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Perfil do Intelectual Cristão |
Urbano Zilles |
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A história apresenta-nos imagens de muitos líderes religiosos, militares, políticos e intelectuais. Tais imagens inspiraram muitos jovens. Filósofos, desde Platão, preocuparam-se sobre como deveriam ser os governantes. Entre os cristãos, nas regras das grandes Ordens religiosas, como nas regras de São Bento, encontramos traçada a imagem de como deverá ser o abade de um mosteiro; Inácio de Loyola, fundador da Companhia de Jesus (jesuítas), detalha as qualidades que o Superior Geral da Ordem deve ter. A literatura de ontem e de hoje descreve imagens de seus heróis. Nos diversos currículos das universidades e escolas de Ensino Superior, embora não explicitado, pressupõe-se determinado perfil de profissional e cidadão que se pretende formar. Pressupõe-se, nesse caso, quais os conhecimentos, as qualidades e habilidades que o futuro profissional deve possuir e desenvolver para o exercício de funções importantes na sociedade. Ora, numa época de profundas transformações sociais e culturais, no contexto de fortes tendências para a globalização, talvez caiba perguntar: Como deverá ser um intelectual cristão hoje? Que qualidades e habilidades deverá exibir? Por intelectual entendemos uma pessoa que se ocupa das coisas do espírito. As pessoas que chamamos "os intelectuais", na sociedade exercem a função de conhecimento e de guia. Neste sentido são intelectuais os "sábios" da Índia e da China antigas, os poetas e filósofos da Hélade, os magistri ac scholares das universidades medievais, os humanistas do Renascimento como certos físicos nucleares, biólogos e escritores de nossos dias. Na sociedade sempre existiram pessoas que mais se devotaram às coisas do espírito. Mas, de dois séculos para cá, o papel dos intelectuais assume importância sempre maior na sociedade. Sem constituírem uma classe social propriamente dita, cada vez mais desempenham um papel mais decisivo nas mudanças e transformações sociais. Talvez entre os motivos possa mencionar-se: diminuição da influência de uma grande religião; clima de maior liberdade política; mais ampla e acelerada mobilidade social; diversas e progressivas revoluções nos meios de comunicação social desde a imprensa à Internet.
1 Homo doctus
Nosso planeta Terra tornou-se um gigantesco laboratório da tecnociência. Assemelha-se a uma bola envolta por uma teia que são as redes de comunicação. Sob alguns aspectos, a inteligência, a ciência e a técnica colocaram o planeta nas mãos do próprio homem. Nesta situação exige-se de todo o líder e dirigente, também e sobretudo do intelectual cristão, competência em sua área de conhecimento. Sem a preparação adequada, sem formação metodológica rigorosa, é impossível o acesso à complexidade das condições de vida, às estruturas da realidade, dos mecanismos de funcionamento da vida social hoje. Sem ser especialista em sua área de conhecimento, sem a capacidade e a competência de participar nas discussões científicas com os colegas de profissão, ninguém deveria assumir função de dirigente na sociedade. Em resumo, o intelectual cristão deve ser um homo doctus em sua especialidade. Só tal competência lhe garantirá respeito e autoridade perante os colegas. Embora a especialização não seja suficiente, tornou-se condição necessária para viver e impor-se no mundo profissional. No mundo intelectual merece respeito quem é bom em seu domínio de conhecimento. Isso lhe proporciona liderança entre os pares. A especialização é a tendência, ou melhor, a exigência que leva indivíduos a se valorizarem em determinado ramo de saber e de atividade. Hoje o cidadão não mais pode ser um pouco de tudo. Deve ser especialista, ou seja, ter um saber aprofundado em um ramo do conhecimento. O profissional reconhecido como competente é aquele que sabe agir com aptidão profissional em situações complexas. Hoje o saber é o recurso que mais conta. Os fatores tradicionais, a terra, o trabalho e o capital não desapareceram, mas passaram para segundo plano. Pode-se consegui-los, desde que se tenha o saber. O cristão deverá empenhar-se para ser o melhor profissional, o melhor cientista, pois o dinamismo da própria fé o impulsiona a transformar o mundo, a lutar sempre por um mundo melhor.
2 Homo eruditus
Ser especialista é uma qualidade necessária e indispensável, mas certamente não é suficiente. A especialização aproxima os homens de um campo de saber para além das fronteiras de países e culturas. Mas existe o perigo de ser especialista em disciplinas que não atingem o homem enquanto homem. Nesse caso a especialização pode levar a uma fragmentação monstruosa em detrimento das qualidades humanas fundamentais. Cabe à educação buscar o equilíbrio entre a especialização (o ser douto) e a formação geral ou humanista. Pessoa erudita é aquela que alarga seu interesse de conhecimento para além de uma área específica, para a área da cultura humana, para a filosofia, a teologia, a literatura e a arte. O intelectual cristão também deve ter uma formação geral e humana. A tendência da globalização é de preparar os profissionais do futuro como peça de uma engrenagem para determinadas funções. Os problemas de uma área de especialização sempre conduzirão a áreas vizinhas. Como todo o ser humano é limitado, o indivíduo poderá ser especialista, quando muito, em uma ou duas áreas. Neste sentido, precisamos saber onde, com quem e como obter informações sobre problemas de outras áreas de conhecimento cuja solução é importante para a própria. Além disso, o saber humano não se reduz ao saber estritamente científico. Este constitui uma clareira limitada no conjunto do mundo da vida. A separação do mundo da ciência do mundo da vida gera um mundo desumano. A questão de uma visão mais global agrava-se, quando se trata de transpor teorias científicas para a prática. Para esse procedimento, o cientista necessita de um horizonte amplo de conhecimento. Se na área do conhecimento científico se torna indispensável alargar horizontes, para um cientista cristão, pressupõe-se, outrossim, conhecimento sólido da doutrina cristã e de seus valores, pois a fé não deve ser um empecilho, mas uma ajuda nas atividades intelectuais. Fé e razão, na perspectiva cristã, se completam mutuamente. O intelectual cristão também deverá saber dar as razões de sua fé a quem solicitar (1Pd 3,15).
