Os
primeiros camponeses de língua alemã que chegaram ao Sul, a partir de 1824,
fixaram-se nas proximidades da capital, onde receberam gratuitamente setenta
hectares de terra e outras ajudas materiais. Meio século mais tarde, em 1875,
imigrantes vindos do norte da Itália compraram colônias financiadas de uns
vinte e cinco hectares, de terras mais pobres, em cotas superiores da Serra,
mais distantes dos mercados consumidores.
A
imigração polonesa foi o terceiro impulso migratório sulino, temporal e
quantitativamente. Ele acelerou-se nos momentos anteriores à Primeira Guerra,
encerrando-se quando a Europa foi outra vez engolida pelo confronto mundial. No
Sermão da Montanha do movimento migratório sulino, os últimos comeram o pão
que o diabo amassou.
Os
poloneses que procuravam no sul do Brasil o sonho negado na Europa, a posse de
nesga de terra para enraizar suas existências, compraram uns vinte hectares de
terras pobres, distantes dos grandes mercados.
As
dificuldades da conformação nacional da Polônia e suas vicissitudes no
século 20 ensejaram que os imigrantes poloneses jamais tenham contado
plenamente com o importante apoio diplomático nacional, como os vizinhos
alemães e italianos. Os handicaps negativos do estabelecimento,
consolidação e desenvolvimento desse movimento migratório ensejaram
explicações triviais, preconceituosas e, não raro, de cunho racista,
sobretudo no seio das outras comunidades imigrantes.
A
historiografia da imigração polonesa também é a prima pobre de família cada
vez mais rica. As vicissitudes nacionais polonesas; a tardio chegada ao Sul; a
pobreza das terras; a falta de uma capital polonesa sulina, etc. atrasaram a
gênese de estudos historiográficos científicos sobre ela.
Essa
comunidade desconhece a profusão de estudos de que dispõe a imigração
teuto-italiana. E boa parte da literatura de que possui é produto do valioso
esforço de historiadores leigos, influenciados pelas mesmas determinações
ideológico-culturais que embalaram a historiografia étnica
teuto-italiana.
A
língua tem sido um outro entrave no estudo dessa colonização. Ele exige o
conhecimento da história e da historiografia polonesa sobre a emigração; da
documentação oral e escrita colonial - correspondência familiar; livros
tombos; depoimentos orais, etc. Em maior parte, essa documentação está em
polonês.
***
São
várias as razões para festejar o lançamento de Montanhas que furam as
nuvens! A colonização polonesa em Áurea - RS. 1910-1945 [Passo Fundo: UPF
Editora, 2002. 173 pp.]. Sua jovem autora nasceu no seio de família de
descendentes de imigrantes poloneses, sendo introduzida ainda criança no idioma
e hábitos dos avós.
Portanto,
Thaís Janaína Wenczenovicz possuía intimidade natural com a comunidade e com
a região que escolheu para tema de dissertação de mestrado, aprovada com
excelência, em abril de 2002, no Programa de Pós-Graduação em História da
UPF.
Destaca-se
também em seu trabalho o espaço geográfico delimitado. No RS, o município de
Áurea, onde nasceu a autora, é o mais homogeneamente polonês e,
portanto, muito representativo desse movimento migratório.
Merece
também destaque o esforço da autora em superar as narrativas apologéticas da
historiografia étnica, sem desconhecer suas contribuições, sobretudo
empíricas. A profunda empatia de Thaís Janaína com a região e a comunidade
que estuda não embaralha seu olhar, permitindo-lhe realizar leitura talentosa e
inovadora.
Não
são heróis de papel, mas seres de carne e osso, os imigrantes que apresenta na
longa viagem da Polônia até o norte do Rio Grande, na chegada e no
estabelecimento nos lotes de terras dobradas onde plantaram um destino, para si
e para os seus.
A
documentação levantada, apresentada e discutida contribui para a elucidação
de alguns dos enigmas desse movimento colonial. Ela comprova a escassa qualidade
da terra, o afastamento dos mercados e, portanto, a dificuldade de acumulação
da comunidade colonial de Áurea.
Thaís
Janaína vai mais longe. Perscruta recantos escondidos das comunidades
coloniais, em geral obscurecidos por falsos pudores. O nascimento, a morte, o
suicídio, as doenças físicas e mentais, etc. são lidos como expressões
determinadas da luta comunitária pela produção e reprodução das condições
materiais e espirituais de existência.
Montanhas
que furam as nuvens! A colonização polonesa em Áurea
- RS. 1910-1945 apresenta-nos uma jovem historiadora que, profundamente ligada
à comunidade em que nasceu, compreende-a como parte de realidade regional,
nacional e internacional mais ampla e complexa.