OS TRIVÊNETOS NO RIO GRANDE DO SUL

Luis De Boni e Rovílio Costa

 

Home | E-mail

 

Imigração e colonização no Brasil

O Rio Grande do Sul situa-se no extremo meridional do Brasil. Com uma área de 282.184 km2, contava cerca de 40 mil habitantes quando da independência do Brasil, em 1822. Em 1875, ao iniciar-se a grande imigração italiana, já eram 400 mil os habitantes. Hoje são de 9,5 milhões. A capital é Porto Alegre, que tem 1,2 milhões de moradores (são 3,5 milhões na região metropolitana).

Quando da chegada de europeus na América, no final do século XV, a região não atraiu o cúpido interesse nem dos portugueses, nem dos espanhóis, pelo simples fato de apresentar uma costa arenosa quase inacessível e um interior com grandes campinas desocupadas ou com serras íngremes. Os primeiros europeus a fixarem-se no estado foram os jesuítas das reduções, a partir de 1629. Muitos deles eram italianos, como o milanês Giovanni Battista Primoli, o arquiteto da igreja de são Miguel (hoje em ruínas), bem como da catedral de Córdoba e do cabildo de Buenos Aires. A presença portuguesa permanente inicia-se com a fundação de uma praça de guerra, em 1737: as tropas de gado vacum, cavalar e muar atraíram o interesse da coroa lusitana, que as destinava ao centro do Brasil, em função da lavra do ouro.

A maciça imigração trivêneta para o Estado situa-se dentro da grande onde imigratória do século XIX e início do século XX, que levou algumas dezenas de milhões de europeus para outros continentes, principalmente para a América. Neste período, cerca de 6 milhões de europeus instalaram-se no Brasil, dos quais 1,5 milhões eram italianos. Destes, aproximadamente 100 mil dirigiram-se para o Rio Grande do Sul.

Para se compreender a imigração no Brasil, é necessário levar em conta o alto grau de centralização administrativa, reservando para o Rio de Janeiro, então capital, não só os grandes problemas, mas também decisões sobre questiúnculas da menor importância. Esta centralização requer que se examine qual o grupo que se encontrava no poder, a fim de se conhecer o motivo pelo qual promoveu a entrada de estrangeiros no país. Ela explica também como, apesar de tantas semelhanças aparentes, a imigração alemã teve fins muito diferentes da italiana.

Mesmo antes da independência, o governo de D. João VI já havia promovido a vinda de suíços e alemães para o Brasil, com os quais criou, entre outras, a colônia de Nova Friburgo, na província do Rio de Janeiro. Logo após, em 1824, entraram alemães no Rio Grande do Sul, fundando-se para tanto a colônia de São Leopoldo, à qual seguir-se-iam diversas outras. O governo imperial, dirigido por uma elite de funcionários portugueses e por brasileiros não comprometidos com os grandes latifundiários, tencionava modificar as estruturas do país, até então baseadas no tripé: monocultura, latifúndio e escravidão. Os colonos deveriam ser pequenos proprietários policultores, que com o trabalho livre fornecessem gêneros de primeira necessidade ao país. Esperava-se deles e de seus sucessores, que viessem a abrir pequenas indústrias; que, ocupando o solo no sul, servissem como barreira contra as pretensões da Argentina; que possibilitassem a formação de um exército de brancos (a revolta negra no Haiti estava presente na memória de todos) e que, no meio de negros e mulatos, que constituíam a grande maioria da população brasileira de então, se tornassem um fator de "branqueamento da raça" (!).

Entre 1824 e 1830, cerca de 5.300 alemães entraram no Rio Grande do Sul, localizando-se a maioria na região de matas da baixada ao norte de Porto Alegre. A cada família foi dada uma gleba de terras de aproximadamente 77 hectares. Apesar das dificuldades enfrentadas, a experiência foi um sucesso e, em pouco tempo, já estavam os colonos descendo de barca pelo rio dos Sinos, a fim de vender produtos em Porto Alegre. Então, inesperadamente, no orçamento de 1830 foram cortadas todas as verbas para imigração e colonização e, em 1834, por Ato Adicional da Regência, os encargos com a vinda de estrangeiros passaram para as províncias, carentes de recursos, às quais, aliás, não foram concedidas glebas para tanto, na medida em que as terras devolutas continuavam pertencendo ao poder central.

A causa de tão abrupta mudança encontra-se no parlamento brasileiro que estruturou-se naqueles anos e adonou-se do poder. O sistema eleitoral, privilegiando os bens de fortuna, fez com que se elegesse a elite agrária do império, a qual, de imediato, entrou em choque com as idéias modernizadoras de D. Pedro I, que em 1831 acabou renunciando. Senhores da situação política, os grandes latifundiários procuraram consolidar-se no poder, impedindo a entrada de colonos estrangeiros, cujo modelo de produção, baseado na pequena propriedade, na policultura e no trabalho familiar, representava, de fato, uma bomba de efeito retardado no arcaico sistema vigente de produção.

Ora, desprezar a colonização européia significava, naquele momento, apostar no sistema escravocrata. De fato, apesar da legislação promulgada por exigência da Inglaterra para o reconhecimento da independência, nunca como então entraram tantos escravos no Brasil: cerca de 50 mil por ano entre 1830 e 1850. Dos cerca de 4 milhões de africanos transportados para o Brasil em mais de 3 séculos de escravidão, metade deles, portanto, entrou no país após a proibição legal de 1831. É que o Brasil, então o mais rico país das Américas, comprava na Inglaterra 7/10 do material destinado ao transporte de escravos, e cabia à marinha mercante inglesa 3/8 do transporte do açúcar, metade do de café e 5/8 do de algodão brasileiros.

Mudando-se a situação, e voltando-se os interesses ingleses também para a África, foi relativamente fácil ao império britânico liquidar com a escravidão no Brasil. Apoiada no Bill de Aberdeen (1845), a esquadra inglesa interceptou navios negreiros, invadiu portos para aprisioná-los e exerceu policiamento ostensivo em toda a costa brasileira. Assim, em poucos anos acabou-se o tráfico: em 1849 entraram cerca de 54 mil escravos; em 1852 foram apenas 700.

Entrementes, na década de 1840 a 1850, a economia brasileira passava por importante modificação: o café substituíra definitivamente o açúcar como principal produto de exportação, e o centro econômico do país deslocava-se do nordeste para São Paulo. A lavoura cafeeira crescia, enquanto exauria-se a fonte de suprimento de mão-de-obra: um escravo custava 2 milhões de réis, e seu lucro anual ficava entre 200 e 300 mil réis, o que era suficiente apenas para os juros de amortização. Tornava-se, pois, necessário apelar novamente para o trabalho europeu. Agora, porém, eram deixados de lado os motivos que, há um quarto de século, haviam levado à colonização alemã. Predominava, quase que exclusivamente, a preocupação em obter trabalhadores assalariados para a grande lavoura monocultora paulista. A partir deste momento, a única maneira de compreender a aparentemente desconexada e até contraditória legislação brasileira sobre imigração e colonização, é tendo presente o fato de que a procura de imigrantes vai ser determinada pela crise do estatuto da escravidão.

Já em 1847, tentou-se introduzir os contratos de parceria em fazendas de São Paulo. Eram contratos leoninos, pelo qual o colono vendia seu trabalho futuro para pagar os gastos que com ele tivera o proprietário da terra, desde o embarque no porto de origem. Criticados na Europa como forma de escravidão camuflada, foram tais contratos supressos, quando Alemanha, Inglaterra, França e posteriormente a Itália fizeram restrições à emigração para o império do Brasil.

Em 1848, o poder público voltou a legislar, com o fito de reativar a corrente imigratória. A lei no 514, então promulgada, doava a cada província uma extensão de 36 léguas em quadra de terras devolutas, a fim de promover a colonização. A lei parecia voltar ao período anterior, facilitando o acesso à propriedade. Por isso mesmo, não foi vista com bons olhos pelos grandes proprietários, para os quais estava claro que a única maneira de atrair os europeus para a lavoura de café era dificultar-lhes o acesso à terra.

Dentro desta perspectiva deve ser encarada a lei geral no 601, de 18.9.1850, bem como seu regulamento, aprovado por decreto em 1854. A premência em obter trabalhadores (convém recordar que no mesmo ano de 1850 foi promulgada a lei Eusébio de Queiroz, que encerrava com o tráfico de escravos) fez com que a lei partisse decididamente à procura de imigrantes, regulamentando uma série de pendências que haviam sido proteladas durante décadas, tais como a da naturalização e do serviço militar. Criava-se também a Repartição de Terras Públicas, onde centralizava-se tudo o que se relacionava com a parte técnica da colonização. O mais importante, porém, e que desde então jamais foi modificado, é que as terras não poderiam ser doadas: a compra tornava-se o único meio de acesso à propriedade. Com isso, esperava-se, o imigrante carente de recursos seria levado a vender inicialmente o seu trabalho, a fim de acumular os meios necessários para a posterior aquisição de uma gleba. Levantamento feito então pelo governo mostrou a lamentável situação da imigração européia para o Brasil: entre 1819 e 1850 aportaram no país 25.590 imigrantes - era a metade do que anualmente entrava de escravos provindos da África.

A nova lei, contudo, não foi capaz de atrair imigrantes. Por isso, a partir de 1865, o governo brasileiro passou a oferecer aos candidatos à imigração o pagamento da diferença de custos de passagem entre Europa-Estados Unidos e Europa-Brasil.

Em 1867, como não se registrasse aumento no número de imigrantes, e como a campanha de abolição da escravatura tomasse vulto, elaborou-se um novo regulamento, com uma série de vantagens para os imigrantes: lote rural pago em 10 anos, com dois anos de carência; viagem gratuita dentro do país; construção de habitação; ajuda em dinheiro, sementes e instrumentos nos primeiros tempos; assistência médica e religiosa, etc. Previa-se, com isso, a introdução de 350 mil colonos alemães, suíços e ingleses, o que não aconteceu. Neste momento, porém, a crise sócio-econômica da Itália veio ao encontro dos planos dos latifundiários, e os pobres imigrantes italianos acabaram sendo aceitos pelos fazendeiros, por vezes a contra-gosto, como sucessores dos escravos nas fazendas de café.

Como, porém, fosse elevado o número dos que, atraídos pelas disposições de 1867, procurassem adquirir logo o lote rural, disposição de 1879 suspendeu a maior parte dos auxílios oferecidos, permanecendo apenas a facilidade para comprar a terra no prazo de 10 anos e a oferta de trabalho em obras públicas durante um certo período.

Em 1885 recrudesceu novamente a campanha abolicionista e ficou claro que a escravidão estava com os dias contados (ela acabaria legalmente em 1889, sendo o Brasil o último país do ocidente a suprimir este regime hediondo). Acossado, o governo retomou novamente a colonização, reorganizando o serviço de cadastramento e venda de lotes e voltando a fazer campanha na Europa. À grande demanda brasileira correspondeu, por acaso, o auge da crise italiana. Até 1884, o número anual de entradas de peninsulares nunca superou os 15 mil indivíduos. Em 1885 foram 21.765; em 1887, 40.175; em 1888, 104.353; em 1891, 132.326. Até o fim do século o número nunca foi inferior a 30 mil. A grande maioria, mais de quatro quintos, dirigiu-se para São Paulo. Cerca de 100 mil, como observado acima, entraram no Rio Grande do Sul.

