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Teologia/Filosofia

TECNOCIÊNCIA
E DESAFIOS ATUAIS

Urbano Zilles

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   Palestra proferida no dia 27-04-2006 no Simpósio de Doutrina Social da Igreja da FATEO – PUCRS.

 

A Faculdade de Teologia organizou este Simpósio com o objetivo de dar atenção pública ao Compêndio da Doutrina Social da Igreja, elaborado pelo Pontifício Conselho Justiça e Paz, publicado recentemente. Estamos convictos de que o diálogo da Teologia com a universidade, a sociedade e com a própria Igreja deve ocorrer na esfera acadêmica, sendo uma tarefa epistemológica e pedagógica. Desenvolverei meu tema, limitando-me mais à relação da Teologia com a Universidade em vista da natureza do assunto que explanarei.

Historicamente, a relação entre Teologia e universidade, no medievo, faz a Teologia ocupar o papel de discurso fundante dos demais saberes. Nos tempos modernos, o discurso teológico começa a distanciar-se do mundo universitário, estabelecendo-se uma dicotomia entre o discurso científico e o discurso teológico como abordagens antagônicas e excludentes. Hoje a Teologia busca o diálogo com diferentes campos do saber. Dentro desse espírito de diálogo, tentaremos nossa abordagem da tecnociência e desafios atuais, inspirando nossas reflexões no citado Compêndio. Lugar privilegiado para este diálogo é a universidade, sobretudo tratando-se de uma universidade que usa como identidade o adjetivo “católica”, como em nosso caso.

A Igreja católica ensina a autonomia das realidades terrestres. A autonomia não significa que as coisas criadas independam de Deus. O Compêndio da Doutrina Social afirma que “todo o homem tem a liberdade de orientar-se para o seu fim último”. Ora, toda a realização cultural ocorre num mundo passageiro e provisório (n.48). Ao homem cabe uma missão transformadora como administrador da criação, sendo responsável por seus sucessos e insucessos.

No livro do Gênese, o autor diz que, depois de criar o homem, Deus descansou. Ora, este descanso de Deus simboliza sua confiança no homem. Agora é a vez de o homem trabalhar, administrar a criação. De maneira análoga, depois da Páscoa, quando Cristo ressuscitado sobe aos céus, na versão de Lucas, os apóstolos ficam olhando boquiabertos, para o alto, o anjo lhes diz: vão a Galiléia, pois agora é a hora de vocês trabalharem. É a hora da Igreja. Agora Deus age através de sua obra, sobretudo através do homem. Para isso Deus dotou-o de inteligência superior aos demais seres de nosso planeta.

Entre as realidades terrestres adquire importância sempre maior a tecnociência. A própria Doutrina Social da Igreja vale-se dos contributos significativos da Filosofia e das ciências humanas (n. 76). Destaca, como é próprio na tradição católica, a contribuição importante da Filosofia. Esta oferece um instrumento apto e indispensável para uma correta compreensão de conceitos basilares da doutrina social, conceitos como pessoa, sociedade, liberdade, consciência, ética, direito, justiça, bem comum, etc. A Filosofia ajuda a ressaltar a plausibilidade racional da luz que o Evangelho irradia para a sociedade (n. 77) em busca da verdade.

No mundo globalizado surgem profundas transformações que atingem o trabalho humano. Diz o Compêndio: “Para a solução das vastas e complexas problemáticas do trabalho que, em algumas áreas, assumem dimensões dramáticas, os cientistas e os homens de cultura são chamados a oferecer o seu contributo específico, tão importante para a escolha de soluções justas” (n. 320). Também sobre o conhecimento pesa uma hipoteca social. Cabe ao cientista preocupar-se com as conseqüências, como os possíveis riscos que as inovações podem trazer, orientando as mudanças no sentido de favorecer o desenvolvimento da inteira família humana.

