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Dom Vicente Scherer: Pastor e líder (1903-2003) Urbano Zilles |
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Comemorar
o centenário (1903-2003) do nascimento de Dom Vicente Scherer é
homenagear uma pessoa que marcou não só a história da PUC e da Igreja
do Rio Grande do Sul, mas é uma referência permanente, na história política
e espiritual do Brasil. Dom
Vicente Scherer conheceu os irmãos maristas em sua terra natal, Bom Princípio-RS.
Teve sólida formação superior com os jesuítas
em S. Leopoldo, onde cursou Filosofia, e em Roma, na Pontifícia
Universidade Gregoriana, onde estudou Teologia e foi ordenado sacerdote
(1926). Dom
Vicente foi um estudioso. Já arcebispo, em 1947, e cardeal, em 1969,
encontrava tempo para ler livros e revistas especializadas, nacionais e
estrangeiras. Não raro saía de Porto Alegre para Viamão em busca de
obras teológicas e filosóficas recentes na Biblioteca ou junto aos
professores. Estava
convencido de que o desenvolvimento de um povo passa necessariamente pela
educação. Na instalação da Universidade Católica do RS como Pontifícia,
a 7-3-1951, - dia de S. Tomás de Aquino - disse: “Nenhum país se
tornará forte, nem se manterá na prosperidade por tempo dilatado, se os
cidadãos, dominados pela ambição e vencidos pelo egoísmo implacável
da ordem social, viveram unicamente para a satisfação dos seus pequenos
interesses individuais, alheios quando não contrários às exigências da
comunidade social.” A seu ver, o objetivo primeiro da escola é formar
cidadãos para que, como cristãos, saibam dar as razões de sua fé (1Pd
3,15). Destacaremos
Dom Vicente como: 1. O pastor. 2. Líder
intelectual e espiritual. 3. Seu conceito de universidade católica 1 - O pastor – De descendência germânica, era bastante reservado, sereno, tranqüilo e recatadamente comunicativo. Em São Paulo buscou o lema: “Fui enviado para evangelizar”.. Como
arcebispo, continuou a obra do antecessor Dom João Becker. Não só é
homem de Deus, mas homem de Igreja. Caracteriza-o a fidelidade ao papa. Preocupado
com a formação eclesiástica, Dom Vicente
liderou a construção do Seminário Maior de Viamão como centro
regional para a formação do clero. Sempre mantinha nemerosos sacerdotes
cursando pós-graduação no exterior, sobretudo em Roma. Tinha
uma visão abrangente da pastoral, que ia dos meios de comunicação
social aos menores abandonados, aos meninos e meninas de rua, fenômeno
que se acentuou nas décadas de 1940 e 1950, quando
Porto Alegre teve rápido e desordenado crescimento populacional.
Construiu o Novo Lar de Menores em Viamão, inicialmente confiado aos
seculares, depois aos salesianos. Um
dos segredos do sucesso pastoral de Dom Vicente foi o
engajamento de leigos na educação, na imprensa, no rádio e na
televisão. Quando confiava uma missão a alguém, reconhecia-lhe espaço
de autonomia e criatividade. Como chanceler da PUCRS, respeitava a
liberdade acadêmica, mas se punha ao par das idéias que lá circulavam.
Respeitava o poder instituído. Mantinha bom relacionamento com os políticos
que o respeitavam. Empenhava-se para ter boas escolas, investindo na formação
dos jovens. Estimulou a Frente Agrária Gaúcha, fazendo que a voz dos
agricultores fosse ouvida. Empenhava-se
para que houvesse hospitais na cidade (Divina Providência) e no campo.
Promovia movimentos de Igreja, pois dizia que uma paróquia sem movimento
era morta. Além dos movimentos tradicionais, destacavam-se os movimentos
da JUC, JOC, JEC, e JAC, o MFC. Propunha a
família como centro da ação pastoral. Depois de 1964, trouxe
para a arquidiocese os movimentos de Cursilhos, Emaús, do qual aqui
nasceu o CLJ. Seguro
na doutrina, já antes do concílio Vaticano II, surpreendia pela visão
ecumênica, institucionalizando o diálogo com outras igrejas. Embora não
fosse do seu feitio, não só tolerava iniciativas novas, mas as aprovava,
como foi o caso da missa crioula. Como
pastor sabia distinguir entre pecador e pecado. Durante o regime militar,
visitava os presos e, independentemente de ideologia política ou confissão
religiosa, empenhava-se em libertá-los ou abrandar-lhes as injustiças.
