Tropeiros de porcos

Arlindo Itacir Battistel

 

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O tropeirismo de porcos foi uma atividade comum no início da imigração italiana. Temos relatos e informações gerais sobre esta atividade.

João Dall’Agnol, em 1956, aos 83 anos, informava-nos que criava porcos no potreiro onde havia muitos pinheiros; engordavam um pouco. Plantavam milho e abóboras juntos. Em julho colhiam o milho e depois soltavam os porcos para engordar. Ao terminarem as abóboras, os porcos estavam "prontos". Então eram conduzidos a pé, até o frigorífico de Bela Vista, hoje Fagundes Varela.

Venâncio Mussatto, de Vila Segredo, município de Ipê, tropeava os porcos até o frigorífico de Nova Roma atravessando todo o atual município de Antônio Prado.

No livro Assim vivem os italianos, de Arlindo I. Battistel e Rovílio Costa (Porto Alegre: est, 1982, v. 1, p. 367), está transcrito o depoimento de Vitório Umberto Zottis, nascido em 9 de junho de 1895 em Nova Bassano: "Quando tínhamos o moinho lá embaixo, havia farelo de sobra e tínhamos uma criação de seiscentos porcos, numa grande invernada. Então dávamos o farelo aos porcos e quando estavam gordos os vendíamos ao Frigorífico Nacional Sul-Brasileiro, de Cotiporã. Tocávamos os porcos a pé. Porcos gordos. Do moinho até aqui no Bassano, eram dois ou três quilômetros e até Cotiporã têm uns trinta quilômetros. Tocava-se uns sessenta, setenta, oitenta porcos. Perdiam peso, mas ia-se devagar. Um na frente os chamava e o outro atrás os tocava. Jogavam grãos de milho no chão, e eles caminhavam, heim! Iam até cinco, seis pessoas, conforme a manada. Para tocar os porcos daqui até Cotiporã precisavam de quatro a cinco dias. À noite paravam à beira da estrada. Os porcos se deitavam, cansados, ficavam ali, e no dia seguinte seguiam caminho."

Para conhecermos melhor e em detalhes os tropeiros de porcos, entrevistamos o italiano Nelson Bérgamo e o luso-brasileiro Joaquim Pereira Ramos (que exerceram por vários anos a atividade de tropear porcos), Décio Antônio Baggio (que não foi tropeiro mas conheceu de perto esta atividade quando era menino) e Laurentino Perineto.

Nélson Bérgamo nasceu em Cacique Doble em 1928, filho de Augusto Bérgamo e Dosolina Zeni. Casou em 1951 com Hilda Ravizzon e têm quatro filhos.

Joaquim Pereira Ramos nasceu em São José do Ouro em 1919, casou com Riqueta Rosa Hoffman e têm oito filhos.

Esta entrevista foi realizada em São José do Ouro no dia 6 de outubro de 1998. No decorrer da entrevista usaremos N para designar Nélson Bérgamo e J para Joaquim Pereira Ramos.

* * *

– Joaquim, o Sr. trabalhou com o Augusto Bérgamo?

– Craro, parava na casa dele, pousava lá. Eles faziam eu dormi no quarto deles, ele e a véia.

– Que serviço fazia lá?

– Eu, lá? Sabe que era tropear porco! Eles tropeavam. Compravam trezentos, quatrocentos capado, e o finado meu pai, que era peão deles, trabaiava com eles. Gesuíno Pereira Ramos, trabaiava com o falecido Gusto Berga (Augusto Bérgamo). Eram muito amigo; não passava cinco seis dia, nem falá, sem estar junto. Um pousava na casa do outro; eram amigo mesmo. E trabaiavam junto. Tropiá porco, eles e o Rico Mendes (Henrique Mendes). Então compravam aquela porcada e levavam para Marcelino Ramos, para o rio do Peixe, e eu era o chamadô de porco, coa mala de míio na frente. A geada branqueando, e eu de pé no chão, com os pé vermeio de frio, iam inchando meus pé. E ia daqui lá, di a pé. Largava o míio e chamava eles: Buti, buti, buti... Quando, às veiz, um porco tava meio renitente, não queria i, que tava de chorna, eu costurava os óio.

– Por que costuravam os olhos?

– Tinha que costurá os óio! É porque daí ele seguia de atrais dos otro, às veiz ele saía pros lado, assim, não é, não queria obedecê de i junto cos outro, intão, ele costurado ia de atrais pelo ronco dos otro. Muitas veiz eu custurei os óio dos porco; os outros segurava pra mim costurá. Mandavam costurá. Tinha uma agúia com linha. Costurava as pálpebra. É porque eles era muito safado, aqueles porco criado arrisco, eles se abriam dos otro e queriam se extraviá. Intão daí os véio pegavam e mandavam eu custurá os óio dos porco.