 

1 O homem e a ciência

O ensinamento social é tão antigo como a própria Igreja. Os Atos dos Apóstolos já testemunharam isso. Mas, sobretudo, a partir do século XIX, esses ensinamentos passam a ser sistematizados sucessivamente na forma de Doutrina Social da Igreja.

O Compêndio relembra o Vaticano II: “Participando da luz da inteligência divina, com razão o homem se julga superior, por sua inteligência, à universalidade das coisas, os Padres conciliares reconhecem os progressos feitos graças à aplicação incansável do engenho humano ao longo dos séculos, nas ciências empíricas, nas artes técnicas e nas disciplinas liberais”(n. 456).

Diz ainda o Compêndio: “Os resultados da ciência e da técnica são, em si mesmos, positivos”. Desaparece o falso dilema: “ou Deus ou o mundo”. As obras produzidas pelo talento e pela energia dos homens não são, de antemão, contrárias ao poder de Deus. São, antes, um sinal da grandeza de Deus. Entretanto, quanto mais cresce o poder do homem, mais cresce sua responsabilidade, tanto a pessoal quanto a comunitária (n. 457). A Igreja católica considera o progresso da tecnociência um produto maravilhoso da criatividade humana, que é dom de Deus.

O Compêndio da Doutrina Social da Igreja é fruto da abertura e firmeza doutrinária do Vaticano II. Há, na Igreja, o perigo de ver o Concílio Vaticano II como algo do passado, quando ainda se encontra em processo de recepção. É claro que, para ser fiel ao seu espírito, a Igreja deverá enfrentar problemas novos e pendentes. Poucos têm consciência clara da mudança profunda que este Concílio realizou. Poucos hoje têm clareza sobre a situação da Igreja antes do Concílio. A eclesiologia dominante era a da cristandade, clerical, juridicista e triunfalista. É a Igreja da contra-reforma, que ainda olha com desconfiança para a modernidade e às revoluções sociais. Em 1864 o Papa Pio IX promulgou o Syllabus, condenando a liberdade religiosa e o progresso da modernidade. A Igreja católica já corrigiu muitos erros cometidos no passado, como o reconheceu João Paulo II repetidas vezes ao pedir perdão, mas ainda resta muito a fazer.

A Teologia, antes do Vaticano II, era, muitas vezes, alheia à história e à cultura modernas. Por isso, novas Filosofias se afastaram cada vez mais do pensamento cristão tradicional. É verdade, o movimento bíblico aproximara a Sagrada Escritura em novas perspectivas aos fiéis, como também o estudo dos Santos Padres. O movimento de renovação litúrgica passou a valorizar a assembléia litúrgica, centrando-se na celebração do mistério pascal. A pastoral passou a dirigir-se a ambientes descristianizados, como juventude e mundo operário. Ensaiou-se o diálogo ecumênico. A chamada Teologia das realidades terrenas valorizou as ciências, o corpo e o sexo. Teilhard de Chardin abriu novas perspectivas à Teologia, a partir de uma visão evolutiva do cosmo.

Muitos não se deram conta da profundidade das mudanças provocadas por João XXIII. A Teologia anterior era dualista (corpo x alma; terra x céu; mundo x Igreja; profano x sagrado; natureza x graça). O Concílio Vaticano II, sobretudo a Gaudium et Spes, abandonou essa postura para afirmar que Deus e mundo não são rivais, mas o mundo é obra de Deus, o mundano é constitutivo da Igreja e do cristão. O Vaticano II diz que só existe uma única história da salvação. O Espírito do Senhor dirige essa história e coloca sementes do Verbo em todas as culturas. Portanto, está superado o dilema “ou Deus ou mundo”, pois não se pode dizer sim ao Criador e não a sua obra.

O Concílio Vaticano II valoriza positivamente toda a criação, a pessoa humana (GS 12-17), o trabalho (GS 33-36), a cultura (GS 53 e 62), respeita a liberdade religiosa, que, em 1832 (Mirari vos), Gregório XVI ainda qualificara como declínio e erro pestilento. O Concílio condena tudo que destrói a dignidade da criação, o pecado que escraviza a pessoa humana (GS 13-14), o ateísmo (GS 19-21), a discriminação racial, sexual ou cultural (GS 29), o egoísmo que degrada o trabalho humano (GS 37), as desigualdades econômicas (GS 66), o totalitarismo e a ditadura (GS 75), a tortura e a guerra (GS 82) e valoriza a cultura (GS 56).