 

Italianos no Rio Grande do Sul

 

Entre 1830 e 1844, a imigração alemã para o Rio Grande do Sul foi quase nula, influindo para tanto, além da legislação, a prolongada Guerra dos Farrapos (1835-1845). A partir de 1844, ela voltou a crescer. Até 1875, outros 19 mil colonos alemães entraram na província.

Aproveitando a doação de terras da lei imperial de 1848, a província criou mais quatro colônias destinadas a alemães e organizou o sistema legal de imigração e colonização.

Em 1869, alegando que já se encontravam ocupadas as terras anteriormente recebidas, a província pediu, por requerimento, mais duas glebas, com um total de 32 léguas quadradas. A solicitação foi atendida em fevereiro de 1870, estipulando-se, porém, em vista da lei de 1850, o valor de 1 real por braça quadrada. Em 24 de maio do mesmo ano, o presidente da província criava então as colônias Conde d’Eu e Dona Isabel, homenageando assim o príncipe consorte e a herdeira do trono. As novas colônias, situadas entre os rios Caí e Antas, tendo mais ao norte os campos da Vacaria, e mais ao sul as colônias alemãs, localizavam-se em terreno acidentado da Serra Geral, com alguns acidentes íngremes e densa vegetação. Ocupá-las com imigrantes seria também uma forma de aos poucos abrir uma via de comunicação com os campos no nordeste da província.

O plano desta era ambicioso. O sucesso da colonização germânica levara o governo a pensar na introdução de 40 mil colonos nórdicos no período de 10 anos. Contudo, como eram insignificantes os números da imigração espontânea, e como o poder público não se julgava apto a procurar, por si mesmo, emigrantes na Europa, contratou então um armador particular, que se comprometeu a introduzir uma média de 4 mil colonos por ano. Ao mesmo tempo, iniciava-se a medição dos primeiros lotes em Conde d’Eu.

O fracasso não se fez esperar. Na Alemanha, há pouco unificada, dificultava-se a saída de quem desejava emigrar. E os que saíam optavam pelos Estados Unidos e outros países, mais que pelo Brasil. E mesmo quando decidiam-se pelo império brasileiro, eram-lhes bem mais atrativas as propostas do governo imperial, que as do provincial. Assim, nos quatro anos que medeiam entre 1872 e 1875, não chegou a 4 mil o total dos transportados pelo armador. Destes, inúmeros eram portugueses, outros haviam sido procurados entre os emigrados para Argentina e Uruguai, o que feria os termos do contrato. Já os colonos, ao invés de ocuparem os novos lotes, que aos poucos iam sendo demarcados, preferiam ficar na baixada, nas proximidades de seus compatriotas. Por isso, em fins de 1874, havia apenas 19 famílias, com 74 pessoas, habitando as novas terras de Conde d’Eu.

Entrementes, os serviços de imigração do império, tendo-se voltado para a Itália, defrontavam-se com o problema da falta de alojamento para um número de imigrantes maior que o esperado para as plantações de São Paulo. Considerando que a província não conseguia ocupar as terras que recebera, e que aos poucos estavam sendo medidas, o império, que não encontrava lugar para colocar os excedentes, resolveu indenizá-la pelos gastos feitos até então e em 1875 assumiu as duas novas colônias. Em maio do mesmo ano já começavam a chegar os primeiros imigrantes. Eram italianos do norte. Já antes haviam sido introduzidos colonos italianos. Dados do governo provincial indicam que, entre 1859 e 1875, 729 italianos entraram na província, sendo provável que a maioria proviesse de Montevidéu e Buenos Aires, e não fossem agricultores. Mas também nas levas que o armador contratado devia transportar encontravam-se cerca de 10 famílias de italianos, que em 1873 contavam-se entre os povoadores da colônia de Santa Maria da Soledade.

Portanto, foi por mero acaso, e não por decisão de sabedoria administrativa, que se iniciou a colonização italiana no Rio Grande do Sul. Se dependesse da província, a região teria sido ocupada por alemães, franceses, ingleses e povos nórdicos. Da parte do império, as preferências eram as mesmas. Havia um sério preconceito de nacionalidades no Brasil, que não pretendia criar colônias para introduzir portugueses, espanhóis ou italianos (e era inimaginável colônias para nacionais ou ex-escravos). Na falta de braços para o café, o império foi constrangido a procurar emigrantes no norte da Itália, e assim iniciou o período da imigração e colonização italiana também no Rio Grande do Sul. Já em pleno século XX, ainda era necessário justificar a entrada de italianos no sul, e mais de um intelectual ufano falava do destino daquele estado dentro da confederação brasileira, pelo fato de ser ariano, povoado que foi por açorianos (descendentes de germanos que se perderam no período das cruzadas), por alemães e por italianos do norte (que também eram germânicos, filhos dos invasores bárbaros do ocaso do Império Romano)!

Além das colônias Conde d’Eu e Dona Isabel, já em 1873 o governo imperial iniciara a medição de terras devolutas às margens do rio Caí. Prosseguindo os trabalhos, foram ultrapassados os limites iniciais e em 1875 decidiu-se criar mais uma colônia, que recebeu o nome de Fundos de Nova Palmira. Decisão do governo, datada de março de 1877 modificava-lhe o nome, passando a chamar-se colônia Caxias. Foi nela que se estabeleceram os primeiros imigrantes.

Dois anos depois de assumir a colonização, isto é, em 1877, o governo resolveu criar uma quarta colônia para imigrantes italianos, utilizando para tanto as terras de matas nas proximidades de Santa Maria, e onde já houvera tentativas anteriores de colonização. Surgiu assim a colônia Silveira Martins. Estas 4 colônias foram o núcleo da imigração agrícola italiana para o Rio Grande do Sul.

Em 1884, estando ocupadas as terras de Conde d’Eu e Dona Isabel, os colonos começaram a atravessar o rio das Antas e o governo criou a colônia de Alfredo Chaves. Em 1885, retomando a colonização devido à campanha abolicionista, a colônia Caxias ultrapassou o rio São Marcos e foi criada a colônia do mesmo nome. No mesmo período, para além do rio das Antas, surgia também a colônia Antônio Prado. Em início da década de 90, para além do rio Carreiro, surgiu a colônia Guaporé e, na margem direita do Taquari, diversos grupos de imigrantes criaram povoados que depois se transformariam no município de Encantado.

Em Silveira Martins, o território relativamente pequeno foi ocupado em pouco tempo, o que levou o poder público a cria, já na década de 80, o Núcleo Norte (atual Ivorá) e o Núcleo Soturno (atual Nova Palma) e, pouco depois, Jaguari, Toropi e Ijuí Grande.

Havia, porém um sério problema: o dos custos da colonização para os cofres públicos. Para se ter uma idéia, a colônia alemã de São Leopoldo, com os demais núcleos que a cercavam, em 22 anos recebeu cerca de 500 contos de réis (1 conto eqüivalendo a 1 milhão de réis). Já as colônias italianas, administradas diretamente do Rio de Janeiro, através do Ministério da Agricultura, no curto espaço de cinco anos, custaram aos cofres imperiais 25, 782 contos. A documentação da época mostra uma mudança contínua nos cargos públicos das colônias, com intervenções nas quais eram demitidos, por corrupção, todos os funcionários. A solução adotada pelo governo foi a de emancipar as colônias, tornando-as distritos de outros municípios já existentes.

A primeira atingida foi Silveira Martins, cujo território, relativamente pequeno, fora povoado em pouco tempo. Em 1882 transformava-se em 5o distrito de Santa Maria. Os núcleos próximos a ela passaram, anos mais tarde, a distritos de São Martinho e Cachoeira do Sul. Dois anos depois, portanto em 1884, Caxias foi também emancipada, tornando-se o 5o distrito do município de São Sebastião do Caí. Neste mesmo ano também Dona Isabel e Conde d’Eu foram emancipados, tornando-se distritos de Montenegro. Em 1890 foi a vez de Antônio Prado, convertido em distrito de Vacaria.

Em 1889, implantou-se no Brasil o regime republicano. A constituição federal, promulgada em 1891, transferia às províncias (que passavam a chamar-se estados) as terras devolutas remanescentes, bem como os encargos com a colonização. No Rio Grande do Sul, as terras devolutas limitavam-se naquele momento quase que exclusivamente ao Alto-Uruguai, onde, em 1908, fundou-se a colônia de Erechim. Acordo entre o estado e a união procurou limitar o número de ingressos mensais. Como, porém, a crise na lavoura cafeeira impedisse a esta de absorver a mão-de-obra imigratória, como em outros tempos, levas e mais levas de imigrantes chegavam, agora de trem, ao território gaúcho. Predominavam, neste momento os poloneses. Estando ocupadas quase todas as terras de mata, o governo estadual, em 13.7.1914, por decreto, declarava encerradas a imigração e a colonização subvencionadas no Rio Grande do Sul. Encerrava-se assim um capítulo que durara 90 anos.

A partir de 1920, rareando as terras devolutas no Rio Grande do Sul, iniciou-se um movimento de reimigração, tomando o rumo do oeste de Santa Catarina e do Paraná, seguindo, inicialmente, pela estrada-de-ferro que margeava o Rio do Peixe. Em alguns municípios destes estados, a quase totalidade dos habitantes, ainda hoje, são gaúchos ou filhos de gaúchos. A partir da década de 1970, a Amazônia tornou-se o novo alvo dos descendentes de imigrantes sulinos, principalmente o estado de Rondônia. Entrementes, no Rio Grande do Sul, enquanto as áreas das antigas colônias permaneceram com população de origem predominantemente italiana, os descendentes de imigrantes disseminaram pelos demais municípios, tanto exercendo profissão nas cidades, como também tornando-se plantadores de soja, milho, trigo e arroz nas férteis planícies do estado. Numa população de 10 milhões de habitantes, 2 milhões de gaúchos possui o sobrenome paterno italiano.

