Língua, línguas e multiculturalismo

Rovílio Costa

 

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A língua do Brasil é a língua portuguesa. Mas em áreas de significativa imigração européia, especialmente no Rio Grande do Sul, a grande maioria fala ou, ao menos, entende dois idiomas. A Antropologia considera bilingüistas, os que falam dois idiomas, ou falam um idioma e entendem um outro, embora não consigam manter uma conversação neste último.

Descendentes de alemães, italianos, franceses, holandeses, japoneses, chineses e outros, sem esquecer africanos (estes excepcionalmente), e indígenas, geralmente falam ou entendem a própria língua familiar.

Ramiz Galvão (1909) mostra como gírias, folclores, dialetos se atravessam à língua vernácula, por necessidade de adequação à realidade, porque a língua, como expressão da vida, é essencialmente dinâmica. Pode-se criar uma distância tal entre o falar do povo e a considerada elite lingüística, que o falar do povo deveria considerar-se língua e o falar da elite, dialeto.

"A linguagem, qualquer linguagem, é um meio de comunicação, e deve ser julgada exclusivamente como tal... O importante é comunicar e, quando possível, surpreender, iluminar, divertir, comover... Mas entramos na área do talento, que também não tem nada a ver com a gramática" (Veríssimo, em Luft, 1985, p. 14-5). Na linha do divertir e comover, no Rio Grande do Sul, numerosas rádios e jornais usam o italiano familiar para recordar, divertir e entreter, inicialmente com formas específicas de dialetos italianos e, presentemente, com uma forma mais unitária. Neste linguajar, alheio a normas gramaticais definidas, foi sendo traduzindo o quotidiano da vida do imigrante. Nunca, porém, a língua hoje denominada Talian foi exigida em documentos oficiais, em atos públicos ou em escolas e universidades. Foi e permaneceu sempre língua familiar, por isto sua especialidade foi traduzir experiências de vida, formas de lazer e de entretenimento. Em escritos, foi usado em jornais, geralmente, de cunho religioso, para compreensão dos interlocutores, em diários, pequenas histórias, nunca porém ascendeu ao foro da oficialidade.

"Em sua origem, diz Ismael de Lima Coutinho (1958, p. 30, 29), toda a língua é um dialeto, que, por circunstâncias várias, consegue predominar. Assim o Italiano foi, no princípio, o dialeto Toscano; o Espanhol, o de Castela; o Francês, o de Ilha de França. Língua e Dialeto são, pois, termos relativos. O Italiano, o Francês, o Espanhol, o Português, etc., que, tomados separadamente, constituem verdadeiras línguas, com relação ao Latim, não passam de simples dialetos. Dialeto é a modificação regional de uma língua. Não se deve admitir a falsa idéia de que o dialeto seja a corrupção de uma língua. O povo, quando modifica o idioma, obedecendo às suas tendências naturais, não o corrompe. A língua, como tudo na natureza, está sujeita a transformações inevitáveis," segundo causas de ordem étnica, social, geográfica, etc.

"Uma língua, continua Coutinho (p. 29), só conserva o seu aspecto uniforme, enquanto é falada por um pequeno agrupamento humano. Neste caso, as influências são as mesmas; as comunicações entre as pessoas, mais íntimas e constantes; os interesses idênticos. Desde, porém, que a família humana se multiplica, desdobrando-se por várias regiões, a unidade lingüística se torna insustentável, a não ser que haja uma ação enérgica do poder central, mantendo as diversas regiões vinculadas espiritual e materialmente à Metrópole."

E o Regionalismo do Rio Grande do Sul, enquanto expressa uma forma de ser, de viver, de pensar típicas, com o tamanho geográfico do Rio Grande do Sul, como fulcro de espiral que se estende Brasil afora, não será base de uma língua autônoma? Em nossas campanhas, muito mais de cem mil pessoas, número ideal considerado pelos antropólogos para manter um idioma, no dizer de Dante de Laytano (1981), falam o Linguajar do Gaúcho Brasileiro. Como a vida que se vive, a língua é que é capaz de expressar essa forma de vida. Num determinado momento lingüístico, os estigmatizados gírias e folclores podem assumir o status da língua padrão, que, por vezes só respira pelas máquinas da oficialidade.

Quando pensamos em regiões da África, da Índia, pensamos, ingenuamente, em pobreza. Falta de alimento, falta de pão. E esquecemos que a Índia tem pelo menos duzentas padarias, que são seus 200 idiomas, falados por grupos minoritários. Duzentos núcleos lingüísticos, duzentas padarias, cujos pães, muitas vezes, são apenas e exclusivamente palavras de encorajamento, de esperança, de afeto, de consolo, que satisfazem o ser, embora não saciem o estômago.

