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Mito e Lógos |
Urbano Zilles |
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Mito e Lógos
Por natureza, o homem é tão "animal mitificador" (animal simbólico) quanto é animal racional ou político. Por isso o mito é um fenômeno universal. Conduz aos confins dos homens e dos deuses. Sua evidência perigosa opõe-se às certezas da razão. Entre mito e lógos, as culturas se dividem e as religiões se diferenciam. No Ocidente, a oposição entre razão e mito associou o último à idéia de lenda, fábula ou ficção. Na linguagem comum, a palavra mito muitas vezes equivale a uma narrativa não-verdadeira. O termo é, pois, usado como sinônimo de "história fictícia". O racionalismo e outras correntes de pensamento menosprezaram o mito como sendo algo infantil e irrisório, indigno do homem moderno. Consideram-no a expressão da ignorância das verdadeiras causas dos fenômenos atinentes ao homem e à sua história. Segundo a concepção da Aufklärung alemã, o progresso científico torna os mitos supérfluos e superados. Aliás, no século IV a. C., o filósofo grego Evêmero, em sua famosa utopia Escrita Sagrada, já afirmara que os mitos não passam de relatos fantásticos de fatos históricos. Segundo ele, os deuses tiveram a sua origem em antigos seres humanos notáveis. Xenófanes (570-478 a. C.), menos radical, critica a imagem antropomorfa de Deus ou dos deuses. O iluminismo grego do século IV a. C. menospreza o mito em relação ao lógos fundamentado. Mas o mito, apesar das críticas, inclusive de Platão e Aristóteles, mantém sua importância em relação ao lógos. Mais que uma explicação ingênua do mundo, para Platão, o mito é uma expressão intuitiva da alma humana. Diferentemente do mito, o lógos é o discurso fundamentador (Fédon, 61b), o diálogo da alma consigo mesma, a razão. Segundo Aristóteles, por meio do lógos como língua e razão (teórica ou prática), o ser humano distingue-se dos animais. Os gregos usam a palavra lógos para designar a palavra refletida, instrutiva e também persuasiva, enquanto o mito enfatiza a relação com a realidade. De certa maneira, o lógos nasce do mito e dele é inseparável. Enquanto alguns desqualificam os mitos, outros, - sociólogos, etnólogos, psicólogos, antropólogos -, buscam o sentido de suas mensagens enigmáticas, uma vez que constituem um fenômeno inevitável da cultura humana. Para a valorização do mito foram importantes os trabalhos de C. G. Jung (1875-1961). Segundo ele, os mitos representam uma das formas mais interessantes dos "arquétipos do inconsciente coletivo", uma das estruturas fundamentais da realidade humana. Paul Ricoeur, no texto O Mal, afirma: "O domínio do mito, como o atestam as literaturas do Oriente Antigo, da Índia e do Extremo Oriente, revela-se um vasto canteiro de experimentação, até mesmo de jogo, com as hipóteses as mais variadas e as mais fantásticas. Neste imenso laboratório, não há solução definitivamente concebida que não tenha sido tentada em relação às coisas e, conseqüentemente, na solução do enigma do mal" (p. 27).