A evangelização do mundo contemporâneo, pós-marxista e pós-moderno, coloca novos desafios à Igreja: defender não só os direitos da Igreja, mas os da pessoa humana, a ecologia, solucionar a questão do papel da mulher na Igreja, questões relacionadas com a sexualidade e a família e, sobretudo, questões relacionadas com a tecnociência.

O Compêndio da Doutrina Social apresenta as conquistas mais recentes da tecnociência, de maneira positiva: “A Igreja aprecia as vantagens que advêm – e que podem advir ainda – do estudo e das aplicações da biologia molecular, completada por outras disciplinas como a genética e a sua aplicação tecnológica na agricultura e na indústria” (n. 458). Reconhece que efetivamente a técnica poderia constituir, com uma reta aplicação, um precioso instrumento útil para resolver graves problemas, a começar pelos da fome e da enfermidade, mediante a produção de variedades de plantas mais progredidas e resistentes, e de preciosos medicamentos (n. 458). Portanto, em princípio, o clero, os religiosos e leigos que se posicionam contra a transgênese não podem avocar para si a autoridade da Igreja.

Evidentemente, como todas as conquistas da tecnociência, também as atuais e futuras devem ser examinadas criticamente. O Compêndio estabelece o critério da “reta aplicação”, pois é sabido que esse novo potencial pode ser usado tanto para o progresso como para a degradação do próprio homem. Sempre se deverá postular prudência e avaliação atenta, subordinando também as novas conquistas aos princípios e valores éticos ou morais. Nem tudo, que o homem sabe, deve fazê-lo.

Quais são, então, os critérios para a aplicação da tecnociência?

Em primeiro lugar está o respeito à dignidade da pessoa humana toda e de todas as pessoas. Tal respeito inclui uma indispensável atitude de respeito para com as demais criaturas viventes. É preciso ponderar bem as alterações que se produzem no conjunto do sistema, através da manipulação genética em vista das futuras gerações.

Em segundo lugar, pesquisa científica e sua aplicação não devem usar da terra de maneira arbitrária. O cientista não cria do nada. Usa material existente que é dom de Deus através da natureza. O próprio homem não é “só o que faz de si mesmo”, mas antes de tudo, dom de Deus. Para construir prédios, fabrica tijolos do barro da terra, um barro que lhe é dado. Deus deu à natureza e ao próprio homem uma forma própria e um destino que o próprio homem pode e deve desenvolver, servindo-se da tecnociência, sem traí-la. Cabe ao homem ser colaborador de Deus na conservação da obra da criação e não seu destruidor. Quando o homem quer usurpar o lugar de Deus, torna-se tirano, explorando seus semelhantes, provocando a revolta da natureza. A missão do homem não é de tiranizar a natureza, mas administrá-la responsavelmente perante Deus, os semelhantes, o mundo e si mesmo, com todas as fôrças de sua inteligência. Para isso recorre à tecnociência e a desenvolve.

 

2 Desafios atuais

Entre novos e grandes desafios estão as relações entre o homem e seu meioambiente (Compêndio n. 461-465). Se o homem ficar desatento em sua atividade transformadora e agir de maneira moralmente irresponsável, num futuro não muito distante, nosso planeta tornar-se-á inabitável. Ao longo da história, o homem habituou-se à tendência da exploração sem medida. Ora, a capacidade humana de transformar a natureza cresceu de maneira gigantesca, nos últimos tempos, e os meios de exploração fornecidos pela tecnociência a cada dia tornam-se mais poderosos. Tomamos consciência de entrar num momento crítico da evolução criadora. Cada dia constatamos que os recursos naturais, como água e ar, não são ilimitados e que a manipulação, através da tecnociência, pode ter não só benefícios mas também conseqüências desastrosas.