Colaborava com o Estado e a União, mantendo-se livre para denunciar
injustiças e atos arbitrários em defesa dos mais fracos. 2
- Líder espiritual e intelectual De
pequena estatura mas de grande espírito, sem maiores talentos para a
comunicação oral, atrapalhado diante do microfone, Dom Vicente era
vigoroso e inconfundível quando escrevia. Sua voz era escutada em todo
Brasil, não pela maneira como falava, mas por aquilo que tinha para
dizer. A
UNITAS, Boletim da arquidiocese de Porto Alegre, publicou 1.067 alocuções
radiofônicas da Voz do Pastor, tratando grandes assuntos com
clareza e profundidade. Ouvintes e leitores conheciam seu pensar.
Em seus pronunciamentos transcendia as questiúnculas e questões pessoais
e abordava com competência grandes problemas de alcance nacional e
internacional. Em
1969, iniciou uma Voz do Pastor dizendo: “Nas palestras das
segundas-feiras, costumo tecer comentários em torno dos fatos que, no
momento, polarizam ao menos parte considerável da opinião pública,
principalmente nelas, como no caso acontece, figuram pessoas ou entidades
de responsabilidade na Igreja. Sempre me anima o propósito de desfazer
equívocos e de julgar honestamente doutrinas ou dados concretos, sob a
inspiração de critérios seguros do bom senso e das lições do
Evangelho” (UNITAS, 1969, p.
424). Para
isso ajudava-lhe sua formação sólida. Sabia escolher parceiros, leigos
e religiosos, para discutir questões atuais e gostava de ouvir a quem
argumentasse de maneira consistente. Por isso conseguia apresentar
panoramas amplos sem renunciar à profundidade. Seus pronunciamentos
semanais no programa radiofônico Voz do Pastor e outros ocupavam
lugar de destaque nos grandes jornais do país. Tinha grande capacidade de
discernimento e era incansável na busca de informações. Como
chanceler da PUCRS (1948-1981) acompanhava tudo que lá acontecia,
interferindo com segurança quando necessário. Acreditava na força das
idéias, do pensamento, para a transformação da sociedade. Na instalação
da Pontifícia disse: “Exerce certamente a Universidade uma importante
tarefa orientadora da mocidade estudantil e da sociedade em geral. Não são
só sentimentos mas as idéias, certas ou errôneas, construtoras ou
revolucionárias, que arrastam os indivíduos e decidem o curso dos
acontecimentos humanos (...) As idéias dominantes plasmam e modelam a
vida. São elas mais fortes, no dizer acertado de Napoleão, do que a
espada.” A base de uma civilização, segundo ele, são idéias e princípios,
pois são as idéias que acendem paixões, criam correntes impetuosas de
opinião, provocam revoluções e guerras fatais ou conduzem à
prosperidade, dando feições e rumo aos acontecimentos. 3
- Seu conceito de Universidade Católica Dom
Vicente não apenas foi professor no início das Faculdades Católicas de
P. Alegre. Foi ele que, já antes de arcebispo, apoiou a essa obra.
Deve-se ao seu prestígio e empenho pessoal o título de Pontifícia. Segundo
ele, os objetivos de uma universidade são: 1) formar cidadãos; 2)
ensino; 3) pesquisa. De uma universidade católica espera-se que os
docentes estejam bem preparados. Discorda da afirmação mais irrefletida
que fundamentada na América Latina quando se diz que os objetivos da
Universidade são o ensino, a pesquisa e a extensão. Mas
tem a seu favor a mais longa tradição histórica das universidades européias
e da maioria das norteamericanas. Disse
Dom Vicente Scherer na instalação da Pontifícia: “Pretende ser esta
Universidade um farol cintilante que, no meio à confusão crescente de
teorias e contradições, indica o rumo seguro ao porto tranqüilo da
verdade; quer ser uma forja onde se temperem caracteres firmes no
cumprimento do dever à custa dos mais penosos sacrifícios; apresenta-se
como instituição educadora que cultiva e aperfeiçoa o espírito humano,
preparando cidadãos exímios e capazes de, nos diversos departamentos das
atividades públicas e particulares, enfrentar os árduos problemas econômicos,
políticos e sociais de cuja solução depende o bem-estar dos indivíduos
e das nações.” Sobre
o adjetivo católico diz: “O estudo, a disseminação e a defesa
das idéias, que fundamentam a concepção cristã e católica da vida,
constituem a razão primordial de ser da Pontifícia Universidade Católica
do Rio Grande do Sul. Como é bem de ver, os alunos não são obrigados a
práticas religiosas que supõem convicções profundas, pois a fé deve
ser um ato de submissão racional do entendimento à autoridade revelante
de Deus.” Para Dom Vicente era importante o substantivo Universidade,
sem o qual o adjetivo católico ficaria vazio. O título de Pontifícia
é um título honorífico pelo qual ele mesmo lutou. Como pensador crítico,
rejeitava o fundamentalismo. Na
concepção de Dom Vicente Scherer e dos leigos, religiosos e sacerdotes,
que com sacrifício e entusiasmo lançaram o fundamento dessa grande obra
educacional que é a PUCRS hoje, seria uma instituição católica, sem
outros adjetivos restringentes, sob a direção do Instituto Marista.