1 - Conceito geral de mito
O conceito de mito é um dos mais obscuros, mais complexos e mais difíceis. Poucos conceitos são compreendidos e interpretados de maneiras tão diversas. Por isso o poeta português Fernando Pessoa dizia que "o mito é o nada que é tudo". Trata-se de um conceito polissêmico, designando ora uma visão de conjunto, ora uma unidade gnosiológica de fundo e forma, ora uma história de fundo lendário, ora uma fábula ou uma impostura. De modo genérico, ao falar de mito, entendemos a projeção de desejos, de temores, de explicações do universo e da vida no espaço social da linguagem, sem a mediação da razão crítica. O mito é um fenômeno cultural tão complexo que pode ser comparado à idéia de uma vasta e densa floresta amazônica, sendo temerário penetrar nela. Em sua obra Antropologia Filosófica, Ernst Cassirer (1874-1945) inicia o capítulo sobre "Mito e Religião": "De todos os fenômenos da cultura humana, o mito e a religião são os mais refratários a uma análise puramente lógica" (p. 121). Continua: "Se algo existe que seja característico do mito é o fato de ser inexplicável" (p.121). Mas os mitos estão presentes em todas as culturas, como relatos ou narrativas de origem remota, situando-se entre a razão e a crença. Contam o nascimento dos deuses (teogonias), a criação do mundo (cosmogonias) e explicam o destino do homem após a morte (escatologia) e outros. Há mitos que procuram explicar a origem, a posição e o destino de sociedades, de povos, do mal no mundo, etc. O mito funda e esclarece uma tradição. Os mitos são narrativas integradas na consciência da identidade de sociedades humanas. Mircea Eliade (1907-1986) afirmou, em meados do século XX, que o símbolo, o mito e a imagem são parte substancial da vida do espírito. Como tais podem ser degradados, mutilados, mas nunca destruídos. Os símbolos e os mitos vêm de muito longe, pois são parte da existência humana no universo. Ele não separa, pois, o mito e o rito do lógos. O que o mito narra é alguma coisa em que reflete o destino do homem no cosmo. O mito exprime o homem na sua impotente, mas insaciável procura de realização. Por mito entendem-se, pois, formas de narrativa simples de explicações do mundo. De certa maneira, trata-se de explicações pré-teóricas nas quais não se distingue sistematicamente entre o real e o pensado. Sociedades arcaicas, geralmente formadas por grupos restritos de pessoas, que trabalham a natureza em comum com meios primitivos em busca do próprio sustento, elaboram narrativas abrangentes sobre temas importantes com os quais se defrontam. Colocam esses temas num contexto global que reconhece lugar e sentido para tudo. Nessas sociedades existem poucas diferenças sociais, porque ainda inexiste a divisão de trabalho em camadas e classes. O que existe são as diferenças biológicas de idade e sexo. Para a integração, nessas sociedades, carecem de importância aquelas diferenças reais ou imaginárias significativas para as sociedades modernas. Conhecimentos empíricos a respeito da natureza misturam-se com concepções animistas. Espíritos e deuses animam e povoam o mundo. Falta a preocupação com a fundamentação teórico-crítica. Basta a validade das convicções. Narrativas mitológicas surgem sem autores responsáveis. São produzidas em comum com a contribuição dos indivíduos, mas conservadas e desenvolvidas por toda a sociedade, sobretudo quando essa ainda não dispõe de escrita. Aceitas por toda a sociedade, tais narrativas dispensam maior fundamentação. Valem, porque existem, e existem, porque valem. Falam de um evento de tempos primitivos que determina toda a realidade. Mircea Eliade, em O Sagrado e o Profano, escreve: "O mito é, pois, a história do que se passou in illo tempore, a narração daquilo que os deuses ou os seres divinos fizeram no começo do Tempo. Dizer um mito, é proclamar o que se passou ab origine. Uma vez dito, quer dizer revelado, o mito torna-se verdade apodítica: funda a verdade absoluta" (p. 107-108). Nessa perspectiva, o mito é a visão predominante do mundo e da vida de sociedades arcaicas. Mas seria ingênuo limitar a existência dos mitos a essas sociedades. Também persistem nas sociedades modernas, embora nelas dificilmente possam reivindicar uma validade universal. O conceito racionalista, inspirado no evolucionismo biológico de Ch. Darwin (1809-1882), fez do mito a forma primitiva da linguagem. Nessa visão, os mitos não passam de vestígios estranhos dos primeiros estágios de uma genealogia do pensamento. O termo mito adquire sentido pejorativo: uma narrativa fabulosa e fictícia. O idealista alemão G. W. F. Hegel (1770-1831) escreveu, nesse sentido: "O mito é uma forma de exposição que, na medida em que é mais antiga, suscita sempre imagens sensíveis adaptadas à representação, não ao pensamento; mas isso atesta a impotência do pensamento que ainda não sabe manter-se por si mesmo e, portanto, não é ainda pensamento livre. O mito faz parte da pedagogia do gênero humano, porque estimula e atrai a ocupar-se do conteúdo. Mas como o pensamento está nele contaminado com formas sensíveis, ele não pode exprimir o que o pensamento deseja exprimir. Quando o conceito amadurece, não tem necessidade de mitos" (Vorlesungen über die Geschichte der Philosophie, p. 188). Segundo Hegel, caberia separar o conceito filosófico do mito. O pressuposto desse conceito negativo de mito é que só a razão é capaz de expressar a verdade, reduzindo esta à razão instrumental ou científica. Mitos não são privados, mas um momento integrador de sociedades nas quais são transmitidos e cuja forma de vida eles marcam. São, na sua essência, tentativas de dar sentido à vida como um todo.