– Onde vocês pousavam?

– (J) Ah! Nóis achava um lugar e pousava. Recostava aqueles porco. Nóis achava um cômodo. Ia um na frente, os patrão, pra achá o lugar pra nóis i com os porco até incostá lá. E daí deixava, ficavam quieto aí.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

– E vocês davam comida?

– Craro! Comprava míio, botava lá pros porco comê. Porque não podia ficá sem comê. Comprava do próprio colono. No outro dia cedo, se arrancavam de madrugada. Coa tropa era de madrugada. A gente aproveitava a fresca. Saía às seis hora. E nóis parava às déiz hora. Ia devagarzinho. Daí recostava a tropa e ficava aí até de tardezinha, que refrescasse, pra fazê otra pegada.

– O que os troupeiros comiam?

– Nossa comida era pão, salame e queijo. Co falecido Augusto sempre era o mate que nóis tomava. Às veiz uma cervejinha, e cachaça toda vida. Tinha os borrachão de cachaça que os véio tomavam, por causa do frio. Intão, quando ia lá na frente, que colocavam os porco tudo lá, que mandavam eu chamá os porco, tavam costumado comigo, né, eu chamava os porco até na manguera. Eu vinha, fechava a portera e os véio ficavam lá fora. Daí o falecido Gusto (Augusto) me chamava, dava um traguinho pra mim. O finado meu pai não queria que eu tomasse, mas eu tava louco de vontade, eu gostava, ia no borrachão dele, tomá.

– E dormir?

– Nóis durmia nos pelego. Tinha uma mulinha pampa, do falecido Gusto Berga (Augusto Bérgamo), que aquela levava a insia, né, pelego, pala, cobertor desses pega-pulga, tudo pra nóis durmi. Nóis colocava as coisa aí e tudo durmia junto.

– (N) Dormiam debaixo das árvores! Faziam cama com pelegos e se cobriam com aquele cobertor ou com pelegos para que no outro dia fosse fácil de sair de madrugada.

– (J) A mulinha tubiana ficava na soga. No outro dia cedo, antes de clareá bem o dia, o finado meu pai levantava e deixava o falecido Gusto deitado e dizia pra ele: "Pode deixá pra mim". Levantava, pegava a mula, encilhava e vinha dizê pro falecido Gusto: "Tá na hora de metê! Vamo se mexê!" Tinha só uma mula que era a que carregava a ensia, as cuberta e os pelego pra nóis durmi.

– (N) E mais as mulas da carreta que acompanhavam, pra carregar algum porco que ficasse na estrada. Era uma carretinha de duas mulas, uma ruana e uma saina.

– Quantos dias demoravam para ir de São José do Ouro até Marcelino Ramos?

– Ah! Nós demorava até vinte dias para ir até lá. Mas chegavam lá todos bem sãozinhos, aqueles porcos.

– Os porcos não perdiam muito peso ao ficarem vinte dias caminhando?

– Não. Eram porcos criados soltos; não eram porcos de chiqueiro, né. Eram porcos criados no pinhal, criados soltos, no pinhão.

– Os donos cuidavam dos porcos no pinheiral ou não?

– Tinha quem atendia. O porco era racionado (alimentado) ali naquela região; então ele não ia muito distante dali. Todas as tardes eles vinham pousar num lugar só. Havia um capataz. E a porcada devia pousar na capatazia e no outro dia cedo voltavam ao mato, né. Davam um pouquinho de milho, uma pequena porção para mantê-los. Então eles se habituavam e vinham naquele local, porque sabiam que ali recebiam comida. Mas eram porcos xucros, alçados. Eram todos castrados. Para pegá-los, se fosse necessário, prendiam-nos numa encerra, num mangueirão feito de rachão lascado, pinheiro lascado.

– Criavam porcos durante todo o ano ou só durante a safra de pinhão.

– Só na safra do pinhão. Eram porcos comprados aí de toda a região. Reuniam todos e traziam para o local da engorda, como eles diziam.

– Quantos porcos vocês conduziam por vez?

– (J) Ah! Nóis levava trezento, quatrocento capado. Eu me alembro muito bem. Era tropa muito grande. Nóis trabaiava em cinco na tropa. Era porco já vendido, era só levá e intregá.

– (N) Nós vendia para o frigorífico dos Pagnocelli ou para os Fontana de Concórdia ou para o pessoal do rio do Peixe (Piratuba). Do frigorífico mandavam os produtos para São Paulo. Às vezes, os porcos eram carregados nos vagões e mandados diretamente para São Paulo. Era tudo pela estrada de ferro ou de carroça; eram os meios de transporte da época.

