João Paulo II: doação e não aposentadoria

Rovílio Costa
 

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A aposentadoria é sonhada e buscada de formas diferentes. Para uns é apenas troca de atividade. Deixam a profissão pela qual se aposentam e assumem uma outra. Isto é bom e questionável. Se tantos aposentados vivessem de aposentadoria, sobrariam trabalhos para muitos desempregados.

O mundo se divide, porém, quando se trata da possível aposentadoria da pessoa escolhida para o exercício do ministério pontifício. João Paulo II é visto no mundo como chefe político do Vaticano, chefe espiritual dos católicos e líder do crescente movimento ecumênico.

Stefano Zecchi (Roma, Gente, 19-7-2002, p. 139), depois de recordar o papa vigoroso, desportista, esquiador, assim descreve sua atual figura: "Hoje, o Santo Padre é um homem acabado pelas doenças e pelas exigências de sua missão, vai se apagando, lutando contra o tempo para levar a termo seus compromissos."

Deixando de lado a visão do político, do administrador, do profissional, fiquemos com a missão pessoal do papa como cristão, como sacerdote, como bispo e como sumo pontífice. Em verdade, quando um bispo se aposenta, deixa a administração de sua diocese, para se dedicar ao bem pastoral e espiritual dos fiéis.

Não existe coerente aposentadoria do destino pessoal, da própria vocação e missão, mesmo que se exija o investimento da própria vida. Se tal o fosse, os mártires teriam arredado pé no momento do martírio, o próprio Cristo impediria o desenlace da cruz. Será que o mundo tem direito de propor e/ou impor a renúncia a um pontífice como João Paulo II, que honra todos os seus antecessores, que celebra a felicidade de servir espiritualmente a humanidade com investimento de sua própria vida, com uma coerente visão pessoal de martírio? – Do lado humano de ver, pareceria que sim, mas a decisão e a visão última é a visão pessoal do papa, a maneira de ele ver a própria missão. Os critérios da fé não são apenas humanos.

Cristo também, diante de seu destino como messias, manifestou o lado humano, logo descartado pela sua consciência de obediência ao plano do Pai: "Pai, se for possível, afaste de mim este cálice" (Mc 14, 36). Vocação e missão, no sentido espiritual, é intencionalidade e destino livres da própria vida, através da missão.

A 29 de junho de 2002, festa de São Pedro e São Paulo, João Paulo II mostrou ao mundo que a salvação brotou da cruz, do mártir do Gólgota, pelo qual ele foi escolhido para o mesmo destino. João Paulo II mostrou a importância da renovação da imolação de Cristo pela doação da própria vida para salvação da humanidade. Suas palavras nos convidam a revisar nossa postura cristã diante do sofrimento, da cruz e da renúncia, em busca do bem espiritual da humanidade.

Vittorio Messori (Corriere della Sera, 29-6-2002) assim introduz ao pensamento de João Paulo II quanto à sua renúncia: "João Paulo II não está minimamente atormentado pelo dilema: renunciar ao pontificado ou continuar no seu ministério. Sua decisão, ultimamente, é mais clara do que nunca. O seu serviço à igreja continuará até quando Deus quiser, sem qualquer recurso ao cânon 332 que admite a renúncia do Sumo Pontífice." Suas palavras, na festa de São Pedro e São Paulo, não deixam dúvidas de que ele vê sua missão de representante de Cristo na terra, como missão a ser-lhe semelhante em tudo.

Entregue por vocação aos planos de Cristo, ratifica: "La forza per continuare non è un problema mio, bensì di quel Cristo che ha voluto chiamarmi, seppure così indegno, a essere suo vicario in terra. Nei suoi misteriosi disegni, lui mi ha portato qui. E serà lui a decidere della mia sorte." A força para continuar não é um problema meu, mas do Cristo que me quis chamar, embora indigno, a ser seu vigário. Nos seus misteriosos desígnios, ele me trouxe aqui. E será ele que vai decidir minha sorte. Cabe ao patrão, não ao empregado, determinar quando o trabalho deve acabar."

Esta é a clara convicção de João Paulo II, que ultrapassa toda a consideração humana e se situa na esfera de uma fé despojada, que o caracteriza como um homem essencialmente místico, apaixonado por Cristo.

João Paulo II, embora o alquebrado corpo, os sofrimentos que enfrenta, tem um olhar que encanta o mundo, o olhar da esperança nos destinos messiânicos da humanidade. Sofre, sim, mas seu sofrimento é fecundo de felicidade, de idealismo vocacional, de força e coragem de mártir. Portanto é um sofredor feliz, livre e liberal, tão generoso quanto o Cristo que representa, do qual se diz o "servo dos servos". "Não se faça a minha, mas sim a tua vontade" (Mc 14, 36).

 

Porto Alegre, 13 de julho de 2002

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