Quando a morte é um direito

Rovílio Costa

 

Home | E-mail

 

Há 40 anos, no ministério pastoral, atendendo também doentes, deparei-me com atitudes diversas perante a morte.

Há pessoas que nunca se imaginam morrer. Outras temem morrer. Outras, enfim, desejam morrer.

Umas querem morrer para fugir a sofrimentos, angústias, problemas... Outras, geralmente pessoas humildes e piedosas, querem morrer para não serem de peso à família.

Muitas pessoas, como dizia Papini: "Trabalham, lutam como se foram imortais e vivem como se tivessem que morrer a cada momento." Estas não morrem, adormecem, porque a morte é, para elas, uma necessidade arbitrária que está fora da programação da própria vida.

Mas é difícil encontrar coerência em pedir para morrer. Será que isto é humano? O próprio Cristo dirigiu-se ao Pai com estas palavras: "Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito."

O que significa isto?

Todos somos capazes de entender que temos direito aos nossos defeitos e à nossa condição de pecadores, como herança de nosso pai Adão, mas nem todos conseguem entender que, simultaneamante, temos o privilégio da salvação. Somos, como diz São Paulo, parcelas da humanidade de Cristo, salvos por Ele que, junto do Pai, está vivo para pedir por nós. A graça e a salvação são o privilégio distribuído a todos, na diversidade de raças, línguas e culturas.

Fazer o bem e evitar o pecado faz parte do privilégio da graça e da salvação. Mas, por vezes, fazer o bem gera ódios, mal-estar, condenações como a que levou Cristo à morte, da parte de dois tipos de pessoas: 1° das que se apropriam do privilégio da graça, dos carismas como próprios, como se foram uma conquista pessoal e não como dons de Deus, e se servem deles para condenar ou desprezar os outros e, 2º, das pessoas que desprezam todo e qualquer valor sobrenatural.

Estas condenações geram o martírio, a confissão da indigência humana, o desapego de si mesmo e a força para repor própria vida nas mãos de Deus, acolhendo sua vontade salvadora.

A pessoa condenada por praticar o bem, e impedida de fazê-lo, tem negada sua dignidade no grau máximo, e tem direito de pedir a Deus a morte. Por quê?

– Porque, no momentos em que alguém se sente, como no caso dos mártires, condenado por acreditar, condenado por amar os amigos, condenado por fazer o bem, e impedido de continuar a fazê-lo, tem direito de pedir a morte como selo de sua fé, por duas razões, igualmente irreversíveis:

1º Porque já renunciou a seu direito natural à condição de pecador, para viver a liberdade da graça e,

2º Porque lhe é negada a possibilidade prática de proclamar o privilégio da salvação com palavras, com ações, com afetos, com sentimentos, com amizades, com súplicas e preces, porque lhe foram tirados os destinatários. Sobra, então, oferecer a vida como supremo louvor. É o caso dos numerosos mártires que enfrentaram o martírio uma só vez, de forma violenta, e de tantos outros que o vivem a cada dia, na luta entre o bem e o mal.

O martírio é um privilégio da graça para quem o acolhe, mas é uma frustração para quem o provoca.

Se não queres, nunca, ser algoz de algum mártir, olha o privilégio da salvação oferecida por Deus a todos e a cada um, e nunca condene o bem que está em teu próximo, o bem que teu próximo faz, independente do que pensa, porque no momento que lhe impedires de fazer o bem, tu serás o algoz, e o teu próximo será o mártir.

 

 

Porto Alegre, 30 de maio de 2001, conclusão do mês mariano.

Home | E-mail