– Havia muitos tropeiros que faziam este trabalho na época.

– Aí no Espigão Alto, que é município (distrito) do Barracão tinha a família Batezá (Baltazar) que fazia este tipo de engorda, né. Eles chamavam de safrista. Faziam safra de porco, né.

– De quem compravam os porcos? Criavam também alçados ou em chiqueirões?

– Alçados, toda vida. Pegavam no campo e daí levavam para a engorda.

– Vocês davam também milho ou era só no pinhão?

– Só no pinhão. A região era coberta de pinheiros.

– Vendiam a quilo ou em arroubas?

– Vendiam a quilo. Antes de partir pesavam os porcos em balança de vara, um a um. Não havia balanças grandes. Pesavam aqui e tomavam nota, depois pesavam lá para ver a quebra de peso e o que perdiam, né. Era para o controle deles, para não serem logrados pelos compradores. No dia da pesagem chamavam bastante gente para ajudar a fazer o serviço.

– E não era perigoso na hora de pegar para pesar esses porcos bravios?

– Não. Não tinha perigo. Eles tinham prática. Pegavam dois barrigueiros, colocavam um na frente e outro atrás e erguiam o porco na balança. O porco ficava preso, e o pesador estava lá pronto e só mudava o marco de cá para lá no varão da balança. Para pegá-los na encerra usavam uma corda; laçavam eles, né. Enquanto eu trabalhei lá, ninguém se machucou na lida.

– Nunca aconteceu algum acidente com os tropeiros de porcos?

– Que eu saiba, não. No caso que adoecesse um tropeiro de porcos era colocado no cavalo (mula) e mandado de volta para sua casa. Daí ajeitavam outro em seu lugar para substituir aquele, né. Porque era muito rigor, muito frio, tempo de chuva, e a tropa de porco não podia parar. Ela tinha que fazer aquela quilometragem todo dia. Não podia dizer: "Vou sestiá um dia, uma semana aí... nem falá. Ela era obrigada a fazer um determinado trecho todos os dias para não atrasar. Porque tinha data marcada para o embarque dos porcos na estrada de ferro, né. Ou mesmo o frigorífico, para matá-los.

– E se chovesse, como vocês os tropeiros dormiam?

– Mas era um sofrimento! Dormiam debaixo da capa. Cada um tinha sua capa.

– (J) Nóis dormia sentado.

– (N) Dormiam sentados!

– (J) Sentado. Pousava, botava uma cuberta nas costa, um chapeuzinho na cabeça, um boné, e tinha que agüentá, não tem nada! Tinha que agüentá, pousá. Ali cuidando dos porco. E quando dava frio, geada, tinha que agüentá. Faziam um foguinho pra esquentá uma água, faziam chimarrão, às veiz. Tinha a cuia, os véio carregavam, eles gostavam do chimarrão. E pra se aquecê também. Quando chovia, a lenha estava moiada, mas nóis dava um jeito.

– (N) A própria carreta que acompanhava a tropa carregava alguma lenha seca que ia reunindo pelo caminho para queimar ao meio-dia ou à noite.

– O senhor seria capaz de traçar o trajeto percorrido pelas manadas? Primeira parada, segunda, o nome das pessoas onde pousavam?

– Daqui (Capela Nossa Senhora Aparecida de São José do Ouro) íamos até o Bôrtolo Vanz, um pouco para cá de São José do Ouro. Depois íamos até Cacique Doble. A terceira partida, até o rio Ouro. Outra pegada até Bela Vista; de lá até Machadinho. Depois do Machadinho é que não me recordo. Na costa do rio Pelotas era a segunda parada (depois do Machadinho). Ali transportavam o porco por balsa ou a vau.

– (J) Os porco, quando chegavam na água, já queriam se infiá na água porque eles já estavam cansado e com calor. Já se enfiavam na água e o do caíque tava aí. Ia com o caíque a par do porco assim. Eles tinham os madrinheiros treinados para atravessar o rio. Estes iam na frente e os outro tudo de atrais. E daí varava do outro lado do porto pro lado de lá. E já ficava gente pro lado de lá pra reuni os porco, lá.

– (N) Os moradores da costa do rio eram práticos no ofício. Estavam acostumados. Então, ficavam ali. Ganhavam uma porcentagem para fazer aquele trabalho. Eles diziam na época: rebater os porcos. Isso para não deixá-los descer rio abaixo. Acompanhavam a manada com caíque ou a nado, conforme era preciso.