O homem precisa tomar consciência de que o exercício do domínio sobre a natureza não é incondicional, mas tem limites. A exploração irresponsável dos recursos da natureza poderá transformar a própria casa em ambiente ameaçador. A manipulação tecnológica tem limites. Do contrário, enormes superfícies, cujas florestas levaram séculos para crescerem, da noite para o dia, se transformarão em desertos, enquanto, em outras partes, se gastam somas altíssimas para impedir que árvores que crescem em poucos anos, sejam abatidas para serem usadas como madeira ou lenha de maneira razoável. O ecocentrismo absoluto é, igualmente, prejudicial, pois esquece o homem na sua transcendência.

Em relação ao ambiente será preciso conjugar os recursos científicos e o comportamento ético, sem perder o bom senso, e unir todas as forças para reduzir a poluição, assegurando condições de higiene e de saúde para todos. Em países como o nosso, seria bom que os políticos diminuíssem os discursos e aumentassem a ação por respeito à vida e à dignidade dos cidadãos de hoje e de amanhã.

Entretanto, proteger o ambiente não é desafio somente para poucos, mas é dever de todos e de cada um. Nesse sentido, seria oportuno que os intelectuais também promovessem a formulação dos “Deveres de cada cidadão”, pois uma educação voltada unicamente para os direitos é uma educação para a irresponsabilidade social. O ambiente é patrimônio comum da humanidade. Zelar por ele é dever de cada cidadão do mundo, de cada instituição e de cada Estado.

No campo da tecnociência também há incertezas e provisoriedade nos processos decisórios, pois a ciência, raras vezes, apresenta uma única possibilidade. As opções para resolver problemas concretos, em geral, não são puramente científicas, pois entram fatores econômicos, ideológicos, políticos, religiosos, etc. Por exemplo, para construir um acesso de um a outro lado da Av. Ipiranga aos pedestres, sem atropelarem ou serem atropelados pelos automóveis, do ponto de vista técnico-científico pode ser tanto por cima, através de uma passarela, como por baixo através de um túnel e escadas rolantes. A opção por uma ou por outra não é simplesmente científica, nem técnica.

Há situações de incerteza, nas quais os dados científicos são contraditórios ou escassos, e, por isso, recomendam “o princípio da precaução”, ou seja, exigem decisões provisórias e modificáveis, a partir de novos conhecimentos, avaliando eventuais riscos e benefícios para cada alternativa, inclusive a decisão de não atuar. Nesse processo, é preciso ter consciência de que a ciência, muitas vezes, não pode chegar rapidamente a conclusões definitivas sobre ausência ou não de riscos.

A conservação habitável do ambiente é um desafio. A exploração da natureza também envolve questões relacionadas com o clima. Os recursos energéticos nem todos são renováveis. Levantam problemas que ultrapassam as fronteiras de países e continentes, exigindo atenção internacional.

Outro desafio para a tecnociência é o uso das novas biotecnologias para fins ligados à agricultura, à zootecnia, à medicina e à proteção do ambiente. As novas possibilidades biológicas e biogenéticas despertam, por um lado, entusiasmo e esperança e, por outro, hostilidades. Do ponto de vista cristão da criação, em princípio, se deve admitir a liceidade das intervenções do homem na natureza, inclusive nos seres vivos, mas com muito senso de responsabilidade, ponderando conseqüências para a saúde do homem, seu impacto sobre o ambiente e sobre a economia. Assuntos como a liceidade moral merecem aprofundados debates interdisciplinares para que esperanças não se transformem em decepção e destruição. Diz o Compêndio que “são louváveis as intervenções do homem quando se traduzem no melhoramento”. Mas tal melhoria deve ser avaliada cuidadosamente quanto a sua utilidade e em suas possíveis conseqüências, não só em termos de sucesso, mas também em termos de riscos futuros. Neste campo o homem sempre deve agir com precaução e muita responsabilidade (n. 472-473).

