Crônica

(Sugestão para Teocomunicação)

Quero falar com meus irmãosl

Frei Rovílio Costa

 

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A 8 de janeiro de 2002, faleceu, com 90 anos, na Casa São Francisco, em Lion, na Suíça, Frei Pascoal Riwalski, que foi Ministro Geral da Ordem dos Capuchinhos de 1970 a 1982. Nasceu em Chelin/Lens (Vallese, Suíça) a 2 de outubro de 1911. Ordenado sacerdote em 1937, era Doutor em Língua e Literatura Francesa. Foi definidor provincial, 1960-6, e eleito provincial da Província Capuchinha da Suíça em 1966, reeleito em 1969 e, no 76º Capítulo Geral da Ordem, de 17 de maio a 19 de junho de 1970, foi eleito Ministro Geral, cargo para o qual foi reeleito em 1976. Depois de doze anos como Ministro Geral, retornou à sua província para se dedicar à pregação de missões, retiros e à pastoral das confissões.

Frei Pascoal visitou várias vezes a Província dos Capuchinhos do Rio Grande do Sul, destacando-se sua presença e atuação no Primeiro Capítulo das Esteiras, em Veranópolis, de 12 a 14 de dezembro de 1977, reunindo os capuchinhos da Província do Rio Grande do Sul e da Vice-Província do Brasil Central.

Capítulo das Esteiras recorda os tempos de São Francisco, quando todos os frades se reuniam e, por não terem alojamento, dormiam sobre esteiras. Sem finalidade organizacional ou de estudos, o Capítulo das Esteiras se destina ao encontro entre todos os frades de uma Província, ou da Ordem (o que seria impossível dado o grande número de frades presentes em todo o mundo), para mútuo conhecimento, afirmação da vida fraterna, revisão do passado e reflexão sobre os desafios que a Ordem e a Igreja propõem no momento presente. Tudo com objetivo de reanimação fraterna e apostólica.

O Primeiro Capítulo das Esteiras da Província do Rio Grande do Sul, em 1977, em fase de instabilidade pós-conciliar, tinha, mais do que nunca, um objetivo de reaproximação entre idades e pensares.

A fraternidade, mais do que as diferentes formas de pensar seria o lugar de encontro de todos, constituindo a unidade religiosa e apostólica, sem vencidos nem vencedores.

Frei Pascoal Riwalski, que se impunha ao natural pela sua estatura e porte físico, convencia pela serenidade com que tratava os mais diferentes temas da vida religiosa, e tratava cada um dos frades, e se relacionava com as autoridades eclesiásticas.

Sem levantar a voz, sem se espantar, sempre se admirando de tudo e de todos, polarizou as diferenças de ideais, perspectivas e caminhos em torno da pessoa de Francisco, como fiel e despojado seguidor de Cristo. Viver o Evangelho em fraternidade é a forma de cumprir a Regra, que propõe: "A vida e Regra dos frades Menores é esta: "Observar o Santo Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo, vivendo em obediência, sem propriedade e em castidade" (RegB 1,1).

Os Conselhos Evangélicos, vividos na fraternidade, não são uma disciplina árdua, mas a liberdade e liberalidade de uma específica forma de vida evangélica, enfatiza Frei Pascoal.

Como São Francisco de Assis lançou a semente de uma Ordem que foi atraindo discípulos, os quais, no curso da história, sempre se preocuparam em ser fiéis intérpretes e cumpridores do espírito de Francisco, ocasionando, por isso, várias reformas, entre as quais a dos Capuchinhos com os freis Matheus de Bascio e Ludovico e Rafael de Fossombrone (1528).

Frei Pascoal Riwalski, por ocasião do Capítulo das Esteiras, de Veranópolis (1977), lançou sua obra, em Língua Portuguesa: Quero falar com meus irmãos (EST Edições).

Enquanto fluíam as idéias pós-conciliares, em busca de uma definição clara da posição do religioso na Igreja, Frei Pascoal faz que esquece os considerados grandes problemas, que tinham como centro o agiornamento, ou seja a adequação da Igreja e da vida religiosa aos novos tempos, e se volta ao essencial, não programático, mas tão importante quanto o ar que respiramos, e apontou a fraternidade como oxigênio de renovação. E faz de seu governo geral um programa simples, aparentemente doméstico, sem grandes linhas, sem grandes propostas, com nenhuma imposição, mas com um simples e fundamental desejo: "Quero falar com meus irmãos."