O Rio Grande do Sul, apesar de tantas falhas, foi, sem dúvida, o estado que melhor aproveitou a colonização, embora não tenha sido o que acolheu o maior número de imigrantes. Dados levantados por Dietrich von Delhaes-Guenther (p. 36, 47, 55) apresentam o seguinte quadro dos principais grupos entrados, nos períodos em que tais entradas foram significativas:

 

 

 

PRINCIPAIS GRUPOS INGRESSOS NO RIO GRANDE DO SUL (1824-1914)

 

alemães

italianos

poloneses

total

1824-1874

24.873

---

---

24.873

1875-1879

2.440

8.579

---

11.019

1880-1884

1.257

8.993

---

10.230

1885-1889

2.159

26.133

---

28.292

1890-1894

6.065

21.591

16.188

52.370

1895-1899

1.648

4.613

2.082

10.437

1900-1904

1.036

2.336

466

5.182

1905-1909

2.068

1.687

6.498

12.893

1910-1914

6.498

2.256

17.308

31.735

1824-1914

48.044

76.168

42.561

187.031

 

Quanto a estes dados convém colocar algumas observações. Em primeiro lugar, como mais de um pesquisador pôde constatar, os registros, principalmente no período imperial, deixavam muito a desejar. Há imigrantes que não foram registrados, enquanto outros, encaminhados para uma colônia, não chegaram até ela e deles não se teve mais notícia. Por incrível que possa parecer, os melhores dados quantitativos existentes referem-se aos alemães ingressos entre 1824 e 1830. Em segundo lugar, os registros de imigrantes italianos iniciam-se em 1875, atendo-se, pelo que se constata, quase que exclusivamente aos desembarcados em Porto Alegre e geralmente encaminhados para as colônias. Ora, os documentos eclesiásticos mostram que desde a década de 1820 havia italianos nos proclamas de casamento ou nos registros de batizado. Além do mais, uma ata da câmara municipal de Porto Alegre, de 1839, queixava-se de que o comércio de carne da cidade estava monopolizado por italianos, em prejuízo dos consumidores. Em 1865, o conde d’Eu, na comitiva do imperador, quando da marcha para Uruguaiana, observava que em Livramento, uma localidade de 2 mil habitantes, a metade dos moradores não era brasileira, sendo uruguaios, argentinos e europeus, destacando-se entre estes os italianos. Já em 1871, fundava-se em Bagé a Società Italiana di Soccorso Mutuo e Beneficenza e, em 1877, criava-se na mesma localidade uma agência consular para atender a região de fronteira Brasil-Uruguai. Em Rio Grande, o porto marítimo da Província, em 1867 havia uma agência consular italiana (elevada a consulado em 1871) através da qual 406 peninsulares enviaram abaixo-assinado a D. Pedro II, felicitando-o pela promulgação de uma lei abolicionista. Em 1873, foi fundada em Pelotas a Società Italiana Unione e Filantropia. Em Santa Vitória do Palmar, havia italianos radicados desde a década de 60. Estes elementos apontam para a necessidade de se levar em consideração o fato de que muitos indivíduos, desembarcados em Rio Grande, não foram registrados na capital da Província e, mais ainda, para o fato de que a fronteira sul e oeste da província, com o Uruguai e a Argentina, respectivamente, foi o caminho de ingresso no Brasil de milhares de italianos, não computados nas estatísticas oficiais. Estes dois casos, que ainda esperam por melhores pesquisas, devem responder seguramente por mais de 10 mil ingressos. Pode-se supor que levantamentos completos venham a constatar que cerca de 100 mil italianos entraram no Rio Grande do Sul.

Quanto à proveniência regional, como o período da grande emigração para o Rio Grande do Sul coincidiu com a crise sócio-econômica do norte da Itália, a grande maioria dos imigrantes provinha do norte da Itália. Do sul vieram cerca de 15% do total, com destaque especial para Morano Calabro, na província de Cosenza: há mais moraneses e filhos de moraneses residindo em Porto Alegre que na própria Morano. Já a imigração agrícola, responsável por cerca de ¾ do total, provém de províncias italianas não distantes entre si. No Vêneto, as províncias mistas de Vicenza, Treviso e Verona e a montanhosa de Beluno. Na Lombardia, Cremona, Mantova, parte de Bréscia e Bérgamo; Trento no Trentino-Alto Ádige, e Friuli, em Friuli-Venécia Giulia. Levantamentos de V. Frosi e C. Mioranza (p. 36) indicam as seguintes proporções entre os imigrantes italianos agricultores: do Vêneto, 54%; da Lombardia, 33%; de Trento, 7%; do Friuli, 4,5%; outros, 1,5%.

 

A ocupação do solo - A pessoa dos ocupantes

 

Ao contrário da Itália, onde a grande maioria dos agricultores vivia em pequenos vilarejos, indo ao campo durante o dia e voltando para casa à noite, o sistema de ocupação do solo no Brasil colocava as famílias relativamente distantes umas das outras. O governo, aproveitando-se da experiência acumulada, principalmente com a colonização alemã, desenvolverá todo um sistema de repartição das glebas de terra, consubstanciado na lei de 1850 e sua posterior regulamentação. Por ele, previa-se não só o tamanho, mas também a direção que os lotes rurais deveriam ter. A colônia era basicamente dividida em travessões ou linhas: uma estrada em linha reta, com alguns quilômetros de comprimento. Ao longo do travessão ficavam os lotes rurais, com uma largura de cerca de 250 metros, por 1.000 metros de comprimento, fazendo fundos com os lotes de um outro travessão. Próximo à estrada era construída a residência do colono, a qual, em média, distava cerca de 300 metros da do vizinho.

O tamanho do lote variava devido a fortes declives do solo, existência ou não de fontes de água, ou até mesmo maior ou menor proximidade do núcleo urbano. O tamanho médio era de 25 hectares, havendo alguns com somente 15, outros com até 35 hectares. Mas era possível adquirir somente meio lote, ou mesmo um quarto ou um oitavo. Pr pobreza, por medo de não conseguir quitar, ou por julgar que adquiria terra suficiente, muito colono não adquiriu um lote inteiro. O preço também variava, devido à posição, as aguadas ou a proximidade da vila, ou mesmo o arbítrio de funcionários corruptos. O traçado da colônia previa já o local para uma ou mais vilas. Nestas, as ruas eram demarcadas em linha reta, com transversais cortando-as perpendicularmente. Lá residiam a administração da colônia, os poucos luso-brasileiros da região e os italianos que desejam exercer outra profissão que não a de agricultor.

O interesse do poder público, ao procurar imigrantes para o Rio Grande do Sul, voltava-se para os agricultores. E, da parte dos que partiam da Itália, a declaração de profissão era quase sempre a de agricultor, embora entre a declaração e a realidade mediasse por vezes uma diferença. Inúmeros indivíduos diziam-se agricultores para serem aceitos mais facilmente, mas rumavam para o Brasil com intenção de exercer outra profissão. Da parte do governo, aliás, havia preocupação em contar com cerca de 10% de artesãos entre os que aportavam, a fim de possibilitar o sistema de produção da colônia.

Os recém-chegados, como em todos os grupos emigratórios, eram pessoas relativamente jovens. Dados levantados por L. S. Giron (p. 35) indicam que, entre os adultos da colônia Caxias, 2/3 dos homens contava entre 20 e 45 anos; e das mulheres, entre 20 e 40 anos. O grupo vinha constituído basicamente por famílias, distinguindo-se nisto de diversas outras imigrações, como a de São Paulo no final do século. Havia viúvos trazendo os filhos, havia casados que deixaram a família na pátria, para mandá-la vir posteriormente, havia solteiros viajando com a família de parentes. Mais de 85% dos homens adultos, porém, eram casados. Casais há pouco constituídos tinham, pois, um número relativamente pequeno de filhos: pouco mais de 2 por família. No passar dos anos, porém, tornaram-se numerosos os filhos, tendo-se tornado célebres as taxas de fecundidade da colônia italiana gaúcha. Estudo de Rovílio Costa (1996, p. 255s), comparando a idade de casamento e o número de filhos por família, em municípios da Província de Belluno – Fonzaso, Arsiè, Arten e Fastro, com dados da colônia Dona Isabel, para onde emigraram muitas pessoas destas localidades, constataram que a média de idade, na época do casamento, na Itália, era de 26,17 anos para os homens e de 23,06 para as mulheres; já no Brasil a média baixava a 24,44 para os homens e 19,65 para as mulheres. Assim, a média italiana de 8,25 filhos por família, contra a média brasileira de 10,81, encontraria explicação não no aumento da taxa de fertilidade, mas nos cerca de 30 meses de antecipação do casamento por parte das imigrantes brasileiras.

A religião como fator de unificação cultural

Os italianos eram católicos na quase totalidade. Na Itália, praticavam uma religião de cunho agrário, adaptada portanto ao mundo em que viviam, com muitas festas, paramentos vistosos, cantos, orações em latim, fogos de artifício, prédicas solenes e freqüência aos sacramentos, com santos, sinos, velas e procissões. No bojo desta fé, a moral exaltava, entre outras virtudes, o trabalho como forma de ganhar o pão, a paciência no sofrimento, o respeito ao alheio, a palavra empenhada, a castidade e o amor ao próximo. Guarda destes preceitos era o sacerdote que, através do confessionário, exercia forte controle sobre o grupo.

Na floresta, porém, não havia igreja, nem padre, como também não havia traços de cultura. O associativismo do imigrante haveria de criar um novo mundo cultural, através da reconstrução do mundo religioso. Não foi algo tirado do nada, mas também não foi a simples transposição do que se fazia na Itália: transformaram-se e adaptaram-se valores e modos de viver.

Se as devoções individuais e familiares permaneciam inalteradas, e em casa, todas as noites, rezava-se ‘la corona’, no domingo percebia-se a distância entre o mundo que ficara no além-mar e o que se encontrava na América. O dia do traje domingueiro, do encontro com amigos, da missa solene, do trago no boteco, das conversas entre as vizinhas e dos namoros transformava-se em dia de pungente saudade. Para esquecê-la, e ao mesmo tempo mantê-la viva, visitava-se o vizinho, contavam-se histórias, comentavam-se as poucas notícias recebidas e rezava-se ante uma quadro ou estátua trazida da pátria. Não demorou e aventou-se a idéia da construção de uma pequena igreja. Às vezes, surgiam divisões e querelas na hora de escolher o local da construção, o material a ser usado (se madeira, tijolo ou pedra), ou o santo padroeiro. E quando não se chegava a um acordo, mesmo que colocando 2 ou 3 padroeiros, acaba-se por construir mais de uma capela no mesmo travessão. Se ainda não existisse um cemitério, era ele erigido junto ao templo. Pouco depois, surgiriam o campanile e o salão de festas. Dentro da capela, por vezes, funcionava a rudimentar escola. A união do grupo possibilitava progressivas melhoras, a compra de alfaias sagradas, de bancos, dos sinos etc.

A administração e a preparação das festas cabiam aos fabriqueiros, escolhidos pela comunidade.

O culto comunitário, na falta de padre, tomava características leigas, pois o terço dominical era puxado por um leigo, também escolhido pelo grupo, a catequese era ministrada por alguém mais instruído, o cerimonial da semana santa e de funerais era presidido por quem já tivesse alguma experiência como cantor ou sacristão na Itália. Ao líder religioso, que também preparava as pessoas no momento da morte, levando-as às reconciliação com os familiares e vizinhos e à disposição testamentária dos bens, cabia dar o aconselhamento correspondente ao que faria o sacerdote através do sacramento da confissão. Os colonos chamavam-no de nostro prete, ou prete de scapoera. Não raro, em caso de desavença com o sacerdote que vez por outra vinha da vila, os colonos não duvidaram em apelar ao bispo, dizendo que preferiam el nostro prete, àquele que o bispo enviara.