As modernas biotecnologias prometem revolucionar a medicina e, através dela, a vida do homem em nosso planeta. Mas é preciso considerar que são uma grande tentação para quem possui o know-how em vista do impacto social, econômico e político em âmbito local, nacional e internacional. Os critérios éticos na aplicação das novas biotecnologias deverão sobrepor-se aos econômicos e políticos (n. 474). Para que o usufruto dos benefícios das novas biotecnologias obedeça aos critérios de justiça e solidariedade no desenvolvimento dos povos, não basta o intercâmbio de produtos. É preciso que os povos menos favorecidos também atinjam uma necessária autonomia científica e tecnológica, promovendo também o intercâmbio de conhecimentos científicos, bem como a transferência de tecnologias para os países ainda em via de desenvolvimento, não usando somente os pobres como cobaias de experimentos e testes. Por outro lado, urge que os governos dos países em via de desenvolvimento invistam na melhoria alimentar e sanitária de seus povos, combatendo a corrupção política de seus governantes. E isso significa que deverão investir mais em educação qualificada, condição necessária para o real desenvolvimento de um povo. É preciso que esses povos também invistam na pesquisa. Não se poderá falar em educação qualificada, quando os professores do ensino fundamental e médio são pagos com esmolas.

A pesquisa em seres vivos diz respeito à humanidade toda, de hoje e de amanhã. Se a natureza é um dom de Deus confiado à inteligência e às mãos do homem, também a inteligência é dom do mesmo Criador para ser usada com responsabilidade. Por isso os empresários e responsáveis pela produção e comércio dos produtos, obtidos através das pesquisas biotecnológicas, devem pensar, não somente no lucro legítimo, mas também no bem comum. Cabe aos políticos e legisladores a responsabilidade de avaliar vantagens e desvantagens com o uso das biotecnologias, socializando informações corretas ao público, para que os cidadãos tenham condições de formar uma opinião correta sobre produtos biotecnológicos. Tanto os entusiasmos fáceis como os alarmismos oportunistas prejudicam o desenvolvimento crítico e responsável.

Se os desafios da ecologia e do uso das novas biotecnologias têm dimensões planetárias, somente poderão ser enfrentados de maneira adequada através da cooperação internacional. Do contrário, novas conquistas apenas servirão para aprofundar o abismo entre ricos e pobres, aumentando a riqueza de uns em prejuízo de outros, ameaçando a dignidade humana de todos. Dentro da questão ecológica uma preocupação particular merece a água, símbolo de vida e purificação, imprescindível para a sobrevivência da vida do planeta. A água sempre foi considerada um bem público superabundante, mas torna-se cada vez mais difícil e dispendiosa a água potável. O direito à água é um direito universal, mas um direito sem efeito, se o zelo para evitar sua poluição não for também um dever universal. Enfim, os desafios induzem a uma mudança de mentalidade e a novos estilos de vida, antes que seja tarde.

 

3 A transcendência e as ciências

As ciências modernas não provam nem negam a transcendência do homem nem a existência de Deus. Quando um cientista se pronuncia sobre tais assuntos não o faz em nome da ciência, pois tais realidades extrapolam sua competência. A ciência, por definição, coloca problemas definidos, ou seja, parciais. Portanto, dela não se devem esperar soluções globais, como a questão sentido para a vida ou do sentido da História. De maneira análoga, uma prova científica da existência de Deus seria uma contradictio in terminis.

Antes de mais nada, é preciso não exagerar a força do conhecimento científico para a transformação do mundo. O mundo da vida é muito mais amplo e mais rico que o mundo da ciência. Este abre pequenas clareiras no mundo da vida. Um dos males da civilização ocidental contemporânea é exagerar de maneira sensacionalista o papel da ciência. No dia-a-dia vivemos mais da confiança e da crença que da certeza científica. Aliás, a própria ciência emerge da crença. O mundo da vida humana é irredutível ao mundo da ciência. É preciso integrar este no mundo da vida.

