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Oração é o florescimento da piedade |
Frei Rovílio Costa |
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1. Rezar é proferir palavras, não quaisquer palavras, mas palavras dirigidas a Deus. A fé, a esperança e a caridade são virtudes infusas por Deus em nossa vida. O Deus que nos criou, deu-nos, simultaneamente, como diz Tertuliano, o instinto do transcendente. A oração flui espontânea como a palavra de amor para a pessoa amada, realidade que acontece na media da intensidade da piedade. A palavra piedade, do latim pietas, não significa pena, mas amor paternal e filial. Um amor de pai para filho e de filho para o pai. Quando se diz Deus, tem piedade de nós! significa – Deus, tem amor filial por nós! Piedade é um dom do Espírito Santo, que desenvolve em nossos corações a afeição filial para com Deus, e que infunde espontâneo gosto pela oração. É como o afeto que se desenvolve na criança, que se apega sempre mais a seus pais. Pela piedade, vamos e voltamos do seio de Deus, como a criança vai e vem do colo do pai. Para São Francisco de Sales – “A piedade é a perfeição da caridade, a perfeição do amor. Se a caridade é um leite, a piedade é a nata; se a caridade é uma planta, a piedade é a flor; se a caridade é uma pedra preciosa, a piedade é o seu brilho; se a caridade é um bálsamo excelente, a piedade é seu odor. É um perfume de suavidade que conforta os homens e regozija os anjos.” A piedade, como dom do Espírito Santo, é o núcleo central da oração e da vida espiritual. A piedade, como amor filial, quer se expressar em formas e fórmulas, quer ler e ouvir a palavra de Deus, escutar as pessoas, os fatos e acontecimentos, admirar o mundo criado como um todo, e expressar sua admiração para com Deus, a origem paternal de tudo. A piedade desemboca na oração. Santo Agostinho diz: “Quem bem sabe amar, bem sabe orar e melhor sabe viver.” O dom da piedade nos coloca na escuta de Deus, na auscultação de sua palavra e vontade, expressas em nós, através das atividades, trabalhos, convivência, decisões pessoais e, sobretudo, através do destino que pretendemos dar à nossa vida. Através, enfim, do que acreditamos ser a vontade de Deus ou a vocação a que Deus nos chama, como pessoas, e como cristãos. Por natureza, o homem é um ser orante, um ser que tem consciência de sua origem e destino, um ser que tem liberdade e autonomia sempre maiores, quanto mais se descobre originário e dependente, e amado por Deus. O homem ora na medida da consciência de sua origem e destino. Cristo é o divino no humano, e o humano no divino. Nos momentos de singular consciência de sua missão e destino, ele ora ao Pai. Antevendo o futuro suplício da morte de cruz, exclama: “Pai, se for possível, afasta de mim este cálice, mas não se faça a minha e, sim, a tua vontade” (Mt 26,39). É a consciência de sua origem divina e humana. O “Seja feita tua vontade ...” (Mt 6,10) responde ao humano e ao divino. No momento em que os apóstolos pedem: “Senhor, ensina-nos a orar” (Lc, 11,1), Cristo responde: “Quando orardes, dizei: Pai, santificado seja o vosso nome...” (Lc 11,2) e, na primeira parte, faz uma oração de origem e, na segunda, apela à piedade do Pai, se coloca como alvo natural de seu amor, e de forma igualmente natural se propõe o acolhimento e perdão do irmão. Mas, a grande síntese da vida do Senhor está nas derradeiras palavras messiânicas, no alto da cruz, antes de expirar para o mundo presente e a-spirar a ressurreição: “Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito” (Lc 23,56). É a bilateralidade da piedade: O Pai que acolhe, e o filho que a Ele se entrega sem reservas. O dom da piedade é um dom messiânico, dom do Espírito Santo, cuja ação e missão no mundo é conseqüência da encarnação do Verbo. “Se eu não for ao Pai, o Advogado não virá a vós (Jo 16,7)”; quando ele vier, vos ensinará toda a verdade, quer dizer, vos dará o sabor do bem, da liberdade e da graça, que coexistem com a contingência humana, com o enigma da dor e do sofrimento, da contrariedade, até a maturidade pessoal pela qual nos tornamos dons nas mãos de Deus: “Pai, em tuas mãos, entrego meu espírito” (Lc 23,56). Orar, como tal, é uma expressão