Disse Dom Vicente: “Dada a missão religiosa, moral e cultural desta
instituição, não lhe faltarão a compreensão e o apoio, também
material, do clero, da sociedade e do poder público. Pela incessante
elevação do nível dos estudos e pelo aperfeiçoamento da educação
religiosa, procurará a Universidade formar homens e mulheres de escola,
capazes e desejosos de colocarem as energias invencíveis de uma vontade
adestrada no bem e as luzes imagináveis de sólida cultura ao serviço não
só das legítimas aspirações pessoais, mas também, com igual dedicação
e perseverança, das grandes causas da coletividade.” A
7 de março de 1951, concluiu seu discurso na instalação da Pontifícia
traçando-lhe o rumo: “A fidelidade à sua missão cultural e
religiosa lhe assegura a conquista de glórias e louros, ao serviço da Pátria
e da Fé: viva no campo da ciência e da educação!” Para
Dom Vicente, as relações entre fé e razão podem resumir-se, com
Tomás de Aquino, nas seguintes proposições: 1
- Fé e razão são modos diferentes de conhecer: “Cumpre saber que há
dois gêneros de ciências. Umas partem de princípios conhecidos à luz
natural do intelecto, como a aritmética, a geométrica e semelhantes.
Outros provêm de princípios conhecidos por ciência superior, como a
teologia” (S. Th. 1, q. 1a. 2). 2
- Fé e razão, filosofia e teologia, não se podem contradizer porque
Deus é o autor de ambas: “Se se encontra, portanto, alguma coisa contrária
à fé nas afirmações dos filósofos, não se deve atribuir isso à
filosofia, mas a um mau uso da filosofia devido a alguma falha da razão”
(Boethii de Trinitate, 1. a.
7). 3
- Embora a razão seja suficiente para conhecer as verdades fundamentais
de ordem natural e seja autônoma no estudo das coisas naturais, é
incapaz, por si só, de penetrar nos mistérios de Deus. Por isso, Deus
veio ao encontro do homem com sua Revelação, que orienta o filósofo e
suas pesquisas. 4
- Mas a razão pode prestar um grande serviço à fé, seja para
demonstrar aquelas coisas que são preâmbulos da fé; seja para ilustrar,
por meio de semelhanças e dessemelhanças, as coisas que pertencem à fé;
seja para opor-se às coisas que são ditas contra a fé. Para
Dom Vicente, fé e cultura são indissociáveis. Seu argumento era escolástico:
não pode haver duas verdades, uma da ciência e outra da fé, pois o
criador é um só, Deus. Por isso, o cristão não tem porque recear o
progresso da ciência. Pelo contrário, deve dedicar-se com todo o empenho
à missão cultural que Deus lhe confiou. Respeitava, assim, a autonomia
da atividade de pesquisa e da ciência. Segundo
Dom Vicente, para ser professor universitário, não basta ser bom cristão,
nem religioso, nem padre, mas precisa ter competência. Em certa
oportunidade chegou a dizer-me que o maior contratestemunho cristão era o
daqueles que queriam esconder sua incompetência profissional sob o véu
da fé cristã. Julgava que o testemunho de fé de um profissional
competente convencia até aos críticos. Por esta razão manifestava
reconhecimento aos profissionais não cristãos que atuavam na PUCRS,
respeitando sua identidade confessional, com eficiência. Grande
pastor e grande líder espiritual, Dom Vicente coroou a obra de sua vida,
depois de aposentado em sua função eclesiástica, restaurando e
reerguendo o hospital da Santa Casa de Porto Alegre, o que lhe garantiu o
reconhecimento da sociedade e da Igreja, sobretudo da população mais
carente. Verdadeiro amigo dos trabalhadores, morreu pobre pelos pobres. |
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