Fenômeno típico, nesta intensidade, da imigração italiana, a capela não significou apenas o local de culto. Num modelo de organização espontânea, ela tornou-se o centro social do travessão, e acabou mesmo por substituí-lo como ponto de referência. Organizada pelos colonos e dirigida por eles, diferia tanto da igreja do antigo Brasil colonial, que era propriedade do senhor da terra da mesma maneira que o engenho de açúcar e as casas dos trabalhadores, como também diferia da igreja paroquial, manda construir pelo bispo e dirigida por um padre por ele nomeado. Ainda hoje, a diocese de Caxias do Sul possui a zona rural organizada em capelas, num total de cerca de 650.

A mesma comunidade que construíra a capela e organizara o serviço religioso, escolhia também a autoridade civil e social, o chamado capo-linea, o chefe do travessão. Cabia-lhe conciliar possíveis desentendimentos, conflitos de terras, queixas por causa de invasão da plantação por parte de animais do vizinho, ou do fogo que passara de um roçado para outro, etc. Se o nostro prete devia ser uma pessoa piedosa, dada à oração e conhecedora dos problemas da religião, esperava-se do capo-linea que fosse alguém com liderança, objetividade e de temperamento conciliador.

Ele procurava fazer com que os conflitos fossem resolvidos o quanto antes, pois duas famílias desentendidas poderiam prejudicar o andamento e o bom nome da comunidade. E era criticado quem apelasse para o juiz, o delegado, a polícia ou o prefeito, em vez de resolver o conflito no local. A exceção era o apelo ao padre, em quem se respeitava uma autoridade quase divina. Tanto na zona rural como na urbana os casos mais difíceis eram levados até ele e sua palavra era definitiva. Alguns sacerdotes, que por muitos anos atuaram em uma comunidade (muitos deles vindos da Itália), são recordados até hoje por sua piedade, seus ditos jocosos, a sabedoria de vida e até mesmo pela habilidade política, capaz de dar razão às duas partes.

A religião do colono se, por um lado, radicava-se em profunda piedade interior, por outro mantinha-se, como na pátria, presa a coisas exteriores: velas, fogos, cantos, cerimônias e também imagens de santos. Os lindos altares de além-mar estavam repletos de estátuas, muitas delas tidas como milagrosas Lá estava a Madona, sob diversas invocações; lá se encontravam os santos, cada um deles especialista em atender alguma necessidade humana. Santo Antônio, o casamenteiro e clínico geral; San Piero, o primeiro papa e patrono da autoridade eclesiástica; Santa Lúcia, virgem e mártir, médica dos olhos; Santa Rira de Cássia, a das coisas impossíveis; San Giusepe, padroeiro do trabalho. E vinham os santos dos vilarejos locais: San Vigilio, Santos Vittore e Corona, Santo Isidoro, Santo Omobon. Havia também anjos; enfim, um exército de intercessores ante Deus. Uns podiam mais, outros menos, e houve mesmo o ocaso da reconstrução de uma capela, destruída pelo vendaval, quando um colono propôs que se trocasse o patrono, "parché quel li no l’è stà gnanca bon de tender la so cesa."

Algumas estátuas vieram da Itália, mas eram poucas. Foi preciso recorrer à habilidade do artesão, capaz de esculpir na madeira as imagens da devoção do povo. Também houve artistas que vieram da Itália, como Tarquínio Zambelli, que marcou época em Caxias. No mais das vezes, porém, o escultor era um santaro, um agricultor mais ou menos habilidoso, mas sem grandes conhecimentos de teoria artística. Havia estátuas completas, mas havia também as que possuíam somente cabeça e mãos, ficando o resto do corpo por conta de uma armação de madeira ou de arame, recoberta de tecido. Os rostos dos santos não diferiam muito entre si, mas pelas vestes e outras características adivinhava-se de quem se tratava: um frade sem barbas, com o menino Jesus no colo era Santo Antônio; um velho barbudo com um molho de chaves era São Pedro; um pobre com uma ferida na perna e um cachorrinho, São Roque; um outro, com um porquinho ao lado, Santo Antão; uma senhora, perto de uma roda de moinho, Santa Catarina. Podia-se também, por segurança, escrever o nome no pedestal. Na singeleza destes trabalhos, seguido escondiam-se verdadeiras vocações de artistas.

A língua e a escola

Poucos imigrantes conheciam a língua oficial da Itália, na qual jamais se expressaram. Não seria no Brasil que haveriam de dar-se ao luxo de aprender o italiano gramatical, eles que se tornaram italianos ao deixar a pátria, pois nela identificavam-se como beluneses, veroneses, vicentinos, bergamascos..., jamais como italianos.

A convivência entre imigrantes de várias proveniências, numa situação de isolamento, com as poucas escolas fundadas por eles próprios, onde se ensinava mais dialeto que italiano ou português, com pregações religiosas em italiana, com autoridades brasileiras que, seguido, procuravam expressar-se na língua deles: tudo isto levou a um processo de fusão entre os diversos dialetos, criando-se uma língua comum, à qual acrescentaram-se palavras de proveniência portuguesa. Trata-se de um dialeto novo, semelhante, mas não idêntico aos dialetos vênetos, e que seguiu uma evolução própria, à medida em que estancou-se a vinda de novos imigrantes e a comunicação com a Itália. No decorrer dos anos, enquanto italiano oficial perdia ainda mais a importância no ensino e na pregação, o dialeto ia ocupando novos espaços, tornando-se a língua franca, na qual redigiam-se jornais, pregava-se e negociava-se.

A situação de insularidade e a relativa auto-suficiência das colônias favoreceram a sobrevivência da língua geral, só atingida quando da campanha de nacionalização das escolas e da proibição de expressar-se em línguas estrangeiras, por volta de 1940. Mesmo assim, nas zonas rurais, ela é a língua habitual de comunicação, principalmente entre os mais velhos, e onde quer que haja descendentes de colonos italianos gaúchos, de Santa Catarina até a Amazônia, fala-se, canta-se e, por vezes, também se blasfema em dialeto.

Em 1924, o jornal Stafetta Riograndense, hoje Correio Riograndense, o grande jornal da colônia, iniciava a publicação, em dialeto, de uma série de estórias, da autoria do frade Aquiles Bernardi, tendo como principal personagem a figura que deu nome à obra: Nanetto Pipetta. O sucesso foi imediato, como se pôde constatar pelo rápido aumento do número de assinantes do periódico. Mudando a direção, porém, esta solicitou ao autor que "desse os santos óleos a Nanetto", pois desejava publicar um texto mais sério: Robinson Crusoé, em italiano gramatical. Mas os leitores jamais se esqueceram de Nanetto, um herói desajeitado e sem sorte, em quem viam a si mesmos nas peripécias da viagem pelo mar e da adaptação a uma nova pátria. Por insistência deles lançou-se, em 1937, o livro Vita e stòria de Nanetto Pipetta, nassuo in Itàlia e vegnudo in Mèrica per catare la cucagna. Em 1975, a quarta edição comemorou o centenário da imigração italiana no Estado. Em 1990, publicou-se a 9ª edição desta obra, considerada pela crítica como o melhor e mais importante texto da imigração italiana.

O mesmo jornal publicou também o seriado Togno Brusafrati, de Ricardo D. Liberali, e, anos mais tarde, Stòria de Nino, de Aquiles Bernardi. Após 1975, reavivou-se o interesse pela história regional e pelo dialeto. Dentre as inúmeras obras citadas, cabe mencionar Poemas de um imigrante italiano, de Ângelo Giusti, um colono que conheceu os primórdios da vida em a nova terra, e Os pesos e as medidas, num dialeto de cunho urbano, da autoria de Ítalo Balen, seguramente o maior poeta dialetal da colônia italiana.

Hoje, se, por um lado, os meios de comunicação e a universalização do ensino em língua portuguesa fazem com que a jovem geração tenha dificuldade em falar o dialeto, por outro, vê-se um novo interesse por esta língua. Colunas de jornais, programas radiofônicos, teatro e mesmo a missa em dialeto, além do ensino em algumas escolas, mostram a pujança de uma língua que, orgulhosa, se apresenta em adesivos de automóveis, onde se lê: Mi son talian, gràssie a Dio.

Em algumas pequenas localidades, tiveram que imparar a balar coi orsi, pois em caso contrário não se fariam compreender. Em Serafina Corrêa realiza-se mesmo, todos os anos, a semana do município, quando a língua oficial é o dialeto até para os atos da administração pública.’

A escola vem logo à mente, quando o assunto é a língua falada por um grupo. Pois bem, o grupo de imigrantes teve um conceito bem definido de educação formal. É fácil encontrar afirmações que apontam o italiano como contrário à escola, considerada menos importante que o trabalho. Em realidade, o que ele não admitia era uma escola que impedisse o trabalho, ou afastasse dele, sobretudo no tempo da plantação e da colheita, ou uma escola que não se voltasse para a vida, que não fosse centrada no trinômio: ler, escrever e contar, três elementos necessários à comunicação e à gerência dos próprios negócios.

O estudo devia responder às exigências do trabalho, e a muitos parecia mesmo que os filhos, com pouco estudo, já haviam aprendido o suficiente para a vida, principalmente quando o pai, quase analfabeto, olhava o quanto conseguira acumular. Um estudo meramente teórico carecia de sentido. "Mi son omo de pràtica e nò de gramàtica", diziam tanto o agricultor, como o comerciante e o artesão. Também o apego excessivo ao estudo não passava pela cabeça de rudes trabalhadores, que aconselhavam os filhos: "Basta de libri desso, che non te magni mia libri sta sera." Talveaz o caso mais significativo do pragmatismo do italiano perante a escola seja o contado pelo missionário capuchinho Bernardino d’Apremont. Devido à insistência do frade, um colono resolveu matricular os dois filhos na escola, mas fez a seguinte proposta: pagaria apenas uma matrícula e os filhos se alternariam, indo à escola um dia um, e outro dia outro. Deste modo, ele economizaria dinheiro, os dois aprenderiam a ler, escrever e contar, e um deles estaria sempre em casa para auxiliar na plantação.

Mesmo assim, foi relativamente grande o número de escolas construídas pelos imigrantes ou pelas autoridades. Se a colônia alemã contou com um sistema escolar melhor que o da italiana, esta, contudo, superou em muito a zona luso-brasileira. Eram geralmente escolas de um só professor. O mestre, algumas vezes, era um indivíduo adoentado, que não podia trabalhar na roça como os outros; algumas vezes tratava-se de alguém que, na Itália, freqüentara a aula por mais tempo. Em algumas escolas públicas, o professor só falava o português, e não conseguia comunicar-se com os alunos, que facilmente abandonavam a classe. Noutras, o curso era trilíngüe: o professor dispunha de um manual em italiano, do qual traduzia para o português e depois, para esclarecer melhor, para o dialeto. Assim o aluno ficava sabendo que para pioggia os brasileiros diziam chuva, que nada mais era, de fato, que la piova.