A transformação deste mundo num mundo de mais justiça e solidariedade fraterna entre os homens também depende de fatores que não são estritamente científicos. Vejamos o exemplo de alimentação digna para todos os seres humanos do planeta. A ciência mostra que ela seria possível hoje. Mas, para isso, entra o elemento ético. Não basta a terra produzir alimentos para deixá-los apodrecer nos armazéns ou nos campos. Por outro lado, é atitude cômoda queixar-se dos povos ricos do hemisfério norte para não ver o esbanjamento da comida jogada fora entre nós. Basta observar as lixeiras nas calçadas de Porto Alegre no final da tarde sendo reviradas por pessoas famintas e ali encontram comida farta que sobrou da mesa de alguém. E o que sobra na mesa de uns falta na mesa de outros. Jogar comida fora não é privilégio de ricos. Canso de ver pacotes de biscoitos, frutas ou pãezinhos jogados nos canteiros da igreja por habitantes de rua.

A certeza científica não é tão absoluta como pode parecer aos recém-iniciados no mundo da ciência, pois as conquistas da tecnociência têm os condicionamentos do tempo, do espaço e da limitação humana. Abandonamos hipóteses falsificáveis e trabalhamos com aquelas que ainda não se mostram falsificáveis como se verdadeiras fossem, como dizia Karl Popper. Isso, todavia, não significa que amanhã ou depois não devam ser relativizadas ou até abandonadas. O conhecimento é uma atividade das mais importantes do ser humano, mas partilha seus limites. O conhecimento humano, incluindo o científico, é limitado.

Exercemos a atividade técnico-científica através da razão, sobretudo através da razão instrumental. Ora, não deixamos de ser racionais, quando amamos ou quando nos comunicamos com outros. A razão humana não se reduz à razão científica. Além disso, somos também coração, sentimento e emoção. Bem disse Blaise Pascal: “O coração tem razões que a própria razão desconhece”.

Quem faz ciência e desenvolve técnicas é o homem. Nele há dinamismos que o impulsionam para além de si mesmo. Não se realiza sozinho. Procura um tu, amigos. Insere-se numa comunidade e na sociedade para realizar-se. Luta contra tudo que o limita: a ignorância, a fome, o sofrimento, a doença e contra a morte. Quer viver e viver bem. Para isso tende a apropriar-se de bens materiais e do saber. Contesta tudo que já existe em nome da utopia, ou seja, em nome do que ainda não é. De certa maneira é um eterno protestante, pois até o que já é bom ele quer melhorar. Nesse sentido S. Agostinho afirma oportunamente: “Meu coração está inquieto até repousar em Deus!” O dinamismo impulsionador da transcendência, à luz da fé, chama-se Deus.

A tecnociência resolve problemas. Mas o homem é, ainda hoje como ontem, um mistério. O mistério envolve todo nosso ser. O mistério não se conhece, mas se reconhece, se aceita ou se rejeita. No momento em que excluímos a dimensão transcendente da vida humana, mutilamos o ser humano. Por isso, se dificilmente alguém chega a Deus através da tecnociência, mais dificilmente alguém dele se afastará por causa da ciência. A ciência é importante e dignifica o homem. Mas não é tudo. É tão importante que sem ela hoje até a caridade, muitas vezes, se torna ineficiente e ineficaz. Se, por exemplo, um hospital não tiver recursos humanos qualificados e equipamentos adequados, até o exercício da medicina sofre.

Muitas imagens de Deus e de Cristo, transmitidas pela tradição, afastam dele os homens, porque são construções culturais que impedem chegar até ele, que está para além de imagens e conceitos, pois é mistério. Mas faz sentido crer em Deus que se revelou a nós em Jesus Cristo. Se é difícil crer em Jesus Cristo, mais difícil é viver sem ele. Deus é o sentido da nossa vida. Em vão sonhamos com um mundo mais fraterno, se não admitirmos um Pai comum. Onde os homens negam a Deus como Pai, tenderão a usurpar seu lugar para explorarem os semelhantes, abrindo espaço para todo o tipo de totalitarismos. E as conquistas da tecnociência serão colocadas a serviço da violência, do terrorismo, enfim, da injustiça de todo o tipo. Onde os homens aceitam a Deus como Pai comum é possível viver como irmãos.