Se alguém comunica que vai a Portugal, logo o interlocutor vai dizer: "Um bom vinho do Porto, com um bom bacalhau, e, como diria a ex-consulesa Ilda Amador, à minha moda, cai bem. Pois bem, indo a Lisboa, não Portugal, exatamente porque cada pedacinho do país é Portugal como território, mas é toda outra coisa como experiência de vida, e não é conto de português, indo a Lisboa em maio último (1999), temperatura de 17 graus pela manhã e 12, à noite, depois de experimentar vários vinhos portugueses, na parte antiga de Lisboa, descobri Portugal e a Língua Portuguesa. Uma língua são palavras, sim, vivas ou mortas. As palavras vivas levam às pessoas vivas, as palavras mortas levam ao necrotério. Pois bem, se alguém quer perceber o Português sob uma forma unitária, seja pobre, seja rico, seja mais culto ou menos culto, ouça-o ao ser falado, exatamente em derredor a uma mesa de vinhos, bacalhaus ou qualquer outra coisa, mais amizade, e verá o ser, o pensar, o amar, o sonhar, o modo de ser feliz do português, brotarem da posição da palavra na frase, tanto assim que planejei uma estada em Portugal, não só Lisboa, para perceber como é a vida do português pela maneira de manusear as palavras dando-lhes vida. É que Açores, Portugal, navegação e águas vão juntas. Sempre a mesma água, mas podendo levar a novos mundos, podendo afundar uma nave, podendo deliciar a viagem pelo tranqüilo deslizar das ondas, porque sempre diferente. E o bonito da diferença do português é percebê-lo na engenharia da palavra. Esta é a língua portuguesa de Lisboa. Muito mais que o corriqueiro blague pois pois, pois sim, pois não... Gostaria de saber como os portugueses nos percebem no maneira que temos de dar vida às mesmas palavras da nossa Língua.

Alberto Poggi (1996, p. 40), em seu artigo Babele a Rovescio [Babel ao contrário], diante da história das línguas, diz:

– "Aore, Ongoto, Elmolo, Lardil, o que são?

– "São uma pequena seleção de mais de duas mil línguas que existem em risco de extinção. A língua Aore, por exemplo, está virtualmente morta, pois apenas uma pessoa está em condições de falá-la." O mesmo acontece com o Eyak, um antigo idioma do Alasca, cujo futuro depende da anciã Maria Smith Jones, última sobrevivente da tribo. A reconstituição do Eyak por antropólogos, com elaboração de dicionário, gramática e livro-texto, levou às lágrimas Maria Smith Jones, que exclamou: "Eu temia já, que quando eu morresse, se esqueceriam de mim." Mas isto não mais acontecerá, pois a tribo voltou a falar sua língua familiar.

Se há quinze mil anos, uma população mundial de alguns milhões de pessoas falava entre dez e doze mil línguas diferentes, hoje esse número está reduzido a cerca de seis mil. O ritmo de desaparecimento não tende a diminuir. Ao contrário, nos últimos anos, sofreu forte aceleração. Um percentual compreendido entre 20% e 50% das seis mil línguas atualmente conhecidas não seriam mais faladas pelas crianças. Entre as línguas aborígines da Austrália já teriam chegado a 90%. No espaço de uma geração estariam extintas, pois um terço dessas línguas são faladas por menos de mil pessoas. Segundo os antropólogos, só uma comunidade de ao menos cem mil pessoas oferece segurança à sobrevivência de um idioma. Em caso de números sensivelmente menores, um idioma acabaria envolvido por influências externas, desaparecendo.

– "Mas, continua Poggi, qual a importância de preservar uma língua falada por alguns milhares de pessoas, se a aceitação lingüística é considerada um valor na aldeia global? Se a biodiversidade é elemento de extraordinária importância à vida de um ecossistema, o mesmo pode-se dizer da riqueza lingüística de um território, como capacidade de resposta aos problemas da sobrevivência e do desenvolvimento, uma das principais motivações dos governos e comunidades locais em salvar o próprio patrimônio lingüístico, para manter sua identidade cultural. Mas isto pressupõe alto nível de democracia e estabilidade interna, capaz de recompor e conciliar a identidade nacional com um suficiente grau de aceitação das diferenças, a autonomia regional e a tutela das minorias étnicas. As regras do mercado são as primeiras a discriminar entre línguas faladas, e a condenar aquelas que enfraquecem ou complicam o mecanismo da comunicação."

Conservar e tutelar uma língua, porém, tem uma repercussão histórica e arqueológica. Imaginando um futuro monolingüístico, já se pensou no Esperanto, como um ecumenismo de línguas, acreditando-se de chegar a um ponto de fusão de todas as línguas, esquecendo que o homem é essencialmente criativo, cuja utopia será sempre a diversidade e a criatividade. A imposição da igualdade, muitas vezes, motiva a própria diversidade.

O atual nos leva ao antigo e, do atual e do antigo, chegamos ao amanhã de cada cultura. No correr de sua análise, diz ainda Poggi (1996, p. 41):

– "Se um povo, com sua cultura e expressão lingüística, é, em muitos sentidos, comparável a um sistema biológico, então, como ele se desenvolve, em estreita simbiose com as escolhas e os comportamentos dos indivíduos que o compõem? Que sentido tem conservar uma língua? – A resposta a estas perguntas está contida em outra pergunta que Poggi se faz: "Não se trata, por acaso, de uma última violência perpetrada pela cultura ocidental – historicamente responsável pela maior parte destas eliminações de massa – que assim chega a negar às minorias também seu último direito, aquele da evolução?

