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Assis e São Leopoldo: dois espaços de Ecumenismo |
Frei Rovílio Costa |
Com 82 anos, faleceu em São Leopoldo, a 20 de fevereiro de 2002, o Pastor da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil, Bertholdo Weber. Nasceu na Linha Marcondes, 8º distrito de São Leopoldo, hoje território do município de Gramado-RS. Estudou Teologia nas universidades de Göttingen, Leipzig e Tübingen, até a formatura em 1941. Iniciou suas atividade como pastor em São Leopoldo, em 1946, após servir na Força Expedicionária Brasileira, atuando no front, na Itália.
Weber exerceu o pastorado nas paróquias gaúchas de Padilha, Três de Maio, Montenegro e Lomba Grande (Novo Hamburgo) e na Alemanha. Em Montenegro, foi responsável pela reconstrução da igreja luterana, destruída por um incêndio em 1956.
Juntamente às atividades pastorais, Weber ministrou aulas de Teologia no Instituto Pré-Teológico, hoje Escola Superior de Teologia (EST), que lhe concedeu o título de Doctor Honoris Causa, por mais de 30 anos de dedicação ao ensino da Teologia.
Após sua aposentadoria, em 1981, dedicou-se ao ecumenismo nas comissões de diálogo entre luteranos e católicos e participou do Conselho Nacional das Igrejas Cristãs.
Também trabalhou junto ao Movimento de Justiça, Direitos Humanos e Cidadania, à União Protetora do Ambiente Nacional (UPAN), de São Leopoldo, e ao Grupo de Pessoas Portadoras de Deficiências, vinculado ao Departamento de Diaconia da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil.
O corpo do pastor Weber foi velado na Capela da Casa Matriz de Diaconisas, na Av. Dr. Wilhelm Rotermund, 395, em São Leopoldo, onde ocorreram os atos de encomendação às 8:30 horas do dia 21, quando falou também o bispo de Santa Maria, Dom José Ivo Lorscheiter, destacando que o Pastor Weber deixa enlutadas três famílias: a sua família natural, a família da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil, onde foi exímio mestre de Teologia e testemunho de fé e espiritualidade, e a família da Igreja Católica, Apostólica Romana, junto à qual lutou em prol do ecumenismo que ele vivia de forma extraordinária. O sepultamento, sob a coordenação religiosa do pastor Martin Dreher, aconteceu à 9:30 no Cemitério Parque Ecumênico Cristo Rei, em São Leopoldo, com a presença dos familiares, amigos, entre os quais duas dezenas de pastores e padres.
Para mim, há, hoje, duas especiais manifestações ecumênicas cristãs: João Paulo II, no âmbito da Igreja Universal, e Pastor Bertholdo Weber, no âmbito das Igrejas locais do Sul do Brasil. Alguém poderá dizer: "Como, é agora que estou ouvindo falar do Pastor Weber, enquanto João Paulo II está nas manchetes da mídia de todo o mundo? É comparar um ilustre desconhecido com um homem presente no mundo todo."
Quero me referir é à pessoa de ambos, não às oportunidades. Se Pastor Weber tivesse ao seu dispor a mídia de João Paulo II, São Leopoldo e Assis rivalizariam em ecumenismo da mais lídima cepa, ou melhor aconteceriam grandes encontros ecumênicos: em Assis, com João Paulo II e Pastor Weber a seu lado; e em São Leopoldo, com Pastor Weber e João Paulo II a seu lado.
Falar em etiqueta social, educação, dignidade no trato é dizer pouco do Pastor Weber. Dizer ecumenismo convicto, fidelidade irrestrita ao Evangelho e à Igreja enquanto construção do reino de Deus no mundo, tornando vivida e conhecida a pessoa de Cristo, é dizer tudo.
Pastor Weber é um luterano convicto, tanto quanto eu me considero ou, ao menos, me proponho ser sempre mais um capuchinho convicto. Mas o meu capuchinho convicto se enriquece, porque Pastor Weber participa da ressurreição com o Senhor, com o testemunho de comunhão fraterna cristã, sem ressaibos, sem reivindicações, sem cobranças, sem acusações, sem polêmicas, sem olhos para ver minhas deficiências, defeitos e pecados, mas me querendo bem de uma forma paterna espiritual, marcada pela admiração, apoio, amizade, benemerência e prece, porque, a cada encontro, me proporcionava ânimo e certeza de que um dia o testamento de Cristo vai se realizar certamente com a participação integrativa e fraterna de luteranos e católicos – "Que todos sejam um..." (Jo 17, 21).