2 - Interpretações funcionais e estruturalistas
Há sociólogos que atribuem aos mitos uma "função arcaica" indispensável ao homem. Para compreendê-los, deve abandonar-se o puro racionalismo, relacionando o mito com um modo original de apreender e organizar a experiência humana na sua imediatez. Nesse sentido, as pesquisas de L. Lévy-Bruhl (1857-1939) vêem no mito uma ponte entre a natureza e o transcendente dentro de uma participação mística. Vê na narrativa mítica um pensamento compacto de caráter pré-lógico que anima a mentalidade primitiva. Assim tratar-se-ia de uma manifestação natural de um componente do espírito suscetível de coexistir com as formas lógicas do pensamento. Lévy-Bruhl concentrou sua pesquisa sobre o mito à Austrália e Nova Guiné. Destaca características do mundo mítico: falta de hierarquia, referência a um tempo primordial, presença dos antepassados, parentesco local, traços significativos da paisagem, papel civilizador dos personagens míticos e outros. O mito tem, segundo ele, a função de assegurar a presença do antepassado. Garante isso hoje, imitando-o e participando em sua vida. Isso faz do mito um arquétipo e um modelo. A escola funcionalista de B. Malinowski (1884-1942) salienta que a função do mito não é explicar o mito como uma resposta a uma questão científica, mas de fortalecer os costumes culturais e as crenças religiosas de um povo, manifestando sua raiz na vida natural. De fato, parece que os mitos constituem a espinha dorsal da vida social de povos primitivos. Eles têm uma função social que impede reduzi-los à simples razão. Neles expressa-se algo original que transcende os limites racionais. Segundo Malinowski, "o mito não é uma simples narrativa, nem uma forma de ciência, nem um ramo de arte ou de história, nem uma narração explicativa. O mito cumpre uma função sui generis, intimamente ligada à natureza da tradição e à continuidade da cultura, com a relação entre maturidade e juventude e com a atitude humana em relação ao passado. A função do mito é, em resumo, a de reforçar a tradição e dar-lhe maior valor e prestígio, unindo-a à mais alta, melhor e mais sobrenatural realidade dos acontecimentos iniciais". Nesse sentido, o mito não está limitado ao mundo ou à mentalidade dos primitivos. Faz parte integrante necessária de cada cultura. Malinowski diz que "cada mudança histórica cria sua mitologia, que é todavia só indiretamente relativa ao fato histórico. O mito é um acompanhamento constante da fé viva que precisa de milagres do status sociológico que pede precedentes, da norma moral que exige sanção" (Myth in primitive Psychology, 1926, in Magic, Science and Religion, 1955, p. 146). Segundo Malinowski, o mito cumpre uma função nas sociedades humanas, também nas consideradas progressistas. Nessas o mito pode ser constituído, não somente por narrativas fabulosas, históricas ou pseudo-históricas, mas em torno de figuras humanas "divinizadas" (o herói, o chefe, o ator, o esportista), ou por conceitos e noções abstratas (a nação, a pátria, a raça, a liberdade, o proletariado). A função dominante do mito é, então, o reforço da tradição ou a formação rápida de uma nova tradição capaz de controlar o comportamento dos homens. Os estruturalistas, no século XX, tentaram considerar a lógica própria dos