 

O projeto de vida

 

O abandono governamental dos primeiros tempos, dentro de tudo o que tinha de negativo, foi, contudo, uma das razões da manutenção da identidade italiana e serviu para colocar o imigrante ante um dilema: ou lutava com todas as forças para sobreviver, ou haveria de ser levado de roldão para dureza da vida daqueles primórdios. Desafiado, ele reelaborou um mundo de valores, no qual a propriedade, a parcimônia e o trabalho ocupavam lugares dominantes.

Do fundo da gleba, o imigrante surgia como proprietário rural, deixava de ser o contadino de além-mar. E a terra, para ele, jamais significou um empreendimento financeiro, representando também mais do que um local para trabalhar e viver: ela era o sinal de redenção econômica, de liberdade e de ascensão social. A pátria fora deixada porque nela faltava a perspectiva de poder tornar-se proprietário, tal como, segundo dizia a propaganda, era possível tornar-se no Brasil e como, de fato, estava acontecendo no Rio Grande do Sul. "A minha colônia", "aqui cada um é dono de seu nariz", "sou tão rico como um conde", "aqui, quem quer mandar, deve pagar para tanto" são expressões de colonos que traduzem muito bem o fascínio que alguns hectares de floresta exerceram sobre aquela pobre gente. E quando um jovem pensava em casar, devia inicialmente procurar uma propriedade, na qual pudesse ganhar a vida, pois parecia vergonhoso trabalhar como empregado de alguém, quando existia a possibilidade de ser um agricultor autônomo. Esta mentalidade explica, em parte, a contínua procura por novas terras, onde os indivíduos pudessem ser proprietários, e talvez seja, ainda hoje, um dos fundamentos subjacentes dos movimentos de colonos sem-terra.

Mas a terra nada é sem o trabalho. De pouco teriam valido as peripécias da viagem e a aquisição da gleba, se ela não fosse arroteada. E para tanto era necessário o esforço de quem a adquiria. A terra não era um dom, era uma conquista, e o conquistador o braço do colono, não medindo sacrifícios, ignorando intempéries, labutando de sol a sol (ou melhor, "de estrela a estrela", como alguns preferiam dizer).

O trabalho surgia assim como a fonte da liberdade, como um valor mítico, encerrando em si o segredo da dignidade e da honorabilidade. Representava, de certo modo, o conjunto de todas as virtudes ou, ao menos, era capaz de desculpar alguém por vícios que viesse a ter, como o abuso do álcool, os rompantes de cólera, as blasfêmias e até mesmo , no caso das mulheres, a pouca beleza. Por mais de uma vez foi dito de jovens casadouros que o rapaz era pobre, mas trabalhador, ou que a moça era bonita, mas não sabia fazer nada. Há mesmo quem afirme que a prevenção do italiano contra o negro não estava ligada tanto à cor, mas à pouca importância que este dava ao trabalho. E não era sem uma certa inveja que se dizia de uma família: I laora come orsi, ma i ga de tuto.

Se alguns indivíduos, que não nasceram ricos, conseguiram fortuna através do trabalho, por que se haveria de excluir de antemão a possibilidade de enriquecer por este que parecia ser o único meio legítimo de amealhar fortuna? Naquelas circunstâncias, não há dúvida, muitos adquiriram um razoável padrão de vida e alguns até mesmo conseguiram acumular muitos bens. Os que, partindo do nada, ficaram ricos, transformaram-se em conselheiros e árbitros da população, sendo ouvidos até pelo clero.

Paralela ao trabalho caminhava a parcimônia, o espírito de economia que guardava o frasco vazio, o prego enferrujado, o trapo de roupa; que juntava grãos caídos e economizava os centavos. A vida difícil da Itália educara-os deste modo para poderem sobreviver; não seria a situação mais favorável do Brasil que lhes mudaria os hábitos. Aquilo que o berço não dera, o trabalho e a economia haveriam de conceder-lhes. E nisto o italiano sentia-se diferente do luso-brasileiro, em quem recriminava a generosidade com que gastava o dinheiro e, às vezes, esbanjava a fortuna.

Mas na solidão da floresta o indivíduo sozinho não teria resistido. O apoio mútuo que se desenvolveu dentro do lar cimentou uma notável solidariedade familiar. A família monogâmica, de direito e de fato, trazia sua organização de além-mar, onde também já constituía o núcleo da produção, nos moldes antigos da grande família patriarcal, com muitos filhos, genros, noras e outros parentes. Em solo gaúcho, os filhos, à medida que iam casando, procuravam adquirir a própria colônia, e o último deles é que, costumeiramente, ficava morando com os progenitores e herdando a propriedade, geralmente com indenização aos demais. O pai representava a autoridade maior, aquele que determinava o serviço, administrava os bens, negociava e gerenciava o dinheiro. Cabia à mãe o trabalho do lar, o cuidado dos filhos pequenos, além de acompanhar o marido à roça, sempre que possível. Por vezes ela assumia o comando da família, e então ouviam-se os vizinhos a comentar que la cesa la ze pi alta del campanile.

A longa viagem de navio, as peripécias do caminho e a vida nos travessões, durante os primeiros tempos, criaram novas formas de solidariedade, que iam além da familiar.

O grupo fazia a colheita quando um colono encontrava-se doente; a conservação das estradas vicinais só era possível com a colaboração de todos; por ocasião do primeiro falecimento, um acordo entre os vizinhos estabelecia o local do cemitério. Sem ter a quem apelar, sem dispor de modelos prontos, o grupo teve que encontrar respostas para necessidades culturais, religiosas, esportivas e administrativas, teve que escolher seus líderes e conferir-lhes poderes de gestão da coisas comum.

 

A medicina quando não havia médico

 

Nos primórdios, as distâncias, devido às péssimas vias de comunicação, eram enormes e os recursos, parcos. Faltavam hospitais. Quase não havia médicos. Desses, alguns deixaram nome por sua competência e deicação; outros, nem tanto. Muitos eram meros charlatães, responsáveis por ditos como: sbàglio del dotor, volontà de Dio; ou sbàglio del dotor el cemitero paga.

Nesta situação desenvolveu-se uma medicina doméstica baseada nos costumes trazidos, nas tradições das populações nativas e nas experiências que se iam fazendo dentro de uma nova realidade. Pertenciam a esta medicina o uso de plantas nativas, dentro de um receituário no qual todo tipo de doença era contemplado e que incluía também compressas, banhos, cataplasmas, clister e purgantes.

Três profissões foram importantes no atendimento à saúde: a parteira, o giusta-ossi e a benzedeira. A parteira, com a prática acumulada pelos anos, era pessoa indispensável no meio de famílias tão numerosas. Não se considerava o parto, mesmo nas vilas e cidades, como caso a ser assistido pelo médico. Cabia a ela orientar a futura mãe durante a gravidez e assisti-la quando do nascimento da criança. Técnicas transmitidas por gerações, incluindo medidas de higiene,, a prática constante e a dedicação ao ofício explicam porque eram raros os casos de óbito da mãe ou do filho, quando dos trabalhos de parto.

Uma figura que sobrevive ao tempo e à própria medicina formal é a do giusta-ossi. Era uma tradição na Itália, passando de pai para filho. Pessoas eminentemente práticas recompunham fraturas, curavam luxações e torsões, usando apenas o tato e cuidados naturais. Uma apelavam para a força e via-se então o pobre paciente, com a perna quebrada, tomando uma garrafa de cachaça e sendo depois segurado por uns três ou quatro vizinhos, enquanto o giusta-ossi lhe recompunha o membro. Outros, trabalhando com água morna e massagens, atuavam de modo bem menos doloroso. Em muitas localidades seu trabalho era reconhecido pelos próprios médicos. Ainda hoje, estes práticos possuem sua clientela e, para muitos, em caso de fratura, vale mais a ciência deles que a dos médicos.

 

Da agricultura à indústria

Os imigrantes italianos do Rio Grande do Sul foram procurados na Europa com a finalidade específica de serem produtores agrícolas em pequenas propriedades policultoras. Não interessa ao governo vê-los como criadores de gado - que era a atividade dominante das grandes fazendas do sul -, nem como monocultores de produtos que o sudeste ou o nordeste do país produziam à fartura e exportavam para todo o mundo, como café e açúcar. A função deles deveria ser complementar, produzindo para o consumo interno do país. E assim aconteceu: em poucos anos, onde antes era floresta virgem, cresciam agora as plantações. Cônsules, fiscais do governo ou visitantes, todos encantavam-se com o sucesso da agricultura dos colonos. Pascoale Corte, reggio console, em documento elaborado para a exposição de Turim, apresentava em 1884 a seguinte estatística:

PRODUÇÃO AGRO-PECUÁRIA DAS COLÕNIAS EM 1884*

 

habitantes

eqüinos

bovinos

suínos

trigo

feijão

milho

vinho

Caxias

12.540

10.700

3.500

12.000

1.200

1.600

3.200

2.900

D. Isabel

8.339

11.700

3.800

12.000

1.445

1.736

3.011

2.795

C. d’Eu

6.036

1.732

701

8.422

794

1.608

3.556

2.759

S. Martins

6.001

2.000

1.000

10.000

1.200

1.600

3.200

2.900

TOTAL

32.916

26.132

9.001

42.422

4.639

6.534

12.967

11.354

* animais em unidades, cereais em toneladas, vinho em litros.

Em suas lavouras, portanto, o colono visava a obter gêneros necessários para a família, e só depois de satisfeitas as necessidades de consumo caseiro é que se dispunha a colocar no mercado os excedentes que, por sua vez, serviam para suprir as necessidades do mercado regional e nacional, mas não para obter divisas através da exportação. Surgiu assim um mercado interno, acessível aos pequenos proprietários.

O sistema de cultivo, imitando nisto a colonização alemã, que por sua vez aprende muito até mesmo dos indígenas, era o da derrubada e queimada da mata, adotando-se depois o rodízio de culturas, de tal modo que uma parte da propriedade sempre ‘descansasse’, recobrindo-se de capoeiras que, posteriormente seriam cortadas, repetindo-se a queimada. A técnica, embora primitiva, e embora representasse um recuo ante o que se praticava na Europa, era a única possível no momento, e o solo da mata virgem, nos primeiros tempos, correspondia com férteis colheitas.

Produtos característicos da colônia italiana fora o trigo, o vinho e o milho. Nenhum deles foi introduzido pelo imigrante peninsular, pois o Rio Grande do Sul já os cultivava desde os tempos das reduções jesuíticas, embora não em tais escalas.

