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ETNIAS FORMADORAS DO POVOAMENTO DO PLANALTO |
Moacyr Flores |
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No século XIX e até metade do século XX formulavam-se absurdas concepções racistas, construídas ao longo do tempo, dentro de uma concepção nacionalista européia, que justificava o colonialismo na América, na África e na Ásia.
Na Suécia, até 1995, o governo ainda praticava a seleção racial, esterilizando os jovens que não estavam de acordo com os supostos padrões raciais.
Entre os racistas, há um grupo que defende a psicologia coletiva dos povos como causa primordial do fatos históricos. Cria-se os mitos do povo indolente e do trabalhador, do povo corajoso e do covarde, do povo inteligente e do sem capacidade mental, do povo honesto e de outro corrupto.
Dentro das concepções racistas, a corrente mais funesta é a que estabeleceu a raça como causa primordial dos acontecimentos históricos. Um dos apologistas da raça foi Gobineau, que em 1853 fundamentou a teoria da existência de três raças, a branca, a negra e a amarela, cada uma com seus valores inatos. Para ele só a raça branca é criadora de cultura. A intervenção da raça branca é decisiva em cada cultura, mas perde seu ímpeto e entra em decadência quando se mistura com outras raças. O futuro pertence aos arianos loiros da Inglaterra, Bélgica e norte da França (Rocha: 176-77).
H. S. Chamberlain expôs algumas idéias que fizeram sucesso em 1853, como a de que as culturas existentes eram obra de uma raça humana determinada, não havia progresso geral da humanidade, apenas progresso setorial Assim sendo, os germanos foram os únicos que modelaram a história. Até os italianos do Renascimento eram originários do norte e o que os árabes criaram foi de curta duração. Considerou que na época os germanos estavam algemados, arrastando-se como escravos mutilados dos judeus. Chamberlain alertou para o chamado perigo judaico. Em 1895 os ingleses e alemães consideravam que os japoneses não podiam ser politicamente importantes, por serem de raça inferior (Rocha, 178-79).
Graças à teoria do determinismo geográfico de Montesquieu e Ratzel, combinada com as idéias racistas de Gobineau e de Chamberlain, os alemães construíram a geopolítica da Alemanha nazista, centrada na idéia de que a Alemanha era o coração da Europa e necessitava do espaço vital para se desenvolver. Adolf Hitler, impregnado por estas idéias, escreveu:
Povos em cujas veias corre o mesmo sangue devem pertencer ao mesmo Estado. Ao povo alemão não assistem razões morais para uma política ativa de colonização, enquanto não conseguir reunir os seus próprios filhos em uma pátria única. Somente quando as fronteiras do Estado tiverem abarcado todos os alemães sem que se lhes possa oferecer a segurança da alimentação, só então surgirá, da necessidade do próprio povo, o direito, justificado pela moral, da conquista de terra estrangeira (Hitler, 1934, p. 11).
O meio natural, tido pelos positivistas como desencadeador da história política, foi considerado estático, marcando infinitamente a paisagem humana. Assim o homem do litoral era abúlico, pálido e sem iniciativas porque se alimentava de peixe; o homem da floresta em planalto era um ser tristonho e traiçoeiro; o homem da fronteira do Rio Grande do Sul, por se alimentar basicamente de carne e gozar de espaço amplo do pampa era um ser alegre, corajoso, franco, o verdadeiro gaúcho.
Manoelito de Ornellas considerou que o gaúcho-mestiço possuía a alma cambiante, diferente da raça pura, por causa da hibridez moral dos mestiços (Ornellas, 1976, p. 87).
Modernos estudos de DNA, por professor da Universidade de Oxford, levaram a uma hipótese sobre a origem dos europeus: seriam todos descendentes de sete famílias, de sete mães ancestrais negras de Gana, na África, onde a vida humana começou a 1.700.000 anos.
O suplemento Mais, da Folha de S. Paulo, de 26 de março de 2000, publicou a pesquisa da equipe de Sérgio Danilo Pena, professor da Universidade Federal de Minas Gerais sobre os genes da população branca, concluindo que 60% da linhagem materna vem de índias e negras. Foram analisadas amostras de DNA de 200 homens e de 247 mulheres universitários, mais as de 10 trabalhadores pobres.