mitos. Assim o antropólogo Cl. Lévy-Strauss seleciona os elementos da análise lingüística. Serve-se do jogo dos signos verbais (oposição/combinação), dos estados atuais do sistema da língua (sincronia), e o próprio sistema considerado como fechado, ou seja, sem referência aos efeitos das palavras, à realidade das coisas e ao estado de ânimo do locutor para examinar a lógica comprometida na função do mito. São opções para estudar a estrutura. A combinação dos elementos do mito, repetida de acordo com as distintas versões e variantes manifesta os mitemas, ou seja, estruturas permanentes do pensamento selvagem. Todo o mito, segundo os estruturalistas, procede da tomada de consciência de certas oposições e tende para sua mediação progressiva. O pensamento mítico, recuperado através dos relatos, como a partitura de uma composição musical, pretende reunir os fragmentos do mundo e do homem com os deuses. Segundo Lévi-Strauss, nos mitos não se trata de um simbolismo arquetípico como o proposto por Jung, porque o significado depende da relação posicional no sistema mitológico, cuja especificidade advém da referência empírica dos seus elementos. O escopo dos mitos é antropológico: perscrutar as estruturas profundas e inconscientes do espírito humano, que, apesar de sua variedade, procedem do funcionamento de leis inconscientes. Para Lévi-Strauss (1908...), de acordo com sua análise estrutural, o mito descreve a vida sensorial de cada povo, sua maneira de comer, de caçar, etc., bem como sua vida social ou ritual. Na perspectiva estruturalista, o mito é a maneira de um povo narrar seu modo de ser em sua especificidade e na sua relação com o meio natural no qual vive.
3 - Interpretação psicológica
É natural que os psicólogos desloquem sua análise para o sujeito. A base dos mitos, segundo eles, seria a angústia, pois os mistérios da natureza agridem o espírito dos homens. Mitos e mitologias servem, então, para apaziguar seu temor diante do desconhecido. Trata-se de uma interpretação que remonta a Lucrécio (séc. I a. C.), portanto, é antiga. Para S. Freud (1856-1939), as criações do imaginário coletivo são a expressão disfarçada dos conflitos do inconsciente. As sociedades arcaicas enfrentam a lembrança obsessiva dos acontecimentos que marcaram a passagem da vida animal à civilização. Os mitos ajudam os povos a suportar a evocação do assassinato do pai, o cadáver devorado, a veneração póstuma da vítima. Segundo a escola freudiana, os mitos etiológicos, que procuram descrever as causas originárias de fenômenos atuais, têm dupla função. Por um lado, ajudam o indivíduo a resolver o traumatismo de seu nascimento e a nostalgia da vida pre-natal; por outro, favorecem a integração num grupo, a partir de fantasias, imaginações e sonhos coletivos. Para C. Gustav Jung (1875-1961), é a reciprocidade do individual e do coletivo que é importante para a compreensão do mito. Sua origem estaria numa camada mais profunda da psiqué, chamada "inconsciente coletivo". Seria uma manifestação dos arquétipos que iluminam a noite de uma experiência da humanidade arcaica, embora nas formas e forças do inconsciente pessoal. Dessa maneira, os mitos e as mitologias manifestam a originalidade criadora de cada povo, nascida de um fundo de verdade onírica ligada a um tronco comum.