– (J) Mas o rio Pelotas é fundo! E o rio do Peixe também! O senhor sabe que é grande lá, e parece que a água é parada. No rio do Peixe, aqueles home nadavam, margeavam e iam sair longe! Mas nunca vi gente pra nadá que nem aqueles lá! Não ia simbora nenhum porco! Aqueles home do caíco cuidava aí; os outros nadando, varavam tudo as tropa de porco. Mas era lindo de oiá. Era bonito tirá uma foto quando tava tudo n’água, aquela porcada. E gente nadando, e os caíco! Oh! Naquele tempo eu não me lembrava disso (de bater fotos) porque eu era piá. Mas os véio podiam ter feito isso aí.

– (N) O preço naquela época era mínimo. Era muito barato o porco. Era muito sacrifício para as pessoas levarem as tropas lá pra ganhar muito pouco dinheiro. Ganhavam uma miséria por porco. O próprio quilo de porco valia pouco.

– (J) O preço do porco aqui eu me alembro bem que era trezentos réis ao quilo. Não me alembro a que preço eles entregavam lá, mas aqui eu me alembro.

– (N) Até era dinheiro na época, né. Precisava três quilos de porco para dar um milréis, né. Precisava de três a quatro mil quilos de porco para ganhar um conto de réis.

– Em que ano mais ou menos foi que vocês faziam estas viagens?

– Foi lá pelo ano de l925 a 1928. A última tropa que eu ouvi falar foi a de 1936. Foi a última tropa. Daí parou.

– (J) Parô porque os home achavam que ganhavam muito pouco, não recompensava tá sofrendo daquele jeito e judiando das criança.

– (N) Daí já começou aparecer as carretas. Carretas maiores, de nove mulas.

– (J) Começô aparecê as condução pra conduzi os bicho; aí parô as tropa tudo. Mas era um sofrimento loco. Nossa Senhora do céu. Daqui a Marcelino (Ramos) dá mais de 60 quilômetro. Nos pé, eu não usava nada! De pé no chão, cos pé vermeio pisando geada! Eu usava um toco de carça. Na cabeça um bonezinho. Arveiz atava um lenço na cabeça. Botava um lenço pra ficá quente a cabeça, as oreia, tudo porque era muito frio. Um pedaço de camisa, porque naquele tempo lá as minha ropa era muito ruim; o finado meu pai comprava ropa bem ruim pra mim. Baratinho.

– Usava casaco ou alguma outra cousa?

– Casaco?! Mas que bom que eu tivesse uma bruzinha pra botá por cima da camisa! Eu, quando chegava a noite, que ia por baixo das cuberta, eu me incoía e me incostava nos véio pa isquentá. Eu tava loco de frio, meu pé inchado e vermeio. Tava caminhando di a pé.

– E quando chovesse usava capa ou algum abrigo?

– Nada, nada. Era só camisa e um toco de carça. Quando se moiava demais tinha uma ropinha pra mudá, até enxugá aquela! De noite enxugava, quando não tava chovendo. Fazia o fogo e enxugava aí no fogo e no outro dia saía catingando fumaça!

– E se chovesse a noite toda?

– Não, se chovesse a noite toda daí eu tinha outra ropinha enxuta (que traziam na carreta) e botava uma cobertinha nas costa, pa não se moiá demais. E nóis ficava no tempo com a veiarada! A mula ia, levava os foro de cama, capa, pala, tudo! O falecido Ogusto (Augusto Bérgamo) era um home... que home interado de bom! Aquele home era igual a meu pai. Me cuidava barbaridade. Mas intão o meu pai parece que queria mais bem ao falecido compadre Aquiles (Bérgamo) do que eu! Eu ele não me dava muita bola e me surrava e mandava eu fazê o serviço. Intão, garrava, porque o compadre Aquile enliado num pala, que tava se queixando de frio, pegava e enliava ele no pala. E eu ficava oiando. "Você me paga, quando vô pegá você desgarrado dos véio, você me paga!" E quando pegava ele desgarrado dos véio eu surrava ele. Depois ele ia chorando e contava pro meu pai. Daí o finado meu pai pegava uma vara e me chicoteava! Daí eu ficava mais brabo com o compadre Aquile: "Você me paga quando te pegá!" Ele zombada de eu porque tinha que trabaiá.

– Quem é o Aquiles?

– (N) É meu irmão mais velho.

– Então seu pai tinha pala para se abrigar?

– (J) Todos eles tinha, menos eu que só tinha um cobertor. Eu não tinha nada de coberta nenhuma! Agora, tinha uma coisa que sempre os véio levavam daqui, foi muito bom, uma barraca. Quando era chuva demais, daí armava aquela barraca e fincava bastante estaca e atava ela, e nóis ficava embaixo da barraca! Quando era demais chuva, que o fogo fazia pra fora, mas nóis se agasaiava dentro. Quando era demais chuva. Mas quando não chovia muito, os véio não arrumava aquilo lá! Tinha que posá no tempo! Viajei muitas veiz de noite, nóis tava no tempo. De repente de noite começava chovê, nóis tinha que se levantá tudo e enrolá as troxa lá, e ficá. Botava a mula na soga e tinha que cuidá sempre. Às veiz me escapava, mas a mula era mansa.