Mais que a eficácia das estratégias de ação que balizavam todas as discussões em Ordens e Congregações Religiosas, Pascoal aponta para o essencial à vida de consagração evangélica franciscana, isto é, a fraternidade entre os frades, dos frades com o mundo, com a natureza e com Deus.

O agiornamento era mais uma ânsia em busca da fidelidade fundacional, do que uma necessidade para a ação. A convicção e a vivência plena do espírito franciscano não se preocupa com aparatos materiais de recursos para a eficácia da ação, mas com a santidade e autenticidade interiores, resultantes da livre fidelidade ao fundador.

Quero falar com meus irmãos, de Frei Pascoal, se equivale, porque o ministro geral é representante do Seráfico Pai São Francisco, a Quero falar com meus filhos. Estranho parece, mas é um fenômeno do mundo atual, de os pais não conhecerem, não falarem, não dialogarem com os próprios filhos. E isto acontece, por vezes, no jogo da paternidade espiritual, que se preocupa, por vezes, da organização para o espiritual, mais do que da afirmação da espiritualidade. A organização, neutra por natureza, passa ao primeiro plano, enquanto a finalidade para a qual existe fica em segundo plano, ou no total desconhecimento.

Na sua mensagem, de Roma, de 15 de maio de 1973, Frei Pascoal se pergunta: "Para onde vai a Ordem?" E se define como Pai em conversa paternal com seus filhos, assim iniciando:

– Irmão, tens um minuto para o Padre Geral?

– Sim?

– Então, obrigado, porque queria conversar um pouco contigo.

Frei Pascoal, antes de se lançar ao debate de grandes temas, da transição, do nova figura do religioso e outros tantos em voga na Igreja, ele olhou para o ontem, ou seja para a Pessoa de Francisco, seu carisma, e como a história o foi tratando através de subseqüentes reformas, tudo a partir da percepção pessoal e fraterna de seus frades ou filhos espirituais atuais, tentando percebê-los na maneira como se situavam na Ordem, na Igreja e no Mundo como frades capuchinhos.

É evidente que um tratamento como este, dado a uma Província, que esperava deslanche, organização, idéias futuristas, devolva ao Ministro Geral um conceito de administrador caseiro, simplório, despretensioso e ingênuo.

Mas, como o Espírito sopra onde quer (Jo 3,8), Frei Pascoal, que foi eleito Ministro Geral por duas vezes (de 1970 a 1982), período que podia ser de profunda crise, como o foi, em geral, nas Ordens e Congregações Religiosas, fez de sua Ordem um renascimento fraterno, doméstico no bom sentido da palavra, de filhos que têm pai (Francisco no ontem, e Pascoal no hoje) e tradição.

Buscou em Franscisco, como dom do Espírito Santo, os fundamentos para superar a instabilidade da crise e lançar bases de esperanças evangélicas para o amanhã.

Em sua mensagem à Ordem, de 17 de maio de 1976, aponta para a ação do Espírito Santo em Francisco e na Ordem Franciscana como um todo, com as Reformas Históricas que se sucederam:

"Irmão, sinto-me alegre ao escrever-te esta mensagem sobre o Espírito Santo. Peço-te que a leias com um desejo ardente e sincero de receber este Espírito que é nossa esperança. Mesmo fora de sua efusão, ligada à recepção dos sacramentos, sua vinda se repete na vida do homem. Nós o constataremos logo na vida de São Francisco, e tu o terás meditado na vida da Virgem Maria que, após a anunciação e os anos de escuta perfeita do Espírito, o recebeu de novo no dia solene do Pentecostes (At 2). Esforça-te por viver intensamente tua vida capuchinha sob a moção do Espírito Santo."

"De momento, te convido a ler comigo a vida de nosso Pai São Francisco, para meditá-la, considerando a ação do Espírito Santo sobre sua pessoa, e sua fidelidade a lhe corresponder com amor."

"Abramos os Três Companheiros, no Capítulo III. Eis-nos em Assis. Francisco jovem, de 23 anos, acaba de voltar de sua viagem a Espoleto, onde o conduzira o sonho de sua juventude: tornar-se um elegante cavaleiro. Festeja sua volta com os amigos. Justamente durante estas festas ruidosas, – o Espírito Santo não sopra onde quer? – é que se realiza a primeira efusão do Espírito: Foi então que ele recebeu, de chofre, a vista do Senhor. Uma doçura tão maravilhosa encheu seu coração que não pôde mais falar; era-lhe impossível sentir e ouvir outra coisa que esta doçura..., não podia mover-se, declarou ele mais tarde."