4 - Interpretação filosófica
Inicialmente aquilo que os gregos, desde Hesíodo e Homero, designam mito é substituição de hieròs lógos, ou seja, palavra sagrada, a narrativa sagrada de um lugar de culto e de uma tradição familiar. A isso acresce uma distinção entre mito e lógos que adquire maior significação, na medida em que cresce a reflexão sobre sentido e ser do mundo e do homem na tradição. Enquanto o lógos representa a realidade como é, o mito também pode ser ficção. Tal distinção passa a ser assumida pela tradição cristã como evidente na consciência cultural. Nesse sentido, lemos na segunda carta de Pedro: "Com efeito, não foi seguindo fábulas (mitos) sutis, mas por termos sido testemunhas oculares da sua majestade, que vos demos a conhecer o poder e a vinda de Nosso Senhor Jesus Cristo" (1,16). Quando se tenta conceituar o mito e o lógos, percebe-se que o primeiro é mais amplo e que o lógos não abrange racionalmente toda a dimensão do mito. Martin Heidegger (1889-1976) vê no mito a expressão mais autêntica da metafísica platônica. Segundo ele, o lógos, que domina na teoria das idéias, mostra-se capaz de captar o ser, mas incapaz de explicar a vida. O mito socorre o lógos para explicar a vida, superando o próprio mito para fazer-se mito-logia. Segundo ele, o mito em Platão renasce, não apenas como expressão da fantasia, mas antes da fé, acompanhada de razões. O mito, em outras palavras, busca esclarecimento no lógos e este um complemento no mito, para superar os limites da razão de maneira intuitiva, coroando o esforço da própria razão. Segundo Platão, falar por mitos é um exprimir-se por imagens, na medida em que pensamos, não só por conceitos, mas também por imagens. Para ele, o mito constitui o "caminho humano e mais breve" da persuasão. No Górgias, escreve: "Talvez essas coisas nos pareçam mitos de mulheres velhas e os considerarás com desprezo. E não estaria fora de lugar desprezar tais coisas, se com a procura pudéssemos encontrar outras coisas melhores e mais verdadeiras. Mas também vós três, tu, Pólo e Górgias, que sois os gregos mais sábios de hoje, não conseguis demonstrar que convenha viver outra vida que não esta" (Górgias 527 a-b). Para Platão, com respeito ao universo físico, que é imagem do ser, são possíveis somente raciocínios verossímeis. Nesse sentido, a natureza humana deve contentar-se com o mito como narração do provável. O patrimônio extraordinário da mitologia grega coloca perguntas sem fim aos filósofos de ontem e hoje. Em geral, a complexidade dos temas, que o mito combina, relaciona-se com o problema da representação. De um lado, o mito reflete um entorno cósmico, social e religioso; de outro, seu estatuto epistemológico impõe a tarefa da interpretação dos prolegômenos de uma aproximação crítica. Em todas as culturas, o mito expressa que sua linguagem e sua mensagem ocultam uma verdade necessária, cujo objetivo é manifestar um aspecto da compreensão que a humanidade adquire de si mesma a respeito do fundamento e do limite de sua existência. É um discurso inesgotável sobre a origem e o fim do homem no mundo. Por isso, G. Gusdorf relaciona o mito com a metafísica. Entre uma filosofia da consciência e uma filosofia da existência, o mito mantém uma raiz no ser e na essência. P. Ricoeur afirma que o mito é uma combinação enigmática do compreender e do crer. O mito vivifica uma interpretação religiosa do homem e do mundo. A rigidez da razão dificulta sua compreensão e há formas de crer que deterioram a crença. No mito, o objetivo, o subjetivo e o existencial não se contradizem de maneira definitiva. Desde Platão até E. Cassirer, o pensamento mítico mostra o movimento de uma reapropriação do homem original ou primordial. Cassirer afirma: "Se o mito oculta este sentido filosófico debaixo de toda a sorte de imagens e símbolos, cabe à filosofia desmascará-lo" (p.123). Mas o mundo mítico não se compreende por um processo de redução intelectual. O mito desenvolve-se entre o símbolo e o rito. É uma realidade tão complexa que não pode ser objeto de uma definição. Em geral, conta uma história sagrada ou um acontecimento que teve lugar no tempo primordial. Relaciona-se com o permanente do homem, pois, no mito, origem corresponde ao que é ser e substância na filosofia. O tempo no mito une o ontem, o hoje e o amanhã. A história, que a ação produz, supera o homem em sua subjetividade e os homens em sua coletividade. O mito é um relato fragmentário de uma aliança definitiva. Sua mensagem unitiva persiste, apesar da presença do trágico no coração do mundo e do homem. Exprime um sonho de renovação e de esperança, porque, segundo M. Eliade, são as religiões, a mística e a arte que permitem ao homem a fuga do que ele chama o "terror da história." O mito é uma função de origem. Exercita uma memória primordial ao recordar uma época heróica, uma idade de ouro e um tempo de saudade. Relata uma cosmogonia ou uma teogonia e uma genealogia. Narrando como as coisas eram originalmente, o mito expressa o que realmente é e vale atualmente. Sob a nostalgia das origens, expressa a esperança de uma reconciliação integradora. O antepassado mítico proporciona a consistência ao real cotidiano. Constrói história, pois, na perspectiva da arqueologia, oculta uma teleologia. Do ponto de vista antropológico, o mitos espelham o que os homens buscam. Oferecem exemplos a seguir, sendo paradigmáticos. Têm caráter festivo, pois são canções do mundo que celebram a unidade. Testemunham um drama original cujas conseqüências se manifestam no dia-a-dia. Os mitos envolvem a noite e o dia, o céu e a terra, a água e o fogo, as plantas e os animais com o homem e com os deuses. Tendem a superar a dualidade entre o homem e a mulher na unidade de uma criatura completa. São o gesto de um herói, origem de uma raça, de uma tradição e de uma cultura. Tudo isso acontece na força divina, porque os deuses presidem e ordenam, atormentam e consolam. É o divino que representa uma harmonia possível do conjunto. A leitura dos mitos pode ser feita em diferentes níveis. O primeiro é o narrativo, analisando a organização textual. O segundo é o etiológico, descrevendo o funcionamento explicativo e fundador de um mito numa sociedade, numa cultura, numa tradição e numa religião. Enquanto, no primeiro, os lingüistas trabalham de maneira sincrônica, no segundo, os sociólogos e historiadores, em geral, recorrem à diacronia. No terceiro nível de leitura trata-se de reconhecer as imagens e os símbolos e acompanhar a lógica de seu desenvolvimento. É tarefa dos filósofos, psicólogos e antropólogos. Por fim, o nível religioso consiste em referir as hierofanias e teofanias de um relato mítico à lógica de uma experiência do divino, Nesta última leitura, o teólogo e o cientista das religiões são chamados a aprofundar a natureza do homo religiosus. Ao procurar desenvolver sua compreensão do mundo, os povos recorrem às origens, nelas descobrindo a expressão do arquétipo da ação humana posterior. Fundamentam sua conduta atual nos deuses e nos heróis. São manifestações profundas e vivenciais da condição humana. Os mitos respondem a questões fundamentais do homem de todos os tempos: sua origem, sua relação com o mundo e com as forças naturais, a sexualidade, a morte, o destino humano. Descrevem as causas originárias desses fenômenos. Criações do inconsciente coletivo, os mitos dão sentido à existência em formas imaginativas, situando-a no cosmo. Podem exercer função constitutiva ou transformadora. Mircea Eliade diz que "a função mais importante do mito é, pois, a de fixar os modelos exemplares de todos os ritos e de todas as atividades humanas significativas: alimentação, sexualidade, trabalho, educação, etc. Comportando-se como ser humano plenamente responsável, o homem imita os gestos exemplares dos deuses, repete as ações deles, quer se trate de uma simples função fisiológica como a alimentação, quer de uma atividade social, econômica, cultural, militar ,etc" (p.110). Segundo o mesmo autor, "o homem só se torna em verdadeiro homem, conformando-se ao ensinamento dos mitos, quer dizer, imitando os deuses" (p. 112). A crítica científica do mito, considerando os mitos etiológicos um estádio pré-científico, uma explicação ingênua do mundo, por ainda desconhecer os verdadeiros nexos causais, ou a partir da intenção de sentido, que na forma ou função conduz aos mitos de legitimação, para justificar instituições ou normas sociais, ou ainda a partir da ideologia, não atinge seu cerne como resposta ao déficit de sentido em relação ao indisponível ao qual o homem está sujeito também na sociedade da tecnociência. Sem ignorar o caráter ficcional dos mitos, poderá, talvez, tentar-se uma compreensão mais racional, indagando por sua mensagem ou pelo sentido que transmitem. O mito não precisa dos fatos históricos. Narra alguma coisa em que reflete o destino eterno do homem no cosmo. Narra um acontecimento simbólico que consiste no fato de significar e naquilo que significa. De certa maneira, o mito nunca aconteceu, mas sempre é. Representa uma experiência do mistério da realidade que não se reduz à tirania causal técnica, mecânica ou lógica. O homem realiza-se, enfim, no equilíbrio entre o lógos e o mito, pois é não só razão mas também mito. O mito é uma expressão complexa de uma certa experiência global, que o homem tem de si mesmo. É um inevitável componente da existência humana.
Bibliografia
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