– Neste caso vocês levantavam?

– Ficava sentado lá até clareá o dia. Antes de clareá um pouquinho o dia, o finado meu pai ia, insiava a mulinha do falecido Gusto Berga, botava tudo os foro incima da mula e já dizia pro falecido Gusto Berga: "Pode se mexê! Bamo! Tá na hora!" E já mexia comigo. Às veiz eu tava durmindo bem quietinho aí, mexia comigo pra mim saí, pisá na geada lá e chamá os porco! Pegá a mala de míio; ficava pronto ali. Pra botá nas costa. Eu tinha deiz ano.

– O senhor era o único menino?

– Não. Tinha o cumpadre Aquiles que era mais novo do que eu ainda! Tinha quatro ano a menos. Mas ele não fazia nada; era só por companhero deles. Ele não quis ficá (em casa); daí ele andava muito agarrado com os véio; intão já levaro ele! E o finado meu pai me surrava por causa dele. Porque ele queria muito bem o rapazinho! Ele garava o falecido compadre Aquile e inrolava no pala! E quente, né, é! E eu lá sofrendo! Quando eu pegava ele desgarrado eu pegava uma varinha e chicoteava ele! Ia chorando se quexá pro véio lá! E o véio me chicoteava também!

Uma vez, os pai eram muito exigente cos filho, né. Eles faziam obedecê ou apanhava! Não tinha mordomia que nem nóis temo hoje. um pai não raiá mais co um filho ou não batê mais num fíio, não é? Naquele tempo os pai corrigiam mesmo de verdade.

O finado meu pai era muito brabo pros fiios. Eu tenho sinal da soiteira do véio até agora! Nas mias costas, do finado meu pai! Tenho as marca aqui! Vô morrê de véio e não termina aquele sinal que o véio deixô nas mias costa, de soiteira. Era muito brabo!

E depois lá, o véio, quando chegava gente, que nóis era tudo pequeno, e lá chegava gente, ninguém falá, ficá bem quietinho lá na cozinha e o véio lá na sala hospedando a visita. Só ia lá quando o véio chamava pra levá uma chaleira quente, um fogo pra acendê o cigarro e tar. Se não, tinha que ficá quietinho na cozinha! Fizesse fulia lá, o véio tinha um arreadô pendurado assim num prego, na cozinha... ele entrava lá e fechava a cozinha, e lá trovejava laço ne nóis. Nóis quase se matava de tanto apanhá. Mas Deus o livre, o véio era um fera de brabo pa nós!

– O que Joaquim fazia para apanhar tanto ele não conta! Ah! Ah!

– Mas eu não era muito travesso! Mas não era só eu, os otros também apanhava. Nem que não fizesse. Arveiz, se fizesse quarqué... nóis brincava na cozinha assim, se falasse meio arterado, o véio já vinha lá e surrava nóis. Arveiz surrava sem precisão. Arveiz quando precisava ele não surrava, nóis escapava!

– Os outros vizinhos também apanhavam assim?

– Eu não sei cos outro, eu sei que meu pai era brabo também.

– (N) Era mais ou menos a realidade. Era o sistema de criar família. Naquele tempo a família obedecia ou apanhava.

Isso, deve ter acontecido mais ou menos a uns setenta anos. Joaquim está com quase oitenta anos. Foi lá por 1929.

* * *

– Depois vieram as carroças com ternos de mulas. Pegavam 15 a 20 porcos, botavam numa carroça e levavam bem mais rápido do que a pé. Daqui a Marcelino Ramos demoravam uns sete a oito dias para ir. A carroça era bem fechada (com varas de madeira) para colocar os porcos lá dentro. Às vezes, se houvesse algum imprevisto, tiravam os porcos da carroça para alimentá-los. A maioria das vezes iam direto, davam de beber e alimentavam os porcos dentro da própria carreta.

– E as estradas?

– (J) As estrada antigamente, aqui, era muito soturno, era umas picada; por cima da picada era um taquarão (taquaral). A gente, pra cruzá a cavalo, arveiz tinha que cruzá co a cabeça abaixada. Intão tinha aqueles caldeirão (buracos cheios d’água) na estrada que os animal pisava, fazia aquele baruião, cos casco do animal fazia ciok, ciok... tava cheio de água e barro. Antigamente era. Cansei de caminhá daquele jeito. Mais tarde eu trabaiei muito com carroça.