natural, individual, única e exclusiva. Podemos orar com nossas palavras ou com as palavras dos outros, que fazemos nossas. Quando rezamos o Pai-Nosso, oramos com as palavras de Cristo, que fazemos nossas. O Cristianismo, bem como as grande religiões monoteístas, no curso do tempo, construíram formas e fórmulas de orar, que sinalam experiências de oração. A estas orações, a Igreja Católica chama orações litúrgicas, orações catequéticas, orações de santos, orações de cristãos. As orações que surgiram na história e vida da Igreja, estão carregadas de doutrina, de experiências espirituais, de interpretação da ação do cristão no mundo, de buscas de santificação, segundo carismas diversos de pessoas e comunidades cristãs, monacais e religiosas. Especialmente na missa, o celebrante, em nome da Igreja Universal, seguindo os acontecimentos centrais da vida de Cristo e dos santos, ora descortinando verdades, se comprometendo e suplicando fidelidade ao patrimônio recebido da vida de Cristo e da história do Cristianismo. O dom da piedade nos coloca nos caminhos de Deus. Dá-nos a consciência de sermos filhos seus, seus prediletos, porque, um dia, nos fez à sua imagem e semelhança, nos desvelou seu amor em Moisés, através dos mandamentos, e nos fez participantes de sua própria natureza na Encarnação do Verbo, o Deus feito cada um de nós. Em Cristo se compreende a oração eclesial que é uma oração sacramental. A Igreja é o grande sacramento. O grande sinal de comunhão com Deus em Cristo, que está em nós no nascimento, no crescimento, na vida adulta, na saúde e na doença, enfim em nosso destino neste e no mundo das bem-aventuranças. Por isto, os sacramentos nos dão a simultaneidade da consciência de Deus em todos os momentos de nossa vida, nos faz entender Deus através das palavras criadoras de sua vida em nós. Jesus é a palavra criadora do Pai feita natureza humana, que nos faz filhos de Deus no batismo; nos incorpora à construção do reino de Deus na Crisma; no dá o senso da comunhão no amor de Deus na eucaristia; nos torna seus ministros na missa; nos faz construtores de seu povo no matrimônio; nos faz seus bem-amados na confissão; nos embala em seu colo, de forma definitiva, na unção, re-consagrando nossa vida e história na dimensão da eternidade. Orar de forma pessoal é colocar a própria vida nas palavras de oferenda ao Senhor. Orar de forma familiar, comunitária, eclesial é colocar a vida da família, da comunidade e da Igreja nas próprias palavras. Mas orar não é só proferir palavras. Aliás, esta de orar falando, é maneira própria do ocidental. O oriental ora com menos palavras e mais contemplação e meditação. Orar é tomar consciência de si, e se projetar nas mãos de Deus como origem e destino de nossas existências. Destas considerações, entende-se o que o dizem os livros de Ascética e Mística sobre a oração, na definição mais encontradiça: “A oração é a elevação de nossa alma a Deus para o adorar, agradecer, expor nossas necessidades e pedir seu auxílio.” Existe a oração contemplativa, a oração vocal e a meditação ou oração mental, como categorias genéricas. Oração contemplativa é a que se faz principalmente no espírito e no coração, sem usar palavras. É nosso pensamento que se sacia nas maravilhas de Deus. É nosso coração que se aquece do amor divino. “Este povo me honra com os lábios, mas seu coração está longe de mim” (Mt,15,8). Na contemplação, estamos diante de Deus como diante da grande obra de arte que é o mundo e do qual ele é o artista. Passamos da arte ao artista, e do artista à arte. De vez em quando, nos surpreendemos a nós mesmos com algumas breves palavras, como Francisco de Assis que, de vez em quando, repetia: “Meu Deus e meu tudo! Meu Senhor e meu Deus! O amor não é amado!” Francisco traz o contemplativo para a oração da comunidade com as palavras: “Nós vos adoramos, Santíssimo Senhor Jesus Cristo, aqui e em todas as vossas igrejas que há em todo o mundo, e vos bendizemos, porque pela vossa Santa Cruz remistes o mundo.” Adora a Deus, o artista, e o admira e contempla em suas obras e em suas diversificadas formas de atuação e presença. A oração vocal é a oração de fórmulas compostas e proferidas pessoalmente, ou em família e comunidade. Temos