"Depois da realidade desse batismo do Espírito, eis as mudanças que se realizaram em Francisco: "Com espanto, seus companheiros perceberam que ele se tinha tornado outro homem... A partir dessa hora, Francisco se julgou miserável... Nessa data resolveu a jamais dizer não a um pobre... Freqüentemente se punha em oração, escondido, porque para ela se sentia atraído pela doçura que saboreava. Pôs-se a pedir ao Senhor que lhe indicasse o caminho."

"Ora, um dia em que ele rezava na solidão, Cristo Jesus lhe apareceu pregado na cruz e lhe disse: "Quem quer vir após mim deve renunciar a si mesmo, tomar a sua cruz e seguir-me" (Mc 8,34). Esse versículo do Evangelho acendeu em sua alma um fogo ardente de amor (LegM 1,4).

"Em outra ocasião, bem conhecida, levado pelo Espírito, entrou para rezar na Igreja de São Damião. Espantado ouviu o Cristo dizer-lhe: ‘Francisco, vai e repara a minha casa, como vês, está toda destruída’" (2Cel 10).

"Nessa data, Francisco não chegara aos 30 anos. Nesse coração jovem, o Espírito semeou germes dessa vida evangélica que seduzirá os homens até o fim dos tempos. Esses germes vão se expandir ao longo dos vinte anos que ainda lhe restam de vida. A doçura suprema que o investiu, desde o começo de sua conversão, se transformou em delícia até o fim de sua vida" (2Cel 9).

"Perante esse movimento fervoroso para o Espírito Santo que percebemos na vida e nas palavras de nosso Pai São Fransico, não nos parece que não estamos aproveitando a mãos cheias dessa fonte de uma das melhores tradições da Ordem? Quem tem olhos para ver, percebe logo que esse renovado movimento ao Espírito santo é um sinal dos tempos. O povo de Deus vive, às vezes, de maneira extraordinária. Sua fé é comunicativa. Necessita de religiosos votados ao Espírito Santo que o aconselhe, o dirija e o arraste para o Pai, por Jesus Cristo na força do Espírito Santo. Presentemente, o povo tem mais confiança em nós, que nós em nós mesmos. Ele nos ajuda a encontrar aquele que a liturgia proclama dom do Deus altíssimo, fonte viva, fogo, caridade, doçura espiritual:

• É Franscicano quem deseja sobretudo o Espírito Santo.

• É franciscano quem o deixa agir em si.

• É fransicano quem o suplica de coração e lhe dá uma larga margem em sua vida espiritual.

• É fransicano quem se acha bem diante das manifestações atuais de renovação no Espírito. Não extingue o Espírito. Não despreza o dom da profecia. Verifica tudo: retém o que é bom (I Tes 5,21).

Sem citar dados estatísticos existentes, pode-se afirmar, com base na realidade, que Frei Pascoal, por suas mensagens, calou profundamente no coração da maioria dos frades da Ordem, sobretudo nas províncias de maior tradição histórica, e de uma visão mais clara da paternidade espiritual de Francisco através de seus sucessores, os Ministros Gerais. Onde, porém, a autoridade vivia crise maior de credibilidade, suas palavras menos influência tiveram, e as contradições na vivência e interpretação do carisma franciscano, se traduziram em crises e numerosas deserções.

Indiscutivelmente, Frei Pascoal salvou a sua Ordem de uma grande crise, porque não olhou a crise, nem os frades em crise, mas olhou o coração de cada um, tentou compreender e acenar para Francisco como fonte de vitalidade e vigor, e entendeu que só na fraternidade se encontra o elã apostólico e a vivência evangélica propostos por Francisco a seus seguidores.

Se muitas Ordens e Congregações Religiosas têm seus refundadores, em alguns casos ditos reformadores, nos momentos de crise, Frei Pascoal foi um esclarecido e humilde refundador da Ordem dos Capuchinhos. Homem de profunda espiritualidade, e de incontida esperança nos destinos da Ordem como dom da Providência Divina, desde que e enquanto fiel à Igreja como o foi Francisco.

 

Porto Alegre, 19 de março de 2002

 

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