– "Um fato existe. De qualquer forma, os maiores perigos de extinção correm exatamente naquelas populações – e portanto naquelas línguas – sobre as quais mais intensa e permeável consegue ser a pressão e a invasão de outras culturas dominantes, da Austrália às Américas. Apenas no Continente Americano, do estreito de Bering à Terra do Fogo, as populações indígenas representam centenas de tribos com não menos de 1.700 idiomas diversos. E em todos os lugares continuam a perder a guerra. As companhias petrolíferas destroem os territórios de caça e as zonas de pesca dos Inuit do Alasca. Alguém poderá pensar que, no fundo, é apenas a história que se repete.

– "A primeira grande simplificação lingüística ocorreu há mais de 15 mil anos, quando, com o advento da agricultura, se assistia à progressiva marginalização dos povos caçadores."

Os caçadores andavam em grupo, mas os agricultores estabeleciam-se em localidades, onde começavam a comunicar-se, cada um da sua forma, e assim começaram a estabelecer uma língua comum ao grupo. Mais ou menos assim aconteceu, entre nós, com o Talian, formado de dezenas de dialetos italianos, que foram perdendo sua identidade, adequando-se a uma forma comum. O mesmo está acontecendo com o Deutsch, o Polsky e outros, expressões lingüísticas porque, os imigrantes, na maioria, falavam línguas familiares. Não nos damos conta da importância do Estado, como laboratório lingüístico do país.

Enquanto festejamos o surgimento do Talian, com sua já consagrada literatura, tendo como carro-chefe Nanetto Pipetta; Stòria de Nino, fradello de Nanetto Pipetta; Togno Brusafrati; Masticapolenta; Stòria de Peder..., temos a lamentar a perda sempre maior das línguas minoritárias que o compõem, ou até línguas regionais e provinciais que deixaram de ser faladas por descendentes que jamais terão como reconquistar o afetivo do diálogo pai-filho, neto-avô, bisneto-bisavô... Línguas regionais trivêneto-lombardas, ainda em uso na Itália, perderam ou estão perdendo sua força de identidade entre descendentes de terceira e quarta gerações.

O Talian tem acento vêneto, mas não mais tem condições de acolher, na sua originalidade, falares minoritários como, por exemplo, o Feltrino, o Fondassino, o Bassanino, o Cesiomaggiorino... e até falas provinciais como o Vicentino, o Rovigoto..., menos ainda as falas de origem lombarda, como o Bresciano, o Cremonês, o Bergamasco, o Milanês, o Mantovano... O Talian comporta todas as palavras de todas essas expressões lingüísticas, mas sempre menos as características individualizantes das línguas que o constituem.

O Talian constituiu-se em língua síntese de muitas formas de falar, com a capacidade de compreender as formas originárias, incluindo, em seu dicionário, todas as palavras. É uma nova língua, com livre incorporação de falares de diferentes regiões da Itália, representadas na grande imigração agrícola de 1875 em diante. Enquanto o Talian se firma como língua unitária, os falares triveneto-lombardos, que o constituem, vão perdendo sua identidade.

A análise do lingüista Gian Luigi Beccaria (em Poggi, 1996, p. 42) é de fato preocupante: "A cada dia morre uma palavra, e vai se dissolvendo uma língua. A imposição de uma língua dominante, fundamento do poder, como nos ensinaram os romanos, é o primeiro passo de toda colonização. Para a cultura que sofre esta imposição, o trauma envolve a sua esfera global." Para muitos idiomas, como demonstra Ouane (1990, em Poggi, 1996, p. 42), existe apenas a forma oral, e isto acarreta não poucos problemas. "A fonética e a estrutura gramatical de línguas que adquiriram apenas recentemente uma forma escrita, demandam o uso de símbolos gráficos e de caracteres de imprensa que implicam uma competência técnica raramente disponível nos países interessados."

Mas o Talian se escreve como é pronunciado e como o pronuncia cada um dos que o falam. Não são necessários fonemas, porque os que o falam são numerosos e os escritos são, também, cada vez mais numerosos, e possuímos, inclusive, uma distinção clara entre Talian e Italiano.

O Talian, como qualquer língua, que não têm a gerência da oficialidade e do poder, para sobreviver, têm que se adaptar às circunstâncias, seja de nosso país, seja da Itália, esta, até o presente, incapaz de chegar a um consenso sobre as maneiras de escrever as línguas regionais.

As línguas regionais, na Itália, são ainda faladas com as formas tradicionais, mais pelos anciãos. No caso do Vêneto, cada província, cada município e, até, cada contrada orgulha-se da própria maneira de falar como se fosse a melhor e devesse ser a única. É inimaginável uma forma comum, como a do Talian, um tipo de arca lingüística, onde os falares específicos tendem a desaparecer, para dar vida a uma língua comum, que seria um ganho, sim, mas a custo de muitas perdas, entre nós praticamente irreversíveis.

Dificilmente um falante do Talian da terceira e quarta geração, de origem cremonesa, bergamasca, udinese, milanesa, trentina..., conseguirá expressar-se plenamente em uma dessas línguas. Por isto, o Talian, para muitos, é uma segunda língua, o Português uma terceira..., e assim por diante, segundo os idiomas que a escola propiciar. Se a Itália mantém de forma genuína, por exemplo, o Feltrino, o Padovano, o Veneziano..., como também o Fondassino, o Cismonês... todas estas formas serão entendidas por aqueles que falam o Talian. Mas o Talian sempre mais se afasta dos idiomas que o compõem, especialmente dos falares lombardos e friulanos, por isto seus falantes terão dificuldades em falar uma ou outra língua originária.