fórmulas evangélicas, como o Pai-Nosso, a Ave-Maria, o Magnificat, o Benedictus...; temos fórmulas eclesiais como o Credo, a Salve-Rainha, O Glória, as consagrações ao Coração de Jesus e Maria e muitas orações que foram traduzindo momentos da vida da Igreja e de suas espiritualidades. São Domingos uniu orações evangélicas na forma do Ofício Divino dos clérigos, que utiliza os salmos e orações adrede preparadas segundo os tempos litúrgicos, mas, em vez dos salmos, usou as duas grandes orações evangélicas: o Pai Nosso e a Ave Maria, intermeadas por anúncios de fatos essenciais da vida de Cristo, os mistérios. Enganamo-nos, muitas vezes, quando deixamos a oração vocal, por ser repetitiva, como o caso do terço, tradicionalmente rezado em família, porque quem ama, jamais cansa de atestar seu amor ao amado. Repetir sempre as mesmas fórmulas é sinal de simplicidade e humildade de quem diz: “Eu não sei palavras para traduzir meu amor por Ti, Senhor, então repito as fórmulas dos santos, da Igreja, das pessoas devotas.” É óbvio que as orações pessoais são ricas para a pessoa, mas é também verdade que as orações formais são motivadoras de transcendência e, pedagogicamente, necessárias para desencadear o clima de oração comunitária. Aprender fórmulas de oração de cor, é uma maneira de, em momentos plenos de consciência da pobreza pessoal, da necessidade, da dúvida, da interrogação, se dirigir a Deus. No aspecto contemplativo é mais fácil elaborar orações ocasionais, exclamações em momentos de embevecimento com Deus. O Pai Nosso, por exemplo, que todas as denominações cristãs têm como a grande oração do Senhor, adquire um significado diferente, num doente terminal, na celebração de um casamento, num encontro familiar, na despedida do irmão que parte... Por exemplo, o núcleo central da entrega do homem aos desígnios de Deus nas palavras – Seja feita a vossa vontade assim na terra como no céu têm significados diferentes no Batismo, na crisma, na Eucaristia, na unção, na ordenação, no matrimônio... A oração das fórmulas é um caleidoscópio que se reveste das cores da necessidade do momento da pessoa, que se põe nas mãos de Deus e, em muitos casos, na aridez pessoal, no desconforto consigo mesmo, apenas se atreve usar fórmulas já consagradas e aprendidas. Repetir provas de amor jamais será rotina, porque a repetição é uma exigência do coração que ama. Cada prova de amor enriquece e garante o próprio amor. A oração mental ou meditação é um exercício consciente de estudo e reflexão sobre verdades da vida cristã, exemplos de testemunhos espirituais, buscando o aprofundamento no cumprimento das próprias obrigações e definindo novos rumos à caminhada espiritual. A meditação leva à análise pessoal face à Igreja, ao mundo e a Deus. Diferente da contemplação que olha primeiramente para Deus, a meditação olha primeiramente para si mesmo, se ilumina com a palavra de Deus, com o exemplo dos santos, com os estudos de cientistas e teólogos, para aperfeiçoar ou redefinir a própria caminhada espiritual. A meditação visa a ação, a mudança de vida, o testemunho, enfim o fazer cristão, dentro do princípio filosófico de que o Fazer explicita o Ser. Orar é sempre orar. Os caminhos são diversos, mas o objetivo é o mesmo. Embora o Evangelho diga: “Pedi e recebereis, batei e se vos abrirá”, nem sempre entendemos corretamente esta afirmativa. Pedir é próprio de nosso pobreza existencial, e somos de fato pobres no pedir e no saber o que pedir. Por isto, o recebereis deve ser entendido como o derramar do amor de Deus Pai, que dá a seu filho o que lhe for melhor, segundo a afirmativa: “Deus é Pai: se o filho pedir um peixe, ele não vai lhe dar uma serpente, se pedir um pão não vai lhe dar uma pedra” (Lc 11,11). Por isto, não receber o que se pediu, no agir de Deus, é receber o que nos faz melhor e melhores. Mais importante que pedir é louvar, agradecer a vida, a saúde, o bem, o reino de Deus no mundo e nas pessoas. A oração de louvor acolhe a Deus com seus critérios; a oração de petição apresenta a Deus nossos critérios, nem sempre sábios e coerentes. “Em Deus vivemos, nos movemos e somos” (At 17,28). “Se Deus está por nós, quem estará contra nós?” (Rm 8,31). Porto Alegre, 9 de abril de 2004 |