4 Ciência e ética

Com a expressão “ciência ética” costuma designar-se a “ética da ciência”, ou seja, os problemas éticos com os quais os pesquisadores se deparam em instituições de pesquisa. Por um lado, o cientista não deve curvar-se, na condução de sua investigação, a exigências provenientes da esfera política ou religiosa. Isso seria censura. Da mesma maneira, não deve fazer intervir convicções pessoais no trabalho de pesquisa, violando o próprio método científico. Por outro lado, ao pronunciar-se em público, deve demonstrar prudência, pois, se quisesse impor suas idéias pessoais, seria autoritário. Isso desqualificaria sua atitude de cientista. A própria ciência é um valor intrínseco, não apenas instrumental.

Sob esse aspecto, a ética do cientista é, em primeiro lugar, a ética comum. Como em sua atividade se dedica à promoção desse valor, que é o conhecimento racional, deve transcender reflexivamente a moral comum. O ethos dos cientistas caracteriza-se pelos seguintes aspectos: a) As verdades científicas são discutidas e julgadas pelos pares em função de critérios impessoais; b) A ciência é um empreendimento coletivo para o bem comum e, por isso, o mundo dos cientistas é uma sociedade aberta, na medida em que é obrigatória a publicação de suas descobertas; c) O argumento da autoridade, nas ciências, carece de valor, pois, na ausência de provas conclusivas, cabe a suspensão do juízo.

Nos procedimentos, o cientista pesquisador está sujeito a regras como existem em todas as profissões. Assim não lhe cabe falsificar os resultados de seus experimentos, para torná-los mais favoráveis à sua teoria; deve dar prova de boa-fé na discussão de prioridades, reconhecendo em público o trabalho de colaboradores e colegas. O conhecimento científico é um bem humano, e não é dado a todos promovê-lo. O exercício da liberdade científica exige competência, condições de trabalho e responsabilidade. Os cientistas estão sujeitos ao controle de seus pares. Mas a responsabilidade ética do cientista não se limita a fazer boa ciência. Hoje os cientistas encontram-se numa situação de competição para obter recursos e, com isso, sofrem a tentação da fraude, do plágio e de fazer a ciência dos industriários e empresários que os financiam. O desenvolvimento da pesquisa, na área dos seres humanos, certamente impõe limites ao direito de experimentar. Mas há, também, campos perigosos e explosivos como, por exemplo, o estudo da correlação entre raça e quociente de inteligência ou entre raça e criminalidade. Os resultados de tais pesquisas poderão servir ao uso ideológico, se não acompanhados com as devidas precauções.

Faz parte da ética que os cientistas prestem contas à sociedade, divulgando o resultado de seu trabalho. Mas, considerando o ambiente de competição, essa publicação muitas vezes restringe-se ao cumprimento formal ou ao sensacionalismo publicitário. O número das revistas científicas aumenta cada dia. Essas realizam seleção dos trabalhos, eliminando pesquisas triviais ou malfundadas. Mas, em geral, pode ter-se a impressão de que a comunidade científica se dirige ao grande público de maneira dogmática, como se seus procedimentos intelectuais e experimentais fossem sempre infalíveis, como se lhes coubesse, exclusivamente a eles, indicar o sentido e o valor das coisas, esquecendo que a linguagem científica, em sentido mais radical, é refratária à comunicação. Além disso, a publicação de resultados torna-se mais complicada, quando a pesquisa é financiada pela indústria ou por órgãos militares. Outro problema ético constitui a “fuga dos cérebros” de países pobres para os ricos, retendo os avanços da ciência para a parte mais desenvolvida do mundo. Isso derrota a esperança dos mais pobres, pois a desigual distribuição do saber evidencia os meios necessários para sua aquisição.

