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A Reforma na SuíçaRicardo Bergamini |
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Na Suíça o paladino da Reforma foi Ulrich Zwinglio (1484-1531). O vigor da rebelião luterana tinha calado profundamente na Suíça, cujo nacionalismo vinha se intensificando há séculos. Os suíços, em 1499, haviam sacudido o jugo dos austríacos (não só da casa de Habsburg, como também do Sacro Império Romano Germânico). Tendo-se desvencilhado de um imperador estrangeiro, não haveriam de querer ficar submetidos a um Papa, também estrangeiro. Em 1519 – influenciado por Lutero (e ameaçado de morte pela peste) – Zwinglio sofreu uma repentina conversão e começou a pregar a nova doutrina, tornando-a, porém, mais rigorosa, de tal forma que o próprio Lutero a desaprovou. Zwinglio conseguiu implantar o credo em quase todos os cantões do norte. Todavia, quando quis estendê-la mais ainda, deparou forte resistência: irrompeu, então, uma guerra civil religiosa, que durou dois anos (1529-1531). Zwinglio morreu e seus adeptos foram derrotados. Mas a Reforma não se deteve, continuou progredindo e chegou a Genebra. Na
França, o luteranismo começava a propagar-se. João Calvino
(1509-1564), natural de Noyon, que então se preparava para a carreira
eclesiástica, aderiu ao movimento reformista. Com método e rigor, foi
elaborando sua própria doutrina. Em 1533, quando Francisco I começou a
perseguir os reformados, Calvino fugiu para Basiléia, na Suíça. Lá
redigiu uma síntese de sua doutrina, “Instituição da Religião
Cristã”, publicada pela primeira vez em 1536.
Genebra
tornou-se uma espécie de república teocrática, organizada em moldes
democráticos. O órgão máximo, o Consistório, intervinha em todas as
questões religiosas e políticas. A atribuição principal do Consistório
era a fiscalização da conduta dos genebrinos, o que era levado a
afeito com extremo rigor. Havia uma intromissão constante na vida de
cada pessoa – todas as casas eram visitadas regularmente. Calvino não
permitia o menor deslize, isto é, a menor infração à sua doutrina. E
os castigos eram duríssimos, indo desde beijar publicamente a terra, até
ser queimado vivo (como aconteceu com Miguel Servet, em 1553). Calvino
julgava-se delegado divino na terra: “Recebo de Deus o que ensino, e
Deus me outorgou a graça de declarar o que é bom e o que é mau”. O
calvinismo é mais radical do que o luteranismo. Como Lutero, Calvino
somente reconhece a autoridade da Bíblia. Igualmente, a salvação é
obtida somente pela fé, não pelas obras. Mas acrescenta que a fé é
um dom concedido por Deus e predeterminado para toda a eternidade, de
modo que os homens já nascem marcados para a salvação (os eleitos) ou
para a condenação (os réprobos). Esta é a doutrina da “predestinação
absoluta”, peculiar do calvinismo. O
calvinismo aproxima-se, ainda mais que o luteranismo, do “Antigo
Testamento”: confronta-se com a atitude liberal de Lutero em relação
ao domingo, com a atitude severa de Calvino, restaurando o antigo sábado
judaico, com todas as suas proibições. O calvinismo afasta-se, mais
rigorosamente, de tudo o que possa lembrar o “papismo”: foram
drasticamente eliminados – o ritual, a música instrumental, os
vitrais, as imagens. Até a celebração do Natal e da Páscoa foi
severamente proibida. A religião ficou reduzida a “quatro muros nus e
um sermão”. Outras
proibições de Calvino: baile; jogo; teatro; enfeites (sobretudo jóias);
festas familiares com mais de 20 pessoas; consumo de guloseimas; consumo
de vinho (a não ser o vinho tinto do país); uso de nomes que não
figurem na Bíblia; escrever ao estrangeiro; falar de política; etc. O
calvinismo pregava a atividade missionária como poucas religiões o
fizeram. Calvino fundou a “Academia” (1559), que preparou centenas
de valorosos predicadores da sua fé. Por isso Genebra chegou a ser
chamada de “Roma do Protestantismo”. Esta religião predominava
entre a burguesia. Influiu notavelmente na formação da moral moderna
– e no ardor revolucionário das classes médias. Foram calvinistas os
primeiros que se revoltaram contra o despotismo na França e na
Inglaterra; e os que derrubaram a tirania espanhola na Holanda.
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