A dificuldade de definir as tipificações dos diferentes falares tri-vêneto-lombardos, está inviabilizando também uma grafia comum. Neste campo, o Talian tem definitivo ganho sobre os falares tri-vêneto-lombardos. O Talian se escreve como se escreve o Português, com a atenção, porém, de que diante do Italiano, as palavras do Talian sejam pronunciadas corretamente pelos falantes de língua portuguesa e não sejam confundidas pelos falantes do Italiano.

Por que esta precaução? – Exatamente porque em toda e qualquer parte do mundo há um grupo de intelectuais que se dizem pontífices da língua. Fazem gramáticas e ditam regras à conversação, enquanto a gramática deve traduzir o falar do povo. É a fala do povo que faz a gramática e não a gramática que faz a fala do povo. E como os falares tri-vêneto-lombardos englobados no Talian têm origem latina, e sua maior parte de radicais conferem com o Italiano, num futuro muito próximo, o dicionário italiano haverá de incorporar falares regionais como italianos e regionais, pois hoje qualquer falar transcende o território peninsular e toma as dimensões da geografia mundial.

Outra forte razão de nossa atenção ao Talian, produzindo literatura, motivando programas de rádio, seriados em jornais é a fidelidade à Constituição Federal do Brasil, artigo 215, e à Constituição Estadual do Rio Grande do Sul, art. 220, que assumem o termo cultura em sentido amplo, englobando tudo o que faz parte de uma expressão étnica, incluída a língua, como seu tradutor maior. "É dever do Estado, afirma a Constituição do Estado do Rio Grande do Sul, repetindo a Constituição Federal, estimular as manifestações culturais dos diferentes grupos étnicos, formadores da sociedade rio-grandense [e brasileira]."

O Talian tem uma história de 120 anos. – Tudo começou nos embarques em navios de emigrantes. Como a amizade e o amor são maneiras de sentir, sentir-se, comunicar-se e conviver, mais do que maneiras de falar, as pessoas começavam a perceber-se em situação de mútua e espontânea ajuda, de trocas de idéias, tentando imaginar juntas como seria a vida no novo mundo. As palavras serviam para as pessoas se entenderem. Viajando um, dois, três, quatro, até 40 dias, trocaram palavras, fizeram amizades, e a força do amor levou as pessoas a se estabelecerem topograficamente frente a frente, em vizinhança ou em proximidade nas colônias italianas do Estado. Por isto, trentinos, vênetos, lombardos, friulanos e gente de diferentes regiões da Itália ficaram juntos nas mesmas colônias, linhas, picadas, e iniciou-se esta maravilhosa língua que é o Talian.

No Rio Grande do Sul, como em Santa Catarina e no Paraná, Mato Grosso do Sul, Goiás..., onde os colonos italianos se estabeleceram em pequenas propriedades, especialmente com o fluxo de gaúchos, aconteceu a mesma história lingüística.

Nossas colônias, divididas em pequenas propriedades, foram etnicamente homogêneas, mas não homogêneas relativamente às regiões, províncias ou municípios de origem. Todos italianos [etnicamente iguais], mas não todos da mesma localidade, portanto não todos com o mesmo modo de falar, porque de diferente mapa geográfico e humano. São João, na introdução de seu Evangelho, diz "No início era a Palavra, e a Palavra se fez natureza humana." E Poggi (1996, p. 42) conclui, parafraseando São João, "A palavra pronunciada é como uma criança que vem ao mundo e, portanto, falar não é uma operação sem risco, uma vez que a palavra rompe a perfeição do silêncio. O objetivo da palavra é, então, o objetivo do mundo. Uma advertência profunda sobre a qual valeria a pena refletir antes de entregar-se às agradáveis e cômodas ondas do inexorável "Do you do speak English?!"

Durante a guerra, fomos proibidos falar o Italiano, que, de fato, para a maioria, era o Talian. Mas agora, graças a Deus, seja o governo italiano, sejam escolas e entidades, por conta própria, ensinam o Italiano, e nós continuaremos a falar o Talian. Ensinamos, fazemos programas radiofônicos, escrevemos, pesquisamos em Talian. Então uma mão lava a outra, porque, se não se falar e não se ensinar o Talian, se não se falar e não se ensinar o Italiano, a cultura italiana do Estado fica sem a língua, seja Taliana que Italiana. Sem falar ou estudar uma ou outra, a nossa forma de falar rapidamente se transformará em Português mal falado.

Jamais, porém, fiquemos calados quando ouvimos dizer que é absurdo falar e defender o Talian, porque, então, nossos antepassados que falavam apenas Talian, e que foram proibidos de falá-lo no período da guerra, agora ficam sob uma proibição ainda maior, porque seus próprios filhos os proibirão de falar o Talian. Tornar-se-ia uma briga em família. Mas, estamos numa sociedade democrática, de portas abertas. Temos, por isso, o direito de falar, escrever, ensinar o Talian. E a Itália tem a obrigação de ensinar o Italiano. Uma língua ajuda a outra. E como as línguas são dinâmicas, o futuro do Talian levará ao Italiano. Por isto, é tempo de imprimirmos livros trilíngües: Talian, Italiano e Português.