E pastor Weber tinha claro que nossa unidade já é sólida, tão sólida como o reino de Deus no coração de todos os homens de boa vontade em busca da vida plena, em abundância (Jo 10,10).
De forte identidade luterana, Pastor Weber ilustrou sua Igreja com seus trinta anos de magistério, que o levava a se referir à Escola Superior de Teologia como à nossa querida EST, e é da força desta identidade, desta vida plena, esclarecida e convicta, que tinha uma visão clara da presença do reino de Deus nos momentos e espaços teológicos e espirituais que unem as diferentes denominações cristãs. Sempre dizia: "As diferenças, deixemo-las em casa, vivamos as semelhanças que nos unem em Cristo. A unidade é fruto da graça."
Pastor Weber aprendeu o essencial da vida cristã, que é olhar o mundo e as pessoas com os olhos de Cristo, nunca se dando o direito de atirar a primeira pedra, e sim de propiciar o primeiro sinal de compreensão, perdão, amizade e prece.
Nunca ouvi o Pastor Weber se deter na teologia do pecado, sempre, sempre, porém, se o ouvia trazer grandes novidades, grandes notícias cristãs, viessem da denominação que viessem. Foi um evangelizador ecumênico, vivendo em realidade o grande desafio do Senhor: "Que todos sejam um..." (Jo, 17, 21).
Aquela saudação que me fazia no último sábado de cada mês, e aquele papo que iluminava enquanto esperávamos, juntos, a reunião do Instituto Histórico de São Leopoldo, sentados lado a lado, bem antes de começar a reunião, pois, por problemas de saúde, ele logo se postava no seu lugar esperando a reunião, é algo inesquecível. Ele começava com frases, como estas: "Como vai o meu irmão? São Francisco é admirável, eu me sinto familiar com ele. O papa foi formidável, aliás sempre é formidável, é uma lição de ecumenismo, que nem a todos agrada." E, no curso da reunião, sempre trazia uma boa nova evangélica, traduzida em alguma história de vida, falava de seu atendimento aos soldados na última guerra, onde foi pai e mãe, porque foi certeza, esperança de graça e salvação para todos indistintamente.
Bertholdo Weber, por sua fé incondicionada na pessoa de Cristo, é o nosso patrono ecumênico. Nosso e do mundo, porque a mídia que lhe falta, lhe será concedida por quantos seremos propagadores de suas idéias, ideais e virtudes.
Com uma visão de acertos e erros entre católicos e luteranos iniciava, há mais de uma década, num encontro mariológico, sua conferência com estas palavras: "Nós, os luteranos temos Maria de menos e os Católicos têm Maria demais." E lá se foi, com humildade, ponderação, santidade e oração, tecendo sua mariologia em bases teológicas as mais legítimas, sendo, no final, aplaudido de pé pelos professores católicos presentes, porque era um encontro de professores de Teologia católicos. Mas o mesmo aconteceria, e mais, talvez, se fosse de professores católicos e luteranos.
Todos nós temos, também, nossos sonhos inacabados, que denominaria mágoas do não conquistado. Pastor Weber se admirava que entre os agentes das comissões ecumênicas houvesse tanta cordialidade, tanta riqueza, tanta amizade, tanta espontaneidade e caridade que não se traduzia na prática inter-institucional. "Temos o reino de Deus em comum, me disse um sábado, e nos atemos a pequenezes. Mas acredito, um dia virá em que faremos nossos natais, nossas páscoas, nossas novenas de pentecostes juntos. Não só festas litúrgicas, mas festas cristãs ecumênicas. Na fraternidade nos reconheceremos irmãos."
Ser fiel a Deus, como vocacionado, como pastor, como evangelizador, como pai de família, e servir o próximo especialmente os mais necessitados, eis uma breve definição de quem foi o primeiro santo do ecumenismo – Pastor Bertholdo Weber (Texto publicado no jornal Estafeta, Veranópolis, 17-4-2002, p. 2).
Porto Alegre, 19 de março de 2002.