3 Homo habilis
A competência na área específica de conhecimentos, uma boa formação geral e cristã, não dispensam o intelectual de bom senso e da habilidade no agir. O verdadeiro líder no campo intelectual não precisa humilhar concorrentes, nem recorrer a caminhos eticamente dúbios, pois deve ser um homo habilis para falar, escrever e agir, apresentando perspectivas aos projetos viáveis e capacidade crítica para justificar a rejeição de outros. Portanto, hábil não é apenas a pessoa que sabe fazer, que executa com agilidade e eficiência o que faz. Habilidosa é também a pessoa que é perspicaz e inteligente na visão e análise das situações e na solução dos problemas. A habilidade de liderança inclui a capacidade de apresentar metas claras a atingir e quais os caminhos para seguir a fim de chegar até elas. Quando se trata de liderar pessoas, pressupõe-se um conhecimento mínimo em management da informação e de metas, sobretudo na diagnose de situações e problemas, de planejamento, de decisão e de introduzir medidas adequadas para levar adiante uma obra com controle e desenvolvimento estratégico.
4 Homo publicus
O líder é uma pessoa cujas ações e palavras exercem influência sobre o pensamento e o comportamento de outras pessoas. Sem ser autoritário, outros reconhecem sua autoridade para conduzi-los e orientá-los. Essa autoridade baseia-se em sua reconhecida competência e na sua conduta confiável e coerente. Por isso, de um verdadeiro líder intelectual exige-se mais que conhecimentos de management. Sendo um homo habilis deverá ser um homo publicus, ou seja, deve participar em associações de classe, em instituições públicas relevantes em sua área profissional, integrando-se no espaço público para realizar suas tarefas. Deve desenvolver capacidade de diálogo e de, eventualmente, rever suas próprias posições e decisões quando for o caso. Assume responsabilidade pública por seus atos e suas palavras. Não se omite. Hoje, na era da globalização, a responsabilidade pública estende-se para além das fronteiras de um país ou de uma cultura. Por essa razão conhecimento de línguas estrangeiras e familiaridade com outras culturas são meios facilitadores e indispensáveis no exercício de uma liderança intelectual.
5 Pressupostos pessoais, éticos e religiosos
A coragem para inovar e a competência para liderar e orientar outros exige pressupostos interiores e espirituais que fecundam a racionalidade e a competência adquirida. O verdadeiro líder prescinde de preferências pessoais, pois não persegue as verdades que lhe sirvam mas procura servir a Verdade. Resiste à sedução do dinheiro, da honra e do poder. Tais coisas podem ser conseqüência, mas nunca um fim em si mesmo. Por isso, quando se tornam critério para a ação e conduta pessoais, cegam lideranças e governantes. Não discutimos a necessidade do poder na condução política de um povo, nem o lucro, que exerce papel importante na economia de uma empresa. Mas quando o poder se torna o critério primeiro, esclerosa a vida política e os políticos tornam-se uma casta distanciada e separada do povo. O poder tem sentido na medida em que é usado em favor e não contra o povo. Da mesma maneira, a economia deve visar lucros. Entretanto, quando este objetivo for dissociado do bem-estar do todo, por exemplo, criando empregos sem remuneração digna, a economia torna-se exploração dos mais fracos pelos poderosos. Instaura-se uma ordem feudal moderna na qual os empresários criam a legislação que os favorece, pois exercem influência sobre os legisladores. Em seus juízos e em suas decisões muitos dirigentes seguem o ethos profissional na sua área específica porque sem um mínimo de ética prejudicariam seus próprios negócios. Seguem a regra de ouro – não faças aos outros o que não queres que façam a ti – e princípios clássicos da Ética enquanto revertem em benefício próprio. Em outras palavras, a Ética reduz-se, em última análise, ao interesse pessoal. Quando um povo ou uma instituição são governados por pseudo líderes, quando os políticos e economistas procedem sem critérios morais, merecem perder a confiança. Mas onde houver conduta ética, essa desperta confiança e esperança até mesmo em situações de crise. Por fim, o líder cristão testemunha fé em Deus. Esta é o fundamento do ethos e a força para assumir sua responsabilidade de inovar no mundo em transformações rápidas e radicais. Mas, fé, esperança e caridade não constituem um "seguro de vida". A fé em Deus permite, por um lado, reconhecer a relatividade e a finitude da condição humana e, por outro, mostra a disposição infinita de Deus para a reconciliação e a graça. Somente onde se reconhece a Deus como Pai de todos é possível viver em fraternidade, pois evita-se que homens usurpem Seu lugar para explorarem seus semelhantes. Da experiência com Deus nascem, para o líder cristão, a coragem e a força de recomeçar sempre com novo ânimo, também depois de sofrer derrotas. A fé, a esperança e a caridade capacitam o cristão a assumir sua responsabilidade apesar de sua limitação e fragilidade, proporcionando força para colaborar na construção do Reino de Deus neste mundo passageiro. A fé em Deus não é uma maneira hábil de fugir do mundo e de seus problemas, mas ajuda a discernir o bem e o mal; a ter consciência de que normalmente Deus age no mundo através de sua criação, ou seja, através de nós. Tanto as realidades mundanas quanto as da fé originam-se do mesmo Deus. |
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