O Nanetto Pipetta, a melhor produção literária que traduz a experiência imigratória italiana agrícola, no Estado e, em parte no Brasil e em outros países, será editado em três idiomas: Talian (e também em alguma língua constitutiva como o Cremonês, Mantovano...), Português e Italiano e, no futuro, também Francês, Espanhol e Inglês, como veículo à recuperação da identidade da imigração italiana agrícola.

Há 125 anos, italianos e descendentes do Estado e do país, falavam e se entendiam em Talian e, ainda, se entendiam com os que falavam Italiano e Português. Não há porque lamentar o fato de que as crianças, na escola, falam somente português. Deve-se festejar que o Talian, pelos açoites recebidos, já devia ter desaparecido, no entretanto continua vivo, como suporte principal da identidade italiana da grande imigração. Com a generalização do ensino do Italiano, o próprio Talian se revaloriza. Italiano e Talian irão caminhar juntos, um auxiliando ao outro, como está acontecendo em províncias e municípios esclarecidos da Itália.

O Talian, entre nós, pela farta literatura já publicada, é indiscutivelmente o tradutor maior da experiência imigratória italiana, seus modos de ser, de fazer, de viver e de falar. O mesmo vem acontecendo com o Alemão e o Polonês principalmente.

Porque temos sempre falado, trabalhado e vivido como italianos, mantivemos a nossa identidade, e o fizemos como italianos do Brasil, no Brasil, e com o Brasil. Ainda se tantos tenham esquecido de falar, não se esqueceram de viver como talianos ou italianos, este movimento lingüístico os fará retornar rapidamente a viver e a falar como talianos ou italianos.

As nossas palavras têm sua própria história, pois estamos diante de uma nova forma de falar, como as palavras do Toscano, base do Italiano, têm a sua história. Então, para traduzir a história destes 125 anos, é preciso fazer a história das palavras. Precisaria que cada locutor de rádio, em todos os programas, propusesse uma palavra em Português, perguntando aos ouvintes como se traduz ao Talian. Por exemplo, corruíra é uma palavra com tantos sinônimos em Talian, como: cérega, cìrola, ciutina, cìrol, puldet, schitin... sinônimos coletados num programa dominical da Rádio Coroados de Nova Prata – RS (março de 1999). Com informações via rádios, jornais, e entrevistas foi possível a elaboração do Dicionário Talian Português e Português Talian, o primeiro publicado também na Itália.

O registro das falas dos pais, nonos e bisnonos garantirá o diálogo com os mesmos, porque suas palavras foram tão concretas, por vezes cruas como a realidade que viveram. De outra feita, a morte deixará deles apenas uma eventual fotografia. A história, a oração, o conselho traduzidos com as palavras de seu Autor, transmitem seu modo de ser, pensar e fazer, porque as palavras na Língua familiar são tradutoras da realidade.

Os sentimentos e afetos se traduzem por palavras. E nossos antepassados tinham sentimentos e afetos fortes, traduzidos em palavras fortes. Por isto, registrando e salvando suas palavras, salvamos nossa própria história. Na tradição cremonesa, por exemplo, a que pertenço, o filho mais novo denominava-se scagagner, pois, pelo fato de ser o último, mama mais tempo que os outros, e fica mais tempo no colo da mãe. Assemelha-se a um passarinho que come, bebe e passa o tempo no ninho.

Os afetos, através das palavras, rompem a harmonia do silêncio, para criar a harmonia da comunhão de pessoas. E a maneira de transmitir os afetos também é dinâmica. Por isso, pouco importa que o pai, que sabe Talian, ensine a um filho o Talian, enquanto a mãe, que sabe Italiano, ensine o Italiano. Se um italiano, por exemplo, casar com alemã, é melhor ensine primeiro o Alemão, depois o Talian, o Português e o Italiano. Porque seria mais difícil, depois, aprender o Alemão, um sistema lingüístico diferente [quando longe da experiência afetiva materna]. Por exemplo, eu era o mais novo, mamei muito mais tempo do que os meus irmãos. Aprendi a dizer mama, com um eme só, e era minha mãe do mesmo jeito, mesmo se aqueles que falam Italiano dizem mamma, com dois emes. Para mim, seria estranho dobrar dois emes, me parecia melhor mamar. E, mesmo com um eme só, minha mãe era minha mãe, e seus belos seios grandes, nem por isso ficaram menores. Somente salvando as palavras dentro de seu contexto, porque nossa língua é familiar, salvaremos a história correspondente, as formas de pensar, de fazer, de viver e de acreditar.