Em Minas Gerais, da linhagem paterna, 98% eram portugueses e 2% africanos, sendo zero de índio. Na linhagem materna, há 39% de contribuição européia, 33% de indígena e 28% negra. No Sul, predominam 66% de haplótipos mtDNA de origem européia; na região Norte a linhagem indígena chega a 54% e no Nordeste, a africana é de 44%.
Tais pesquisas colocam por terra a idéia de genocídio indígena praticado pelos portugueses quando aqui chegaram. A mestiçagem com a mulher indígena provocou um etnocídio, ou seja, os mestiços adotaram a cultura européia, repudiando a cultura indígena, considerada por eles como inferior e pelos missionários como coisa do diabo.
Quando fala-se em contribuição das raças humanas à civilização, deve-se unicamente restringir-se à contribuição dos genes, como uma memória genética, que não contém nenhuma especificidade de ordem cultural. Assim, duas pessoas de mesma raça podem ter culturas diferentes e duas pessoas de raças diferentes podem ter a mesma cultura.
Não se pode atribuir uma característica moral ou intelectual a um ser humano baseando-se na sua cor da pele, pois não existem aptidões raciais inatas.
Os povos diferenciam-se por sua cultura. Adotando a definição dada por Herskovitz de que a cultura é parte do ambiente feita pelo homem, podemos afirmar que a cultura varia conforme a relação do ser humano com o ambiente em que ele vive. A tecnologia modifica o tipo de relação com o ambiente.
Antigamente era necessário cortar lenha e guardá-la para o inverno quando seria usada para a lareira; fabricar compotas, salame, charque e geleia com a produção da época. Hoje a tecnologia cada vez liberta mais o homem do meio ambiente.
Pela dificuldade de comunicação com o espaço exterior, conservaram-se costumes típicos, formando nichos culturais, como por exemplo na área de colonização luso-brasileira ou na área italo-brasileira. As duas etnias são católicas, mas cada um a seu modo. Os freis capuchinhos notaram a diferença. Em 1904 o frei Bruno fundou um colégio em Vacaria, que fracassou, "pois os filhos dos brasileiros, nascidos e crescidos na liberdade dos campos não podiam se acostumar ao internato". A solução foi construir escolas na zona colonial. (Costa, 1996, p. 28).
O frei Félix Castagna, no livro tombo da matriz de Lagoa Vermelha registra que onde há elemento italiano logo surge uma bonita capela que, na medida do possível, é logo provisionada e enriquecida com alfaias necessárias para a celebração da santa missa. Onde predomina o elemento luso, isto tudo custa mais, nessas capelas o povo se reúne só nos dias de festa dos santos e outras diversões" (Costa, 1996, p.277).
Por fim, estabelece a diferença: os italianos são obedientes ao padre, os brasileiros não são. Este anticlericalismo se deve ao fato de o Rio Grande do Sul ter sido colonizado quando da introdução do iluminismo em Portugal, que se intensificou com o governo do Marquês do Pombal.
Mas as diferenças não eram só com os brasileiros. Em 1933 foi solicitada a criação de um seminário na vila Ipê, exclusivamente para seminarista de origem italiana, pois todos estudavam no seminário de S. Leopoldo, dirigidos por padres alemães, que consideravam os seminaristas italianos como inferiores (Costa, 1996, p. 1996).
O etnocentrismo procura repudiar as formas morais, religiosas e estéticas que são diferentes do grupo, classificando-as de inferiores ou de ignorância.
Examinando o processo histórico de ocupação do extremo sul do Brasil veremos que a população é heterogênea, formada por brasileiros de outras províncias, de portugueses do continente europeu e dos Açores, de índios e de negros. Nos registros dos livros de batismo da Cúria Metropolitana, encontramos uma grande número de mulheres de Laguna, filhas da terra, isto é de índias carijós. Todos deixaram traços de sua etnia através de elementos culturais que ainda subsistem.