O trigo fora semeado abundamentemente pelos açorianos, e no início do século XIX a província o exportava para o resto do país e até para o exterior. Quando a ferrugem o atingiu, os agricultores, em pouco tempo desinteressaram-se pela sua cultura e, anos depois, o Rio Grande do Sul voltava a importar o preciso cereal. O empenho em fazer com que o trigo voltasse a ser cultivado no Estado demorou muitos até para obter resultados satisfatórios, quer pelo pouco interesse das autoridades, quer pela falta de técnica e de boas sementes. Foi na região de imigração italiana que o plantio acabou por triunfar. Em 1909, a produção era de 15.250 toneladas subindo para 110 mil em 1923 e para 248 mil em 1948. Depois, a introdução de máquinas na lavoura fez com que o centro produtor, desde a década de 50, passasse da região montanhosa da Serra para as terras onduladas do Planalto e das Missões, elevando a área cultiva no estado, de 120 mil hectares em 1920, para 5 milhões em 1950 e para 14,6 milhões em 1970. Hoje, a colônia italiana responde por 2% do total da produção.

O milho foi matéria-prima para a polenta, o prato mais conhecido dos imigrantes. Foi cultivado desde cedo, pois era o responsável, ao mesmo tempo, pela criação de suínos, graças aos quais os colonos sempre contaram, não só com a banha, mas também com as mais diferentes espécies de salames e presuntos. A produção atual da zona de imigração eqüivale a cerca de 20% do total do estado. Inúmeros frigoríficos, voltados para a industrialização de produtos suínos, surgiram e ainda operam na região, na qual, porém, a criação e abate de galinhas tornou-se a principal atividade.

O que, porém, mais caracterizou a imigração italiana foi o cultivo da uva e do vinho. As experiências no Rio Grande do Sul, , até 1875, não haviam sido das mais expressivas, e o produto era de qualidade inferior. Pouco antes da Guerra dos Farrapos (1835-1845), foram introduzidas na província espécies americanas, entre as quais a Isabel. Os colonos italianos, desde o início, cultivaram seus parreirais, não se preocupando muito com a qualidade. O interesse do estado e a procura do comércio, em inícios do século, fez com que fossem importados balecos de diferentes espécies, ao mesmo tempo em que eram fundados institutos de enologia e os colonos, para superarem as dificuldades comuns, fundavam cooperativas vinícolas. Com isso a produção foi crescendo e melhorando. Em 1920 eram cultivados 11.380 hectares, 25.523 em 1950 e 47.682 em 1970. A produção de vinho no estado é hoje de cerca de 200 milhões de litros, provindo quase toda ela da zona de colonização italiana, na qual cerca de 80 mil pessoas dedicam-se à vitivinicultura. A entrada de firmas multinacionais e a abertura para a Argentina e o Chile atingiram os produtores, mas a melhora nos preços internos volta a trazer esperanças para o setor. Cerca de 80% de toda a produção brasileira de vinho provém da colônia italiana gaúcha. A festa da uva de Caxias do Sul é a maior festa agrícola do país. Também as outras cidades da imigração fazem suas festas da uva e do vinho com grande sucesso turístico.

No decorrer dos tempos, porém, houve uma transformação radical na colônia italiana, que de agrícola transformou-se em industrial. ilhados, com poucos recursos, em uma região de difícil acesso, num país de poucas indústrias, os italianos - tal como já o haviam feito os alemães - valeram-se de habilidades artesanais a fim de suprir boa parte de suas necessidades.

Durante os meses de inverno, no Velho Mundo, quando era impossível praticar a agricultura, boa parte do tempo era dedicada à confecção de utensílios e instrumentos. Estas técnicas, mesmo que rudimentares, tornaram-se depois de grande valia.

Houve um surto geral de artesanato, tanto nas vilas, quanto na zona rural, desde os primórdios. Assim, já em 1884, conforme L. S. Giron (p. 33) na Colônia Caxias, havia a seguinte relação de ofícios e profissões: negociantes, 25; tropeiros, 6; professores, 5; padeiros, 4; oleiros, 2; santeiros, 1; músicos, 3; pintores, 3; amolador, 1; farmacêuticos, 2; moleiros, 1; açougueiros, 3; relojoeiros, 1; engenehrios, 1; sapateiros, 8; carroceiros, 2; hoteleiros, 6; fabricantes, 6; ferreiros, 5.

Um ano antes, visitando Conde d’Eu, o cônsul Enrico Perrod constatava que a localidade contava com forte indústria agrícola, assim discriminada: 3 olarias, 20 moinhos de água, 1 serraria a vapor, 4 serrarias a água, 2 fábricas de cerveja, 12 casas de comércio, 2 ferreiros, 2 sapateiros, 2 alfaiates, 2 carpinteiros. Entrementes, em Dona Isabel havia 40 casas de comércio, 3 ferreiros, 1 açougueiro, 1 hoteleiro, 4 sapateiros, 2 alfaiates, 4 fábricas de licores, 4 fábricas de cerveja, 1 marcenaria, 4 olarias, 1 fábrica de cerâmica, 1 curtume, 60 moinhos hidráulicos, 1 serraria a água, 1 moenda de cana.

Esta economia familiar, que haveria de crescer ainda mais durante diversos, começou a definhar, à medida em que a economia do colono se inseria na economia de mercado e o artesanato colonial passava a ser substituído por produtos oferecidos pelos comerciantes. As casas de comércio adquiriam uma importância cada vez maior. Nelas, conhecidas como casas de negócio, organizou-se um sistema que, em seu conjunto, desempenhava as funções hoje atribuídas ao super-mercado, ao banco, à transportadora e à manufaturadora de produtos primários. Lá o colono encontrava tudo o que necessitava, e a ela entregava os próprios produtos, já que as dificuldades de transporte impediam-no de levá-los diretamente aos centros consumidores. Nos livros de contabilidade do comerciante havia uma página para cada freguês, anotando-se, como crédito, a safra que fora entregue, e como débito, as compras que iam sendo feitas no decorrer do ano. O colono confiava ao comerciante até mesmo suas economias em dinheiro e este, de sua parte, fazia pagamentos a terceiros em nome do colono. Muitas casas de comércio dispunham de aparelhagem para moer o trigo e o milho, para o abate de suínos e para a preparação do vinho.

À medida em que os negociantes foram enriquecendo, graças ao acúmulo de capital obtido através das transações comercias, foram também investindo parte de seus lucros em alguns ramos da indústria, principalmente em empreendimentos vinícolas, madeireiros, tritícolas e de produtos suínos. Suas firmas concentravam-se, sempre mais, em áreas urbanas.

Paralelamente, um antigo artesanato urbano evoluiu e foi-se adaptando a novas situações. Algumas indústrias moageiras e vinícolas, bem como boa parte da indústria metal-mecânica, parecem provir mais do artesanato que do comércio. A indústria metal-mecânica se, de início, trabalhou sob encomenda, ou variando a produção conforme as estações, consolidou-se depois, durante as duas guerras mundiais, devido às dificuldades de importações.

O processo de aceleramento da industrialização no Brasil, a partir do governo Kubistchek, atingiu favoravelmente a zona colonial italiana, onde o número de fábricas, algumas de grande porte, é, proporcionalmente, dois mais elevados do país. Se, durante as décadas de 40 a 50 a região colonial abriu-se para o Brasil, constata-se que depois, principalmente após 1980, houve uma abertura para o mundo.

Se cabe indicar indivíduos nesta história

 

Embora sejamos adeptos de uma história de heróis anônimos, por julgá-la escrita primeiramente pelo conjunto do povo, permitimo-nos contudo, feita esta ressalva, apontar alguns nomes que se destacaram. Sabemos que é tarefa difícil, e que cada autor indicaria nomes diferentes. Sabemos também que por este caminho surgem facilmente os melindres, mas, desculpando-nos de antemão por eventuais injustiças, citamos aqueles que nos surgiram à mente, e nos pareceram significativos na respectiva área.

Na literatura, além dos já mencionados Aquiles Bernardi, de Caxias, descendente de trevisanos; Ítalo Balen, de Caxias, de antepassados de Feltre-BL; e Ângelo Giusti, bellunês, residente no travessão Rondelli de Nova Trento; Nicolau Lucian, de Tonadico-TN; Fidélis Dalcin Barbosa (Fidêncio Giocondo Dalcin), descendente de trevisanos de Sarmede; Mário Gardelin, de Caxias do Sul, descendente de belluneses de Arsié; Júlio Posenato, descendente de veroneses de Costalunga; Loraine Slomp (descendente de trentinos de Mattarello) Giron (descendente de vicentinos de Sovizzo); Ricardo Domingos Liberali, descendente de trevisanos de Villorba; Luis Alberto De Boni, descendente de bellunese de Cesiomaggiore; Rovílio Costa, descendente de cremoneses de San Martino nel Lago; Ciro Mioranza, descendente de belluneses de Sospoirollo; Vitalina Maria Frosi, descendente de milaneses; Cleodes Piazza Júlio Ribeiro, descendente de cremoneses; Darcy Loss (descendente de trentinos de Canale San Bovo) Luzzatto (descendente de belluneses de Mel); Arlindo Itacir Battistel, descendente de belluneses de Fastro; Silvino Santin, descendente de friulanos de Caneva; Olívio Manfroi, descendente de belluneses; Itálico José Marcon, descendente de trevisanos de Santa Lucia di Piave; Júlio Posenato, descendente de veroneses de Costalunga, Monteforte d’Alpone; Balduíno Andreola, descendente de trevisanos de Valmareno, Follina; Antônio Suliani, descendente de mantovanos de Gonzaga; Antônio Baggio descendente de de padovanos de Cittadella; Moacir Pedro Molon, descendente de vicentinos de Arzignano...

Mansueto Bernardi, natural de Pagnano, Asolo-TV. Entre os cargos públicos que xerceu, foi prefeito de São Leopoldo e de diretor da Casa do Moeda, no Rio de Janeiro. Como diretor cultural da Livraria do Globo, em Porto Alegre, coordenou um grupo de tradutores para lançar no Brasil as principais obras da literatura universal. Literato e historiador, legou algumas das melhores poesias sobre a imigração e sobre Francisco de Assis, e estudos sobre as reduções jesuíticas e a presença de italianos na Guerra dos Farrapos.

José Bertaso nasceu em Verona em 1878, veio para o Brasil em 1883. Aos 12 anos, para poder estudar, foi trabalhar como servente numa loja de livros e papéis. Com os anos, acabou sendo dono da loja, que transformou na Editora do Globo, a qual, durante algumas décadas foi a mais importante lançadora de títulos de literatura estrangeira no Brasil.

Oscar Bertoldo, sacerdote, natural de Nova Roma do Sul, descendente de vicentinos, poeta do mais alto nível, deixou uma obra quase inédita, ao ser assaltado e morto por três criminosos.

Armindo Trevisan, descendente de vicentinos de Pianezze, professor, poeta e escritor. Tem poemas traduzidos ao italiano.

José Clemente Pozenato, descendente de veroneses de Roncà, professor, é autor, entre outros, de O quatrilho, sobre a qual foi feito o filme do mesmo nome.

Cabe, enfim, recordar que Luis Fernando Veríssimo, talvez o mais lido cronista brasileiro da atualidade, é filho de dona Mafalda Volpi Veríssimo. O pai de dona Mafalda era salerniano de Perdifumo.