Se os 60 milhões de italianos e descendentes que existem no mundo escrevessem as palavras que traduzem a história de sua experiência de vida, e se os lingüistas italianos, um dia, tivessem a iluminação suficiente para entender que todas as palavras, seja dos considerados dialetos, seja as formas italianas de falar dos italianos no mundo, poder-se-ia então fazer o verdadeiro dicionário italiano, assinalando as palavras nas diversas formas de dizer, mas que também são italianas. Uma grande Enciclopédia Italiana já deu sinal verde para esta iniciativa.

e nada a lamentar. Olhemos a história e a política tolerante do Brasil. Nós como talianos poderíamos, com nossos mais de 20 milhões, para outros 25 e para outros 30 milhões de italianos [este número o vemos como exagerado] e descendentes, exigir que a nossa língua fosse a segunda língua em favor do multiculturalismo. Surgiria, contudo, uma encrenca sem fim porque um haveria de querer o Italiano e outro o Talian e o próprio Governo e as Regiões da Itália, cada uma protegeria sua parte. E as outras etnias minoritárias teriam também o mesmo direito. Mas, se o Brasil aceita a dupla cidadania para os descendentes italianos, quer dizer que não se importa que se fale ou ensine o Talian ou o Italiano. Tanto é verdade que as escolas de 1º e 2º graus podem escolher a língua moderna que quiserem, no caso poderiam escolher tanto o Italiano quanto o Talian, este último até protegido pela Constituição do Brasil, artigo 215, e do Rio Grande do Sul, artigo 220, que recomendam a proteção das expressões culturais minoritárias.

"Tradicionalmente, diz Zanovello (1994, p. 8), multiculturalismo indicava a procedência ou a participação de diversas culturas..., uma política voltada a reconhecer, dentro de um mesmo país, a identidade cultural e lingüística de cada componente étnico..., como na prática vemos parcialmente realizado nas zonas de fronteira com a Itália, na Suíça, na França, na Bélgica, na Checoslováquia... e integralmente realizado em países como Austrália e o Canadá."

Há duas tendências entre integrantes da União Européia em relação às línguas minoritárias: 1. Que todas tenham o mesmo direito em atos oficiais. 2. Que se possa ensiná-las, usando nos atos oficiais a língua do país. Aqui se cria o problema ao conceito de União, pois um italiano, vivendo na França como Italiano, seria cidadão de segunda categoria se nos atos oficiais devesse apresentar sua documentação em Francês. Pois a União permite-lhe ser italiano em qualquer dos países integrantes.

Antropologicamente é melhor que o Talian, por exemplo, não seja ensinado por Lei, para não lhe tirar o significado do concreto, do afetivo, do existencial pelo qual sobreviveu. Caso contrário, conflitaríamos com outras etnias, e poderíamos ser tachados de racistas, como acontece na França e Alemanha: "Na França, o discurso varia nas formas, mas não nos conteúdos. Ainda que possua antigas tradições cosmopolitas, e acolha a mais de 4 milhões de imigrantes, a França cultiva, há quatro séculos, o orgulho de sua supremacia cultural. E a Alemanha democrática e pluralista cultivou uma política monoculturalista, baseada na utopia da assimilação das etnias imigrantes" (Zanovello, 1994, p. 9).

Hoje, porém, a mentalidade cultural lingüística alemã está indicando novos, crescentes e fortes rumos de proteção da identidade cultural em base lingüística. Eis, o que noticia a Revista Letter Hochschule und Ausland, 1º de março de 1999, sob o título Renaissance der Dialekte (renascimento dos dialetos):

"Desde muito tempo, os dialetos são conhecidos em discotecas e em canções de sucesso na Alemanha. Agora, também os cidadãos se manifestam em favor deles. Uma pesquisa do Institut Demoskopie Allensbach para radiografia das populações, constatou que metade da população, ou seja 51% no Oeste, e 48% no Leste, conhece o dialeto regional. Quer se trate da língua típica de Hollstein, de Colônia ou da Baviera, não existe mais a visão de que é algo provinciano do passado, que é necessário superar. As línguas regionais foram revalorizadas também oficialmente através da Carta Européia [1992] sobre as línguas regionais ou de minorias, a qual reconhece os dialetos e deseja que, no futuro, eles se tornem língua oficial. Na lista das línguas preferidas, encontra-se o Bávaro (37%), seguido pelo Platt do norte (32%) e pelo Berlinense (23%). Na Baviera encontra-se o caso mais interessante, pois lá 72% dos interrogados afirmaram dominar a língua, enquanto no norte são apenas 32%.

Nem sempre a política é o melhor caminho para proteger a cultura. O recente exemplo da França serve de alerta à educação, sobretudo às escolas e universidades, sobre os possíveis interesses de investimentos estrangeiros para o Ensino de Línguas no país. Se o sistema educacional brasileiro está aberto a todos os idiomas, que se os ensine nas escolas das diferentes redes, em conformidade aos currículos e com participação do sistema familiar.

Para se ter uma idéia de desmandos políticos em relação às línguas, base principal de identidade, tenha-se presente o veto do presidente francês Jacques Chirac ao uso das línguas faladas por minorias em administrações locais. Haroldo Ceravolo Sereza (Folha de São Paulo, 11-7-1999, p. 23) afirma : "A França é o país que mais resiste ao avanço da Língua Inglesa. Mas agora a questão político-cultural que o país enfrenta vem de idiomas menos universais, exatamente 75 idiomas.

"As chamadas línguas regionais viraram problema político após o veto do Presidente Jacques Chirac à ratificação da Carta Européia de Línguas Minoritárias. Amparado por uma decisão do Conselho Constitucional, Chirac argumentou que a Carta feria alguns artigos da Constituição. Os dois artigos seriam: o 1º que garante igualdade dos cidadãos perante a Lei, independente de origem, e o 2º que diz ser o Francês a Língua Oficial da França.