– (N) Não existiam máquinas para fazer as estradas na época. Eram feitas só a foice e picão. Abria a estrada a machado e a picão, tapava algum buraco brabo, algum lugar ruim. Bueiros e pontilhões também não tinha. Cruzavam diretamente na água. Aí facilmente atolavam e tinham que pedir emprestado mais mulas ou juntas de bois para desatolar. Abria-se caminho no meio do mato desviando os tocos maiores e os porcos sofriam.

– (N) Daí eles não enxergavam e acompanhavam pelos pés, pelo ronco dos outros e se guiavam bem certinho. Seguiam a tropa.

Uma tropa de porco viajando por terra, repontado, o máximo que ele pode fazer é seis a sete quilômetros por dia. Então daqui da Capela N. Sra. Aparecida até São José do Ouro são seis quilômetros. Um dia de viagem. De São José a Cacique Doble são sete quilômetros (não pela estrada geral), mais um dia de viagem. Pela parte da manhã a caminhada rendia mais. Nós largávamos mais ou menos no clarear o dia e andávamos até pelas dez horas, dez e meia. Depois davam uma sesteada até as quatro horas. Sesteavam e depois faziam mais dois ou três quilômetros pela parte da tarde. Era uma viagem bastante demorada e exigia muita paciência, porque, se ficassem muitos porcos para trás, era difícil depois recuperar a tropa, juntá-los novamente. Então sempre acompanhava uma carrocinha de duas mulas para carregar aquele porco que se machucava, se atrasava, ou às vezes, até por ser gordo demais. Colocavam na carrocinha e levavam dez a doze quilômetros adiante depois a carrocinha voltava para onde estava a tropa. Quando a tropa chegava onde os porcos haviam sido depositados eles já haviam descansado e se recuperado, seguiam com os outros.

– Alguém cuidava daqueles porcos machucados?

– Não. Sempre deixavam na casa dos colonos, dos moradores à beira da estrada. Todo mundo colaborava porque era difícil mesmo a vida para todo mundo. Os próprios colonos às vezes tinham porcos para vender; então aproveitavam a passagem da tropa e vendiam. Como o Joaquim já falou, a maior dificuldade era fazer a manada atravessar o rio, especialmente o Pelotas. A tropa devia passar por uma extensão de uns oitenta, cem metros de água a nado. Derrubavam na água, os canoeiros acompanhavam, e a tropa, um atrás do outro, ia embora, atravessavam o rio grande, né. Pena não ter uma foto da época, né.

– Quando meu pai comprou esta área (em São José do Ouro), que ainda é nossa hoje, ele comprou o pinhal só para criar porcos para o aproveitamento do pinhão. Então eles soltavam os porcos no pinhal durante três meses, por aí, quatro meses; daí, quando o porco estava mais ou menos em condições, eles vendiam para Marcelino Ramos. A área não valia nada. A região de pinhal, só puro pinheiro, ao colono não interessava o pinheiro porque dava muita mão-de-obra para derrubar, para transformar em agricultura, em roça.

– Como era o nome desse lugar naquela época?

– Valzumiro Dutra, depois Capela São José do Cacique. Cacique era paróquia e aqui uma de suas capelas. Depois houve mais uma transformação e passou a ser São José do Ouro. Eu nasci em Cacique Doble que pertencia à grande Lagoa Vermelha.

* * *

Laurentino Perineto, filho de José Perineto e Ana Guerbari Perineto nascido em São José do Ouro aos três de maio de 1945, narrou que, quando menino, ia pescar junto com o seu pai. Para chegar ao rio Marmeleiro, deviam atravessar o campo e para isso caminhavam nos trilhos abertos pelos porcos. Esses animais corriam pelo campo, indo de um a outro pé de butiá para comer seus frutos maduros que caíam dos cachos. Havia uma infinidade de butiazeiros que cresciam naturalmente no meio do campo nativo. Mesmo depois que o cacho do butiá debulhasse todo e terminassem os frutos, os porcos continuavam passando pé por pé na esperança de encontrar algum bago. Por isso abriam trilhos fundos na terra vermelha.

De manhã cedo Laurentino e seu pai preferiam andar por estes trilhos a fim de evitar o orvalho que se acumulava no capim.

Os porcos criados alçados (soltos) consumiam o butiá durante o verão. No inverno, os animais eram levados para o mato onde acabavam de se criar e engordavam comendo pinhão. Além do pinhão e do butiá os suínos se alimentavam também de outros frutos e sementes de árvores silvestres, tais como: a guavirova, guabiju, uvaia, coquinho, araticum, guamirim, laranjinha-do-mato, pitanga, tarumã e outros.

* * *

Entrevista com Décio Antônio Baggio realizada em Porto Alegre no dia 23 de abril de 1999.

