| NÃO
CONSTRUIR O AMOR É CONSTRUIR O TERROR |
Frei Rovílio Costa |
|
É difícil emitir uma opinião sobre o problema do terrorismo, concretizado no fato de 11 de setembro de 2001, nos Estados Unidos. A
raiz do problema é mais profunda do que a que se traduz num atentado
desta natureza, ou em uma guerra planejada, na qual uma nação se
arroga o direito de lutar contra outra, com intuito de eliminá-la. A
onda de violências e assaltos do mundo de hoje está dividindo a
humanidade em dois pólos: o mundo que se propõe seguir uma norma, e o
mundo da anomia social. A idéia que inebria pessoas deste tipo mais ou menos assim se expressava, no comum falar de apenados: - Daqui eu vou fugir, custe o que custar. - Não faça isso, vamos dar tempo ao tempo. Com bom comportamento conseguirá uma condicional. Se fugir, quase certo que vão prendê-lo em seguida, não acha? - E se me prenderem, nada perco, mas se eu escapar com vida, eu ganho. Nada perco, porque não me importo em perder a vida, desde que eu consiga, ao menos, tomar aquela vingança de quem eu desejo, ou conseguir o que pretendo, seja o dinheiro de banco, de empresa, um automóvel para assaltos..., e, se não me matarem na hora, terei futuras oportunidades. O mundo precisa entender que está em guerra, uma guerra da qual não quer se convencer. Esta é a guerra que não vai demolir só duas torres, ou matar milhares de pessoas inocentes, mas é a guerra que pode estar ao nosso lado, até na casa de cada um de nós. É a guerra de quem só pensa em seus direitos sobre os outros, cujo parâmetro ético existencial é seu próprio interesse. O simples condenar psicologicamente, ou se afastar de um semelhante porque tem idéias, é de pensar, de religião, de partido diferentes... é montar a guerra generalizada. E a própria política que envolve a todos, enquanto desejo de que o outro (opositor) vá mal, fracasse, não consiga realizar o que prometeu, que sua administração va o pior possível... não é uma guerra contra inocentes?! No entanto, isto faz parte do quotidiano político e social, de uma forma aceitável e instituída de violência e subtil terrorismo. O socialmente anômico pode estar a seu lado no seu amigo ou companheiro e, no final de uma jornada, você pode entrar em discussão com ele, que horas depois concluirá que você não merece mais viver, e ele monta um esquema para eliminar sua família, e o faz, para admiração e surpresa de todos, que vamos culpar pelo acontecido a falta de segurança. Mas não existem esquemas de segurança com o terror do ódio instalado no coração. O
terrorismo do ódio e da vingança nos faz uma sociedade de infelizes,
torturados pelos próprios ódios e vinganças, mesmo que frustrados por
covardia de execução objetiva. Eliminar o semelhante psicologicamente é mais torturador do que fazê-lo realmente de uma só vez, como aconteceu no caso em foco, porque a eliminação concreta choca, faz pensar, nos devolve a nós mesmos, e faz sofrer a vítima uma só vez. Mas a eliminação do quotidiano é uma eliminação em prestações, com as cores do masoquismo. Uma forma de violência leva a outra. Todo o fato violento do ódio do coração contra o semelhante é planejado e forjado nas próprias idéias e se aloja no íntimo do ser. Diferente de um assalto, em que o assaltante não conhece, nem tem ódio da vítima, mas a mata para roubar e/ou para não vir a ser identificado e castigado. Se
Deus fez o mundo na força de sua palavra, e nos fez à sua imagem e
semelhança, nos deu o Cristo, sua palavra viva, para vivermos e
comunicarmos de amor e salvação sob todas as formas, e não ódios nem
violências. Somos e fazemos o que e como pensamos. Mas, condenar o outro, por exemplo, porque teve melhor nota em aula; torcer para que o colega se dê mal, porque eu estou disputando o mesmo emprego; brigar com a mulher que um dia foi a mulher dos próprios sonhos, apenas por razões econômicas e fúteis; condenar o outro porque não pensa e crê naquilo que pensamos e cremos; propôr violência instituída na empresa, no esporte, na arte, na comunicação... é instaurar uma guerra sistemática que nunca será vencida, sem uma reflexão e reversão de nosso comportamento social que reputamos democrático. Como nos iludimos fazendo de todo o agir humano uma competição. Se alguém pensa que vai a um estádio para esporte e lazer, torna cansado pelo tédio e estress da raiva, pela indesejada derrota, ou pelo assodado empate, pelo subjacente sentimento de raiva porque o adversário foi bem, por isto se tornou o pior inimigo. À
medida que passamos de uma sociedade autoritária a uma forma livre de
agir e pensar, mais facilmente a norma externa perde sua força, e se
substitui pela agressão sob formas de estratagemas políticos, econômicos
e sociais com defesa já assegurada, respaldados pela impunidade. Deus nos criou para si, portanto nos fez todos religiosos, enquanto peregrinos de nosso último destino. Deus não põe limites entre as pessoas. Os limites somos nós que os criamos. Só é verdadeira a forma de vida e fé que não condena quem quer que seja, pois Cristo diz: "Eu vim para que todos tenham a vida em abundância." Engajados nesta luta, somos ecumênicos, se antes formos radicalmente irmãos. Então, a guerra que pode nos dominar, fazer perder as esperanças começa com a palavra de condenação, de violência, de desamor contra a pessoa que se conhece, que um dia se amou, ou contra o filho que você mesmo gerou. Esta guerra se a perde sempre que se faz um processo para ganhá-la condenando o semlehante, mesmo com suposta razão. Digo suposta, porque em geral pode haver maior razão, mas não toda a razão só de um lado. E a condenação sempre coloca a razão só de um lado. Só o perdão gera a liberdade pela renúncia e/ou esquecimento das próprias razões. A liberdade humana, na forma de felicidade de viver, envolve tolerância, permissividade, admiração do semelhante, exatamente por ser diferente, único, exclusivo e irrepetível, portanto jamais englobável e reduzível ao meu estrito pensar. Qualquer povo luta e preza sua identidade, que lhe deve ser reconhecida de forma concreta e pacífica, pelo diálogo interétnico, pela admiração e admissão das diferenças características de cada identidade, pelo consideração do outro como importante por suas diferenças étnico-culturais... Só assim o instinto de exclusão, exclusividade e vingança passam a ser substituído pelo amor. Somos chamados a pensar um mundo, onde a pessoa ocupe em primeiro lugar, um mundo capaz de respeitar-se e respeitar os outros e a natureza, sob o olhar complacente do Absoluto, que se compraz com nossa liberdade. A
morte de inocentes não justifica uma guerra para matar ainda mais
inocentes, muitas vezes inocentes dopados pelo fundamentalismo, mas
inocentes, porque incapazes de se entender a si mesmos, ou de superar a
tradição cultural que receberam como herança de origem e destino. Em
todos os casos de injustiças como esta, em casos de violências contra
familiares por assaltos e mortes... sempre nos deparamos com a revolta
inicial das famílias das vítimas, com o choro, com o momentâneo
desespero... mas sempre também encontramos os testemunhos de perdão
dos familiares remanescentes, assim como o Papa perdoou a seu possível
assassino, sem apelar para incriminar culpados, culturas, países, o que
teria repercussões negativas e violentas ainda hoje. A repercussão do
perdão leva ao amor.
Porto
Alegre, 13 de setembro de 2001 |