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O dever dos MilitaresRicardo Bergamini |
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Editorial
do Jornal O Estado de Minas, edição de 05 de abril de 1964. Se
há um setor que não está corrompido no Brasil, graças a Deus, é o
das Forças Armadas, incluídos o Exército, a Aeronáutica, a
Marinha. Em Minas, devemos juntar a esse bloco de homens dignos e
patriotas a Polícia Militar, outra corporação que tem dado os mais
admiráveis exemplos de amor à nossa terra. Feliz
a nação que pode contar com corporações militares de tão altos índices
cívicos. A todo o momento, essas corporações, comandadas por
oficiais formados na melhor escola, as escolas do patriotismo, da decência
da pureza de intenções e propósitos, nos oferecem o testemunho de
sua identificação com os melhores ideais de nossa gente. O
que eles têm no coração é um Brasil grande, progressista,
respeitado, unido de Norte a Sul, de Leste a Oeste, trabalhando
livremente num clima de ordem e paz. Os nossos militares, quando mais
fundo e mais grosso é o mar de lama, estão recolhidos às suas
casernas austeras, submetidos a um regime de vencimentos incompatíveis
com as exigências da vida moderna. Hoje
em dia, não há quem queira ser mais oficial do Exército, da Marinha
e da Aeronáutica, porque não se recebem nessas três armas soldos
que permitam uma existência tranqüila. No entanto, os militares tudo
suportam estoicamente, assistindo diante deles o espetáculo da mais
deslavada corrupção, provocada pelo poder civil, pela baixa
politicalha, pelo eleitoralismo grosseiro. Bastaria
dizer que hoje um procurador de um dos institutos de previdência,
logo no primeiro mês de sua nomeação, sem ter serviço, indo à
repartição meia hora por dia, quando vai, recebe mais do que um
general, que se submeteu a uma longa carreira, sujeito a mudanças
amiudadas de residência, sendo obrigado a matricular os seus filhos
cada ano em um colégio diferente, e com um regime de trabalho de dez
horas por dia. É
impossível, porém, enumerar aqui todas as injustiças de que são vítimas
os militares. E não se queixam, não se desesperam, por amor ao
Brasil. Pois bem: esses patriotas, que não contribuem para o
abastardamento dos costumes públicos em nosso país, de quando em vez
são forçados a corrigir os erros da politicalha, tomando o poder dos
corruptos, dos caudilhos, dos extremistas de baixa extração,
restituindo-o limpo e puro, aos civis. Nunca
advogaram em causa própria, ou melhor, nunca tomaram o poder em benefício
próprio. Agem quando é preciso, a fim de restituir a tranqüilidade
e a paz ao seio da família brasileira, mas essa tolerância com os
civis, que não estão sabendo ser dignos do poder, tem um limite. As
imposições do patriotismo, que é tão aceso no meio militar, poderão
levá-los a dissolver as assembléias que insistem em permanecer dando
cobertura a políticos corruptos e aventureiros, a comunistas
interessados em abrir aqui uma porta ao fidelismo cubano. O
povo também está perdendo a fé nas soluções civis. Vê a volta
das raposas de baixa politicalha com espanto e nojo, porque compreende
que a agitação vai continuar, a corrupção idem, o assalto aos
cofres públicos, a compra de fazendas e apartamentos com dinheiro
roubado à nação. O
comando revolucionário não aceitará agora isto. Quer o expurgo, a
higienização do meio político, a imobilização da "gang"
que infelicitava o Brasil. Os corruptos, onde estiverem, terão que
pagar por seus crimes. Se estiverem no Parlamento alguns deles, terão
que ver cassados os seus mandatos que não souberam honrar, traindo
ali a democracia. Se
estiverem os totalitários vermelhos no mais alto tribunal de justiça
do país, há que lhes impor as sanções da própria lei que eles impõem
a outros. Sem esse expurgo, feito sem violência, mas dentro da
legislação de defesa do povo e do regime, não estará completa a
revolução. Se
tolerarem qualquer transigência com os objetivos da revolução, os
militares serão novamente traídos pela parcela dos civis corruptos e
indignos. Homens com a alta dignidade, a compostura cívica, a bravura
pessoal, a vida limpa e exemplar de um General Carlos Luís Guedes –
que é um militar admirável – não podem permitir que se faça a
reconstrução do Brasil em bases falsas. Essa reconstrução tem que
ser, antes de tudo, moral. Foi por isso que todos nós, que estivemos
na luta arrostando a empáfia dos baderneiros, sujeitos diariamente a
assaltos e golpes dos extremistas, fizemos uma revolução. Os
militares não deverão ensarilhar suas armas, antes que emudeçam as
vozes da corrupção e da traição à pátria. Cometerão um erro,
embora de boa-fé, se aceitarem o poder civil, que está aí
organizado para assumir as responsabilidades da direção do país.
Terão que impor um saneamento, antes de voltar aos quartéis. |
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