Na política, três governadores do RS eram oriundi. Ildo Meneghetti, filho de trevisanos de Castelfranco Veneto, engenheiro, foi prefeito de Porto Alegre, governador do Estado de 1954-7, reeleito para o período 1962-5.

Euclides Triches, descendente de belluneses de Santa Giustina, engenheiro militar, foi prefeito de Caxias do Sul, secretário de obras no 1º governo Meneghetti e governador do Estado de 1970-3.

Sinval Duarte Guazzelli, cujos avós vieram de Lucca, foi governador do Estado de 1974-7, diretor do Banco do Brasil e ministro da Agricultura.

Cabe também citar Alberto Pasqualini, nascido em Ivorá-RS a 23-9-1901, descendente de genoveses residentes em Venezia,. Senador, por duas vezes candidato ao governo do RS, foi importante teórico do Partido Trabalhista Brasileiro.

Luiz Alexandre Compagnoni, advogado, jornalista, filho de mantovanos de Ognissanti-MN, foi o idealizador do Monumento ao Imigrante, em Caxias do sul, cujo projeto foi lançado em 1-1-1949, através do jornal semanário Pioneiro (em homenagem aos pioneiros italianos) do qual foi fundador e diretor.

Fernando Ferrari nasceu em 14-6-1921 em São Pedro do Sul, descendente de vicentinos, fundador do Movimento Trabalhista Renovador.

Mario David Andreazza, natural de Caxias, descendente de trevisanos, oficial do exército, foi ministro dos transportes nos governos militares de Costa e Silva, Emílio Médici e João Figueiredo, tornando-se conhecido como ‘tocador de obras’. Em 1984 disputou em seu partido a indicação para presidente da República.

Nelson Marchesan, da quarta colônia, descendente de trevisanos de Castelfranco Veneto, deputado estadual e federal, foi presidente da Câmara. Em 1990, disputou a eleição para governador do RS.

Celeste Vicente Rovani, nascido em Tapejara, descendente de mantovanos, foi presidente do tribunal regional eleitoral.

Raul Pilla, lider parlamentarista, fundador do Partido Libertador, descendente de italianos.

Na vida acadêmica é incontável o número de professores e cientistas de origem italiana. Citamos tão somente o nomes dos reitores: Eliseu Paglioli, médico neurologista, natural de Caxias do Sul, filho de cremonese de Grumello, reitor 9e modernizador) da Universidade Federal do RS de 1952-64, da foi também ministro da Saúde. Foi o modernizador da universidade que dirigiu.

Eduardo Faraco, descendente de italianos, reitor da Universidade Federal do RS, de 1964-8. Médico cardiologista, organizou o Hospital de Clínicas, considerado o melhor do gênero no Brasil, e implantou os cursos de Pós-Graduação.

José Carlos Prates da Fonseca Brasil Milano, nascido em Alegrete, descendente de potenzianos de Tramutola, emigrados inicialmente para Buenos Aires, reitor no período 1968-72, diretor do Instituto de Anatomia, diretor da Faculdade de Medicina, integrante do Conselho Federal da Educação por 12 anos, distinguido com o Mérito Nacional de Educação, integrante da Academia Nacional de Medicina.

Pela primeira vez em sua história, a Universidade Federal conta com uma reitora, a economista Vrana Panizzi, nascida em Passo Fundo, descendente de modenaneses, eleita para o período 1996-2000.

Já a Pontifícia Universidade Católica do RS, atualmente a maior do Estado, teve como principal nome o Irmão Marista José Otão (Giuseppe Stefani), filho de trentinos, À frente da instituição por mais de duas décadas, transformou-a em importante centro de estudo e pesquisa.

Nas artes, além do nome de Tarquínio Zambelli, mantovano de Canneto Sull’Oglio, escultor já mencionado, cabe citar o de Pedro Stangherlin, trevisano, nascido em 1843. Aos 33 anos veio para Caxias do Sul, onde celebrizou-se como escultor. Cabe citar também o nome do escultor Iberê Bassani (descendente de cremoneses) Camargo e do pintor caxiense (foi também deputado e senador da República) Guido Mondin, descendente de vicentinos, pintor, político (várias vezes deputado e senador da República), Aldo Daniele Locattelli, bergamasco de Villa d’Almè, veio ao Brasil a convite de Dom Antônio Zattera, para trabalhar na restauração da pintura da Catedral de Pelotas-RS, onde também fundou a Escola de Belas Artes, transferindo-se, depois para Porto Alegre, onde foi professor da Escola de Belas Artes. Tem obras no Palácio Piratini, no aeroporto Salgado Filho, no saguão da Universidade Federal do RS, em Porto Alegre; na Catedral de Joinville-SC; em Bancos de São Paulo, Brasília e alhures. Onde seu gênio mais se revelou foi na Igreja de São Pelegrino, em Caxias do Sul-RS, cuja via-sacra ele próprio considera sua obra prima. Faleceu em Porto Alegre a 3-9-1962, com 47 anos, deixando a esposa Mercedes e dois filhos, nascidos no Brasil. Ao nome de Locattelli está ligado o nome do Pe. Eugênio Giordani, filho de trentinos de Pedersano, idealizador e construtor da Igreja São Pelegrino, que, além das pinturas de Locattelli, destacando-se a via-sacra e o juízo final, abriga a réplica da Pietà e os portais de Murer, retratando a epopéia imigrantista italiana.

Nos esportes destacam-seCláudio Taffarel, descendente de trevisanos, chegados em Alfredo Chaves; Carlos Caetano Bledore Verri, conhecido como Dunga, de Ijuí, descendente de milaneses emigrados inicialmente para São Paulo. Taffarel e Dunga foram campeões mundiais em 1994.

Foi afamado no Brasil o automobilista Catarino Andreatta, descendente de trentinos. Nas décadas de 1940-60, por várias vezes foi campeão brasileiro de automobilismo.

A mais conhecida apresentadora de televisão do Brasil, com programas também em nações de língua espanhola e nos Estados Unidos, é conhecida como Maria da Graça Xuxa Meneghel, descendente de belluneses, nascida em Santa Rosa.

Na economia, muitos imigrantes e descendentes mereceriam citação. Limitamo-nos apenas a alguns nomes:

Abramo Eberle nasceu em Monte Magrè-VI em 2-4-1880, veio para Caxias do Sul com 4 anos, com a família, dedicou-se à agricultura, mas ficou atraído pelo trabalho de funilaria que sua mãe possuía, que adquiriu aos 16 anos e tornou-se o maior metalúrgico da colônia Caxias.

Aristides Germani nasceu em Corte dei Frati-CR, estebeleceu-se em Caxias do Sul, foi o pioneiro do plantio do trigo na colônia italiana, é fundador da Indústria Moageira Germani Ltda., continuando a atividade que já exercia em moinho próprio na Itália.

Há quase 60 anos, Abramo Randon se estabelecia no Bairro Santa Catarina, em Caxias do Sul, com pequena fábrica de ferramentas agrícolas, que evoluiu através dos filhos tornado-se hoje na Randon SA Indústria de Implementos para o Transporte.

Em 1911, os colonos italianos já tinham uma agricultura segura e florescente, com excedentes de produtos. O então ministro da agricultura, Pedro de Toledo, mandou vir o italiano José De Stefano Paternó, que já havia realizado fundação de cooperativas no Paraguai para vir e organizar cooperativas nas colônias italianas do RS. Paternó embrenhou-se nas linhas, vilas e cidades conclamando ao cooperativismo e logo surgiram cooperativas em Forqueta, Nova Trento, Nova Roma, Nova Treviso, Borghetto, São Marcos, Nova Pádua, Nova Vicenza, Nova Milano, Castro Alves, Antônio Prado, Bento Gonçalves, Monte Belo, Santa Bárbara, Linha Paulina, Silva Pinto, Garibaldi, Alfredo Chaves, Guaporé, Carlos Barbosa. Paternó seguiu sua pregação cooperativista em Vacaria, Caí, Santa Cruz, Venâncio Aires, Cachoeira do Sul, Rio Grande, Pelotas e Bagé. Até em Vila Nova, subúrbio de Porto Alegre, Paternó criou uma cooperativa agrícola.

Antonio Corsetti nasceu em Seren del Grappa-BL, estabeleceu-se em Caxias do Sul-RS, em 1877, fundou um moínho para trigo, arroz e cevada, mais tarde montou indústria de extração de óleo de linhaça, desenvolvendo o comércio de produtos alimentícios, tudo com pioneirismo.

Giacomo Mosele nasceu em Legnano-VR, instalou-se em Alfredo Chaves como tanoeiro. Transferindo-se para Caxias dedicou-se à fabricação de vinhos, tendo sido Mosele um nome ligado aos melhores vinhos da região.

Alexandre De Antoni chegou de Vêneto, em 1889, dedicou-se à mecânica sendo produtor das primeiras trilhadeiras gaúchas, na III Légua, em Caxias do Sul.

Paolo Rossato nasceu em Valdagno-VI, estabeleceu-se como agricultor em Caxias do Sul, onde com seus irmãos fundou o 1º estabelecimento vinícola, em 1889, sendo o 1º também a comercializar vinho em Porto Alegre.

Felice Veronese, de Vicenza, estabeleceu-se em Flores da Cunha, produtor de graspa e álcool, foi um dos pioneiros da Indústria Caxiense. Enveredou na indústria química, onde se destacou, já fabricando pólvora aos 15 anos.

Valentim Tramontina, da província de Pordenone, depois da agricultura, fundava uma ferraria, que se tornou precursora de uma das maiores empresas de cutelaria do Brasil, a Tramontina SA, sediada em Carlos Barbosa-RS, com filiais em diversos municípios cujos produtos são exportados a diversos países.

FerrucioFasolo, de Agugliaro-VI, e Geraldo Fasulo, de Padova, chegaram em Bento Gonçalves em 1892, fundando modesto negócio de calçados, passando, depois, ao maior empório de artefatos de couro da região.

Atualmente, Stedile, descendente de trentinos, Grendene, Colombo, descendente de milaneses, e quem mais? João Pedro Stedile, descendente de trentinos, economista é o lider do MST (Movimento dos Sem Terra no Brasil).

Na vida religiosa, destacam-se, entre outros: Leonardo Boff, descendente de belluneses, que se estabeleceram em Alfredo Chaves, é o nome mais expressivo na revisão da teologia à luz das realidades modernas, sendo conhecido como o teólogo da Teologia da Libertação. Frei Salvador Pinzetta, cujos pais são de Schivenoglia-MN, é um dos representantes da profunda espiritualidade dos imigrantes, irmão leigo capuchinho, que passou grande parte de sua vida nas lides da cozinha, horta e lavoura, em Flores da Cunha. Sua família se estabeleceu Bento Gonçalves, deslocando-se, depois, para São Domingos do Sul-RS, onde foi pároco ilustre o Cônego João Benvegnu, cujos pais são de Taibon-BL, e que também se destacou pela santidade, estando em processo inicial de beatificação. Frei Antônio Bampi (1892-1987), capuchinho, filho de pais de Matarello-TN, distinguiu-se primeiramente como missionário, depois atuou por mais de 50 anos na Paróquia Santo Antônio do Partenon, onde é venerado como santo. Irmã Prima Domenica Toigo (15-11-1917 a 13-4-1975) nasceu em Fonzaso-BL, religiosa de São José, destacou-se em colégios de Rio Grande, Pelotas e Porto Alegre, ensinando música, letras e artes a alunas de diferentes classes sociais. Mons. João Maria Balém nasceu Caxias do Sul em 1887, filho de feltrinos, foi historiador idealizador e iniciador das obras da catedral de Porto Alegre, primeiro caxiense a obter título universitário. Pe. Pietro Colbacchini nasceu em Bassano Del Grappa-VI a 11-9-1945 foi pioneiro scalabriniano no RS, aqui chegado em 1896, fundou a cidade de Nova Bassano. Pe. Félix Fortunato Busatta, filho de imigrantes vicentinos de Marostica, primeiro pároco e fundador de Paraí.