Décio Antônio Baggio nasceu aos 25 de dezembro de 1932 na capela de São José do Ouro – Cacique Doble, filho de Ângelo Baggio e Líbera Pasinatto.

"Eu me lembro dos tropeiros de porcos a partir de quando eu tinha 8 a 9 anos. O Tanque, Espigão Alto, Machadinho eram um pinheiral imenso. Tantos eram os pinheiros que ninguém se aventurava andar pelo mato em dias de chuva ou vento, porque havia o risco de levar pancadas mortíferas na cabeça provocadas pela queda de galhos de pinheiros secos, e até mesmo dos verdes. Os pinheiros eram espessos como os cabelos. Belos, exuberantes, com suas grossas cepas e troncos retíssimos alcançavam até 45 metros de altura. Em seus galhos cheios de grimpas formavam-se as bochas plenas de pinhões. Muitos pinhões! Certa feita eu e meus irmãos colhemos três sacos de pinhão de um só pinheiro. Tinha pinhão de montão.

Logo que as sementes começavam madurar, os índios de Cacique Doble trepavam nos pinheiros a braço, alcançavam a copada e ficavam zanzando naquelas vertiginosas alturas para derrubar as pinhas e vender as primícias aos homens brancos da região.

Em fins de junho e início de julho, as bochas debulhavam espontaneamente e deixavam cair seus belos pinhões.

Nesta época também apareciam em nuvens e nuvens, uma imensidão espantosa de papagaios, baitacas e periquitos que, além de comer os pinhões, ajudavam a debulhar as pinhas. No entanto, quem iniciava a derrubar as pinhas eram os macacos. Havia multidões de macacos, especialmente os pretos; os vermelhos eram menos".

– Como acabaram esses macacos? foram caçados?

– Não. No ano de 1944 os macacos foram acometidos por uma peste e acabaram morrendo quase todos. Meu pai recordava ter encontrado muitas ossadas de macacos espalhadas pelo mato. A explicação que os agricultores davam na época é que eles comeram sementes de taquara contaminadas com a doença do rato (leptospirose).

No fim de abril, quando as pinhas começavam a debulhar, os criadores de porcos passavam pelas colônias e compravam todo tipo de porcos: magros, cheios de bicho, pipoca, feios. Preferiam os pequenos, mas arrematavam tudo; levavam ao pinheiral e os largavam perto de um riacho dispensando-se assim de dar-lhes de beber.

Ao largarem a manada no mato, tinham o cuidado de pôr junto aos porcos inexperientes alguns que já sabiam catar pinhão. Estes saíam correndo, sempre correndo passavam de pinheiro em pinheiro e catavam os pinhões; os outros logo aprendiam o ofício; depois era só aguardar o resultado. Esses criadores não gastavam nada para engordar os porcos.

De vez em quando, o dono entrava pelo mato com alguns cães para caçar os guarachains e outros animais selvagens que capturavam especialmente os filhotes das porcas que davam cria no mato.

Após dois meses, dois meses e meio, recolhiam os 500 a 600 porcos, era uma manada imensa! Porcões enormes, grandes e todos pretos, bastante gordos.

Reunidos os porcos, três luso-brasileiros tomavam uma mala cheia de milho cada um, punham nas costas e iam à frente derramando grãos pelo caminho. Alguns porcos não conheciam milho, por isso um dos tropeiros carregava pinhão para derramar. Os porcos, um após outro, seguiam catando os grãos. Os tropeiros treinavam porcos madrinheiros, cuja finalidade era ir à frente da manada para conduzi-la no caminho certo. Por ser a estrada estreita, formavam uma fila de quase um quilômetro de comprimento. Os porcos andavam no tranquito catando comida pelo caminho, especialmente tufos de erva, frutos do mato ou sementes de árvores. Os condutores de porcos eram conhecidos como Tropeiros de Porcos. Faziam esse trabalho sempre a pé e sem o auxílio de cães, porque estes podiam provocar o estouro da porcada.

Apesar de todos os cuidados, os tropeiros acabavam perdendo de 15 a 20 porcos a cada tropeada; eles se extraviavam pelo caminho, fugiam pelo mato, desapareciam.

Atrás da manada seguiam duas pessoas a cavalo; eram encarregadas de tomar conta dos porcos que adoeciam pelo caminho ou então paravam de andar vencidos pela fadiga. Eram colocados em cargueiros com cangalha dentro de grandes cestões de taquara ou em bruacas de couro, se fossem menores.

Os donos da manada antecipadamente iam adiante para conversar com moradores locais e arranjar pouso para a manada. Ao chegarem ao pouso, os porcos eram postos em mangueiras ou potreiros. Ficavam lá um dia, às vezes dois, para repousar e receber alimento. Alguma comida os tropeiros levavam consigo. Normalmente os agricultores forneciam alimento para os porcos e para os tropeiros de graça.