"A Carta Européia de 1992 prevê o estímulo ao ensino das Línguas Regionais, e ao uso dessas Línguas nas administrações locais. Para o Conselho Constitucional, a Carta cria direitos específicos aos falantes dos Idiomas Regionais, eliminando a igualdade. A pedido do primeiro ministro Lionel Jospin, o lingüista Bernard Cerquiglini, do Instituo Nacional de Língua Francesa, elaborou uma lista das línguas em questão ..., o qual concluiu que a França fala, ou pelo menos usa na forma escrita, 75 línguas diferentes, que poderiam ser protegidas pelo acordo.

"Na lista, estão idiomas como Catalão, Basco, Corso e Creolês (diferentes idiomas de habitantes das colônias francesas), falados por etnias que formam a maioria da população em algumas áreas, bem como os idiomas Árabe, Iídiche e Berbere, usados por grupos de imigrantes.

"Há línguas que não são mais nem faladas. Segundo Cerquiglini, elas são, em geral, as primas do Francês, como o Normando, conhecido na forma escrita por moradores da Normandia, no norte do país. Ficam fora idiomas da imigração recente, não protegidos pela Carta – entre eles o Português, que começou a chegar à França, quando Portugal vivia sob a ditadura salazarista.

"Tanto Chirac quanto Jospin têm aliados importantes que acham que a Carta põe a unidade francesa em perigo. Movimentos nacionalistas como o Corso e o Basco usam a defesa da língua como um dos motes de sua atuação."

Para o lingüista Bernard Cerquiglini (em Sereza, Folha de São Paulo, 11-6-1999) que organizou a lista de 75 línguas faladas na França, o que está em jogo é a defesa de um patrimônio cultural. "Preservamos prédios, por que não preservar as línguas?" Segundo ele, o temor de que a Carta Européia venha a pôr em risco a unidade da França não é justificável. "Hoje, todos os franceses falam Francês, o que não os impede de praticar o bilingüismo. Para a República é importante que o cidadão fale pelo menos o Francês, e não que ele fale apenas o Francês." Entre as línguas regionais em maior desenvolvimento cita o catalão. "Do outro lado da Fronteira, na Espanha, todos falam a língua. As placas das ruas são bilíngües, há jornais no idioma regional. A população catalã francesa tende a adotar a língua regional de forma crescente." Em áreas como os Pirineus Orientais, o País Basco Francês e a Córsega, há escolas que ensinam a língua regional desde o processo de alfabetização.

As principais línguas de minorias faladas na França são: o Bretão, falado por 15 a 20% de 1,5 milhão de habitantes; o Occitano, falado em 1920 por dez milhões de pessoas e, hoje, por dois milhões; o Basco, com 40 mil falantes dentre 260 mil habitantes; o Catalão, falado por 17% e conhecido por 34% de 370 mil habitantes; o Flamengo, junto à Bélgica, sem número oficial de falantes; o Creolês, formado do Francês e de línguas dos territórios das colônias como Guiana Francesa, Martinica e Guadalupe com cerca de um milhão de falantes; o Alsaciano, falado por cerca de 900 mil pessoas, sobre 1,7 milhão de habitantes; o Corso, falado por 100 a 150 mil pessoas, sobre uma população de 250 mil habitantes.

É de 1998, o Projeto de Lei da Câmara dos Deputados da Itália que propõe o Italiano como língua oficial. Diz o Bolletino Migrazione Notizie: "Nessuna norma giuridica, e tanto meno nel testo della Costituzione, che peraltro si preoccupa invece di tutelare in via di principio, le minoranze che parlano língue diverse, afferma che la lingua ufficiale della Repubblica è l’Italiano. È una lacuna che verà colmata con un testo di legge in diuscussione nella Camera, spiega il relatore Domenico Maselli."

O texto prevê, além do ensino facultativo nas escolas elementares e maternais, a obrigação do ensino nas escolas médias e superiores, das culturas e das tradições das minorias lingüísticas. São aproximadamente três milhões de italianos que representam 18 minorias lingüísticas, assim distribuídos: 96.000 Albaneses, presentes na Calábria, Púglia, Sicília, Molise e Abruzzo; 1.400 Cárnicos, em Belluno; 2.600 Croatas, em Molise; 526.000 Friulanos, em Ùdine, Pordenone e Gorizia; 1.000 Moquenos, em Trento; 70.000 Eslovenos, em Trieste, Gorizia e Ùdine; 290.000 Altoatesinos, em Bolzano; 18.000 Catalães, de Alguero, em Sássari; 90.000 Francoprovençais, em Aosta, Torino e Fóggia; 20.000 Gregos, na Calábria e Lecce; 78.000 Ocitanos, em Cúneo, Torino, Impéria e Consenza; 2.900 Walseros em Aosta, Vercelli, Verbano-Cusio-Ossola; 2.000 Carinzianos, em Ùdine; 650 Cimbros, em Trento, Verona, Vicenza; 20.000 Francófonos, em Val da Aosta; 50.000 Ladinos, em Bolzano, Belluno e Trento; 1.269.000 Sardos, na Sardegna.