Dentre os muitos padres italianos que atenderam as colônias italianas, destacam-se – Pe. Batolomeu Tiecher (1848-1940), de Caldaro, no Tirol, Pe. Pietro Nosadini, pároco em Caxias do Sul, originário de Bassano del Grappa-VI, fundou o primeiro jornal católico das colônias Italianas, em Caxias do sul – Il Colono Italiano (1-4-1898). Pe. Carmine Fasulo (1865-1935), de Monte Falcione-AV, primeiro cura de Caravaggio e primeiro pároco de Antônio Prado, fundador do La libertà (1909), o jornal mais antigo da colônia italiana em circulação que está completando 90 anos, com o nome de Correio Riograndense. Pe. Mateus Pasquali (1825-1906), 1º pároco de Alfredo Chaves, natural de Durlo-VI, teve importante papel na relação da igreja com a maçonaria e na revolução de 1893. Pe. Giacomo Brutomesso (1833-1909), 1º pároco de Nova Vicenza, de Castel d’Arzignano-VI. Pe. João Batista Argenta (1841-1913), primeiro pároco de Ana Rech, natural de Murle, Pedavena-BL. Pe. João Fronchetti (1863-1927), natural de Torra, liderou a imprensa católica na colônia italiana através do Il colono Italiano, atual Correio Riograndense. Pe. Fortunato Odorizzi (1819-1898), 1º pároco de Monte Vêneto, atual Cotiporã, natural de Tassullo-TN, cuja obra poética, Sacras e Profanas, foi publicada no centenário de sua morte a 20-9-1998. Pe. Francisco Comoretto (1826-1896), 1º capelão de Arroio Grande, natural de Buia-UD. Pe. Antônio Pertile (1840-1915), de Maserà-PD, primeiro cura de Guaporé e de Conceição de Caxias do Sul. Pe. Henrique Domingos Poggi (1868-1936), 1º cura de Sananduva e pároco de Bento Gonçalves. Pe. Luís Stripoli (1866-1931), de Corato-BA, 1º pároco de Itapuca (Maurício Cardoso). Pe. Calógero Tortorici (1867-1950), de Pietrapersia-EN. Pe. Francisco Piccoli, mantovano, pároco de Monte Belo (1892-1904). Pe. Otávio Cattaneo (1830-1902), padovano, 1º cura de Jaguari. Pe. Alexandre Pellegrini (1829-1899), veronês, 1º cura de Antônio Prado e de Nova Roma. Pe. Antônio Sorio (1844-1900), de Zevio-VR, 1º capelão de Vale Vêneto e 1° pároco de Silveira Martins. Pe. Vitor Arnofi (1843-1884), veneziano, 1° capelão de Silveira Martins. Pe. Luís Centin (1838-1916), de Saletto di Montaganana-PD, 1º capelão de Nova Trento. Pe. Augusto Finotti (1840-1919), de Valle di Garduno-TN, 1º pároco de Caxias do Sul. Pe. João Menegotto (1841-1902), de Calaone di Baone-PD, 1º pároco de Bento Gonçalves. Pe. Domingos Antônio Munari (1839-1878), de Gallio-VI, 1º capelão da colônia Dona Isabel, que faleceu escoiceado por uma mula quando voltava de atendimento a uma capela. Pe. Ângelo Odorico Mônaco, de Montesano sulla Marcellana-SA, pároco de Bella Vista, atual Fagundes Varela, de 1923-1948, venerado como santo.

Numerosos descendentes de trivênetos do RS foram escolhidos como bispos em diferentes Estados do Brasil. Para exemplificar, citamos: Dom José Barea nasceu em Nova Treviso, município de Antônio Prado em 19-1-1893, filho de trevisanos de Castelfranco Veneto, poeta, pregador e músico, foi escolhido para 1º bispo Caxias do Sul em 23-4-1935, onde faleceu a 19-11-1951 e foi sepultado na Catedral. Dom Frei Cândido Maria Bampi nascido em Caxias do Sul a 16-1-1889 e lá falecido em 1978, filho de trentinos de Mattarello, eleito 1º bispo de Vacaria em 1936, exerceu o cargo até 9-4-1957; Dom Luís Scortegagna, oriundo de Vicenza, veio com a família para Flores da Cunha, eleito 4º bispo de Vitória em 1933, cargo que exerceu até 1951. Dom Antônio Zattera, filho de vicentinos, foi eleito 3º bispo de Pelotas, de 1942 a 1977. Dom Luiz Vitor Sartori nasceu em Caxias do Sul-RS a 30-8-1904, eleito bispo de Montes Claros em 4-3-1952, depois bispo auxiliar de Santa Maria-RS em de 10-1-1956 e 4º bispo de Santa Maria de 1960-1970, é descendente de trevisanos de Cornuda. Dom Benedito Zorzi nasceu em Nova Pádua, filho de trevisanos de Toreselle, foi nomeado bispo de Ilhéus-BA em 1952, foi segundo bispo de Caxias do Sul (1952-1983); Dom Henrique Gelain nasceu em Nova Pádua, descendente de padovanos de Cittadella, foi eleito 3º bispo de Lins em 1948, até 1964, quando passou a ser o 3º bispo de Vacaria até 1986. Dom Luiz Felipe De Nadal, descendente de belluneses de Taibon, foi eleito 3º bispo de Uruguaiana em 1955, até 1963. Dom Augusto Petró nasceu em Santo Antônio da Patrulha-RS em 3-5-1918, descendente de bergamascos, eleito 2º bispo de Vacaria em 1958, onde ficou até 1964, e 4º bispo de Uruguaina, 1964-1995, atual bispo emérito; Dom Pedro Ercílio Simon, descendente de trevisanos, nasceu a 9-9-1941 em Ibiaçá-RS, eleito bispo auxiliar de Cruz Alta-RS em 1990, atual bispo de Uruguaiana; Dom Frei Orlando Dotti nasceu em 26-6-1930 em Antônio Prado, descendente de mantovanos, nomeado bispo da Barra-BA, em 1969, é atual bispo de Vacaria; Dom Jayme Chemello nasceu em São Marcos-RS a 28-7-1932, descendente de Vicentinos, foi eleito bispo auxiliar de Pelotas em 11-2-1969, e titular desde 28-9-1977, atual Presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil. Dom Ângelo Feliz Mugnol, nascido em Farroupilha-RS, filho de belluneses de Feltre, foi nomeado bispo de Bagé em 1961, ficando até 1968; Dom Frei Clóvis Frainer nasceu em Veranópolis-RS em 23-3-1931, nomeado bispo de Coxim-MS em 1978, descendente de trentinos, atual arcebispo de Juiz de Fora-MG; Dom Frei Osório Bebber nasceu em Flores da Cunha em 11-6-1929, descendente de trentinos, nomeado bispo de Tubarão-SC em 1980, depois bispo de Coxim-MS, e atual Bispo de Joaçaba-SC; Dom Frei Ângelo Domingos Salvador nasceu em Segredo, Ipê-RS em 17-6-1932, descendente de belluneses, nomeado bispo auxiliar de Salvador-BA, em 1981, 1º bispo de Cachoeira do Sul-RS; Dom Frei Itamar Navildo Vian nasceu em Roca Sales-RS a 27-8-1940, descendente de trentinos, nomeado bispo da Barra-BA em 1984, atual bispo de Feira de Santana-BA; Dom Luiz Colussi, descendente de pordenonenses, bispo de Caçador-SC, de 1984-1996, quando faleceu. Dom Altamiro Rossatto nasceu em Santa Rosa-RS a 23-3-1925, descendente de vicentinos, foi nomeado bispo de Marabá em 1985, atual arcebispo de Porto Alegre. Dom Érico Ferrari, descendente de Vicentinos, foi o 5º bispo de Santa Maria, de 1971-3. Dom Frederico Didonet nasceu em Ivorá-RS, filho de trevisanos de Castelfranco Veneto, foi nomeado 1º bispo de Rio Grande em 1971, ficando no cargo até 1986. Dom Nei Paulo Moretto nasceu a 25-5-1936 em Caxias do Sul, descendente de vicentinos, foi nomeado bispo de Cruz Alta em 16-11-1972, atual bispo de Caxias do Sul; Dom Laurindo Guizzardi, carlista, descendente de vicentinos de Bassano del Grappa, nasceu em Nova Bassano em 7-7-1934, foi eleito bispo de Bagé em 3-3-1982. Dom Girônimo Zanandréa nasceu em São Valentim-RS a 9-6-1936, descendente de belluneses, eleito bispo coadjutor de Erexim em 16-11-1987 e titular desde 16-1-1994. Dom Paulo Antônio De Conto nasceu em Encantado-RS a 12-10-1942, descendente de trevisanos de Campea de Miane, foi eleito bispo de Cáceres-MT em 24-7-1991. [Pede-se a quem tiver sugestão de italianos e descendentes que se destacaram em alguma área específica, remetam seus nomes e dados à redação, para completar a listagem. Importante é a localidade italiana de origem da família].

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

AZEVEDO, Thales. Italianos e gaúchos. Porto Alegre: IEL/Nação, 1975.

DE BONI, Luis A. e COSTA, Rovílio. Os italianos do Rio Grande do Sul. Porto Alegre: EST/UCS, 1979.

DE BONI, Luis A. La Mèrica. Porto Alegre: EST/UCS, 1977.

DELHAES-GUENTHER, D.v. Industrialisierung in südbrasilien. Colônia-Viena, Bohlau, 1973.

GIRON, Loraine Slomp. Caxias do Sul: evolução histórica. UCS/EST, 1976.

HUNSCHE, Carlos. O biênio 1824-25 da Imigração e colonização alemã no RS. Porto Alegre: A Nação, 1975.

MANFROI, Olívio. A colonização italiana no Rio Grande do Sul. Porto Alegre: IEL/Grafosul, 1975.

MIORANZA, Cyro e FROSI, Vitalina. Imigração italiana no nordeste do Rio Grande do Sul. Porto Alegre: Movimento, 1975.

ROCHE, Jean. A colonização alemã no RS. 2 v. Porto Alegre: Globo, 1969.

Home | E-mail