O Iluminismo francês e a Aufklärung alemã admitiam que toda descoberta científica seria um benefício para a humanidade, melhorando a condição humana. Constatamos que isso era uma grande ingenuidade. O desenvolvimento da racionalidade científica conduziu ao “desencantamento do mundo”, mas esse desencantamento atingiu a própria racionalidade científica, sobretudo a partir de meados do século XX. Talvez o interesse atual por questões de ética da ciência conduza para uma racionalidade mais lúcida e, ao mesmo tempo, mais humilde e equilibrada.

O Iluminismo quis libertar os homens do medo, tornando-os senhores e livrando-os do mundo da magia e do mito, através da ciência e da técnica. Mas depois de liberto do medo mágico, tornou-se vítima do próprio progresso da dominação técnica. Em vez de formar indivíduos autônomos, capazes de julgar e de decidir conscientemente, a indústria cultural, como diz Adorno, e o progresso da tecnociência tornaram o homem um mero consumidor, mecanizando-o de tal modo que até a diversão e o lazer se transformam em simples prolongamento do trabalho. Instaura-se o poder da mecanização sobre o homem. A indústria cultural cria necessidades no consumidor, tornando-o objeto da indústria. Com isso o universo social configura-se como um universo de “coisas” do qual o indivíduo dificilmente consegue libertar-se.

Para concluir, a formação do cristão passa pela formação de sua inteligência em busca do saber sobre si mesmo, sobre o mundo e sobre Deus. Já S. Pedro afirma que o crente “deve saber dar as razões de sua esperança” (1Pd 3,15). Com essa finalidade, o cristianismo organizou suas primeiras escolas: Alexandria e Antioquia. Nasceram com o objetivo de articular a sabedoria judaico-cristã com o lógos grego. O sistema escolar, introduzido no renascimento carolíngio (século IX), reafirma o papel fundamental do estudo para a vivência da fé cristã.

A Teologia não se identifica com evangelização. Sem negar a necessidade de evangelizar os meios universitários, sobretudo as universidades católicas, à faculdade de Teologia cabe uma tarefa de ordem acadêmica e pedagógica no diálogo com as Filosofias e as ciências atuais. A Teologia, no Brasil, ainda precisa construir seu próprio rosto dentro da universidade e da sociedade como área de conhecimento, mostrar que tem algo muito importante a dizer para o ser humano. Para isso deve livrar-se da imagem de um saber clerical, sem legitimidade epistemológica. É preciso criar espaço dentro da Igreja, dentro do pluralismo cultural e religioso, para uma presença atuante da Teologia, que não se reduza a uma função pedagógico-catequética confessional, pelo diálogo com as outras áreas de conhecimento. Este é o grande desafio da Teologia no Brasil hoje. Está nossa Teologia capacitada a enfrentar tamanho desafio? Somos capazes de contribuir para as temáticas emergentes da cultura e da tecnociência?

Certamente não sem crítica de fundamentalismos e dogmatismos, de ideologias políticas e religiosas, sem uma produção significativa de conhecimento teológico, sem superar o minimalismo intelectual do clero e sem investir muito mais na pesquisa teológica. Para garantir lugar à Teologia, no mundo da tecnociência, será preciso desenvolver uma cultura de pesquisa teológica em diálogo fecundo com as ciências e as Filosofias atuais.

 

Bibliografia

CANTO-Sperber, Monique (Org.). Dicionário de Ética e Filosofia Moral. S. Leopoldo: Ed. UNISINOS, 2003.

Pontifício Conselho Justiça e Paz. Compêndio da Doutrina Social da Igreja. 2. ed. S. Paulo: Paulinas, 2005.

ZILLES, Urbano. Fé e razão na doutrina social católica. Rio de Janeiro: CIEEP, 2005.

                    .Teoria do conhecimento e teoria da ciência. S. Paulo: Paulus, 2005.

 

 

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