No período colonial os portugueses iniciaram um processo de adaptação da cultura européia ao novo habitat, imponto valores europeus, controlando a reprodução, a manutenção e a administração da cultura, proibindo a imprensa e fiscalizando os textos publicados, controlados pela inquisição. O índio e o negro tiveram que se adaptar, adotando o idioma, a religião e os costumes luso-brasileiros, mas deixaram suas marcas no vocabulário, no nome de plantas, nos nomes de animais, nas lendas, nos mitos e na religião.
Não encontramos um traço cultural comum no Rio Grande do Sul, por as áreas culturais são complexas e heterogêneas, com elementos oriundos de diferentes culturas. Veremos que o ser humano sofre mudanças culturais e possui elementos mais diversos, adquiridos às vezes fora de sua etnia, por exemplo, uma pessoa acredita que o leite faz mal com peixe, com uva e com melancia. Esse hábito antigo é transmitido de geração em geração sem que as pessoas relacionem a proibição com a falta ou com a dificuldade de aquisição do alimento. Atualmente os hábitos alimentares estão sendo modificados pela educação na escola e pela televisão, que apresenta anúncios de alimentos e bebidas que são os melhores elaborados.
É comum comparar o desenvolvimento da chamada Metade Norte do Rio Grande do Sul, por ser obra de italianos e alemães, com a Metade Sul, atrasada, preguiçosa e não produtiva por ser formada por gaúchos luso-brasileiros. O desenvolvimento de uma região depende de fatores sociais, políticos, econômicos e históricos. A chamada Metade Sul sustentou economicamente o Rio Grande do Sul nas décadas de 1910 e 1920, através da produção de lã e da pecuária que deu empregos em grandes frigoríficos, impulsionando a construção de prédio suntuosos, a vinda de companhias de ópera e de teatro, imprimindo periódicos, interferindo na política do Rio Grande do Sul. Alegrete foi a primeira cidade do interior a ter iluminação elétrica nas ruas. Políticos que construíram o Estado e o Brasil, como Júlio Prates de Castilhos, Joaquim Francisco de Assis Brasil, Antônio Augusto Borges de Medeiros, Flores da Cunha, Osvaldo Aranha, Getúlio Vargas e tantos outros saíram da zona de produção da pecuária. Desta zona também saiu o capital para abrir estrada e construir ferrovias, pontes e escolas estaduais na zona colonial. Este capital saiu e não retornou à Metade Sul. Quando mudou a economia mundial, caindo a exportação de carne e de lã, os frigoríficos fecharam suas portas, desempregando milhares de pessoas que abandonaram a região em busca de emprego. Descapitalizada e com o êxodo da mão-de-obra, a Metade Sul não teve como se recuperar, perdendo inclusive a maioria na representação da Assembléia Legislativa, pois começaram a chegar os deputados das zonas coloniais que, por terem maior densidade demográfica, possuem mais eleitores, mudando o polo político e econômico do Estado.
Não se pode atribuir à raça, o fator de desenvolvimento de uma região ou país. Quem tem raça é galinha poedeira, cavalo de corrida, cachorro. Ser humano tem cultura que diferencia os grupos entre si.
Atualmente, políticos, que já estiveram no poder em municípios da Metade Sul, tentam partir o Rio Grande do Sul em dois, formando um novo estado. Não podemos esquecer que o atraso da Metade Sul deve-se também a incompetência destes mesmos políticos que não conseguiram encontrar soluções para o desenvolvimento da região quando estiveram no poder.
Os modernos meios de comunicação estão mundializando a cultura, polindo as arestas, trazendo novas gírias e cacoetes na fala. Já se ouve por aí dizerem é isso memo, ou misturar o tu com o você, como fazem os artistas de novela.
À guisa de conclusão, podemos afirmar que restam poucos sinais de identidade étnica em nossa cultura com elementos do índio e do negro. Vários fatores contribuíram para esta situação: as etnias pequenas tiveram que se adaptar à cultura dominante, perdendo a maioria dos traços culturais pelas constantes modificações do ambiente em que passaram a viver. A produção literária da etnia portuguesa é predominantes, o que reforça nossa conclusão.
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