Uma consciência ampla da necessidade de proteger as línguas em todas as formas, como base de identidade e cidadania, em contexto de universalidade e globalização, começou a firmar-se com o Tratado de Madri de 1954, que fundou l’ Unione Latina, da qual fazem parte 34 países, de quatro continentes: da Ásia, nas Filipinas; da África, nos países de Língua Portuguesa: Moçambique, Angola, Cabo Verde...; na Europa, em todos os países de Língua Latina; na América Latina e Central, praticamente do México à Terra do Fogo... (Bertolaja, 1997, em L’Umanesimo latino nel mondo, p. 10). O Latim é a base da língua desses países. E o Movimento Latini nel Mondo, sob a presidência de Dino de Poli, reuniu-se na Rumênia, em setembro de 1999, preparando o grande Encontro Internacional Latini nel Mondo de Nova Iorque, em maio do ano 2000. O Latim é símbolo da mãe que deu a vida para a sobrevivência de suas filhas, as línguas latinas.

Então, longe da mente e do coração sermos racistas, ainda mais racistas intra-étnicos. Atentos, pois, aos que dizem: "Deve-se falar, estudar e ensinar somente o Talian." Atentos também aos que afirmam: "Deve-se estudar e falar apenas o Italiano." Seria uma guerra em família. A língua, para nós que somos a Itália no Mundo, é a forma de traduzir a nossa identidade comum, que é aquele pretexto que nos faz orgulhosos de sermos talianos ou italianos. O Talian e o Italiano podem ser aprendidos e compreendidos, mas si se perder o gosto de ser Talian ou Italiano, perde-se o essencial da identidade. Somos a Outra Itália feita da Itália peninsular e de todas as Itálias do mundo. Sócrates, quando indagado sobre sua origem, não dizia ser cidadão de Atenas e, sim, cidadão do mundo, nós somos, porque emigrados de nossos países, cidadãos do mundo, contribuímos e recebemos a contribuição das demais culturas, por isto perdemos a incômoda vocação de exclusivistas.

O jus sanguinis, adotado pela jurisprudência italiana, não é territorial, porque adere às pessoas, e não aos territórios. Na Revista Friuli nel Mondo, nos últimos dois anos, transparece uma nítida preocupação pela crescente perda de identidade, embora região autônoma, com cultura e língua próprias. Esta preocupação foi levantada várias vezes por Ferruccio Clavora, repetida em o número 48, de 1999, onde, à página 1, sob o título II Friuli a un Bivio [O Friuli numa encruzilhada]. Refere-se a uma pesquisa realizada pela Universidade de Údine, na qual 40% dos entrevistados afirma que a língua Friulana, com o tempo, será absorvida pela Italiana. E, continuando, afirma que na opinião pública friulana está se dando grande importância aos emigrados, sem porém chegar às razões desta importância.

Esta descoberta, tardia embora para o Friuli e para a Itália que durante muito tempo esqueceu seus emigrados, é de real importância na construção da identidade, com ou sem idioma, porque o emigrado leva consigo a nostalgia de sua pátria, de seu território, de seu município, como algo vivo, inalienável, e lhe imprime a nova faceta do país para onde emigrou. É o ser friulano que está em jogo para alguém que pouco sabe, talvez, o falar friulano. Não é por aprender e falar inglês que alguém cultiva um modo de ser inglês.

Finalizando, pode-se dizer que a pessoa leva consigo uma identidade a partir de um país, de um território (região, província, município, contrada), de um povo, de uma família, de uma língua e de um falar.

 

 

 

Referências bibliográficas

 

BERTOLAJA, Ernesto. L’Umanesimo latino. Treviso: Fondazione Cassamarca, 1997. P. 10.

CARLINI, Franco. "Seimila lingue in meno". In: Il manifesto del 12 marzo 1995.

CLAVORA, Ferruccio. "Il Friuli a un bivio". Udine: Friuli nel Mondo, giugno 1999, p. 1.

COUTINHO, Ismael de Lima. Pontos de gramática histórica. Rio: Liv. Acadêmica, 1958.

DAAD LETTER Hochschule und Ausland. "Renaissance der Dialekte". Bonn: 1 März 1999, p. 9.

LAITANO, Dante. O linguajar do gaúcho brasileiro. Porto Alegre: EST. 1981.

LUFT, Celso Pedro. Língua e Liberdade. Porto Alegre: LPM, 1985.

SEREZA, Haroldo Ceravolo. "Chirac veta uso de línguas regionais". São Paulo: Folha de São Paulo, 11-7-1999, p. 23.

LORIGIOLA, Tania. Austrália Contemporânea e multiculturalismo. Padova: Eurograf, 1997.

OUANE, Adama. "Lingue nazionali e madrelingue". Il Corriere dell’Unesco, set. 1990.

poggi, Alberto. "Babele a rovescio". Assisi: Rivista Rocca. Nov. 1996

SALZA, Alberto. "Popoli da salvare". Rivista Scienza e vita, ago. 1994.

VERÍSSIMO, Luís Fernando. Gigolô das palavras. Porto Alegre: L&PM, 1982.

ZANOVELLO, Luciano. "L’Occidente al traguardo del confronto etnico". Padova: Rivista Il messagero di Sant’Antonio, luglio / agosto 1994.

 

Porto Alegre, 20 de agosto de 1999

Data Comemorativa aos 125 anos da Imigração Italiana no Rio Grande do Sul.

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