de análises de economia e produção, olha o contexto familiar, no qual, por exemplo, as viúvas não aconteceram apenas por morte natural, ou por morte devida a doenças e enfermidades dos maridos, mas em conseqüência de situação bélica, surpreendendo o curso normal dos fatos e acontecimentos.

No contexto do recenseamento, a família não se constitui apenas de pais e filhos, mas de pais, filhos e escravos, embora estes por lei não fossem permitidos aos imigrantes.

A presença de escravos, em número e nome, acena à convivência primordial entre alemães, africanos e brasileiros, importante capítulo para o Estudo de Raízes Africanas, segmento de estudos demográficos que a EST Edições está promovendo, em continuidade às publicações – Os cativos e os homens de bem, de Paulo Staudt Moreira; Resistência da mulher escrava, de Marilza Kreche Portal Bitencourt e da História da Igreja Nossa Senhora do Rosário, de Dom José Barea, publicação póstuma em colaboração ao quase centenário Correio Riograndense.

Num país, que tem o catolicismo como religião oficial, o recenseamento confirma a supremacia numérica de evangélicos sobre católicos. E hoje, igrejas católicas e evangélicas de extração luterana, superada a fase apologética, se irmanam em crescente e maduro ecumenismo. O ir e vir de uma a outra denominação, no mesmo ramo familiar, é outro caminho para análise histórica do processo religioso, que o recenseamento ajuda a entender.

Enfim, atividades profissionais, econômicas, políticas e religiosas, analisadas na introdução, com base no recenseamento, abrem caminho para estudos comparativos longitudinais em confronto aos dados históricos e aos fatos e acontecimentos que se desenrolaram até o presente.

Topografia e topônimos – linhas, travessões, picadas, vilas e cidades – da área recenseada foram emoldurando a fisiogeografia atual.

O solo, com seu patrimônio natural, continua cenário de alemães convocados como imigrantes colonizadores, junto a duas dezenas de outras etnias.

Enfim, estamos diante de uma obra censitária que faz do leitor ora um historiador, ora um investigador, ora um ficcionista, ora um religioso místico ou polêmico... porque descortina à mente originárias relações e vinculações a um passado ainda vivo no presente.

Em Povoadores das Colônias de São Leopoldo e do Mundo Novo, o censitário se revela essencial ingrediente do histórico, do antropológico, do étnico e do cultural.

 

Porto Alegre, 20 de maio de 2004, dia da Etnia Italiana no RS

Frei Rovílio Costa – Editor

 

 

 

 

  INTRODUÇÃO

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Iniciei a transcrição do Códice C-332, pensando apenas em enriquecer meu banco de dados de genealogia do Rio Grande do Sul, com informações coletadas em uma fonte documental primária sobre os imigrantes alemães e seus descendentes.

Foi uma tarefa trabalhosa, pois o Códice C-332 é um manuscrito de meados do século XIX, bastante manuseado, que já sofreu restauro, e assim com leitura relativamente difícil.

À medida que o trabalho avançava, aumentava minha convicção de que se tratava de um importante documento que necessitava ter restrição de acesso e consulta visando sua preservação. Com isso, surgiu a idéia de publicá-lo na íntegra, de modo a servir ao maior número possível de pesquisadores e interessados na história e na genealogia do Rio Grande do Sul, especialmente dos imigrantes alemães que aqui chegaram no período Imperial, de 1824 até 1830.

A leitura desse material me permitiu um mergulho de 155 anos no passado, na vida e nas relações familiares de milhares de indivíduos, pioneiros da colonização do Sul do Brasil, que abandonaram duras condições de sobrevivência na Europa pós-napoleônica. Desfazendo-se de suas propriedades, aventuraram-se numa travessia oceâ­nica que durava cerca de três meses. Chegando ao Rio de Janeiro, passavam por um período de algumas semanas de aclimatação aos trópicos, na Hospedaria de Imigrantes da Ilha das Flores. Daí, mais uma viagem de vinte dias em um pequeno barco costeiro até Porto Alegre e então de lanchão até o barracão da ex-Real Feitoria do Linho Cânhamo, nas proximidades da atual cidade de São Leopoldo. Nesse galpão, destinado a essa função pelo Presidente da Província de São Pedro do Rio Grande, José Feliciano Pinheiro em 31 de março de 1824 (PMSL, 2004), as famílias e os colonos avulsos aguardavam o destino final: um lote em meio à mata onde começariam nova vida. Esse contingente humano colonizou um espaço já parcialmente ocupado por brasileiros, descendentes de portugueses e escravos africanos e seus descendentes, em conflito com as populações indígenas, nativas dos vales dos rios dos Sinos, Cadeia, Feitoria e Caí.

O censo dos moradores das colônias alemãs foi feito, pouco mais de 20 anos após a chegada do primeiro grupo de imigrantes alemães a São Leopoldo, ocorrida em 25 de julho de 1824. Com isso, muitos chefes ou mães de família com nomes germânicos, estão registrados como nascidos no Brasil. Esta é a primeira geração de descendentes dos imigrantes do período 1824-1830.

Entretanto, a simples publicação da transcrição de documento tão importante não me pareceu satisfatória, já que vislumbrei a chance de apresentar um pequeno panorama da população das Colônias de São Leopoldo e do Mundo Novo, caracterizando-a quanto ao sexo, faixa etária, profissão, religião, origem e atividade econômica. Tão ou mais importante que isso é o privilégio de apresentar as informações extraídas dos dados censitários dos escravos, cuja documentação e registros históricos são tão raros e esparsos.

Com esse trabalho, tive o prazer de realizar um mergulho no tempo, que compartilho com o leitor.

Otavio Augusto Boni Licht

Curitiba, janeiro de 2004

 

 

 

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