Monumenta

Frei Rovílio Costa

 

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As comemorações dos 125 anos da Imigração Italiana no Rio Grande do Sul (2000), através da Comissão Oficial dos Festejos e Eventos, despertou a consciência da diversidade étnico-cultural do Estado.

Diversidade de etnias e, dentro de cada etnia, diversidade de experiências culturais, resultantes das localidades de origem dos diferentes grupos. Pode-se, pois, falar em experiências culturais italianas no e do Rio Grande do Sul. O mesmo se pode dizer das demais etnias. As diversificadas experiências culturais, dentro de uma mesma etnia, contribuíram para específicos modos de viver, de pensar, de fazer e de crer, constituindo facetas diferenciadas da própria identidade no Estado.

Festas de capelas, de igrejas, kerb, festas de uva, de vinho, de queijo, de maçã, de kivi, da bergamota, da laranja, da batata, do pêssego ... são eventos conseqüentes de grupos que marcaram a realidade local com sua experiência cultural e étnica originárias, aculturadas à realidade da pátria adotiva. Italianos e outros emigraram cada um como etnia única, que se traduziu, na nova realidade, em formas culturais diversas, dependendo do viver, do fazer, do pensar e do crer do respectivo grupo. São experiências culturais dentro de uma mesma etnia, ou influenciadas por um grupo étnico, em um contexto de etnias e culturas diversificadas.

O Rio Grande do Sul é um Estado pluri-étnico e pluricultural. Os 125 anos da Imigração Italiana quiseram celebrar a presença italiana com marcas históricas, lingüísticas e culturais próprias de regiões, províncias, comunas e famílias de origem. Com o estabelecimento de cada família no seu lote, começou o caminho evolutivo do particular ao geral. A etnia italiana, com suas diversificadas experiências culturais, começou a ter traços próprios a partir da ação de uma família, de um grupo de famílias, de uma comunidade de capela, de igreja, de cooperativa, de sociedade recreativa, de povoado, de vila, de distrito, de município, do estado ou do país. O geral italiano aportou e se estruturou com as características do particular, de cuja ação estão resultando as diferentes facetas da contribuição italiana à cultura sul-rio-grandense e brasileira.

São 125 anos de italianidade diversificada, no contexto de mais de duas dezenas de outras etnias,  razão porque o Monumento Oficial dos 125 anos da Imigração Italiana, em Veranópolis, denominado Portal Monumento Far La Mèrica, contempla e homenageia todas as etnias presentes no Estado, no momento do povoamento de toda a ex-Colônia Alfredo Chaves (1891) e que vêm fluindo e se intercambiando até o presente. O monumento, enquanto portal, indica o seguro caminho aberto a todos, pelos pioneiros e, enquanto estatuária familiar, aponta à vida, história, trabalho e fé que deram base imigrantista à cultura sul-rio-grandense e brasileira.

De forma evolutiva e dinâmica, a história vai fluindo, buscando inspiração e identidade, seja no passado re-estudado e re-analisado, seja no presente que vai marcando famílias e comunidades, como continuidade, diferença e / ou originalidade resultante da equação passado / presente.

Razões religiosas, econômicas, políticas e sociais fazem com que pessoas, fatos ou acontecimentos sejam percebidos como importantes e singulares na vida e história da comunidade local, estadual, municipal ou nacional, e passam a ser recordados em símbolos materiais – placas, monumentos e diferentes formas de registrar passagens e presenças.

Prof. Geraldo Mainardi privilegia monumentos alusivos a datas e personagens da etnia italiana em numerosos municípios do Estado. Datas, eventos e acontecimentos de municípios, associações, famílias, personagens...

Em geral, o monumento marca um aspecto cultural exponencial da vida da comunidade, expresso na vida do personagem que nela viveu ou atuou. Mas, quando se trata de um personagem-símbolo de uma cultura, a homenagem municipal indica razões específicas de presença na identidade comunal, através da escola, da igreja, da política, da economia... Dante Alighieri, por exemplo, é personagem-símbolo da alta cultura italiana. Um monumento em sua honra marcaria uma forma própria de presença na comunidade que o homenageia.

Numa cidade desconhecida, percorrendo ruas, visitando monumentos, igrejas, escolas, cemitérios, lendo placas..., constrói-se uma primeira percepção histórica daquilo que faz parte do quotidiano da população, que se passa a entender melhor na convivência com a mesma.

Prof. Geraldo Mainardi percorreu os municípios do Rio Grande do Sul em busca de sinais e símbolos que materializam a presença italiana. Do geral ao particular, somaram-se registros, atestando efemérides, fatos, acontecimentos e personagens que são patrimônio geral da etnia a partir da pátria de origem; do particular ao geral, destacaram-se efemérides, fatos, acontecimentos e personagens da presença italiana local, que marcou a cultura do Estado, especialmente a partir de 1875, data do início da Imigração Agrícola.

Em cada município, monumentos destacam uma consciência cultural e ação italiana definidas, indicando caminhos percorridos por aqueles que chegaram com as mãos livres para plantar e construir; com uma infinda gama de sonhos de Fazer a América, utilizando a enxada, a foice, o machado, o martelo, a carroça...; plantando; criando animais; construindo casas, capitéis, capelas, igrejas e escolas; abrindo picadas, atalhos e estradas; fundando cantinas, cooperativas, sociedades..., sempre com o espírito repleto de sonhos, em parte realizados e em parte ainda em estágio onírico. Sempre, porém, com o compromisso de emigrantes e imigrantes. Como emigrantes, deixando suas parcas seguranças na Itália e, como imigrantes, buscando o espaço que cada um sonhou encontrar. Sem apegos, pois seu tudo histórico ficou no além-mar, o imigrante italiano e outros estão à busca do local definitivo onde Fazer a América de seus sonhos.

Os monumentos marcam tanto o geral da etnia, quanto o específico das culturas.

Na alma imigrante há poucos apegos às conquistas de ontem, mas sobram sonhos às projetadas conquistas de amanhã.

Prof. Geraldo Mainardi, reconhecendo as conquistas do ontem, traduzidas em monumentos, expressa também o sonho de um novo amanhã, que deverá reservar muito mais espaço para novos monumentos, porque o italiano é o inquieto e eterno migrante, em busca de uma América que nunca, talvez, lhe será definitiva, devido à incontida capacidade de sonhar do italiano, que se fez cidadão do mundo.

 

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