Lá na minha casa era um desses lugares onde pousavam os porcos. O dono, um luso-brasileiro, vinha lá com antecedência, tomava um chimarrão com meu pai, gostava muito de prosear e combinava o pouso dos porcos. À noite pernoitava lá em casa. Nós tínhamos um quarto na varanda, com cama, lençóis, travesseiro e até um cobertor destinado aos hóspedes. Meu pai oferecia este quarto, mas ele não aceitava; preferia ir dormir no paiol do milho em cima dos seus pelegos, usando a sela por travesseiro.

Certa vez, meu pai, ao invés de colocar os porcos no potreiro, colocou-os num terreno cheio de samambaias. Nosso terreno era de terra vermelha e havia chovido. Aqueles porcões enormes puseram-se a fuçar abrindo buracos (tane dei porchi, como nós chamávamos) de até um metro de profundidade para catar as raízes das samambaias e com isso limparam o terreno desta peste.

Pela manhã partiam com a manada bem cedo para apanhar menos sol, mas sempre havia uns dois ou três porcos que não queriam andar. Deixavam-nos ali e após uns 15 dias ou um mês voltavam com a carroça para apanhá-los. Certa feita nós os tratamos pensando que iriam deixá-los lá para nós; qual nada, vieram buscá-los. Os donos não pagavam nada pelo uso do potreiro.

Lá de casa seguiam às margens do rio Ouro, passavam por Chico Filipe, que era uma capela de Cacique Doble, e iam até Paim Filho. Não seguiam a estrada geral porque havia muitos morros. Os porcos não gostavam de subir morros; cansavam muito; por isso, os tropeiros procuravam caminhos alternativos, mais planos e menos movimentados. Percorriam em média seis quilômetros por dia.

Mais tarde começaram a vir caminhões do frigorífico de Piratuba, Santa Catarina. Foram os primeiros caminhões que eu vi na minha vida. Aí a situação melhorou muito, porque os compradores pesavam e carregavam os porcos e pagavam na hora, enquanto os dirigentes da cooperativa de Paim Filho demoravam para pagar e era muito difícil receber o dinheiro. Esses da cooperativa de Paim Filho eram uns gatos, uns ladrões desavergonhados que logravam os colonos agricultores de muitos modos: no peso, no prazo de pagamento; não pagavam juro, faziam trapaças de muitos jeitos e no fim acabaram falindo a própria cooperativa de porcos e também a de uva e vinho.

Os caminhões facilitaram grandemente o transporte dos porcos, porque, além de ser difícil conduzi-los a pé, pela estrada, era muito trabalhoso fazer as manadas atravessar o rio Pelotas a nado ou de balsa. Com a vinda dos caminhões era possível engordar mais os porcos. Lembro que certa vez o pai tinha oito porcos gordos no chiqueiro e o caminhão não conseguia chegar até ali perto, porque a estrada era ruim e molhada. Do chiqueiro ao caminhão foram conduzidos a pé, mas quatro deles perderam as pernas por serem muito gordos. Não é que perdessem as pernas; é que eles, ao sair do chiqueiro, brigavam entre si obrigando-se a correr. Ao fazerem isso destroncavam as pernas, caíam e não levantavam mais. Era preciso ter muito cuidado porque, se eles perdessem as pernas podiam facilmente morrer pelo caminho; então, os caminhoneiros não queriam mais carregá-los. Se estivessem muito machucados e aparentassem estar morrendo, não levavam.

– E o fim dos papagaios?

– Na medida em que os agricultores foram derrubando o mato, abatendo os pinheiros, os pássaros e animais silvestres foram desaparecendo. Lembro-me de certa feita em que o pai estava cortando um pinheiro oco. Em cima dele estavam instalados um macaco preto e um ouriço. Quando o pinheiro ia caindo e faltavam alguns metros para alcançar o chão, o macaco saltou para fora da copa e saiu andando. Feriu uma pata, mas não morreu. Dentro do oco do pinheiro havia uma cotia que fugiu em disparada, provocando os cães, que não a pegaram. O ouriço ficou vivo e foi abocanhado pelos cachorros; ficaram com a boca cheia de espinhos!

Como você vê, ao cortar um só pinheiro foram desalojados três animais selvagens, e isso sem contar o dano causado aos pássaros."

Através desses depoimentos pudemos conhecer e sentir melhor as dificuldades enfrentadas pelos tropeiros de porcos, seu jeito de tratar os animais e, principalmente, a amizade e solidariedade que havia entre as pessoas naquela época.

 

 

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